por F. Morais Gomes

07
Fev 12

Passando hoje 200 anos sobre o nascimento de Charles Dickens, reedito a história "Os pesadelos de Alfredo Regaleira",que se inspirou na sua obra "A Christmas Carol", adaptada a outros Scrooges mais próximos....

                  

 

Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2017 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, criado após o resgate do FMI  de 2011 e formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o  recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima  presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.

Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as associações  ou recebia os munícipes, o Orçamento  pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto  do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência e Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para a televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o Querida Júlia,as pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.

Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:

-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!

Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.

-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…

-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia  uma cena de  thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.

-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.

Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensava chamar a Policia, quando o vulto o advertiu que não abrisse a boca.

-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!

Mal tivera tempo de reagir e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandyscom casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu  na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:

-Suponho que sejas Sintra do presente…

O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem  fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.

De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercingsno lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Piriquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos piercingsapontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2018”, e  descontraído, um cachorro urinava em cima. Estarreceu, com suores frios.

Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.

Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.

-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?

Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens…

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:29

De:

Data:
5 de Março de 2013 às 21:10


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