por F. Morais Gomes

21
Set 11

 


Era o regresso ao velho Kiss, em Albufeira, Frederico e os dois amigos, predadores com o cio  depois duma inesperada trovoada e degustadas as amêijoas à Bulhão Pato, caíram na orgia da  noite, líquida e tórrida, intervalada pelo som dos bares da Strip, estival habitat de alcoólicos das Midlands e anafadas  sósias da Susan Boyle. Bruno saíra duma relação com Mila, terminada dias antes de rumar ao Algarve para uns dias com os amigos, a obsessão por engates fortuitos que satisfizessem o ego ferido levava a galar toda a fauna caída na noite, para de manhã, ufano, exibir o triunfo de macho latino, traduzido no intenso cheiro a fragrâncias femininas, activada que fora a testosterona.

Nessa noite, já embalados por umas canecas de providencial cevada, depois duma Maude com sardas, uma Fiona exagerada em rimmel e até uma Carolina, de Beja, que não deram troco, acharam-se à porta do Kiss, já pelas duas da manhã,  onde holandesas aluadas se enfrascavam curtindo o Verão e alguns tugas a raiar o fanfarrão armavam emboscadas à fauna. O Gustavo, já grogue, encostou ao bar, no mais desportivo exercício de levantamento de copos, músicas de verão despertavam os corpos latejantes para a festa dos sentidos, ora entorpecidos, ora acelerados. Bruno logo sumiu, descobrindo-o os outros mais tarde encostado ao balcão enaltecendo os passes de Coentrão com um irlandês perdido na conta das canecas. Para Frederico, já acusando algum cansaço, a miragem duma cama repousante parecia já ser o destino certo duma noite sem presa quando ao som contagiante dum hit dos Duck Sauce se sentiu catapultado para a pista, rodopiando e  libertando os poros, ao som duma música que incensava Barbra Streisand, a madura diva de Holywood tornada tema em recintos de dança. O som entrava-lhe sibilino, sublinhado em voz alta cada vez que o metalizado nome da diva era repetido no psicadélico ambiente do velho Kiss. Desenfiado dos amigos, espalhados pelos balcões e canecas do recinto, deu de repente com uma vaporosa loira frente a si, dançando em jeito de desafio, da qual, desperto e curioso se aproximou, levantando os braços e enlevado cada vez que o nome de Barbra Streisand era evocado no refrão e toada da música dos nova-iorquinos. Numa transição de faixas, foi recarregar baterias ao bar, logo deparando a seu lado com a loira da pista, branca de carnes no seu vestido sem alças, destapando um corpo alvo e favorecido, inequivocamente nórdico. Era uma Helga, de Bergen, directa dos fiordes para a Praia da Oura a curtir o propalado Algarve e o andamento das suas noites, patrulhadas por jovens Camarinhas procurando fazer  jus à famigerada reputação e marcar a portuguese night scene, espécie de Ibiza com boa comida e ainda melhores sandy beaches.

Despachados os clássicos where are from e are you enjoing Portugal, um sofá providencialmente livre deu curso ao prefácio duma história que acreditava agora ir escrever essa noite, e em triunfo acrescentar mais um nome ao seu rol de troféus. Embriagados, Bruno e Gustavo pouco acordo davam de si, haviam começado cedo, abrindo as hostilidades ainda de tarde com caipirinhas na praia, na pista, a onda de clímax facilitava carícias desprendidas e fortuitas entre eles. A tenda estava armada, graças a uma generosa Barbra Streisand do plateau , quando acabasse as férias haveria de pesquisar no Google sobre essa cota que lhe trouxera sorte numa noite já dada por perdida.

Duas horas depois, regressados dum jardim convenientemente escuro e frondoso, cumpridas as juras de amor e promessas de tornar a ver-se, ficava assegurada a amizade luso-norueguesa, confortada que fora com carícias e massagens várias e por certo ainda traumatizada pelos ataques de Oslo. No bar, vitorioso, Frederico rematou uma vodka preta dum trago, iam já as cinco da manhã, entorpecido, Bruno dormia de boca aberta e copo a meio, numa mesa do primeiro andar. Já clareava lá fora quando o DJ de novo electrizou a pista repetindo o sucesso dos Duck Sauce, acordando Bruno e fazendo vir o Gustavo do bar do fundo, onde aos gritos para se fazer ouvir, há duas horas convencia um cambaleante belga da inviabilidade do euro e da União Europeia. Helga saíra já, com amigas, a caminho do hotel. Saciado, Frederico saltou de novo para a pista, gritando “Barbra Streisand” a cada repetição do nome, agora mágica palavra passe para uma inesperada e  proveitosa noite no verão algarvio.

Na tarde seguinte, no apartamento, preparando-se para nova e despreocupada tarde de praia com os amigos, reparou num volume algo enchumaçado no bolso de trás das calças. Sacada a peça, mais não era que o mínusculo fio dental da angelical Helga, a prova de que tudo se passara como recordado, um troféu mais a juntar aos muitos recuerdos de muitas outras noites, sempre culminadas com juras de amor eterno e exclusivo. Com cara de malandro e dando pela coisa, Bruno já recuperado da ressaca, aproximou-se, dando uma palmada cúmplice no ombro do amigo e espicaçando:

-Sim senhora, estou  a ver que não perdeste tempo nem andas a anhar aí pelos cantos, my friend! A quem é que pertence essa relíquia, meu?

Frederico, apertando com as mãos a preciosa peça de lingerie preta, guardou o  galardão na mochila, e saindo para um mergulho na piscina limitou-se a ripostar de forma telegráfica:

-À Barbra Streisand, a quem mais havia de ser?

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:25

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