por F. Morais Gomes

06
Fev 12
Estava a chegar, mesmo para os que não tinham jardim nem viviam nos campos, despertadas, as Criaturas da Mata anunciavam a presença, sinos do submundo tocavam, arautos da cor e clorofila, despertando perfume nas flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros tocava a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas invadiam libertinas os ares em  sagração, poisando em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonavam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, em busca da Iniciação Multicolor.Era o Começo.
Ostara chamava a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre o oceano e fortalezas homens ergueram templos à Floresta Mãe, reunia a Grande Assembleia de elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar o anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepitava no altar, ao lado, a vigorante poção dum druídico caldeirão saciava ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparecia, absorvendo o anel dourado na altura do ano em que  dia e noite se faziam iguais. Os dias escuros partiriam agora, a terra albergaria sementes, o mundo renovaria a Luz.
No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guardava sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa liberta da longa noite de  Inverno, entregavam-se ao ritual das fragrâncias, viajando por ramos e folhas, orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebrava, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.
Terráqueos da montanha colocavam flores no altar e no chão, no caldeirão água pura e flores esperavam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incensos e brancas velas se acendiam em acordo com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia, terráqueos assustados tocavam as plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane, Litha mais tarde celebraria o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada breve de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas ao eólico norte e à escuridão da tundra uivante.
Nas aldeias de Cynthia, as terras pediam sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometiam fertilidade, logo partiriam sulcando céus e mares, noites e dias, até o grande astro outra vez os trouxesse. Ostara, como sempre, protegiria Cynthia, antes a fizera rude e pedregosa, e agora apoteose do verde.
Toda a noite o fogo redentor aqueceu os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta e logo em melódico coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada nos frescos lagos, a Primavera reinaria enfim esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e coelhos nervosos saltitando. Os avaros dias do longo Inverno cresceriam generosos, frutos e plantas brotariam suculentos e em abundância, cardumes cruzariam os rios, serpenteantes patos se banhariam nos riachos atrás de irrequietas rãs.
No ano seguinte e em todos a seguir, assim seria até ao fim dos tempos, ou até que Odin na Valhalha juntasse os guerreiros no  esperado advento do Ragnarok. Cynthia veria choros, risos, lutos, borrascas, milagres, sagrado e eterno templo da floresta, e sempre no tempo em que o dia seria igual à noite, Ostara voltaria, fugaz e pitonisa, a espalhar a  redentora Luz.

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:26

De:

Data:
5 de Março de 2013 às 21:10


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