por F. Morais Gomes

30
Ago 11

A funcionária da limpeza pasmava, no hemiciclo da Assembleia da República, nem oito da noite eram e um indivíduo, deputado por certo, dormia com a cabeça sobre a bancada, como não haveriam as pessoas de ter má opinião dos deputados. Olívia e a sua esfregona preparavam-se para limpar o local onde se lava toda a roupa suja, quando aquele vulto, cinquenta anos para aí, óculos de massa, lhe surgiu no areópago do povo.

Hesitando em o acordar, aproximou-se, era na bancada do Partido da Liberdade, o computador estava aberto na página do Facebook, uma mensagem recente dum tal Libertador rezava“Já pagaste pelos teus actos.Lol”.Visto mais de perto, o deputado parecia num sono profundo, branco como a cal da parede, já ninguém restava no hemiciclo, a sessão sobre o imposto para os ricos terminara inconclusiva pelas 18 horas.

A medo, Olívia tentou acordá-lo, ao que o corpo desgovernado do representante da Nação tombou no chão. Uma mancha de sangue brotando da camisa branca deixava à vista o horroroso cenário: o deputado estava morto!

Sirenes de ambulância e piquetes das televisões acorreram mal se espalhou o sucedido. Crime na Assembleia, relatavam uns, ajuste de contas, aventavam outros, Hélder Carneiro, deputado por Faro, estava ligado ao sector imobiliário, um condomínio de luxo em Vilamoura antes de ser candidato originara querelas na justiça entre os sócios, um dos quais ele. E o Libertador? Quem seria a enigmática figura?

O inspector Tomás, dos Homicídios tomou conta da ocorrência. Autopsiado, a causa da morte foi atribuída ao disparo de uma pistola com silenciador, em cheio no coração, a ultima pessoa a ver Carneiro com vida fora Vasco Trigoso, por sinal do Partido dos Valores, adversário político mas correligionário da caça, uma semana antes haviam estado numa batida ao javali em Vinhais. Nada fazia supor o ocorrido: deixava mulher e um filho, na assembleia apenas se levantara as vezes que o haviam mandado para votar as leis acordadas, jogava Farmville normalmente sempre que haviam plenários, apenas interrompido para aplaudir ou rematar com “muito bem!” as intervenções dos colegas de partido. Um pormenor chamou a atenção do inspector: sobre a mesa, num papel, a lápis, estava desenhado um flamingo, provavelmente da autoria do falecido, a morte deve tê-lo surpreendido quando faltava desenhar uma pata.

Nada fazia sentido. Na televisão, o Primeiro-Ministro e vários deputados recordavam o insigne cidadão e o muito que havia a esperar de tão loquaz parlamentar.

Nenhuma pista parecia esclarecer o móbil: não tinha inimigos declarados, a família era equilibrada, politicamente pardacento, nunca se ouviria falar dele não fora a infausta morte no seio da representação nacional.

No dia do funeral, muito concorrido, o inspector Tomás, discreto, observou todos os presentes: gente do Algarve, deputados de todos os partidos, e muito povo, sempre pronto a comparecer quando a televisão está por perto. Formado o cortejo fúnebre, uma carrinha branca com três homens dentro incorporou-se, era dum tal Hotel Flamingo, em Vilamoura, um animal semelhante ao do papel na carteira do deputado ornamentava a mesma.

Curioso, Tomás não mais a largou, depois do funeral parou no Gambrinus onde os três homens jantaram, falando baixo e num tom zangado, via pelo esbracejar dum deles. Com o telemóvel, tirou umas fotos e mandou averiguar as identidades, todos com mais de quarenta anos, um usava um laço preto, como se fosse um maestro. Dali seguiram para um hotel, onde outro homem os aguardava no lobby, detendo-se a conversar um pouco e subindo para os quartos depois. Mal se retiraram, Tomás  ligou a Eduardo, seu colaborador na PJ, que chegou e entrou no hotel,identificando-se pediu os nomes dos três, eram os donos do hotel, informou acabrunhado o recepcionista Daquele e de muitos outros, o Flamingo de Vilamoura igualmente. Havia gato ali, o seu feeling dizia-lhe, mas por enquanto pouco ou nada tinha de concreto.

Colhidas informações na Assembleia, o deputado Carneiro pouco reparo dera até então, integrava a comissão de inquérito ao BPN, como vogal, Felício Borges, correligionário da bancada lembrava-se de o ter ouvido certa vez alterado ao telefone a falar com um tal Loureiro, e a garantir que ou viria um flamingo ou seria pior para ele. Requisitado o historial de chamadas, efectivamente havia vários contactos entre ele e um tal Abel Loureiro, supostamente em S.Tomé e Príncipe desde o Natal. Perspicaz, teve uma ideia: adicionou sob nome falso o Libertador no Facebook e escreveu, sob o pseudónimo Albatroz: “Libertador, tenho o Flamingo comigo”. Do outro lado, ao fim de uns minutos, alguém escreveu “Quem és tu, Albatroz?”, a que se seguiu “O dono do milho. O pobre do Milhafre ficou pelo caminho mas o voo do Albatroz há-de prosseguir…”. Continuando a dar conversa, o Libertador perguntou: “E onde é o poleiro do Albatroz?”. Aí, Tomás lançou o isco: “Na casa do Flamingo para uma bebida. Às cinco”

Às cinco, no bar do Hotel Flamingo, Tomás, de fato e gravata, simulando um empresário da indústria hoteleira aguardava, com um gin tonic. Minutos depois, um dos que vira no hotel e estivera no funeral apareceu. Olhando de soslaio para os presentes, Tomás dirigiu-se-lhe, levando o desenho de Carneiro, do flamingo sem uma pata. Em silêncio, o outro cumprimentou, convidando para o sofá e mandou vir a garrafa, o empregado, reconhecendo o patrão voltou correndo, e com uns cajus. Era Macário Teles, industrial hoteleiro, do Algarve. O inspector Tomás prosseguiu na narrativa: era um industrial hoteleiro, queria investir no Algarve, e o grupo do Flamingo pareceu-lhe de referência. O nome da cadeia Flamingo fora-lhe sugerido pelo malogrado deputado Carneiro, que perda fora para o país. A invocação do nome do falecido deixou o interlocutor desconfiado e a tirar nabos da púcara:

-Conhecia o deputado Carneiro, senhor….

-Almeida. Almeida da Câmara. Sim, era amigo da família e tivemos negócios no passado. Grande fatalidade! Quem terá cometido um crime tão hediondo? E no sítio que foi…..

-Pois é, ainda custa a crer. Ele foi meu sócio há uns anos, em Armação de Pera, uns prédios de apartamentos, depois ele meteu-se na política e só acompanhei de longe...

O telefone de Tomás tocou nesse instante, era o Eduardo, da sede, com informações frescas, sorrindo, Tomás foi dando goles no gin enquanto Teles fumava um charuto. Terminado o telefonema, e mais incisivo, Tomás abordou o seu interlocutor:

-Diga-me, os senhores não fizeram esses apartamentos com dinheiro oriundo de tráfico de droga? E quando a sociedade se desfez não lhe ficou a dever dinheiro?

O outro ruboresceu, antes que dissesse algo, Tomás sacou da pistola e identificou-se:

-Tomás de Oliveira. PJ!

Sem reacção o outro deixou-se estar, retorquindo com alguma calma aparente:

-Não sei do que fala, inspector. Não via o Carneiro há anos, e se quer saber, até dei dinheiro para a campanha dele por Faro, através do partido. Quanto ao resto, são especulações, quero um advogado, se não se importa.

Tomás chamou a brigada, levando Macário para a PJ. Somados dois e dois, chamadas telefónicas comprovavam um conluio entre Teles e Loureiro, a partir de S.Tomé para se verem livre do deputado. Aproveitando-se do novo posto, chantageara Macário com uma queixa por fuga ao fisco, juntando documentos que provavam negociatas nos anos oitenta e das quais não recebera a sua parte. Na comissão do BPN, implicaria Loureiro, pois todo o projecto do Flamingo fora financiado pelo banco com dinheiro sujo branqueado em Gibraltar. Ao meter-se com quem não devia, pagava com a vida, o autor material, no hemiciclo, fora um pistoleiro contratado, um brasileiro, disfarçado de administrativo, que o alvejara quando levava a ordem do dia para o dia seguinte, já só ele restava na assembleia. Acabou por ser preso no Meco, enquanto tomava uma caipirinha. Teles, à distância, era o misterioso Libertador.

Presos os responsáveis, Tomás, regressando ao local do crime, a dar conta das conclusões, viu já no lugar do defunto o deputado que o substituíra: Porfírio Lopes, antigo negociante de carnes, ali para dar o corpo ao manifesto pelo partido, e se possível, por algum bife do lombo… Info-excluído, porém, não sabia usar o computador, nem tinha amigos no Facebook…

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:52

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