por F. Morais Gomes

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Nov 11

Sintra, 1941. Nos baixos da casa na R. da Pendôa, Júlia, ansiosa e a medo, aguardava como diariamente a chegada de Alfredo, empregado na loja de tecidos do Wenceslau e seu almejado noivo. A custo, o pai, Adolfo Saraiva, aceitaria o rapaz, bem parecido e avançado na equipa do Sintrense, mas de famílias humildes, sem cabedal para a sua fortuna, feita em África e na exportação de volfrâmio para a Alemanha. A casa em Sintra, herança do avô Ladislau, era o centro de onde Adolfo dirigia os seus negócios, que um dia Júlia, filha única, herdaria, havia pois que acautelar genro ponderado e à altura. Um doutor em Leis, era o que vinha a calhar para a Julinha, moça frágil e prendada, viciada na leitura. Até o Zé Alfredo do tribunal lhe gabara os dotes para as letras, se o pai deixasse, falaria ao Medina do Jornal de Sintra, para lhe editar os poemas, o Saraiva, contudo, não queria a filha exposta a comentário alheio, e sempre se negou. Dezanove anos completos,  noções de francês e bordados, era a altura de lhe dar netos e assegurar os negócios, o filho do dr. Claudino, tenente da Academia, esse sim, era um homem de respeito, leal ao doutor Salazar, uma farda na família adornaria a fortuna feita em África numa aliança natural e abençoada por Deus.

Júlia conhecera Alfredo na loja de tecidos, certo dia que lá fora comprar chita para um vestido. Os olhos verdes de Alfredo e o penteado ondulante e vistoso, levaram-na para casa a suspirar pelo jovem. O pretexto para o ver repetiu as visitas à loja, uma mão quente sobre a sua certo dia deixou escapar rubores, logo um furtivo beijo atrás da cortina das provas. Era ele agora quem fechada a loja corria para a vila, para fugidios acenos por trás da cortina da casa de Júlia.

Sem nada suspeitar,certo dia Adolfo Saraiva convidou os Claudinos para um jantar, o velho advogado e esposa, e o garboso filho, o tenente Rodolfo, instrutor em Mafra e promissor oficial, partiria em breve para um tirocínio em Berlim. Júlia, afável, recebeu-os, Adolfo criando motivos para os filhos de ambos se aproximarem, na despedida, beijando-lhe a mão, Rodolfo, formal,  convidou-a para um passeio na Pena. Júlia anuiu, surpresa, mal suspeitando que o tenente lhe queria fazer a corte. Educadamente, tentou repeli-lo, informado o pai, este insistiu que não negasse, era a oportunidade da vida dela, um marido à altura e boas famílias. Ficou destroçada.

Sabedor dos planos, Alfredo jurou-lhe que ficariam juntos, nem que tivessem de fugir, tinha tios no Brasil. Passados dois meses, obteve passagens num paquete, fugiriam em segredo numa noite de Fevereiro.

No dia aprazado Alfredo juntou uma trouxa e os bilhetes, e discretamente zarpou para Sintra na bicicleta do irmão. Angustiado, na Volta do Duche, mal reparou num cão que se lhe atravessou, caindo desamparado com a cabeça na laje, teve morte imediata, as duas passagens no paquete saltando do bolso, para ele nem de ida seriam.

Foi por Amália, a criada, que soube da notícia, um grito suspeito e estranho para a serviçal, antecedeu uma correria para o quarto, em desespero libertando lágrimas por um futuro perdido e incerto.

Nos dias seguintes, para espanto da família, fechou-se no quarto, ao tenente Rodolfo passou a evitar, o doutor Simplício receitava caldos de galinha e sol da praia. Júlia definhava, amordaçada pelo segredo de um amor desfeito, condenada a ver-lhe fugir a felicidade, fechada no quarto frio escutando as badaladas em S.Martinho.

Os anos passaram. Com o tempo dedicou-se a causas filantrópicas, a morte do velho Adolfo deixou-a respirar, ficara só, mas consigo mesmo, as noites de insónia povoadas pela imagem de Alfredo, o noivo improvável que um destino quis impossível. O tenente Rodolfo casou com uma francesa, por alturas da revolução de 74 e já general foi compulsivamente aposentado, morreu nos anos oitenta.

Sintra foi-lhe  vendo passar os anos, imutável, petrificada como ela, moira encantada no castelo possível da velha casa na R. da Pendôa. Uma sobrinha tomava conta dela no ocaso da vida, reiterada e secretamente uma flor cobria ritualmente a campa de Alfredo em S.Marçal, breve se lhe juntaria, e aí sim, nenhum poder efémero e castrador os poderia separar.

Alice, a sobrinha, igualmente solteirona, suspeitava dum passado encarcerado naquela tia que só aos sessenta conheceu. Júlia lia, pintava da sua janela, captando nostálgica as patines de Sintra, os nevoeiros e brumas, Alfredo dentro delas por certo, na bicicleta. Já passados os oitenta, chamou Alice, indicando-lhe uma gaveta no psyché revelou estarem ali as suas últimas vontades, e num armário que só no dia da sua morte seria aberto, a roupa com que seria amortalhada.

Uma madrugada fria de Novembro de 2011, deitada na cama da velha casa de Sintra, sentiu uma bicicleta rolando lenta no lajedo exterior, um assobio familiar não lhe deixou dúvidas, sorriu, e partiu enfim com Alfredo, que sorria, os amarelecidos bilhetes para o paquete na mão. Alice encontrou-a serena e em paz, quando pela manhã a viu inerte e em paz, na cama de toda a vida.

Fechou-lhe os olhos, azuis claros, tão belos como dantes. Aberta a carta que a tia lhe entregara com as últimas vontades, continha a chave de uma mala, guardada no quarto do fundo, e um A grande em letra trabalhada com uma caneta de tinta permanente. Em baixo, as palavras “Com estas vestes te receberei”.

A misteriosa mala continha um belo e alvo vestido de noiva, a  jura de um amor não traído, avaramente negada em vida, de branco e de noiva, e com um bouquet de camélias nas mãos, partiria ao encontro de Alfredo, belo e forte, esperando-a há anos na sua bicicleta, o vestido guardado para essa boda que ninguém contrariaria.

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:05

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