por F. Morais Gomes

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Out 10

A chegada ao aeroporto internacional de Maiquetia fora acidentada, turbulência irritante, trovoada tropical ao sobrevoar as Caraíbas. Malas desaparecidas, humidade asfixiante, polícias excessivamente zelosos mirando os passaportes.

Era a primeira vez que Jorge Antunes, gerente duma empresa informática de média dimensão em Mem Martins visitava a Venezuela, movido pelo sucesso das vendas do Magalhães, aqui baptizado de Canaima, e bandeira do poder bolivariano na campanha da educação para todos.Tinha um contacto em Caracas, um irmão dum amigo do Porto Santo, que para ali tinha ido abrir um talho nos anos sessenta. Vasco Jardim esperava-o na zona das chegadas.

-Viva! Você é o Vasco, irmão do Silvino, não é?- cumprimentou, largando a mala de rodas, o  seu “bobby”, como lhe chamava.

-É ele mesmo. Bem vindo à Venezuela!- respondeu o anfitrião, sotaque castelhano, sessenta e picos anos, bigode farto, um general Tapioca lusitano, pareceu-lhe, na primeira impressão.

A viagem para a cidade, cerca de trinta quilómetros, parecia saída dum filme de narcotraficantes. Casas abarracadas, de longe até pareciam presépios de zinco e tijolo, crianças seminuas jogando à bola, humidade, mosquitos, transportes públicos e carros de modelos  ultrapassados na Europa. E cartazes, muitos cartazes, Hugo Chavéz omnipresente, o novo caudilho da esquerda, pai dos pobres, protector do povo contra os yankies imperialistas

-Então como vai isto por aqui? O povo gosta do Chávez?

-Estão todos iludidos, sr.Antunes. Enquanto o petróleo render, o Chavéz aguenta-se, mas não acredite em nada do que vê lá na televisão. Os portugueses, então, vão de mal a pior, raptos, assaltos- desabafou, entre o angustiado e o orgulhoso, três talhos abertos desde que chegara, quinze postos de trabalho, uma vida de sacrifício. Já tratei da sua reunião, amanhã às quatro, levo-o lá!

Jorge alojou-se no Hotel Altamira, Jardim insistira para que ficasse em sua casa mas não quis abusar da hospitalidade.

No dia seguinte, reunião no Ministério del Desarollo Nacional. Edifício kitsch, bandeiras venezuelanas por todo o lado, funcionários de feições ameríndias com grandes orelhas e narizes achatados. A reunião era com um tal engenheiro Montalbán, numa sala dominada por grandes fotos, Símon Bolívar e Chavéz lado a lado, ventoinha rodopiando, velhas máquinas de escrever ainda, um universo bem diferente da Europa. Jardim preferiu esperar num café próximo.

-Pois, caro senhor, a Venezuela quer estreitar cooperação com empresas de Portugal, e como sabe, os nossos governos estão cooperando. Que novos projectos podemos lançar? -iniciou o engenheiro, perto dos cinquenta anos, camisa vermelha, símbolo dos chavistas, funcionário do partido, por certo, pensou.

Antunes sacou de dois grandes dossiers e um portátil, foi desfiando um powerpoint com as virtualidades do software português, mais barato e exportável. Angola já tinha adoptado, e seria uma ajuda na gestão documental dos serviços públicos daquele país amigo, enfatizou, tentando tirar partido do discurso “politiquês” a que se habituara a ouvir nos telejornais das oito.

Montalbán chamou um assessor e mostrou os dossiers, enquanto Antunes bebia um café, mirando pelo canto do olho o retrato de Bolívar.Parecia o D.João VI, naquele tempo eram todos iguais aqueles tipos, interiorizou.

Retomando a conversa, Montalbán foi mais assertivo:

-E falamos de que valores, siñor Antunes?

-Temos software, assistência, patentes, e seguros, podemos assegurar um contrato inicial, de, vejamos, dois anos, com opção de mais dois. Seria bom para ambos, veja bem, até tendo em conta os nossos patrícios que cá vivem. Coisa pequena, para começar, aí uns quinhentos mil euros, não sei em bolívares, mas asseguro-lhe que a concorrência não fará melhor, só se for chinesa…

Montalban com a mão fez sinal de atalhar.

-Siñor Antunes, não sei se me entendeu. Falo de amizade, da generosidade com que o povo venezuelano pode olhar para esta  proposta . Os amigos não podem ser esquecidos, está a ver…

Antunes estranhava o discurso. Estava tudo descrito, o AICEP apadrinharia, o BANIF também.

-Precisa de mais esclarecimentos? Posso ligar para Lisboa e mandar vir detalhes por mail, não há problema…

-A Venezuela espera é que os amigos não esqueçam os amigos….E sacando duma folha, escreveu uns números e uma morada que entregou a Antunes, dobrada em quatro. Dando a reunião por encerrada, despediu-se, deixando-o à toa, papel dobrado na mão.

Chegado à rua, percebeu finalmente. Afinal, tudo se tem de fazer pela amizade entre os povos, não é verdade?

Dois meses depois, durante a visita do Ministro do Desarollo Nacional a Lisboa, em cerimónia pomposa no CCB, Antunes ufano celebrava com os amigos a entrada da sua empresa naquele mercado amigo, realçando as virtualidades da tecnologia nacional, e os preços competitivos da sua firma. A Guiné Equatorial estava na calha. Como era bela Caracas, clima caloroso e ruas largas, rumo ao futuro com software de Mem Martins…

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:24

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