por F. Morais Gomes

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Out 10

Era dia de círio em S.João das Lampas. Zé da Adega, Domingas e os rapazes pequenos preparavam-se para, fato domingueiro envergado, irem na burra Zorra de Alfaquiques até S.João, ao círio da Senhora do Cabo. Era a segunda vez que o círio se efectuava em suas vidas, passara em 1830, e vinte seis janeiros mais haveriam de viver, graças a  Deus, para ver um terceiro. Domingas estava de novo prenha, o quinto cachopo vinha a caminho, vinha irritadiça, pois gulosa como era aborrecia-a ter de comer pão alvo e galinha durante os trinta ou quarenta dias do regimento, evitando aquele toucinho que tinha guardado da última matança na casa do ti Januário.

Em casa, para que o rapaz pequeno viesse em boa hora, usava o chapéu do marido, nos ombros os calções do mesmo, nestes preparos andava na monda. Hoje, porém, era dia de festa, Zé da Adega lá pudera usar os calções para que não fosse apanhado desprevenido.

O círio era tudo.Era aí que cada um na aldeia mostrava o valor da sua bolsa. Zé da Adega comprara barretina nova à Domingas, postas as festas não voltaria por certo a usar. Para si mandara fazer uma casaca, tinha obrigação de durar os próximos vinte e seis anos, pelo menos.

O filho do ti Ambrósio que Deus tenha, o Justino, amanuense na capital, viera à terra para os festejos, mas tendo um temporal arrasado o telhado da casa onde ficaria, logo na véspera da procissão, aceitou de bom grado a oferta do ti Zé de ficar a dormir lá em casa.

-É pobre, mas malga de vinho e lume de chão não lhe há-de faltar , amigo  Justino!-reforçava o ti Zé , orgulho pouco escondido de albergar o filho da cidade do ti Ambrósio, -Boa gente era o senhor seu pai! Todas as quintas -feiras íamos á venda na Malveira, bons tempos!

O Justino vivia em Lisboa há cerca de seis anos. Alojara-se num quarto na Praça da Alegria, serventia de águas quentes e frias, era já um homem da cidade, enfiado em papéis e letras de câmbio.

No dia do círio, pela manhã, leite directo da vaca e presunto adornavam a mesa de madeira em honra do visitante, a Domingas fizera filhoses.

Logo pela manhã, o Januário pediu um alguidar e um pano, e foi para o quarto compor-se para a grande festa. Estranhando o interesse de Januário pela água, o mais velho da Domingas, maroto, foi espreitar na enxerga, deparando pasmo com o Januário a lavar a cara e os sovacos.

-Oh mãe, oh mãe, vem ver o que ele está a fazer! -correu para a mãe o pequeno Serafim, assustado com o que vira.

Domingas acorreu prestes, e benzeu-se ante aquela visão invulgar

-Nossa Senhora! Parece que lá na cidade agora lavam-se com água! Água é para o baptizado, benza-os Deus!

Saíram para o círio. A procissão, deslumbrante, Serafim de anjo pela primeira vez, toda a aldeia vestira o melhor fato, as burras tiveram reforço de pasto.Na quermesse, Zé da Adega e Justino, já de nariz avermelhado, provavam a pipa do Teodoro, malvasia da boa, o Verão fora farto.

-Pois é como lhe digo, compadre Teodoro.Com a venda das vacas e o vinho das minhas terras da Assafora já consegui um bom cabedal. Este ano vou arrematar o boi cobridor que o ti Estevão de Cheleiros tinha lá na Malveira! E, copo erguido, já meio cambaleante, falava das colheitas,    enfiado naquela fatiota que lhe impuseram para ir ao círio.

-Os seus filhos já ficam arranjados, ti Zé- concordava o Justino, eufórico com o terceiro copo, vinho agora era raro.

-E já comprei um bocado de chão para mim e a minha Domingas no cemitério de S.João! Quando morrer, já cá fica, pago e tudo! Antes para ali que para o boticário!

-Eu boticário é logo meia canada de vinho e uma folha de alecrim dentro!- adiantou o Teodoro- quando morrer vou deitado! –arengou sentenciador, emborcando mais uma malga do tinto.

Assim passava mais uma Senhora do Cabo em S.João.O comendador Nogueira, juiz da festa, mandara distribuir um bodo, coisa farta, todas as noites se rezava a novena, rara ocasião para as mulheres casadas recolherem mais tarde á alcova.

Passadas duas semanas, a Domingas teve a sua hora pequenina.Mais um rapaz. Correram a dizer ao Zé da Adega, na vinha.

-Há-de criar-se! -disse entre dentes –e continuou a cavar, rude de modos, mas no fundo coração mole.

Domingas lembrando-se do Januário, decidiu experimentar dar um primeiro banho ao rebento.

-Se lá na cidade se lavam com água e não morrem, mal não pode fazer!....-pensou.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:00

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