por F. Morais Gomes

13
Set 11

Todos os dias o velho de cabelo branco tomava um café na mesa ao canto do familiar “Talismã”. O “Talismã” era uma leitaria de bairro na Visconde Valmor, em Lisboa, propriedade do Narciso, anafada figura enterrada entre pastéis de nata e bolas com creme, servindo às senhoras confeitaria fina e bicas escaldadas com açúcar mascavado. Do velho, sempre entretido a ler, e muitas vezes solitário, ressaltava o ar aristocrático, cabelo farto e olhar profundo. Alguns dos clientes falavam dele a média voz, para Bruno, que diariamente com a mãe ali ia em busca do furo no cartão que consoante a bola propiciaria um chocolate ou brinquedo, era um personagem afável, certa vezes pagara-lhe mesmo um pirolito. “O Talismã” era na rua da escola, o rigoroso externato onde com denodo aprendia nomes de rios e províncias ultramarinas, e ao sábado fazia ordem unida com a farda da Mocidade, antes da providencial catequese. Corria 1971, entre dentes, cochichava-se que o velho seria alguém do contra, olhando uns tipos de gabardine e chapéu que sempre se sentavam na mesa em frente, que seriam duma tal pevide, segundo julgou perceber, o Narciso fazia silêncio, remetendo-se aos galões e aos papo-secos com fiambre e queijo. Concluída a primária, Bruno mudou para uma escola em Benfica e poucas vezes parou na leitaria, novos amigos e novas emoções levavam-no para outros lugares, longe da casa do avô, paredes meias com o “Talismã”.

Um dia, já depois de Abril, cabelos longos de quinze anos e soissant-huitard retardado, qual Che das Avenidas Novas e revolucionário indómito, indo visitar o avô, voltou à leitaria, na mesma, os habituais bolos e refrigerantes e o Narciso, mais gordo, sempre a transpirar. O velho de cabelo branco lá estava, fazia dois anos que o não via, reconhecendo Bruno, com um livro de Gramsci na mão, sorriu-lhe e chamou-o:

-Bruno! Estás crescido rapaz! Que fazes agora?- Bruno que nem o nome do velho sabia, desbobinou uma retórica revolucionária, de acordo com os tempos e com a sua alegada consciência de classe, contra a burguesia exploradora e a favor dos proletários, soldados e marinheiros, juntos devolveriam o poder ao povo. O velho ouviu, anuindo discretamente, e disse-lhe que se sentasse:

-Vou-te contar uma história. Sabes quem foi o Salazar?

-Claro! Um velho fascista que oprimiu o povo português, um padreco hipócrita.

-Faz agora trinta e sete anos, a 4 de Julho, um domingo, recordo bem, o seráfico homem de Santa Comba veio ouvir missa ali na Barbosa du Bocage, na capela privada dum amigo, um tal Josué Torcato. Mas deu-se mal com a viagem. Mal saiu do Buick preto, o safardana foi projectado para o chão ao rebentar uma bomba que meteram nos esgotos para o matar! Interessado, Bruno quis saber mais, o velho de cabelo branco era um manancial de informações, histórias recônditas e segredos agora à luz do dia.

-Os que o queriam matar enganaram-se e meteram a bomba no colector de esgoto, mas por azar, no lado oposto onde o carro estacionou. O “Botas” ainda caiu ao chão, mas levantou-se e sem dizer nada seguiu para a missa. Podia ter sido nessa altura, o 25 de Abril…- absorto, o velho revia a cena como se fosse hoje, de soslaio, o Narciso enxugava os copos e escutava a conversa. Interessado, Bruno quis saber mais:

-Então e os autores? Foram apanhados?

-Foram, mais tarde. Um em Inglaterra, apanhou oito anos de prisão, outros terminaram os dias atrás das grades…-o velho alterava agora o tom da voz, emocionado mas cerrando os dentes. Pagos os cafés, levantou-se, colocou a boina basca e saiu, na direcção da Barbosa du Bocage, já sem vestígios do buraco, mas onde poderia ter mudado a história de Portugal. Ficando a falar com o Narciso, Bruno, agora militante dum partido trotskista, perguntou pelo nome do velho, agora correligionário no ódio à ditadura deposta. O Narciso coçava a cabeça, servia-lhe o café desde que para ali fora, mas nunca lhe perguntara o nome, constava-se que teria estado preso. Mas devia ser um político de esquerda  ou comunista, varias vezes tipos da PIDE se sentavam em mesas perto quando ele ali ia, antes de Abril, o Barbieri, o subdirector, morava mesmo a cem metros. Bruno continuou pregando a revolução pelas RGA’S e vigílias que a orgia da liberdade permitiu, sempre com a esquerda revolucionária, correndo as escolas com o Chico Louçã, um caixa de óculos que conhecera nas lutas estudantis, queria seguir Económicas, ele  preferia Belas Artes.

Já em 1975 e no auge do PREC, num comício na Voz do Operário, descortinou o velho do “Talismã” na tribuna, falavam anti fascistas e velhas glórias da resistência, Francisco Fanhais abrilhantava com canções. Puxando o Chico Louçã pelo braço, perguntou-lhe se sabia quem era:

-Camarada, em que terra é que vives? Aquele é o Emídio Santana, o pai dos anarco-sindicalistas portugueses e director do jornal “A Batalha”. Temos divergências políticas, mas o homem é uma lenda viva, assim como o Palma Inácio!Foi ele quem projectou o atentado que ia tirando a vida ao Salazar, nos anos trinta!. Na mesa, entre glórias do passado oposicionista, Emídio Santana descobriu na assistência o garoto dos furos de chocolate, agora na vanguarda da luta de classes, e acenou-lhe. Levara trinta e sete anos, mas falhada a dinamite debaixo do Buick de Salazar, uma imensa explosão de liberdade dinamitara finalmente um país entorpecido.

Emídio Santana veio a morrer em 1988, o Chico Louçã enveredou pela política, Bruno fez-se arquitecto e casou, por vezes e com saudade, passa à porta do saudoso “Talismã”, dos bolos e furos e dos clientes da PIDE, hoje anódina loja de produtos informáticos. Também um dia a liberdade rondou por ali.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:41

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