por F. Morais Gomes

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Out 11

7h30m, noticiário da manhã, a dívida, o desemprego, o desespero, assaltos. Os dias mais escuros, levantar, mais um dia de chumbo, cheiro a ovos mexidos na cozinha, o calor reconfortante do duche antes de Mafalda sair para mais um dia de aulas. No jardim, o cachorro ladra, arrastando um balde roubado à avó Ana, é um brincalhão o Google, irrequieto motor de busca, sobretudo em casa dos vizinhos. O padeiro chega, entrevado, com cara de poucos amigos, seis carcaças e um pão saloio, saudado pelo Google e outros cães desconfiados de padeiros.

Mimeticamente, as rotinas sucedem-se, cadenciadas e sem surpresa em mais um dia de Mafalda: a corrida atrasada para o autocarro das 8h25m, o jardineiro do vizinho, como sempre, a caminho do mata bicho, fantasmas enraivecidos ao volante, acelerando estrada fora, gritando com tudo e todos, fanfarrões e impacientes.

Mafalda, um caderno e os inseparáveis phones, toma o caminho para a escola, ao encontro dos colegas mais que de outra coisa, uma pizza ao meio dia no jardim frente à escola e uma profusão de SMS para as amigas encherão o dia, para ela risonho, que a crise é mais para maiores de dezoito. Noutro mundo, aconchegada nos seus quinze anos ingénuos, as caras mortificadas no autocarro revelam moribundos que se arrastam para frágeis empregos, caminhando por ruas cada vez mais soturnas: doenças sem comparticipação, maridos desempregados, filhos rebeldes, deserdados da esperança. O inimigo está ali. Nós mesmos. Inertes, passivos, carpindo o destino que deixámos acontecer, messiânico e brutal. Mafalda, adolescente e alva, segue alheia  a tudo, problema é ter Moche para falar aos amigos, cinco euros para sair à noite, tásse. A mãe já só faz frango, coitada, carne da mais barata, ontem cortaram a luz, o tio Zé desenrascou o dinheiro, mas só por uns dias, coisa de cotas mal dispostos, comentava na escola com a Xaninha, a melhor amiga, olhando de soslaio o Bruno do 8ºC

Em casa, só o futebol interrompe o flagelo da crise nos dias assombrados,  força maior que tudo, ópio do povo e sacrossanta força. Um canto não marcado, um fora de jogo, hoje no campo, amanhã na vida, a vitória ou derrota já no tempo dos descontos. Agitado,o pai pagou a luz, só para não perder o jogo, em canal aberto.

Na escola, sussurram-se revoltas. Dos professores, congelados e cortados, dos colegas, filhos de pais desempregados e caídos no álcool, contra um futuro sem futuro, suspirando por um passado já passado. É dose. A stôra de História fala dos navegadores e outros dias de glória, passados, terá sido cá? Que remotos Ronaldos conquistaram o Brasil e a Índia nessa Champions, com Portugal no torneio de Tordesilhas? O Filipe, do 9ºB, levou um autocolante com as cores de Portugal, orgulhoso, colado no caderno. Angustiada, a professora de História passou-lhe a mão pela cabeça e afagou-o, entristecida. Haverá algo desses tempos, ainda? Valem os dias, quentes e amenos, como se os deuses compensassem a crueza dos tempos com réstias de bom tempo, ainda assim agoirando os antigos a seca e o atraso das sementeiras.

Nos edifícios junto à escola, pelo almoço, funcionários do estado clamam contra a iniquidade dos cortes nos direitos, da discriminação, surpreendentemente a escola de línguas regista um aumento de inscrições, a inglês. Para os putos se pirarem um dia destes, alvitra o Mike, professor de inglês, com dez anos de Portugal. Alheias, Mafalda e amigas correm do café para o jardim, seguidas pelos rapazes da turma, acne no rosto e barba recente, chegada a puberdade e o tempo da sedução. As folhas amarelecem, mas tardam a cair.  No café do Baptista, notícias mostram a Grécia em chamas, o ataque dos mercados, indelevelmente anuncia-se o fim dos amanhãs de prosperidade. Alheio e ausente, um gato, gordo e amarelo, lança-se sobre restos da pizza espalhados no jardim.

Anoitece já quando Mafalda torna a casa, no mesmo autocarro da manhã, a D.Lurdes voltando do médico, com mais uma receita, mais cara agora, ruidosos colegas alegrando o autocarro, as curvas de Sintra serpenteando, com os castelos silenciosos lá no alto. E a um dia outro seguirá, a cumprir calendário, que não vida. Das casas em silêncio saltam rumores, desabafos, vidas perdidas, doentes acamados. À porta de casa, o Google, alheio e abanando o rabo ladra e acompanha-a à porta da entrada, a avó espera com um yogurte e um pão de leite. Tempo de Facebook, de SMS, de Morangos, e agora de chat com o Bruno do 8ºC, um gato, lançou a escada.Colada à tv, no sofá do quarto, a avó, já noite, vê a Casa dos Segredos e abana a cabeça, cada uma em seu quarto, no confessionário de silêncios. É Portugal, é 2011.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:17

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