por F. Morais Gomes

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Out 10

Dum torreão do palácio da Pena, em pé e silenciosa, do alto do seu 1,82m, aquela senhora idosa e de cabelo branco, rosto marcado pela vida, contemplava o vale, verde e húmido.

Chegara a Portugal dias antes, as armas fumegantes mal se haviam calado na Europa em destroços, o governo português autorizara e deixara-lhe os passos livres para uma sentida romagem de saudade.

Maria Amélia Luísa Helena de Orleães e Bragança, última rainha de Portugal, oitenta anos quase cumpridos, naquele Junho de 1945 voltava peregrinando o passado trinta e cinco anos depois daquela manhã em que um barco de pescadores apressadamente a levara para um exílio inesperado.

Uma pequena lágrima correu-lhe pela face, logo enxuta com um lenço de seda sempre na mão.

Naquele lugar vira Carlos pintar alguns desenhos que ela depois sarcasticamente criticava, para o aborrecer, rira divertida com as traquinices de Luís Filipe enfiado na farda de soldadinho de chumbo, passeara com o grand danois ,o Maurice, oferta do papá, o velho conde de Paris.

A Pena suscitava-lhe isso mesmo : pena. Ali passara a última noite em Portugal, escapando à pressa e deixando uma vida interrompida naquela correria louca para a Ericeira. Estivera já em Lisboa e Mafra. Vila Viçosa não, aí as memórias de Carlos eram muito mais fortes, amavelmente declinou o convite.

Pediu ao Fontão, antigo motorista da casa real, que agora, já velho e retirado, se oferecera para a guiar nesta jornada de saudade, que a deixasse a sós meia hora. Passando o arco do tritão, sorriu, melancolicamente, lembrando a vistosa recepção ali oferecida a Eddie, o rei Eduardo VII, seu grande amigo e de Carlos, as camélias na abegoaria, o povo, pobre e humilde, que a abordava nas bermas de Sintra, suplicando “monnaie! monnaie!”,naquele francês arrevesado , ânsia duma esmola caridosa que quase nunca negava.

Muito tempo passara, vivia há muito retirada em Versailles com os seus fantasmas e as suas fotos. O dr.Salazar, actual chefe do governo, oferecera-lhe asilo nos anos da guerra, mas preferira manter-se afastada na França ocupada. Depois da morte de Manuel e mais um golpe num coração já dilacerado, saía cada vez menos, fora uma melancólica sensação de proximidade da morte que a levara a procurar os seus espectros, a ir até eles nos locais onde os deixara, em sombras via a sogra, Maria Pia sarcástica e austera, Luís Filipe, garboso na farda de Lanceiros, as recepções, os pobres, as flores, Portugal, país de amor, ódio, veneração .

Como ia longe aquele dia em 1886, em que, noiva do herdeiro de Portugal a discreta filha dos condes de Paris, chegara à sua nova pátria, descendo tímida na Pampilhosa, e com o pé esquerdo, para dar sorte.

A sua vida, agora revisitada, oferecera desde cedo prenúncios de turbulência, logo no ano seguinte com a morte à nascença da pequena Maria. O reinado de Carlos fora sempre atribulado, afogado por aqueles políticos intriguistas sempre azucrinando, ao que ele reagia   piscando-lhe  um  olho maroto ou fazendo-se  desentendido, sorvendo o seu cachimbo ,cada vez mais ausente em Vila Viçosa ou Cascais.

Despertada daquela letargia, a que o clima de Sintra é favorável, voltou com o velho Fontão para Lisboa, a ver a reconstituição do iate Amélia que o Museu da Marinha havia exposto, e percorrer  a cidade, que muito mudara nas mãos do ministro Duarte Pacheco, a Avenida da Liberdade, o Marquês de Pombal, por todo o lado haviam coisas novas e sinais de modernidade. Sofrera muito neste país, mas não guardava rancor.

Subindo a Avenida Almirante Reis, plena de lojas e passantes no carro preto que o protocolo lhe destinara, perguntou ao Fontão como se chamava aquela avenida.

-Avenida D.Amélia,Majestade!.....-respondeu, sem hesitações, assim fora anos antes, ela bem o sabia.

Sorriu, e cerrou os olhos. Ao longe, uma ruidosa  varina  apregoava na Praça da Figueira.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:08

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