por F. Morais Gomes

01
Set 11

A viagem de Lisboa a Albufeira seria de cinco horas, pelos secos campos do Alentejo, de férias e a convite de Bruce, finalmente conseguira duas preciosas semanas para relaxar numa aldeia piscatória do sul de  Portugal. Ia o ano de 1965, em Junho a rainha iria fazê-los cavaleiros do Império Britânico, e em Julho seria lançado o segundo filme, Help!. Por essa época, o mundo não era mais o mesmo, e ele sabia terem tido responsabilidade nessa mudança. Na América, Martin Luther King destacava-se na defesa dos direitos civis, no Vietname,forças americanas bombardeavam Hanói, na China, a Revolução Cultural promovia purgas e perseguições. Em paz, e famosos, os quatro de Liverpool mudavam o mundo e os hábitos. Portugal agora para uma pausa, um céu azul, intenso e mágico, campos de amarelo ocre e gentes pobres mas afáveis, Cliff Richard já lhe falara na “unspoiled village in the seaside”, da boa comida e das águas tépidas. No aeroporto, não foi reconhecido, o que lhe agradou, nada de teenagers  nem gritinhos histéricos,ensaiou um pitoresco “obrigadau” a um guarda fiscal e fez-se directo ao sul, Lisboa só para o aeroporto.

Bruce Welch, dos Shadows, tinha casa no Algarve, e convidara Paul para duas semanas, do aeroporto até Faro, viagem árida pelo interior, em estradas escalavradas, uma só obsessão o assaltava: a letra para a canção incompleta que tardava em compor, e que por um motivo qualquer lhe veio ao espírito mal começou a viagem. Fora numa manhã dois anos antes, em Wimpole Street,no início da carreira dos Beatles, acordou com a melodia na cabeça e sentou-se imediatamente ao piano a tocá-la, dando-lhe o título provisório, mas pouco romântico, de "Scrambled Eggs (Oh My Baby How I Love Your Legs)".Quando trauteava a canção com que tinha sonhado, a mãe de Jane entrou na sala e perguntou se alguém queria ovos mexidos ("scrambled eggs"). Admirado com a coincidência, Paul tocou-a pela primeira vez a George Martin em Janeiro de 64 em Paris, num quarto do George V. Martin ficou entusiasmado, e incentivou Paul a gravá-la. Mas faltava um nome.  "Yesterday", talvez, pensou, hesitante, piroso, por certo, não se decidiu, sem letra continuou a extravagante Scrambled Eggs.

Na viagem, e com Jane Asher, a caminho da casa algarvia de Bruce, surgiu-lhe finalmente o título. Paul voara de Londres para Lisboa de manhã, e no carro a caminho de Albufeira, escreveu a letra de "Yesterday" ao passar pelo rio Mira, perguntara ao motorista o nome do rio. Paul sempre detestara perder tempo, e a viagem era longa, aos vinte e três anos, era um dos artistas pop mais badalados do mundo, depois dos anos dos Quarrymen e do Cavern Club em Liverpool. Era aquilo!:

-Jane, creio ter achado uma letra para o  Scrambled Eggs, lembras-te, a música que te toquei ao piano em Wimpole Street?.Escuta!"da-da da, yes-ter-day, sud-den-ly, fun-il-ly, mer-il-ly and Yes-ter-day, that's good. All my troubles seemed so far away. É fácil de rimar: say, nay, today, away, play, stay...Passado um momento, com os olhos brilhando, trauteou para a namorada um pouco da canção:

Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide  away
Oh, I believe
In yesterday
Nos anos 60, Albufeira era uma pacata aldeia piscatória onde estrelas como Cliff Richard, Frank Ifield e Bruce Welch, entre outros, tinham casas, e acima de tudo podiam deleitar-se sem ser reconhecidos. Ao chegar a Albufeira e à casa de Bruce, antes que lhe escapasse o momentum, pediu uma guitarra, com urgência. Bruce ficou surpreendido com o pedido assolapado, e emprestou-lhe uma Martin 0018, de 1959, que Paul de imediato dedilhou, com a guitarra virada ao contrário, como canhoto que era. Nessa altura, cantou pela primeira vez "Yesterday", com a letra escrita no carro. O pôr do sol e o cheiro do peixe vindo das barcaças dos pescadores, deram o enquadramento romântico para a melodia há muito gizada, mas órfã ainda de título e letra, Bruce sacou logo dum scotch, ante o olhar feliz de Jane:

-Bruce, I think i’ve got it! Hell, George will love it!- atirou, num sotaque  inconfundível, de Liverpool.

Entusiasmados, os dias passaram rápidos, Paul e Jane Asher viriam mesmo a antecipar o fim das férias em Albufeira, ao fim de duas semanas voltou para gravar em Abbey Road. Apesar de só sua, figuraria como mais uma Lennon/McCartney. A gravação decorreu em apenas dois dias, 14 e 17 de Junho de 1965, à noite, no estúdio 2 da "sua" Abbey Road, em Londres. No primeiro dia gravou-se a voz e a guitarra acústica, no segundo, o quarteto de cordas. Seria a primeira vez na carreira dos Beatles e na música pop/rock que se gravavam cordas numa canção, o que provocou estupefacção. Tony Gilbert, Sidney Sax, Francisco Gabarro e Kenneth Essex foram os executantes, os restantes Beatles, John, George e Ringo não participaram na gravação, o que sucedia pela primeira vez, mas assistiram no estúdio.

A canção “portuguesa” de Paul McCartney apenas foi incluída no álbum "Help", editado em Agosto de 1965, e nem sequer constou da banda sonora do filme. Era bonita, e a letra boa, mas inconclusiva, pensava, daí o fascínio que lhe provocava, e por a haver escrito de rompante. Emocionado, Paul dedicou-a à mãe, falecida de cancro quando ele tinha apenas 14 anos.

Os anos passaram. Yesterday ficou para todo o sempre, os Beatles e Sargent Pepper's ficaram no álbum das memórias, McCartney é hoje rico e“sir” John, a Albufeira de Bruce e Cliff, essa, desapareceu de vez, inglesa ainda, mas não mais  a “unspoiled village near the seaside”. Não mais  como Yesterday…

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:17

...ou então foi o John Lennon porque o Faul não era bem o que parecia...
a 1 de Setembro de 2011 às 21:21

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