por F. Morais Gomes

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Na arejada sala de aulas, bem perto da rive gauche, na luminosa Paris, o professor Sainceau deitava um olhar aos novos alunos, para o semestre de Filosofia Política. Quarenta anos de Sorbonne, soixant huitard o suficiente para ter arrepiado caminho, céptico convicto depois de tempos de dúvida seguindo Henry Levy e Castoriadis, desde meados de oitenta que convencido, porque vencido, se dedicava ao ensino em exclusivo, sempre com o seu cachimbo aromatizado que lhe emprestava uma elegância sartriana de ex-compagnon de route perdido na década errada.

Os novos alunos eram quase todos estrangeiros, polacos, belgas, espanhóis, um ou outro mais entradote na idade, pessoas com tempo, e sobretudo vontade de questionar, no fundo, pensava ele, de falar mais que de ouvir, sempre assim fora nas suas aulas. Peripatéticos modernos em busca dum púlpito, buscando convencer os convencidos e julgando tudo saber pela etérea confusão entre fé e fezada, razão e teimosia, empirismo e experiência. Uns chatos, no fundo, pensou, passando revista à turma com os olhos e lançando sobre ela uma cachimbal baforada de desprezo.

- Bom dia, meus senhores, bem vindos. Eu sou o professor Sainceau, e desde já aviso que todas as mentiras que ouviram a meu respeito são provavelmente verdade!

A turma sorriu. Um dos alunos recém-chegados, já com alguns anos, virando-se para um colega, de Salamanca, anuiu:

-Grande tirada, e grande verdade. Já o experienciei na pele!

O espanhol sorriu, sem dar grande sequência à conversa, o novo aluno, grisalho, falava com sotaque, francês não era, aparentava um ar próspero, roupas de marca e telemóvel de última geração, segundo deu para apurar. Sainceau continuou, expondo os grandes temas do semestre:

-Primeiro, deambularemos em torno da epistemologia, do estudo do conhecimento, tentaremos responder às dúvidas com o que é e como alcançamos o conhecimento. Com a experiência, a verdade empírica ou a razão, cartesiana e fria…

-Comigo foi sempre com a experiência. Primeiro a experiência e em cima da experiência aplicamos a verdade adquirida!- sussurrou o aluno grisalho, com um ar de quem nunca teve dúvidas. A razão decorre sempre da experiência individual. Daí que não haja razão, mas razões…

-Pareces já adiantado ao curso, hombre!- rematou o colega ibérico, tirando notas, Sainceau continuou:- os filósofos antes de Sócrates buscavam explicar tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos citar, neste contexto Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito.

-Antes de Sócrates não sabiam nada, era a confusão! - comentou Janek, um polaco ruço com um bigode enrolado.

-Grande verdade, amigo, grande verdade! - anuiu de imediato com a cabeça o grisalho, ante o silêncio do espanhol, um tal Angel Menendez, de Segóvia.

-Também abordaremos questões em torno da problemática da estética, lá para a frente….- continuou Sainceau.

-Aí não tenho problemas, sempre fui um homem de bom gosto e cultor do belo…-interrompeu o grisalho cada vez mais falador, do alto das suas roupas Armani e corte de cabelo apurado, a bem dizer, contrastava com o ar troglodita da maioria dos colegas, jovens e enxovalhados e muito rive gauche.

Deitando um olhar enfadado ao aluno, o professor Sainceau já começava a embirrar com o fala barato, com o tempo a passar, despejou o essencial do programa para o semestre:

-Outra vertente do novo curso será o conceito de ideal. O ideal segundo Hegel era uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida quotidiana e ao mesmo tempo projectar para si mesmo exemplos a serem seguidos. O ideal é algo espiritual, do plano da imaginação do sujeito, pouco interessando a realidade ou as suas representações…

-Acho que vou adorar estas aulas…- comentou de novo o quarentão, para um já familiarizado Angel.

-Por fim, abordaremos a lógica como conjunto de axiomas e regras que visam representar formalmente o raciocínio válido. A lógica, meus senhores, define a estrutura de declarações e argumentos para elaborar fórmulas através das quais estes podem ser codificados, compreender o que gera um bom argumento e quais os argumentos falaciosos.

-Ah, aqui sim, senhor professor, creio poder contribuir com a minha experiência para uma nova teorização da lógica- interrompeu o aluno fala barato, levantando-se e mirando a sala com um olhar triunfante.

-Sim?... Temos então aqui alguém com ausência de cepticismo, um endeusador do belo, pelo que observei, e um veterano de deduções lógicas… Como é mesmo o seu nome, monsieur?

-Sócrates!

A sala estarreceu, imaginando em vez da aula de filosofia do professor Sainceau estar numa sessão espírita ou num programa de apanhados. O aluno grisalho, fixando os colegas como o fazia em reuniões para salas cheias num passado recente apresentou-se, adversário do cepticismo e epicurista, cultor dum particular tipo de belo:

- José Sócrates, de Portugal. Trabalhei para o governo português até há pouco tempo….E diferentemente do meu homónimo grego, que apenas sabia que nada sabia, eu sei que tudo sei.E também sei que os outros nada sabem! É um óptimo ponto de partida para estas aulas, não acha, professor Sainceau?- rematou o novo aluno, guardando o Magalhães numa pasta de pele, e saindo para o George V, precedendo uma nada céptica jantarada no Boulevard des Italiens.

publicado por Fernando Morais Gomes às 08:41

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