por F. Morais Gomes

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Out 11

 

Bruxelas, 14 de Outubro de 2011. Apressado, o comissário europeu da Economia e Finanças, o circunspecto Olli Rehn chegava ao seu gabinete, onde como nos últimos meses choviam relatórios matinais nada tranquilizadores sobre a evolução da conjuntura económica, sobretudo a da zona euro. Ainda mal se sentara na secretária já o ministro grego Vanizelos, do alto dos seus cento e vinte quilos vociferava a partir de Atenas, o dinheiro não chegava, a situação nas ruas estava difícil de conter. Malditos gregos, pensou Rehn, enfadado, lamentando a hora em que aceitara o lugar na Comissão Barroso, a início bem mais tranquilo. Despachado o grego troglodita, saiu a comer uma waffle perto do Grand Sablon, uns minutos de relaxe antes de mais um Ecofin, o FEEF iria avançar, apesar dos eslovacos, querendo pregar partidas. Num canto da patisserie, ornada com tesouros de chantilly e chocolate, solitário e tímido, o ministro português, Gaspar, pausadamente degustava uma fatia de tarte de maçã, pensativo e abúlico. Reconhecendo-o, Rehn saudou, sem se levantar, teriam tempo uma hora mais tarde para os cumprimentos da praxe. Terminado o repasto e um reconfortante cappuccino, aprestava-se a voltar ao gabinete quando um grupo de jovens, tatuados e arvorando cartazes de protesto se postou frente à porta da patisserie, chegados de vários pontos para a manif dos indignados, no sábado seguinte e alertados para a presença no local do fleumático e plácido finlandês.

-Abaixo a globalização! Queremos ter futuro!-gritavam alguns, em  espanhol, secundados por tambores que um grupo da Galiza trouxera propositadamente. Polícia não havia por perto, continuando metodicamente a comer, Vítor Gaspar enfiou uns phones e abstraiu da confusão, um pouco de Chopin repousar-lhe-ia o espírito antes da reunião, com o “”buraco” da Madeira na agenda e o país ainda em choque com os anúncios de cortes da quinta feira,13.

-Ó Gaspar, já viu isto? São uns ingratos, estes tipos!...- arengou o comissário, vendo que teria de chamar a segurança para voltar para o gabinete climatizado.

-Não ligue, senhor comissário! Peça delicadamente por favor e eles deixam-no passar- sugeriu o super delicado ministro, pagando e limpando os lábios.

Com intervenção dos gendarmes, Rehn lá abalou, sem ter sido reconhecido, Gaspar pegou na mala e seguiu para a reunião a pé, que saudades tinha dos seus tempos sossegados no BCE.

Regressado a Lisboa, o estado de choque pelo anúncio das medidas para 2012 era generalizado. Um popular no aeroporto, reconhecendo-o atirou-lhe um sonoro “ladrões” a que respondeu com uma vénia cortês, nos jornais a oposição e os comentadores massacravam o governo. Desabafos, pensou o ministro, tolerante, há sempre uns descontentes, nada que uma fatia de tarte de maçã não acalme.

Com o fim de semana à porta, brigadas de indignados reforçadas com piquetes de sindicalistas promoveram manifestações à porta dos ministros. Em Massamá, pior que Tripoli em dias de guerra, um gang da Pedreira dos Húngaros reteve em casa a esposa do PM, que tentou escapar invocando as suas raízes africanas; Miguel Relvas, apanhado no Solar dos Presuntos pelos Homens da Luta foi emboscado numa mesa do canto, ainda engasgado com um rojão, e sem bateria no telemóvel para chamar Miguel Macedo, à ministra Assunção Cristas, um grupo de ceifeiras de Odemira amordaçou de supetão à saída da Zara, onde comprava um top em saldo, com o cartão do ministério. Descamisados ocupavam o Ministério das Finanças e por toda a parte carrinhas pick-up promoviam caça aos ministros e deputados. Com uma gabardina velha à porta do metro dos Restauradores, o sisudo Paulo Macedo simulava pedir esmola, com um chapéu enterrado até aos olhos, tentando passar despercebido à fúria das ruas.

Melancólico, sorrindo e cumprimentando com delicadeza os amotinados em pleno Rossio, Gaspar, sem ser reconhecido, parou para uma fatia de bolo numa pastelaria de esquina, a um desempregado possesso sugeriu mesmo calma, por causa da hipertensão. Com delicadeza aumentara os impostos, cerimonioso e educado cortara apoios sociais, sem sombra de grosseria castigara o governo da Madeira, uma fatia de bolo e um chá de camomila e aqueles senhores com tensão alta voltariam a casa e respeitosamente compreenderiam que dinheiro não é tudo na vida, pelo menos nada que valesse uma tarte de maçã e um Chopin reconfortante. A crise, pensava, saboreando uma garfada, é para ser tratada com elevação.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:39

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