por F. Morais Gomes

23
Out 11


 

-Que chatice!- protestou Ana Maria a caminho do Instituto, maçada com a chuva persistente, ela bem sabia que aí vinha, fazia 5 dias que o forecast de satélite prognosticava o fim do verão anormalmente prolongado. Sismologista no Instituto de Meteorologia há 4 anos, cabia-lhe e a um pequeno grupo fazer a monitorização da actividade sísmica em território nacional. Na véspera, 23 de Outubro, domingo, apenas um registo insignificante, um abalo na latitude 36,96 longitude -13,58, magnitude 2.0 na escala de Richter, registara o sismógrafo do Instituto em Lisboa. Nesse mês, o registo mais forte fora dia 7, pelas 22h18m, 4.0 na escala de Richter, nos Açores, com epicentro a 50 km oeste-noroeste de Ginetes, em S.Miguel.

Aproximando-se mais um aniversário do grande terramoto de 1755, iria trabalhar na comunicação que faria na Gulbenkian, no dia 31, com a ajuda de Tomás Moreira, jovem e entusiasta colaborador,  um nerd, segundo a filha Bárbara, que tendo-se cruzado com ele uma vez logo o achou um chato, atrás duns óculos de massa e cabelo cheio de caspa. Nessa manhã, também Tomás chegou cedo, para alinhavarem a comunicação:

-Bom dia, doutora? Bela chuvinha, hã…Já cá faltava!

-Sim, ao menos já não teremos problemas com a falta de água em Bragança, espero, Tomás. Como estamos de comunicação?

-Tenho o powerpoint quase pronto, doutora- adiantou-se, terminando um croissant, querendo mostrar serviço- veja!.

Abrindo o computador foi passando uma sequência de quadros sobre o terramoto de Lisboa, explicando-os em detalhe:

- Em 1914, um americano, Harry Fielding Reid disse que a origem teria sido no Atlântico, a cerca de 100 quilómetros a ocidente de Portugal. Em 1940, um catálogo da sismicidade na Península Ibérica, de um autor espanhol, propunha uma zona um pouco a norte do Gorringe, através das cartas de intensidades dos danos. O Algarve, Lisboa, Sevilha e o Norte de África foram bastante afectados.Foi o Gorringe, a 200 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente e a 300 de Lisboa, que durante muito tempo concentrou as atenções. Esta montanha submarina tem 200 quilómetros de comprimento, está a apenas cerca de 50 metros de profundidade e é rodeada de planícies abissais que descem até aos cinco mil metros. E parece que tem estado activo, por estes dias, não tem vistos as notícias, de erupções submarinas nas Canárias, doutora?

-Sim, mas esses já são frequentes- desvalorizou a sismóloga- Se fossemos a levar a sério todos os abalos dos Açores, por exemplo, vivíamos em alerta laranja…

Compenetrado, Tomás continuou:

-É uma estrutura geológica que está numa zona crítica para a tectónica de placas, na fronteira entre as placas euroasiática e africana, que começa nos Açores e se segue com facilidade até ao Gorringe, mas aí, deixa de se perceber a transição. O traço da fronteira desaparece, porque passa a ser distribuído em várias falhas. O ponto onde se dá essa viragem é o Gorringe, por isso chamou tanto a atenção.Depois do sismo de 28 de Fevereiro de 1969, com uma magnitude de 7.5, passou a considerar-se que a origem do terramoto de 1755 teria sido a mesma. Ou seja, a sul do Gorringe, na Planície Abissal da Ferradura...

-Sim, Tomás,mas não esqueça que a chegada à costa dava tempos superiores aos dos registos históricos. Daí que se tenha vindo a eliminar esse local. Em 1998 apresentaram-se novas teorias em artigos no Journal of Geodynamics. O Nevio Zitellini, do Instituto de Geologia Marinha de Bolonha, descobriu uma falha geológica, a 100 quilómetros a oeste do Cabo de São Vicente. Chamou-lhe "Marquês de Pombal", num artigo publicado em 2001, foi essa a localização provável da origem do terramoto de Lisboa!

-O problema é que essa falha, com 60 quilómetros de comprimento, não chegava para gerar um sismo de 8,7 de magnitude, doutora. Mesmo se se rompesse todo o segmento do Marquês de Pombal, a energia libertada corresponderia a metade da do sismo de 1755. Há de certeza uma segunda localização! O Zitellini descobriu uma origem dupla para o terramoto: para ele, deveu-se a uma ruptura da Falha do Marquês de Pombal, em conjugação com o rompimento da crosta ao longo do banco do Guadalquivir.

Entrando nessa altura o doutor Guedes, outro cientista do Instituto, ajudou ainda mais à especulação, introduzindo nova teoria:

-Meus amigos, somos cientistas ou charlatães? É claro que o epicentro foi no arco de Gibraltar! Ali é uma zona de subducção activa, na qual um bloco de uma placa velha mergulha e, ao descer no manto, deforma a superfície. Acreditem, foi aí que nasceu o terramoto de 1755!.

Montada a apresentação, na tarde de 31 de Outubro lá apresentaram a comunicação. Bárbara, a filha de Ana Maria compareceu, sentando-se contudo longe de Tomás, que a aborrecia com as suas teorias sobre sismos e tsunamis. A sala estava composta, poucos minutos antes de subir ao palco o telemóvel de Ana começou a tocar, interrompendo a conversa com o prof. Jenkins, de Liverpool, uma autoridade mundial em tsunamis e orador essa tarde. Como não parasse o toque, do Instituto por sinal, acabou desligando o telemóvel.

A comunicação foi muito aplaudida, se bem que as várias teses de epicentro permanecessem irredutíveis. Eram oito horas, já noite, e dali seguiriam para um jantar com os convidados, portugueses e estrangeiros, na zona das Docas, em Lisboa. Chuvosa, a noite de Lisboa, saída a porta da Gulbenkian, tinha um ar pesado, uma claridade esquisita, mais chuva para o resto da semana, pensou Ana Maria, enquanto Tomás colocava um chapéu ridículo que fazia lembrar o Professor Pardal, neste caso mais Lampadinha que inventor.

Só chegados às Docas voltou a ligar o telemóvel. O Tejo estava revolto, e todos os restaurantes tinham recolhido as esplanadas. Procurou um telheiro e ao sinal de ligação, vários SMS foram despejados em cadeia, todos iguais:” Liga Instituto. Urgente”

-Nem a esta hora me largam!- protestou agastada, clicando as teclas para o Instituto, estavam lá o Guedes e o Vasco Pedroso, porque lhe ligariam a essa hora e em véspera de feriado? Estabelecida a ligação, o Guedes agitado e deixando escapar um arfar de pânico mal deixava entender o que dizia:

-Ana, onde estás?! Temos um caso grave, muito grave! O sismógrafo de Mafra indica actividade sísmica muito alta com origem em El Hierro, nas Canárias. Para cima de 8.5! É uma catástrofe! E foi dado um alerta de tsunami, em 90 minutos as ondas podem atingir a costa portuguesa…

Sem bateria, a chamada caiu, deixando Ana Maria atónita, com Tomás e Bárbara ainda a caminho, noutro carro. Olhando para o Tejo, a ondulação era mais forte agora, galgando a margem na Rocha do Conde Óbidos, invasivo, um abalo fortíssimo fez tombar um candeeiro a seu lado, abrindo de imediato uma grande racha no solo. Uma sirene do INEM ecoava ao longe, a onda teria chegado já a terra firme. Correu para o lado da estrada, subindo  o viaduto da Infante Santo, em baixo, carros jaziam esmagados pelo desabar de alguns prédios mais antigos. Ao longe, mastodôntica,uma vaga com mais de seis metros recortava-se por trás da Ponte sobre o Tejo, um cacilheiro para Porto Brandão viu mesmo ser sugado em segundos como casca de noz.

Em pânico, fugiu para a zona alta, a onda assassina e inesperada engolia já Alcântara e as Docas e contentores desgovernados entravam pelas ruas, arrastados pela força das águas. Ana Maria correu, sem olhar para trás, como  muitos outros apanhados no local,até que, predadora, a onda os capturou, furiosa e prepotente.

Quase trezentos anos depois, a Velha Senhora voltava a Lisboa, invasiva e diluviana. Presa num varandim, a pasta com a comunicação de Ana Maria ficou ondulando, quase desfeita, contendo o trabalho em powerpoint, agora definitivamente desactualizado.

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:41

Parabéns ao Fernando por este texto maravilhoso
Abraço
Gisete
Gisete Pereira a 23 de Outubro de 2011 às 20:31

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