por F. Morais Gomes

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Out 10

-O Povo está! Com o MFA! -gritava a multidão Estefânea abaixo, pelo país igual, naquele 1º de Maio de 1974, mal refeito dos acontecimentos dos dias anteriores, festejando a reconquista da liberdade. Coisa nunca vista em Sintra, mesmo pelos antigos, pessoas desfilavam, braço dado, grande família reencontrada, faixas gigantes com a palavra liberdade, como se não bastasse tê-la conquistado e houvesse que gritar para que todos ouvissem.

Susana, eufórica, esperava o cortejo junto à Farmácia Simões, cravo vermelho na lapela, a alegria de criança com brinquedo novo, João vinha no cortejo, velhas personalidades de Sintra à cabeça, alguns militares à mistura, o símbolo do novo poder popular devolvido pelo povo de uniforme a todos os exangues da libertação.

O dr. Sargo, velho republicano e advogado, com residência fixa em Sintra desde os anos trinta, participara na revolta da Madeira, do general Sousa Dias, parecia uma criança, abraços aos companheiros, já falara com o Salgado Zenha, a Junta de Salvação Nacional convidara-o para o novo Governo.

Aqui e ali alguns descrentes profetas da desgraça assustavam com os perigos do comunismo. O Quintas, fiscal da Câmara e salazarista convicto, ainda três dias antes do golpe estivera num almoço da PIDE em Queluz, falava dos riscos da anarquia, o Spínola estava na mão dos capitães, foram questões de dinheiro, todos a orientar-se com as comissões em África, instigava.

O desfile, que começou na Vila Velha e seguiu pela Volta do Duche, terminando na Portela de Sintra, foi uma inesquecível procissão da democracia, liturgia da nova liberdade, crentes e conversos celebrando o milagre redentor, também ali no velho burgo.

João, sorriso aberto, a vasta cabeleira ao vento, chamou Susana à passagem junto à Farmácia Simões que logo correu para ele, rompendo pela multidão abraçando-o, beijo cúmplice, seguiram no cortejo, um país de braço dado. Daí a dois meses casariam, tudo parecia um sonho, já tinha um emprego apalavrado como telefonista no serviço de PBX que se previa abrir em breve.

O dr Sargo, na cabeça do cortejo ao passar pelo Capote avistou o José Alfredo à conversa com o Cortez Pinto e o Lacerda Tavares e acenou, olhar cúmplice, braço erguido, sorriso largo.

-Viva Portugal! -gritou, voz grossa de velho tribuno, qual general romano depois da conquista da Gália

-Viva! -responderam todos, com o Zé Alfredo a orquestrar, cabeça descoberta, olhos vivos brilhando por trás dos óculos de massa.

Um carro de som ecoava canções de libertação antes trauteadas em surdina nas cantinas universitárias, agora consagradas novos hinos. Fanhais, Luís Cília, Adriano, a marcha do MFA, curiosamente criada para o exército americano por um luso descendente John Philip de Sousa. A democracia ganhava novos ícones, os novos sons de Portugal chegavam a uma Sintra sonolenta, mais dada aos passeios pela Vila Velha que a grandes manifestações de rua, as maçãs da Urca e a montra do Parracho testemunhas da excitação popular. Mal sonhava o dr. Forjaz, que com pompa e circunstância recebera em Janeiro o ministro do Interior e antigo presidente da Câmara, Moreira Baptista, que menos de 3 meses depois o Portugal do “a bem da Nação” ficava ali arquivado na prateleira da História.

Com o 25 de Abril caiu a Câmara e foi designada uma Comissão Administrativa presidida por José Alfredo Costa Azevedo, com Cortez Pinto, Álvaro de Carvalho, Lino Paulo, entre outros, período conturbado, que culminou no afastamento, agastado, do grande Zé das lides políticas em 1976. Nesse período, teimoso, ainda conseguiu inaugurar a estátua a D.Fernando II, no Ramalhão, e inumar as cinzas de Ferreira de Castro na serra de Sintra.

As eleições para a Assembleia Constituinte em 75 e para a Assembleia da República em 76 deram a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, as autárquicas de 1976 valeram a Câmara ao PS, sob a presidência de Júlio Baptista dos Santos com Maria Barroso a presidir à Assembleia Municipal.

Susana, recentemente reformada da Portugal Telecom passando um destes dias com a neta a caminho do Tirol deu consigo inerte junto à Farmácia Simões assaltada por esses sons trinta e seis anos distantes.”O povo, unido, jamais será vencido!”ressoava, som cavernoso, imagem sépia, aquelas patilhas e cabelos compridos e calças à boca de sino. -Tão ridículos que éramos -pensou.

-Oh avó, andas ou não andas? -questionou a pequena, agitada, puxando-lhe o braço.

Subitamente desperta, apressou-se, o 441 para Fontanelas estava a passar.

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:45

Ainda tive a imensa sorte de conhecer o José Alfredo da Costa Azevedo, na sua casa, no Largo Ferreira de Castro. Em 1982, fui à antiga biblioteca (Palácio Valenças), à procura de documentação sobre o antigo Hotel Nunes e o José Alfredo ouviu-nos pedir essas informações e ofereceu-se logo para ir lá a casa mostrar os desenhos que ele próprio tinha feito, com o hotel ainda de pé. Fizemos uns slides desse desenho.
Nunca me esqueci desse encontro fortuito.
Foi o início da minha paixão por Sintra, que me faria mais tarde ir para lá morar e tornar-me para sempre seu filho adoptivo.
Um abraço saudoso de uma família sintrense temporariamente deslocada para a Atlântida.
Zé Maria a 16 de Outubro de 2010 às 11:59

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