por F. Morais Gomes

03
Out 11

Lançado o debate sobre o novo figurino de concelhos e freguesias, imposto pela troika e acelerado pelo governo, encontrando-se no café do Porfírio, Gregório Alves e Fernando Moreira, autarcas há mais de três mandatos em Salvaterra do Homem discutiam o futuro do concelho, algumas freguesias desapareceriam, renitentes, censuravam a medida:

- Pois é, ó Moreira, lá no seu partido é que vai ser pior, já viu? Com o sistema de partido que ganha governa, nunca mais há-de sobrar nada para vocês, é certo e sabido! - Gregório, do partido vencedor há vários anos, via já no novo modelo uma oportunidade de chegar à vereação, anos a fio a trabalhar no terreno e sempre preterido pela concelhia:

-A ver vamos, a ver vamos. Um dia é da caça, o outro do caçador, nunca lhe disseram?

-Pois eu cá pra mim São Romão e S. Eulália já eram, e escreva o que lhe digo: vai Brejos de Baixo, Venda Velha e até Unheiro, nem sei… - agoirava o Moreira, presidente da junta  de Unheiro.

-Há que criar quadros de pessoal partilhados, economias de escala. Já viu para que serve cada município ter um SMAS, uma recolha de lixo, uma polícia municipal?- enfatizava o Gregório.

-Ora, ora. Então e a proximidade? Poupa-se dum lado e gasta-se do outro, vai ver, isto é só para baralhar e tornar a dar…Primeiro corta-se mas aos poucos diz-se que afinal é só uma experiência piloto, que não pode haver ruptura de serviços, e lá está tudo igual outra vez. E as comunidades intermunicipais, servem para quê? Então você vota no seu partido, tem os seus eleitos e vai entregar tudo nas mãos duns tipos que ninguém elegeu? São os governos civis disfarçados, é o que é!.

Vendo passar um vereador a caminho da Câmara, Gregório adiantou-se-lhe, precisava do despacho para uma transferência de verbas com urgência. No boteco do Porfírio, mais alguns habitués continuaram a bater no tema, o pior seriam as mudanças, ao Porfírio, fossem quem fossem, desde que vendesse almoços e bicas, de preferência a benfiquistas, pouco mais interessava, muitos já vira subir as escadarias dos paços do concelho ao longo dos anos.

Entrando para um café, o doutor Simão, advogado em Salvaterra do Homem há longos anos e apanhando o fim da conversa, meteu-se com o Moreira, essencial para ele era o perfil dos autarcas, a mudança de paradigma, como com ênfase salientava:

-Amigo Moreira, é tudo muito bonito, podem mudar as sedes e as competências, mas só com outra mentalidade é que isto lá vai!- pedindo o adoçante, ajeitava os óculos, enquanto esperava por uma reunião com um director de departamento:

-Essencial é que os eleitos não tenham qualquer tipo de regalias ou imunidades que não sejam as decorrentes do exercício do cargo, e sobretudo que haja exclusividade de um só vencimento quando o cargo for a tempo inteiro, proibindo-se acumulação de cargos que não sejam os de mera representação, vencimentos ou pensões. Senão, é aquilo que se sabe. Nem para eles nem para as famílias ou amigos! O mal disto é a promiscuidade, a falta de ética republicana! -discursava em plena tasca, granjeando o apoio de alguns motoristas da câmara por ali arrastando o tempo enquanto não os chamassem para um serviço.

O Moreira, eleito pela oposição aproveitava para mandar indirectas:

-E mais. Não devia ser aceite como candidato às eleições ou nomeado para lugares em empresas municipais quem fosse fornecedor de serviços ou tivesse interesses com a câmara ou as juntas. Cá para mim, depois de sair do lugar só passados 2 ou 3 anos é que tal devia suceder!

Voltando da rua, o Gregório ainda apanhou a conversa a meio, na altura em que o doutor Simão seguia para a sua reunião:

-Pois é, parece que querem acabar com as pensões vitalícias e proibir que os eleitos venham a receber pensões durante o exercício de cargos remunerados. Também me parece demais, afinal se as pessoas descontaram, têm direito, que diabo! Assim ninguém quer vir para a política!

-Mas assim é que deve ser!- insistia o Moreira - Lá no meu partido também defendemos que se deve consagrar a suspensão de funções automática sempre que haja a constituição de arguido em processo. Acabava-se logo com os Isaltinos e outros que tais….

-Até parece que vocês não têm lá nenhum, ó Moreira. É melhor não falar muito!...- o Gregório afinou, desta vez, pedindo uma Frise, postou-se à porta à espera dum colega da junta, faltava-lhe uma assinatura num documento para voltar à Câmara a despacho.

Em tarde de sol, os turistas não paravam entre a estação e o centro da vila, centro nevrálgico, improvisado ponto de espera de munícipes e autarcas, o tasco do Porfírio, com as suas pataniscas e copos de três era o familiar eco das opiniões, chingando o poder à porta do mesmo e logo o bajulando à chegada de algum vereador para um café.

Terminada a reunião, o doutor Simão voltou a entrar para mais uma bebida. Sorridente, a coisa parecia ter corrido bem, como quem revela um segredo, deixou escapar ter sido nomeado para administrador duma empresa municipal, a sua experiência e visão eram precisas para pôr a mesma a dar lucro. O Moreira, franzindo o sobrolho, estranhou, e quis tirar nabos da púcara:

-Oh doutor Simão, mas você não é cunhado do vereador?

Simão, atalhando, não deixou o outro continuar:

-E isso que tem? Parentes, somos todos uns dos outros, que isto é uma aldeia. Ou as pessoas competentes não podem ter família? Fique sabendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra, seria sempre convidado, em qualquer caso. A ética republicana é servir, e não servir-se, e é para isso que cá estou! - rematou, elevando a voz na parte final.

- Nem ninguém pensou outra coisa, Dr. Simão! Os meus parabéns!- concluiu o Moreira, saindo para a junta, enquanto a mesma não era extinta para evitar despesismos.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:58

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