por F. Morais Gomes

07
Out 11

Bruges, Primavera de 1527. Companheiros de letras e jovens fidalgos, Rodrigo Aires de Sousa e François Villot, nobre francês e grande amigo de Rodrigo nos dois anos de estudos na Flandres, despediam-se junto à catedral de S. Salvador, cada um com destino a seu país, irmãos de armas e boémia, e estudiosos da retórica e das leis. Rodrigo, fidalgo da casa dos Sousas, volvido a Lisboa e depressa enfadado com as intrigas do paço, onde um abúlico D. João III reinava sobre uma corte puritana e bafienta e cioso de aventuras, breve se ofereceu para a armada das Índias, e em Maio de 1530, ao serviço de Martim Afonso de Sousa, destemido almirante amigo de seu pai, procurou lonjuras, em terras de desvairadas gentes, já que saudoso deixara aquela Flandres onde namoradeiro e viril partilhara aventuras com François, também ele de regresso ao Langdoc e à casa condal da família.

A 3 de Dezembro de 1530, dia frio e cinzento,  partiu de Lisboa Martim Afonso de Sousa com uma armada de duas naus, um galeão e duas caravelas a fim de tomar posse da região do rio da Prata, frequentemente assaltada pelos espanhóis, fundar uma povoação no sul do Brasil e escorraçar os corsários franceses que infestavam o litoral. Rodrigo, altivo, seguia excitado pelo desafio e desejo de aventura. Era arriscada a missão, para lá da linha de Tordesilhas e mais emocionante por isso.

Em finais de Janeiro de 1531 foi avistada costa brasileira, perto do Cabo de Santo Agostinho, e logo uma nau francesa surgiu navegando para norte, a que a armada de Martim, até ali sem história, excitada deu caça, alguma surgia acção finalmente. Não tendo forma de se escapar, a nau optou por encalhar, fugindo os tripulantes para terra, receosos de serem chacinados pelos portugueses. Rápida foi a perseguição, não tendo Rodrigo sentido sequer um cheiro a batalha.

Retomando a armada o caminho para sul nesse mesmo dia à tarde, nova nau francesa foi capturada, sem oferecer resistência, ignóbeis homens do corso rondando as terras de D. João. Ao anoitecer, Martim Afonso de Sousa destacou as duas caravelas, sob o comando de Pêro Lopes, para ir em patrulha à ilha de Santo Aleixo, insistindo, Rodrigo acompanhou-o. Quando amanheceu, uma nova nau francesa foi avistada, navegando para norte, a que, quais adolescentes desejosos de aventuras  deram perseguição. Se bem que levasse dianteira favorecida pelos ventos, só ao fim da noite a caravela onde seguiam Pêro Lopes e Rodrigo conseguiu alcançar a nau inimiga, trovejando a artilharia a descarregar por todos os lados. O combate durou todo o dia e toda a noite, ficando ambos os navios muito destroçados, mas com baixas mínimas, seis do lado dos franceses, nenhuma do lado português. Tendo acabado a pólvora, a nau francesa rendeu-se finalmente perto da baía da Traição.

Lançando-se sobre a nau inimiga, Rodrigo deu voz de prisão a alguns corsários, ainda atordoados, enquanto os de Pêro Lopes se apoderaram do leme, dando caça ao piloto, a quem Fernão de Sintra montou guarda, não tivesse alguma ideia soez. Entrando na cabine do capitão, um homem, combalido, sangrava da cara, de espada em riste preparava-se para matar ou morrer. Já pronto a ferrar, Rodrigo avançou sobre ele, quando familiar, o reconheceu atrás daquela poça de sangue: era François, o amigo de Bruges, por motivos que só o destino saberia capitão de corso e declarado inimigo das velas de Portugal. Arregalando os olhos, François reconheceu Rodrigo, e ante o espanto de Pêro Lopes, correram a abraçar-se, três anos e um oceano os separaram, quisera agora o destino que em campos distintos se encontrassem em longínquas e tépidas águas a sul do Equador.

Quando o resto da armada de Martim Afonso de Sousa chegou ao local, já a batalha havia terminado, incrédulo, o almirante via o jovem Rodrigo amparando pelo ombro o vulto de um corsário inimigo. Antecipando-se, Pêro Lopes contou toda a história, e magnânimo, acabou oferecendo uma enxerga para que o francês pudesse curar-se das feridas da abordagem. Como Rodrigo, também François fora em busca de aventura e riqueza, com uma carta de corso ousava desafiar os mares que o Papa fizera portugueses e Tordesilhas em letra consagrara.

Terminada a contenda, a nau francesa foi incorporada na armada portuguesa, e rebaptizada como Nossa Senhora da Candelária, seguindo todos em paz para Pernambuco.

Inebriados pelos cheiros e cores das terras férteis e quentes, Rodrigo e François por lá ficaram, mais tarde se acasalando com nativas e fundando um povoado, dos muitos que mais tarde haveriam de vir a ser o Brasil. Sob os sinos de S.Salvador de Bruges ou nas florestas húmidas da colónia, o destino tecia um novelo de encontros e desencontros, na madrugada de um tempo novo, inicial e puro.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:28

Outubro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13

16
17
18
19
22

24
25
26
27
28

30


mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO