por F. Morais Gomes

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Set 11


O pianista dedilhava sofrimento, absortos e ao mesmo tempo graves, os dedos corriam o Teclado-Mundo, gritando silêncios e angústias, no canto da casa de Gigarós. A sombra musgosa que o velho plátano lançava sobre si, projectando-lhe a penumbrosa silhueta, realçava o que de mais o velho músico amador adorava, capturado por irregulares artrites mas insistindo, possesso, na masturbativa dança pelas teclas do solitário e leal piano, o velho Steinway, do avô e bisavô.

Ernesto de Medeiros Valença, funcionário reformado do tribunal de Sintra, antes calcorreando em pena e tinta azul notificações sem melodia, requiems condenatórios ou allegros absolutórios, na orquestra onde maestros de negro conduziam sinfonias de vida nem sempre nos melhores andamentos, havia dez anos que deixara a casa onde a dita justiça nunca deixava de ser feita, mesmo quando era injusta. Viúvo aos cinquenta e sem filhos, tarde descobriu o fascínio pelo velho piano encostado e poeirento na velha casa de família. Curioso, descobriu qual criança o fascínio dos sons, estranhos e sibilinos antes, melódicos e angelicais depois, faziam sentido, na estrada do solfejo, premonitórios e libertadores. E treinadas as mãos entorpecidas, ganhou um novo e especial amigo, ao qual confessava tristezas e desabafava emoções. Como felizes passaram certas manhãs de primavera e em torpor viram chegar outonos belos no seu castanho de dever cumprido, certos de regressar algumas luas depois, ao som solitário mas seguro do velho piano .

Tirando o Steinway e os livros, a Ernesto pouco interessava, à excepção dos passeios pela serra, com o seu cajado, uma fina vara da justiça que um dia comprara em Rio de Onor, juiz de juízos silenciosos, saía sem rumo a patrulhar a serra, captar os cheiros, cheiros de Sintra, únicos e eternos, para horas depois regressar, e tonificado sentar-se com o velho amigo e falarem das flores, do musgo ou dos pássaros chilreantes, barítonos da natureza pura.

Um dia, passeando perto dos Capuchos,  cruzou-se com Matilde. Matilde, senhora de muitas primaveras e alguns outonos, era uma figura fascinante, aguarela saída da serra, enfermeira reformada para os homens, deusa da serra para ele, também ela a conselho médico fazendo caminhadas pela serra, a serra onde sós sempre se encontram multidões, multidões de emoções, sós e contudo na multidão, de flores, borboletas, odores e chilreios. Ernesto, na sua pose aristocrática, com uma barba grisalha primorosamente aparada, lembrava um personagem de Balzac ou Zola, o primeiro encontro foi um mero cruzar, em silêncio, um bom dia protocolar e o caminho aos seus destinos, na serra crepuscular. Uma semana mais tarde, voltaram a cruzar-se, já perto da Estrada da Pena, desta vez cumprimentaram-se, sorrindo, duas vezes são uma velha amizade em vidas marcadas por silêncios, Ernesto perguntou-lhe se a podia acompanhar, respeitoso, falou-lhe da serra, do tempo e das memórias. Matilde breve se revelou alma gémea. Enviuvara recentemente e caminhava atormentada, para esquecer e ao mesmo tempo recordar, nas feteiras recordava a mocidade com o defunto Epitácio, tempos de sorriso fácil e desprendido, com amigas aderira a um clube de caminhadas, caminhava e esquecia, caminhando sobrevivia.

Uns encontros mais tarde, sempre pelas bermas da serra, encontraram-se à porta da casa de Gigarós. Sem que ela o soubesse, Ernesto, cavalheiro, apontou-lhe a velha casa solarenga:

-É aqui que moro! Posso convidá-la para entrar?

Matilde aceitou. A casa era o rosto de Ernesto: elegante, aristocrática, envelhecida mas com charme. A um canto, o velho Steinway, descansando, nobre e perfilado. Matilde abriu um largo e surpreso sorriso, e dirigiu-se até ele:

-Um Steinway! Você toca, Ernesto?

-Sim…- orgulhoso mas a medo, Ernesto ia abrindo um pouco de si para a enfermeira, não de corpos, mas de almas agora. Matilde sentou-se e sacudindo as mãos que antes seguraram compressas e tintura, lançou-se, cirúrgica, sobre o velho Steinway, temerosa primeiro e decidida depois, desfiou o Nocturno Op.9 Nr. 2 de Chopin.

Ernesto pasmou. Solitário pianista amador, passadas as lides dos tribunais e a solidão após a partida de Sara, o destino, insondável, presenteava-o com aquele inesperado sortilégio. A música inebriava a velha casa, enlevado, Ernesto fechava os olhos e revisitava a sua vida, nem sempre calma, como a música, mas melancólica e altiva. E o Steinway respondia, garboso, desconhecia aquelas mãos, dóceis e meigas, faziam dele o que ele sabia dele desejarem. Finda a melodia, Ernesto segurou as mãos de Matilde, e silencioso beijou-as, como jovem colibri osculando a flor mais doce do seu jardim.

Nos tempos seguintes, os encontros passaram a ser diários, e as tardes nimbadas da serra abrilhantadas com o som vindo da sala da velha casa, como se das entranhas expelido, vulcão de sentidos e lava de felicidade. Viúvos, mas não da vida, tempos depois disseram não ao conformismo. Não seriam Chopin e George Sand, mas nas fragas de Gigarós um velho Steinway, a quatro mãos agora, concluiria em apoteose  a melancólica mas bela sonata das suas vidas.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:12

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