por F. Morais Gomes

08
Jan 12

No laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:
-Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida, que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho,  sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro! -o professor chegava agora a um momento alto da sua carreira, a experiência que até ali só o cinema e a ficção científica haviam tentado. Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física na Universidade de Lisboa.

-Ao atravessarmos, vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair o que estiver ao alcance da sua força gravitacional para dentro de si, vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajarmos no tempo!
Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa e aquele mesmo local, o ano 1835.
Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relincharam à chegada do inesperado volume. Ainda tontos, de olhos esbugalhados confirmavam o sucesso da experiência: mesmo em frente e de construção recente, o Palácio das Necessidades, a guarda real rendia a parada, pensativo, um padre saia do palácio. O professor dirigiu-se a uma taberna, num esconso perto do palácio, e perguntou o que se passava:
-Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal- respondeu um galego, carregando um barril.
Guilherme recapitulou os conhecimentos de História, pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe Augusto de Leuchtenberg, primeiro marido de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas viria a morrer de difteria dois meses depois. Aí, teve uma ideia luminosa:
-Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos, e tentar salvá-lo!
-Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos de ser discretos, e arranjar roupas da época!
Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, chorosa, a rainha antevia já o desenlace ao fim de dois meses de casada, desesperada, qualquer conselho seria bem-vindo. Efectivamente, as amígdalas e faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus no fundo da boca, a produção da toxina e sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que trouxera do futuro, o professor, perante a incredulidade dos físicos presentes, administrou ao doente uma vacina que actuaria sobre o  sistema imunológico, bem como doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois, a febre baixou, o príncipe deu sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do real paciente, visitavam a Lisboa da época, tirando notas, apresentando-se aos mais desconfiados como académicos vindos da Prússia, o sucesso da recuperação do marido da rainha afastava quaisquer suspeitas.
Três dias depois voltaram ao presente, a registar a experiência e preparar novas viagens. O professor Adérito, um colega de Sintra ligou entretanto, queria trocar ideias com Guimarães sobre um acelerador de partículas, mal suspeitando do sucedido com o colega, já tentara ligar mas ninguém atendera. Sempre disponível para o Adérito, lá foi, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e campos de trigo se vislumbravam, a estrada de Sintra era um mero tapete em macadame e as hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou daquela selva de betão a que já se habituara. Na serra de Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, ao abandono. Abordando um transeunte que passeava na vila, sondou-o sobre o que sucedera:
-Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve Palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto em Sintra, nunca ninguém fez cá nada! -suspirou, em torno do Paço havia um pequeno terreiro e vinte a trinta casas rústicas, nada estava como poucos dias antes. Num arremedo luminoso, percebeu o que acontecera, e sem ter chegado a falar com o colega voltou para Lisboa, aceleradamente, precisava de falar com Guilherme com urgência:
-Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!
-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…
-Pior! Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto, alterámos o futuro!
-Como assim?
-D. Maria II depois de enviuvar casou em segundas núpcias, em 1836, como é sabido. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nem o Palácio da Pena nem tudo o que ele planeou foi construído. Mudámos a História de Portugal!
-Oh diabo, não nos lembrámos disso…- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa fé sugerira salvar o moribundo príncipe com difteria.
-Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!
Nessa noite, voltaram a accionaram a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se porém alguns meses desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de em nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães aproximou-se do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, acabado de chegar:
-Majestade, vai gostar muito desta sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso e com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até edificar lá uma casa de Verão, a rainha iria adorar….

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:02

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