por F. Morais Gomes

03
Set 11

 


Sendo apenas um português a viajar para Moscovo nessa semana, a agência destacou para acompanhar André, jornalista de viagens, um outro André, Andrei Esaurov, já entrado nos sessenta e reformado do KGB, falava um português razoável, que aprendera nos anos em estivera colocado na embaixada soviética em Brasília. Saudosista dos velhos tempos, fazia uns biscates como guia, quando o chamavam, que a reforma era pequena, vivendo num apartamento com 30 m2 nos arredores. Com guia quase exclusivo, o périplo tornou-se mais íntimo, tudo mudara na Rússia, Andrei sublinhava cada comentário com um suspirado “lamentavelmente”, nostálgico dos anos Brejnev e da Rússia como superpotência.

O hotel de André, na Trevskaya Ulitsa, era uma torre feia e cinzenta dos anos sessenta. Ao chegar, e apreendido o passaporte pelos dias da estadia, irritante hábito resquicio dos velhos tempos, três mulheres falavam umas com as outras no lobby, envergando roupas ousadas e retocando os lábios com batôn. Dirigindo-se a André, uma delas ofereceu-se para lhe mostrar a cidade, sinuosa, André, admirado mas divertido, quis saber por onde começariam, a resposta desfez veleidades turísticas:

-Pelo teu quarto…- e lambendo os lábios, piscou o olho a André, ainda saboreando o cocktail de boas vindas oferta do hotel e já atacado por uma mercenária de afectos. No cartão que suportava a chave electrónica do quarto, mais tarde, dobrou os vinte dólares que fecharam os olhos ao recepcionista, para que subisse ao 709. Começava bem, a viagem russa.

Ao chegar a Moscovo, André levava a cabeça cheia de imagens de gulags e purgas estalinistas, apesar de ter já passado um bom par de anos sobre a queda da URSS.Antes de partir, lera “Koba, o Terrível”, de Martin Amis, uma curiosa narrativa sobre Estaline, interessava-o sobretudo saber se ainda havia medo, Putin, falso democrata não era propriamente um campeão da democracia, Andrei, que no segundo dia pelas oito  já estava postado no lobby do hotel, desfiava a ladainha de ex-aparatchik:

-Lamentavelmente, as máfias tomaram conta do país, e ai de quem lhes faça frente. Antes da malfadada perestroika, havia ordem, éramos primeiros na agricultura, tivemos Gagarine…- e falando, com orgulho, notava-se uma vivacidade nos olhos até ali mortiços, decidiram começar a visita pelo imponente e artístico metro de Moscovo.

A cidade ainda remetia para o período anterior à perestroika, edifícios, ruas e lugares impregnados de uma estética ainda profundamente estalinista e pouco permeável à mudança, apesar dos bairros dos novos ricos na periferia, contrastando os mais recentes modelos da BMW, da Mercedes e da Audi com os velhos e ferrugentos Lada que ainda circulavam, muitos,  usados como táxis de ocasião. Querendo, qualquer condutor, a troco de uns rublos, levá-los-ia  aonde desejassem, bastando esticar a mão e mandar parar, Andrei, amigo de alguns, mandara-os estar sempre perto deles, para aparecerem como se passassem ocasionalmente, como ao fim de algum tempo constatou, uma pequena comissão sempre daria jeito.

-Lamentavelmente, as pessoas tem de se virar. É tudo muito caro na Rússia. Olhe, pechinchas, pode arranjar na rua Arbat, lá tem “camelô”, como dizem no Brasil, e pode regatear o preço do caviar, o Beluga do Irão é o melhor!. Venha!

A rua Arbat era a mais consistente metáfora da nova realidade, rua calcetada e sem carros, completamente entregue aos peões, aí tudo se vendia: cães, serigrafias, pins, t-shirts, fardas militares do antigo regime, com grande procura aliás, André comprou um chapéu do Exército Vermelho como souvenir. Para os lados da Praça Vermelha a par das antigas galerias do povo, agora transformadas em lugares aristocráticos, requintados e cuidadosamente decorados, onde as marcas brilhavam e o preço do café seleccionava o perfil social adequado ao espaço, pululavam jovens vestidos de calças de ganga Diesel, calçado Adidas ou Nike e blusões Roberto Cavalli. De facto, Moscovo mudara, pelo menos no imaginário. Na outrora marcial Praça Vermelha, onde Lenine deitado posava para os turistas, embalsamado no corpo e na História, uma velha babushka pedia esmola. Andrei suspirou, espetando mais uma alfinetada:

-Antes do alcoólico do Ieltsin , não havia nada disto! Olhe, aqui está a Krasnaya Ploshchad, a grande Praça Vermelha!. Aqui assisti aos gloriosos desfiles das nossas heróicas forças armadas! - e apontando com a mão aberta, indicava as estrelas nas torres do Kremlin, que chegaram a estar recheadas de diamantes e rubis, mandados lá pôr por Estaline. –aqui em frente eram as bancadas, o desfile vinha dali. Ainda me lembro de nos anos sessenta ali ver sentados a Passionária e Álvaro Cunhal, eram sempre convidados do Soviete Supremo. Cunhal era inteligentíssimo, conheci-o bem…- nessa altura, Andrei colocou um tom misterioso na voz, sugerindo saber mais do que dizia, um grupo de jovens com garrafas de vodka e já embriagados quebrava o impressivo silêncio da vasta praça moscovita. -Quer parar para almoçar?

-Sim, vamos…

-Eu vou a casa, volto depois…

-Deixe-se disso, Andrei, ora essa, é meu convidado. O que sugere?

Com os olhos arregalados pelo inesperado almoço grátis, Andrei sugeriu um restaurante “muito bom, mas caro, veja lá…, a conversão em rublos fazia do local onde Estaline comia nos anos de ouro acessível, pouco mais de dez euros, seria aí. No restaurante, de comida sobretudo da Geórgia, a terra natal do ditador, a comida e bebidas, todas indicadas ao peso no menu, fluíam, com Andrei tirando a barriga de misérias, um tradicional caviar, o preto, aconselhava Andrei, acompanhava uma óptima garrafa de champanska. Andrei parecia pouco à vontade, intruso no restaurante das elites, uma sala privada acolhia a mesa onde muitas vezes o ditador jantara e já ébrio provavelmente mandara opositores para férias na Sibéria.

-Lamentavelmente é muito caro para a nossa bolsa…- Andrei encolhia os ombros, devorando um canapé de salmão que há muito não deveria provar, os criados, reverentes com André, olhavam contudo de soslaio para o compatriota, sem nível nem dinheiro para tal lugar.

Com o passar dos dias, Andrei e André ficaram amigos, calcorrearam São Basílio, a Torre do Sino, o gigantesco canhão e o sino do czar, a igreja do Cristo Redentor, profusão de cúpulas douradas e passados gloriosos. No museu do Kremlin, já íntimo de André, o guia e ex-espião fez-lhe uma confissão meio marota:

-Sabia que  documentos na posse do KGB e recentemente desclassificados revelaram que Catarina a Grande morreu a ter sexo com um cavalo? Lamentavelmente…

Na última noite, depois de pagos vários almoços e jantares, e muitas gramas de vodka, e das também regulares visitas das “guias” na entrada do hotel ao quarto 709, André convidou o companheiro de oito dias para uma ida ao Bolshoi, estava em cartaz “Khovanshchina”, de Mussorgsky, André esperaria no átrio. Andrei, envergonhado, anuiu depois de insistência, teria de pedir um fato emprestado ao cunhado, o único que tinha, coçado e velho, traçara no armário. Como tardasse, André teve de entrar, no final do primeiro acto não aparecera ainda, sem telemóvel não tinha para onde o contactar. A peça decorreu, admirável, mas de Andrei, nada.

No dia seguinte, o da partida,como não aparecesse, ligou para a agência a saber do recente amigo, já decidira dar-lhe uma lembrança de 50 dólares, pelo trabalho e pelo arrevesado português do Brasil. Uma moça, em inglês, informou que Andrei Sergeievich Esaurov aparecera morto em casa na noite anterior, preparava-se para pôr uma gravata, depois de se vestir para sair. AVC fulminante, concluíra a polícia. Desaparecida a Rússia dos proletários e heróis do socialismo, mais uma testemunha desse tempo e agora guia acidental, desaparecia também, deserdado dos novos dias. Lamentavelmente.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:39

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