por F. Morais Gomes

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Omar chegara ao Al Andaluz pelo tempo das laranjas, passado o mar antes cruzado por Tarik e Tarif, para os arredores de Ushbuna (Lisboa) o mandaram, perto do mar e da montanha, enviado a Xintara(Sintra), terra de clima frio e solo fértil, urgia ocupar o qala’â, castelo defensivo no rochedo escarpado, vizinho de Ushbuna. Al Munim Al-Himiari, estudioso e introspectivo, seguiu-o no séquito, apontando notas e recolhendo plantas, mais dado às letras que ao uso da cimitarra. De Al-Batayaws (Badajoz) haviam partido ordens rigorosas, o rei Al Muttawakkil queria os arredores de Ushbuna protegidos, face à ameaça almorávida. Alheado, Al Munim, uma vez chegados, deteve-se contemplando a riqueza dos frutos, as violetas na serra, ou o âmbar recolhido na costa. O rei aftássida, de origem berbere, possuía já ligações a cidades próximas, ocupado o castelo impunha-se ocupar território, trazer noras e charruas, a palavra do Profeta e a obediência ao Corão nas terras dos infiéis kafirun.

Belicoso mas obediente, Omar instalou-se no qala’â,construído de soga e tissão, revestido por pedras argamassadas, dali se dominava o mar e Ushbuna, os campos e o povoado. Guarnições foram destacadas para Banu Qasim (Cacém) e para o  harmonioso vale das amendoeiras, o Qu’al-luz (Queluz), ao longo da antiga estrada romana. Sem grande ameaça, melhorou a mesquita no castelo, onde os fiéis acorriam ao chamamento dolente  do muezzin, mandou plantar macieiras e limoeiros nas várzeas envolventes, que se instalassem famílias e se ensinasse a Palavra. Al Munim, que desposara Fátima recentemente, instalou-se em Maçfal (Mucifal) local de frutos generosos e bom pasto para as alimárias, escrevendo, temente a Alá, grato pelas mercês conseguidas e em paz com os kafirun, fiel à jihad, não das armas, mas dos corações.

Omar, guerreiro das planícies quentes, tinha postura diversa. Aos kafirun idólatras havia que vergar, derrubar-lhes as estátuas e cumprir o testamento de Muhamad na hora da subida aos Céus em Al-Qous (Jerusalém).

Certo dia houve que castigar um kafir que roubara um alqueire de favas em Al Marje (Almargem), a sharia não deixava dúvidas: a mão havia de ser decepada, para que não repetisse, desobediente. Al Munim, já adaptado aos costumes brandos de Xentra, pediu perdão para o ladrão, fora para comer que roubara:

-Allah u akbar, misericordioso xeque Omar!- abordou-o no soukh  de Xintara, no mesmo dia- esse homem tem quatro filhos sem malga de couves ou um pedaço de carneiro, de férteis que são as terras, pouco dano terão feito as favas, por certo!

-As salaam alekum!- saudou o cadi, apressado- os anciãos não me perdoariam, Al Munim. Acaso dás mostras de ceder na nossa fé e desdenhar do ensinamento de  Muhamad, que Alá o guarde?

Al Munim hesitou em responder. Longe da medina africana e dos mullahs, tornara-se mais tolerante, após uns tempos em Xintara. Omar mandou buscar o kafir, e que lho apresentassem no castelo, um monte de favas o perderiam, assim dando uma lição aos demais e mão pesada para a justiça. O ladrão era um velho escanzelado, temente ao Deus dos hebreus, não comia havia uma semana, a mulher definhava entre palhas, acometida por febres. Omar olhou-o de soslaio, após o mirar de alto abaixo ergueu a voz e sentenciou:

-Respeitar o Livro Sagrado é o maior dever dum crente em terras de Al Andaluz, kafir!- gritou, para o velho acabrunhado- nunca ouviste falar na centésima nona sura do sagrado Corão?

O velho tremia que nem varas verdes, a um canto, Al Munim contemplava-o apiedado. Omar, garante da ordem e do Livro, levantou a voz e recitou a sura como se ele próprio fosse o Profeta, tal como a escutara vezes sem conta nas madrassas de Fez:

-"Ó incrédulos! Não adoro o que adorais! Nem vós adorais o que adoro! E jamais adorarei o que adorais! Nem vós adorareis o que adoro! Vocês com a religião de vocês e eu com a minha!" – e rematou, triunfante:

-A mão que rouba não mais deve roubar! É a lei dos justos! Entendes, kafir?

O velho tremia,com os olhos no chão, exposto no pátio do castelo de Xintara. Já Omar mandava que se cumprisse a sentença, decepando a criminosa mão, quando Al Munim se adiantou, respeitoso e ponderado:

-Alá, o misericordioso, que esteja guardado no paraíso, é exemplo de liberalidade para a humanidade. Perdoar é mostrar o caminho e abrir as portas do Céu!. Este homem tirou para comer, não por luxúria ou maldade, mas por fome e miséria. Faça-se a jihad salvadora, sim, grande Omar, mas tomando pela palavra  o coração dos incrédulos, e assim os kafirun destas terras melhor verão quem é o verdadeiro Deus, o Único, o Misericordioso! Não disse o profeta, que Alá o guarde, "vocês com a religião de vocês e eu com a minha?". E repetiu, em árabe, pausadamente.

Impressionado com a convicção de Al Munim e vendo a tremura do velho desvalido e esfomeado, Omar  acabou mandando que o levassem, sem o olhar de frente. Não ficaria sem mão, trabalharia porém na horta do cahrói de Al Marje a quem furtara as favas até que novo alqueire crescesse ao espoliado hortelão. O Al-Islam chegara a Xintara, novas gentes lavravam os campos, estudavam os astros, mas paredes meias com outros credos e outras palavras, do mesmo Deus, quem sabe, sabia ser tolerante nessa taifa, por vezes, assim convivendo alguns séculos mais à sombra benfazeja do altaneiro cala'â e do Crescente protector.

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:05


Caro Fernando Gosto do seu texto, Pese embora a não concordância em pormenores de Toponímia Árabe, que para alguns casos são bem tardios. Mas são meras questões técnicas que não põem em causa a sua veia literária.

Um abraço fraterno,
RUI Oliveira




Rui Oliveira a 22 de Outubro de 2011 às 19:07

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