por F. Morais Gomes

29
Jan 12

 


Formigando vêm e vão, a medo torneando o Grande Fosso onde banhos purificadores hoje fantasmas espreitam, miram estátuas, casas, o verde esmagador, frémito da natureza perto do burgo encantado. Anárquicos tiram fotos, com palácios, com árvores, com eles, registo furtivo do dia em que bafejados contemplaram a eternidade, de carro, de trem, a pé, de mão dada, olhar em torno, plantas sorrindo, garbosas e ternas, loquazes a manjar apetitosos doces. Pigmeus, privaram com os duendes e as secretas sentinelas da Floresta Feitiçeira: a sacerdotisa Llansol e o Grande Maior, o Zeus das árvores encimado pelo céu, logo um asténico Cruges, pena de pato aflita e trepidante, Herculano taciturno, Nunes Claro jardineiro de almas com o regador da palavra, todos guardados pelo mestre Carvalho, fleumático mago da Pena, vigiando da alameda.
Sigurd, Camões, Beckford, Byron, Zé Alfredo, M.S.Lourenço, condenados à Vida Eterna, já prestes se acomodam no Paço para o Banquete das Almas, Viana da Mota orquestrando, a medo os vivos invadindo o Templo, bafejados pela mercê dum fugaz usufruto da natureza generosa, onde só os Noviços da Vida têm entrada relâmpago, e com retorno. Cai a noite, um derradeiro ressoar de cascos dum cavalo branco tornejando o Parque quebra o torpor, logo impacientes gárgulas ganharão vida para a milenar patrulha dos cumes pedregosos e das chaminés fumegantes. O homem das castanhas recolhe, o cheiro invade as narinas com o bálsamo revigorante, qual estupefaciente poderoso. Ao longe e já perto, as duas chaminés, da lauta cozinha esfíngicos elmos acenam, num lento despedir, para à noite chegarem novos companheiros, esvoaçantes, temporais, tangíveis.
Um último relance, e partir. Distante, uma harpa sequestrada numa casa onde a luz mortiça quebra o negro da noite, despede-se do dia lacrimejando torpor, capturando em silêncio o cavalo inerte, e logo o regresso aos trens, à finitude, à vida sem viver, sobrevivente de sonhos, órfã de destinos, carente de Ser

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:27

23
Jan 12


Era uma vez um mouro nascido na terra das amendoeiras, vagamente marafado à nascença, foi pelo pai ainda jovem mandado a estudar na madrassa, contas e álgebra foram a vocação. Alto e esguio, tímido e encavacado, um dia partiu para o grande bazar, onde se dedicou à banca. Legumes, frutos, amêndoas, de tudo vendia o jovem, mouro de trabalho, poupando para o futuro , professor mais tarde na madrassa onde antes estudara.
Estando o Emirado dominado pelos almorávidas, indo passear um camelo novo,anunciou a jihad, ele que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e pregando a guerra santa chegou a emir. Allah u akbar!- gritou quando  de cimitarra em punho entrou no Palácio de Al Sanbent, perto da Grande Mesquita, seguido pelas tropas do Crescente Laranja.
Como emir fez obras, mas, mandado pelo Califado, mandou arrancar as amendoeiras e figueiras, fez estradas por todo o lado, mandou encostar os barcos e vender o gado, deu trabalho porém e os muezzin do minarete chamavam por ele como se o próprio Profeta fosse, senhor do Islam e pavor dos infiéis kafir , para ele nada mais que camelos.
Cansado, e tendo-se retirado dez anos, entendeu, ouvida uma moura encantada, voltar à Cidade Santa, para aplicar a sharia, mas os tempos haviam mudado e teve de o fazer com o vizir almorávida Youssuf El Socas, um estudioso de Filosofia e chefe das tribos do norte. Disputando a interpretação do Corão, deixou que se esbanjassem os dinares, obrigando a que enviados pelo Califado, três reis do Oriente chegassem trazendo ouro, incenso e mirra.
Envelhecido e agastado, Al Zeimer arrasta-se hoje, sem dinheiro nos cofres nem tâmaras na tenda, sem primavera árabe, resta-lhe o inverno em Bulik Eime,  se a isso os reis magos obrigarem e os dinares chegarem, na Coelha, se ao coelho dos três reis trocar os passos. A História guardará de Al Zeimer a memória de Ali Babá, que abrindo a gruta com palavras mágicas, logo, qual bolo-rei, se deixou levar por quarenta ladrões. Salam’alek, Al Zeimer, emir de Bulik Eime, senhor do Gharb Al Andaluz!

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:38

21
Jan 12


Terras Portucalenses, ano 928 da era cristã, a morte de Hermenegildo Gonçalves deixava-a senhora de vastas terras, de Portucale a Coimbra, viúva mas firme, a bisneta de Vimara Peres e tia de Ramiro II de Leão, Mumadona Peres, governaria com os terra tenentes, com mão forte como seu pai, o conde Diogo. Obesa e de olhos verdes, muitos anos levou tratando os seus domínios, arroteando as terras e ajudando a diocese.
Um dia, caminhando por uma ladeira, um velho cego duma vista, cantava uma melodia roufenha:
"Ai dona fea!/Foste-vos queixar/Que vos nunca louv'en meu trobar/Mais ora quero fazer un cantar/En que vos loarei toda via/E vedes como vos quero loar”
Reconhecendo-a, pediu um prato de sopa, tinha filhos com fome:
-Deus vos traga em sossego, condessa Mumadona. Poderíeis auxiliar um desvalido de vossas terras de Portucale, temente a Deus mas desprezado pelos homens?
A condessa, que escutou o maltrapilho cantando, pediu-lhe que repetisse a canção, espantado, o infeliz, de nome Ordonho cantou para ela, era uma toada alegre e descontraída, viúva entre homens, o coração de Mumadona alegrou-se, e mandou que o homem a procurasse na herdade de Vimaranes, lá o esperaria essa tarde.
Comparecendo e meio desconfiado, uma mesa com viandas e vinho aguardava o atarantado Ordonho. Mumadona sentou-se junto a ele, querendo saber mais sobre aquele homem, parco de letras e palavras certeiras, nunca no coro de Lorvão tal escutara.
Comendo avidamente, o camponês fitou a condessa e hesitou em falar, à vista de mais pão e vinho, lá se decidiu:
-Quereis saber onde aprendi tais canções? Com os pássaros na serra, escutando seus chilreios a eles juntando palavras dos enamorados sulcando os bosques de Vimaranes.
-Folgo em ouvir que em meus domínios se aprecia a música e enleva a palavra. Mais curial não era lavrares com arado ou cozer o pão?
-Alimento maior  para a alma é esse que o do corpo, senhora. Fazei de Vimaranes terra de canções e de trovas, mestres de cantaria e vitrais, e justificada fica a espada e a cruz, pois se por essas a lei de Deus se espalhará, pelas outras seu nome perpetuaremos!
Terminando, levantou-se e partiu pelas margens do Ave, Mumadona ficou a cismar e mandou chamar frei Torcato, que na matriz se cantasse e copistas fizessem iluminuras, braço da lei em terras portucalenses, queria em cada camponês um bardo e em cada lenhador um escriba. O frade cismou, mas lá se afinaram os coros e nos anos seguintes folgou em tangeres e trovas o condado de Portucale.
Vinte anos depois, Mumadona dividiu os domínios pelos seis filhos, vindo Gonçalo Mendes a ficar com o condado. Para si guardou Vimaranes, no sopé do Monte Largo, nessa herdade onde uma vez passara Ordonho erigiu mosteiro a S. Mamede, e logo um castelo, uma simples torre com cerca. Quando se sentiu envelhecer, a ele recolheu, recomendando a Gonçalo que fosse justo e ponderado:
-Sinto, meu filho, tranquilidade neste lugar, como se a bênção dos céus sobre ele caísse, sereno e devoto. Mouros espreitam, normandos também, teu punho forte lhe garantirá protecção, assim dando jus ao nome de teus antepassados!
Nesse dia, uma égua transportou Mumadona ao mosteiro, retirada das preocupações mundanas aí rezaria e faria votos o resto dos seus dias. Gonçalo pediu a bênção e acompanhou-a à porta, onde duas monjas a receberam. Entrando, olhou a planície e o castelo e não mais tornou a sair.
Mil e cem anos depois, a canção roufenha de Ordonho volta a terras de Vimaranes, por um ano cidade de tangeres e de escribas, de trovas e cantos muitos. É Guimarães, Capital da Cultura.

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:58

08
Jan 12

No laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:
-Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida, que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho,  sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro! -o professor chegava agora a um momento alto da sua carreira, a experiência que até ali só o cinema e a ficção científica haviam tentado. Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física na Universidade de Lisboa.

-Ao atravessarmos, vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair o que estiver ao alcance da sua força gravitacional para dentro de si, vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajarmos no tempo!
Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa e aquele mesmo local, o ano 1835.
Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relincharam à chegada do inesperado volume. Ainda tontos, de olhos esbugalhados confirmavam o sucesso da experiência: mesmo em frente e de construção recente, o Palácio das Necessidades, a guarda real rendia a parada, pensativo, um padre saia do palácio. O professor dirigiu-se a uma taberna, num esconso perto do palácio, e perguntou o que se passava:
-Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal- respondeu um galego, carregando um barril.
Guilherme recapitulou os conhecimentos de História, pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe Augusto de Leuchtenberg, primeiro marido de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas viria a morrer de difteria dois meses depois. Aí, teve uma ideia luminosa:
-Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos, e tentar salvá-lo!
-Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos de ser discretos, e arranjar roupas da época!
Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, chorosa, a rainha antevia já o desenlace ao fim de dois meses de casada, desesperada, qualquer conselho seria bem-vindo. Efectivamente, as amígdalas e faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus no fundo da boca, a produção da toxina e sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que trouxera do futuro, o professor, perante a incredulidade dos físicos presentes, administrou ao doente uma vacina que actuaria sobre o  sistema imunológico, bem como doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois, a febre baixou, o príncipe deu sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do real paciente, visitavam a Lisboa da época, tirando notas, apresentando-se aos mais desconfiados como académicos vindos da Prússia, o sucesso da recuperação do marido da rainha afastava quaisquer suspeitas.
Três dias depois voltaram ao presente, a registar a experiência e preparar novas viagens. O professor Adérito, um colega de Sintra ligou entretanto, queria trocar ideias com Guimarães sobre um acelerador de partículas, mal suspeitando do sucedido com o colega, já tentara ligar mas ninguém atendera. Sempre disponível para o Adérito, lá foi, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e campos de trigo se vislumbravam, a estrada de Sintra era um mero tapete em macadame e as hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou daquela selva de betão a que já se habituara. Na serra de Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, ao abandono. Abordando um transeunte que passeava na vila, sondou-o sobre o que sucedera:
-Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve Palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto em Sintra, nunca ninguém fez cá nada! -suspirou, em torno do Paço havia um pequeno terreiro e vinte a trinta casas rústicas, nada estava como poucos dias antes. Num arremedo luminoso, percebeu o que acontecera, e sem ter chegado a falar com o colega voltou para Lisboa, aceleradamente, precisava de falar com Guilherme com urgência:
-Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!
-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…
-Pior! Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto, alterámos o futuro!
-Como assim?
-D. Maria II depois de enviuvar casou em segundas núpcias, em 1836, como é sabido. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nem o Palácio da Pena nem tudo o que ele planeou foi construído. Mudámos a História de Portugal!
-Oh diabo, não nos lembrámos disso…- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa fé sugerira salvar o moribundo príncipe com difteria.
-Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!
Nessa noite, voltaram a accionaram a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se porém alguns meses desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de em nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães aproximou-se do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, acabado de chegar:
-Majestade, vai gostar muito desta sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso e com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até edificar lá uma casa de Verão, a rainha iria adorar….

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:02

27
Dez 11

O seráfico ministro Gaspar terminava mais uma sonolenta mas aviltante fatwa contra o bolso dos contribuintes, Francisco, acabando o jantar já indisposto, apressou-se a mudar o canal para algo menos aterrador, passava um filme sobre tubarões brancos no Discovery. De má em má notícia, o professor de Literatura na Leal da Câmara, apressou-se a abafar mais uma com um brandy caseiro que trouxera de Cantanhede, da casa do pai. O toque da campainha anunciou a chegada do Edgar, colega do liceu, docente de História, para um serão já combinado antes do Natal. Oferecido um brandy velho, não negou, sentando-se na poltrona frente à televisão onde tubarões grandes perseguiam peixinhos no Pacífico, os cortes dos subsídios ainda tema de conversa:

-Pois é Chico, ouviste o Passos Coelho? “Democratizar a economia“, “devolver a confiança”...Já não há pachorra para estes tipos!. Ainda por cima com aquele ar de aluno da catequese, saiu pior que o Sócrates!

-Os dias que Portugal vive, a mim, fazem lembrar-me o Sermão do Bom Ladrão do Padre António Vieira. Acho mesmo que vou falar disso aos meus alunos agora no regresso das férias do Natal.

-Padre António Vieira não é a minha praia, Chico, qual é esse sermão?-Edgar, interessado, ia saboreando o brandy como quem nele colhe sabedoria e calor para animar a conversa:

-Hoje está muito esquecido, os brasileiros chamaram-lhe Paiaçu, o Grande Padre, mas se releres muito do que escreveu, encontrarás muita actualidade nos seus escritos. Premonitórios, até!- levantando-se, Francisco sacou um livro da estante enquanto na televisão um tubarão branco fazia mossa numa praia da Florida- Foi o homem que disse: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”. Erguendo o livro como uma preciosidade, apontou-o na direcção de Edgar: Este homem não foi um génio, foi oxigénio!- rematou, como quem revela uma profecia, voltando para a cadeira e um segundo brandy:

-A história é mais ou menos esta: pediu um ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino, e a lembrança que este teve foi que ambos se vissem juntos no Paraíso. Nem os reis podem ir para o paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir para o inferno sem levar consigo os reis. A restituição do alheio não só deve obrigar os súbditos como aos seus senhores. E leu um pouco: "Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso". Percebeste?Encriptada, aqui está uma grande verdade, e foi um português que viu mais à frente que o seu tempo que a disse, Edgar!

O amigo, saboreando a bebida, meneava a cabeça em tom de assentimento, dando continuidade à conversa:

-Quer dizer: roubar é tomar o alheio violentamente contra a vontade do dono; os que mandam tomam muitas coisas aos que governam, violentamente, e contra a sua vontade: logo, o roubo é lícito nalguns casos, porque, se se dissesse que quem manda, assim fazendo, age errado, todos eles, ou quase todos se condenariam a si próprios. Aliás, já S.Tomás de Aquino dizia que se os príncipes tiram aos súbditos o que por justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde que os que mandam, estão obrigados à restituição, como os ladrões, e  pecam mais gravemente que os ladrões, quanto mais perigoso e mais comum é o dano com que ofendem a justiça de que são supostos defensores.

-Nem mais, meu caro. Vês a actualidade desse texto? O mundo não mudou assim tanto, nestes anos….. Olha, gosto particularmente deste trecho: “os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos. Neste Sermão do Bom Ladrão, o Vieira conta um diálogo ocorrido entre um pirata e Alexandre Magno, rei da Macedónia que foi educado por Aristóteles. Navegava Alexandre pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como trouxessem à sua presença um pirata que andava roubando os pescadores, repreendeu-o Alexandre por andar em tão má vida; porém, ele, respondeu assim:" Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? - Assim é. "O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres”-empolgado, Francisco lia em voz alta o livro com frases sublinhadas, seria uma matéria interessante para dar aos alunos no segundo período.E continuou:

-Moral da historia, Edgar? O ladrão que rouba para comer não vai para o inferno; os que vão, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera. Os ladrões que mais propriamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, o governo ou a administração das cidades, os quais com manha e força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam os homens. Estes roubam cidades e países; os outros furtam com risco: estes sem temer, nem desplante; os outros se furtam, são presos: estes prendem e perseguem.

-No fundo, o mundo é um mundo de ladrões. Adão e Eva não foram os primeiros, ao roubar a maçã? E Cristo ao morrer não o foi ao lado de dois ladrões, a quem disse, “hoje mesmo estareis comigo no Paraíso”?- Edgar surpreendia-se consigo mesmo, da cozinha Mena, a mulher do Chico chegava trazendo café e bolo-rei, sobrara muito da consoada.

-O mal é que hoje os ladrões são mais ainda, e estão bastante dissimulados. A maior parte até diz roubar para nosso bem!- rematou o Francisco. Cansado dos tubarões, mudou o canal com o comando, sem novidade, aparecia agora o ministro Relvas a anunciar novos cortes para cumprir o memorando da troika.

-Estes canais hoje só dão programas com predadores...- atirou com ironia enfadada a Mena, cortando o resto do bolo-rei.

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:26

26
Dez 11

Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 com a avó Sara, em S.Martinho, a catequese com o padre Mateus, nariz em forma de gavião, sempre pronto a ameaçar com o Inferno o venal pecado de rir nas aulas de Religião e Moral, desfilara até vestido de anjinho numa procissão do Senhor dos Passos, enfiado num cetim branco com asas que a Ermelinda levara uma semana a coser. Com os anos, afastara-se das igrejas, apenas revisitadas para casamentos e missas de corpo presente, era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens a que os artefactos se dirigiam.

Passados os quarenta e separado de Matilde, voltara a passar o Natal com a mãe em Sintra, devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S.Martinho no dia seguinte ao Natal, a custo arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento raro com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que  aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e aquele cheiro a flores frescas, geralmente cheiro a mortos, das coroas que rodeiam os caixões nos rotineiros velórios que de vez em quando tinha de acompanhar.

Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas, num ritual de anos desde que enviuvara do Américo do talho, Roberto, agora em Lisboa, deixou-se levar pelo silêncio ritual dos preparativos, perto do T1 na Expo onde morava nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Saiu a ver as vistas,faltavam uns minutos para a missa, a caminho da Periquita viu passar o Gregório, velho colega do liceu, não o via há muito e correu a abraçá-lo, recordando o futebol de salão e os anos nos juniores do Hóckey de Sintra:

-Gregório! Então, pá? Há quantos anos!Estás na mesma,velho amigo! Essa barriguinha é que…- Roberto ficou feliz de o rever, já nos quarenta também, há anos que não se encontravam. Soubera que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista em Lisboa, o Natal e o fim de semana com o filho para o Natal, traziam-no a Sintra para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses, sentia-se na obrigação de passar o Natal com a mãe, na velha casa nos Pisões.

-Venham de lá esses ossos, grande Roberto!- o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e já esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto  encontrava o Roberto da sua infância igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de meia Sintra nos bons anos oitenta - Vais à missa?- questionou o Gregório, vendo-o perto da entrada de S.Martinho.

-Que remédio, a minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro….

Gregório sorriu, insistindo com o amigo:

-Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus?- Gregório provocava o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou:

-Nunca leste o Christopher Hitchens, que morreu há duas semanas? Escreveu um livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele!

Gregório fez uma pausa, e pondo o braço no ombro do amigo retorquiu:

-Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda não tínhamos disso noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-activa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional, daí que o ateísmo nunca possa ser científico mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres.

-Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!- e o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa te admito: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte!O Freud já explicou isso tudo!

Gregório sorriu, indulgente. Com a torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando no ar um comentário final:

-Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em nome de muitas fés se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho!. Se calhar ainda os vou ver por aí…

Voltando para a porta da igreja, já composta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, em silêncio, sentava-se numa fila da frente com a avó, terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze anos lhe haviam sido familiares. Disparando, a música do órgão anunciava o início da missa, todos em pé saudavam a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o velho padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas com sobrepeliz verde e mitra, reconheceu o Gregório. O velho amigo do Hockéy com quem palestrara minutos antes, era afinal o pároco de S.Martinho. Aproximando-se um pouco das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços, dando início da missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho ringue do Parque da Liberdade.

-O Senhor esteja convosco!- saudou, alegre e bem disposto o padre Gregório.

-Ele está no meio de nós! -respondeu a assembleia em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando, uma missa de quando em quando não faria mal por certo.

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:49

25
Dez 11

Arnaldo raramente ia à praia, enfiado naquele sótão da Rinchoa onde escrevia poemas que ninguém lia, tesouro da sua gaveta, confessionário dum ser torpedeado de inseguranças e fantasmas. Existia sem viver. Depois da consulta no hospital, na véspera de Natal, e a notícia de um fim próximo, tabaco fazendo das suas, sentiu a necessidade de estar perto da água salgada, sentir o cheiro límpido do iodo. A consoada passou sozinho, no dia de Natal, pela manhã, aterrou na esplanada deserta da Praia Grande sequioso de whiskies duplos. Ninguém nos ensina a morrer, todos os dias da vida, porém, são intervalos que a morte nos concede, sabia-o agora.

Um cancro no pulmão intrometia-se, indesejável. No início, a surpresa, a hipótese do engano, a segunda opinião. Depois, o desespero, presença insuportável, lágrimas, mágoa, as dores como companheiras mais chegadas. Estava só, naquela morte de viver, os livros que nunca editaria, tudo comprometido por um corpo frágil e tangível, qual anjo caído, pecador, mergulhado em culpas secretas a quem iam faltando asas para voar. Exaurido do mundo, exaurido de si, talvez finalmente descansasse. Em volta, uma casa amarela expelia o fumo duma lareira que por certo crepitara toda a noite, crianças alegres dormiriam  agarradas aos brinquedos que apesar da crise os pais não lhes terão com sacrifício negado.

Antevia já a campa inerte onde poucas flores lhe iriam levar, uma lápide burocrática e igual a todas as outras, ninguém para lembrar a obra por editar, só um solitário funcionário do registo civil escrevinhando em guardanapos de papel na mesa da leitaria do bairro, obras-primas da sua gaveta secreta, fumando os três religiosos maços de cigarros diários. Agora acendia mentalmente o cigarro, e fumava em imaginação, comprara até um isqueiro de plástico para se enganar. A quimioterapia fazia das suas, os cabelos caíndo agarrados ao pente, a tosse purulenta, os olhos inchados.

Uma vez mais pegou na caneta e num guardanapo de papel e ensaiou um testamento, requiem dos bens que não tinha, para uma família que há muita perdera. Quando tudo acaba, há a tentação absurda de escrever para imortalidade. Redigiu umas linhas, levantou-se, passeando no areal, deixando um trilho de pegadas na areia molhada. Ignorou o médico, e fumou um dos cigarros assassinos, o mal estava feito, afinal.

À noite, a roupa foi encontrada numa rocha, o corpo nunca apareceu. Um empregado da esplanada, limpando as mesas, deu com um pequeno papel amarrotado dentro de um cinzeiro, curioso, foi ler.”Hoje começa o dia de amanhã”. Refastelada de coscorões e cabrito, uma família passeava pela falésia, respirando o vento frio e purificador do Natal.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:20

20
Dez 11

Mais um Natal.Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria e solteirões inveterados, à meia-noite trocaram presentes e comeram bolo-rei, agora sem brinde e sem piada, comentava o Gaspar.

Baltasar, 51, era o mais velho, e gerente da loja, muitas alianças de casamento vendidas, nunca a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho de ouro.Com Gaspar iniciaram o negócio há oito anos, chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante, até hoje sem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, depois de um casamento falhado, conheceu os outros dois numa viagem à Turquia, durante um tour de camelo em Ismir e acabou  partilhando o negócio e a casa no Banzão.

Na véspera de Natal haviam tido algum movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo, à noite em paz jantaram e foram à missa do galo em Colares.

Pela manhã de 25 de Dezembro, coube a Melchior despejar o lixo, tarefa rotativa de acordo com as regras  lá  de casa, papeis dos embrulhos, a caixa do bolo rei e uns restos dos camarões tigre da ceia de Natal, que bacalhau lá em casa não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria, que por ser feriado não fora trabalhar, eles mesmo acomodavam a sala e cozinha e iriam almoçar mais tarde à Ericeira. Apesar do tempo chuvoso, sempre dava para arejar e desentorpecer as pernas.

Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar junto ao contentor, algum cão buscando sobras de peru, pensou. Curioso, aproximou-se. Uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava encostada mesmo ao lado do contentor e parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado se lhe deparou um bebé, ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã fria do dia de Natal.

Olhou em redor ainda atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e a medo, de quem nunca pegou num recém-nascido antes, agasalhou-o com o casaco de lã que vestia e levou-o para casa.

Baltasar fazia a barba, enquanto Gaspar dolente fazia zapping com o comando, todos os canais na bênção do Papa, comentou entediado, o passo ofegante de Melchior com um volume nos braços assustou-os.

-Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito! - exibiu Melchior um ensanguentado e roxo nascituro, um rapaz ,segundo vira logo.

Baltasar e Gaspar miraram-no atarantados, Baltasar ainda com creme da barba na cara. O pequeno dormitava, inocente, porém já órfão.

-Tem de se avisar a polícia. Mas esperem, vamos dar-lhe banho primeiro -sugeriu Gaspar, logo correndo a buscar um alguidar com água quente.

-E comida? Há algum biberão?

-Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço. Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades! -logo destinou Baltazar, improvável baby-sitter sem experiência  com crianças.

Com o barulho, o bebé acordou, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareciam vinte horas, foram deitando leite morno nos lábios da criaturinha que logo sugava instintiva, e dizendo aquelas patetices que se dizem aos bebés como se fossem bonecos.

Regressado Melchior, dividiram as tarefas daquela original manhã do dia de Natal, e uma hora depois já o rebento dormitava na cama de Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, com o trio embevecido adorando aquela cena que pensavam só acontecer nos filmes. Sócrates, o gato siamês, assistia a tudo espantado, e miava sem saber o que se estava a passar, comida não era.

Entretanto chegou a Maria, apesar do feriado passara a saber se era preciso alguma coisa. Maria, vinte e dois anos, separada de fresco do Zé Luís, entretanto despedido da carpintaria do Ikea, ficou abismada com a história e, maternal, logo ficou a tomar conta do pequeno anjo, nascido não em manjedoura, mas num caixote da câmara de Sintra. Ela própria  passara recentemente por um traumatizante aborto involuntário, e agora, ali um bebé, poderia ter sido o seu, salvo  numa chuvosa mas radiante manhã de vida no presépio do Banzão.

Chegada a autoridade, deslocaram-se todos para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço, ternurentos, o colocaram em cima de uma secretária junto à árvore de Natal da esquadra, ao fundo num televisor um coro alemão cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, por certo, formalidades, mas logo Baltasar e os outros quiseram seguir o caso, se os pais não aparecessem estavam interessados em criá-lo. Gaspar, mais crente, associava o acontecimento a mais que uma coincidência, e logo na data que fora.

Reluzindo às cores com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem algum drama pessoal conduzira ao abandono atroz, parecia sorrir na alcofa com todos em volta mirando, silenciosos, mas de coração grande.

No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar da manhã de Natal, a vida renovava-se e o que por certo seria mais um drama da vida madrasta de famélicos de 2011, prenunciava agora novos começos numa vida sempre a recomeçar.

-Há-de chamar-se Salvador! -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçando o sorriso de esperança, maternidade reencontrada junto com três  tios  emprestados para o que desse e viesse.

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:20

30
Nov 11

O momento era solene na Quinta do Espingardeiro. Sua Alteza Real El-Rei D.Duarte II, novo rei de Portugal, recebia os conjurados que o haviam restaurado na Coroa depois dos extraordinários eventos daquela manhã.

Assinalando-se como de costume a romagem do 1º de Dezembro, grupos monárquicos haviam convocado para esse dia e através do Facebook e SMS uma manifestação contra o regime no Terreiro do Paço em  protesto contra a degradação das instituições e do prestígio do país. Bloggers do 31 da Armada, João Braga, Paes do Amaral, Paulo Teixeira Pinto, entre outros, estavam entre os promotores e cedo se juntaram no local onde em 1908 o saudoso rei D.Carlos fora assassinado por cobardes carbonários.

Habitualmente discreta e pouco participativa, desta vez muita juventude marcava presença, descontente com o estado das coisas, afinal os melhores anos de glória nacional foram sob a égide de reis e em novecentos anos oitocentos haviam sido em monarquia.

Rápido alguns milhares acorreram em apoio.O fadista João Braga, usando da palavra ,incitava contra os corruptos e vendilhões da Pátria, momento em que um grupo mais determinado apelou a que se restaurasse a monarquia no país. Inflamados e fugindo ao controlo dos poucos policias destacados, marcharam até à fragata Corte-Real, ancorada em Alcântara, onde em dia de folga só o oficial de dia e alguns marinheiros permaneciam. Invadindo a mesmo e aprisionado o pobre tenente de serviço, fuzileiros veteranos à paisana apoderaram-se do navio e do paiol, para gáudio da populaça,com  nacionalistas e skinheads à mistura, bem como alguns noctívagos pouco antes vindos duma noite nas docas, conduzindo o amotinado vaso de guerra para Belém, onde  via rádio e já frente ao palácio presidencial contactaram o Estado Maior da Armada.Mal este imaginava que vinha aí um 31…

Enquanto grupos civis cortavam os acessos a Belém e S.Bento e as saídas dos cacilheiros e metro, os do Corte- Real ameaçavam com fogo sobre o Palácio e exigiam a rendição do Presidente da República. Este encontrava-se na residência da R. do Possôlo, ironicamente acabando uma fatia de bolo-rei... O Chefe da Casa Militar tentava parlamentar com os revoltosos, enquanto o presidente era evacuado para a Base Aérea nº1, em Sintra.

Entretanto,Paes do Amaral, conde Cantanhede ia-se desdobrando em contactos com a comunicação social, captando apoios e tempos de antena, a CNN ,alertada, tinha já um correspondente no terreno. D.Duarte, que se encontrava tranquilamente a beber um café na Natália, em S.Pedro,pelo telemóvel ia sendo informado do curso dos acontecimentos.

O ministro Relvas, informado pelo telefone, ameaçava com a força militar. A Armada ainda tentou accionar o novo submarino, o Tridente, mas este tinha o pessoal ainda em formação e nunca fizera tiro real. Os Comandos, surpreendidos, não tinham operacionais ou artilharia, estava tudo no Kosovo e Afeganistão.

Pelas quatro horas, os conjurados com o apoio de forças civis invadiram o  Palácio de Belém, apeando a foto de Cavaco Silva e içando a bandeira azul e branca. Uma proclamação ao país circulava já nos SMS e no Facebook. Mais bandeiras azuis e brancas se multiplicavam agora nas ruas da Baixa e no  mastro do Castelo de S. Jorge.

Às cinco horas, sem tropas ou apoios e sem derramamento de sangue,caía a III República implantada a 25 de Abril de 1974.As redes sociais estavam entupidas e os telemóveis saturados,o Hino da Carta era o vídeo mais visto no You Tube.

Por essa hora, na casa de Sintra, D.Duarte recebia uma delegação de conjurados que em exaltação patriótica o proclamaram legítimo herdeiro do trono gritando real por el-rei de Portugal. Ainda atónito e rodeado de Isabel Herédia e dos filhos, aceitou o pesado fardo que o povo português, nação de gente boa lhe pedia, e em cortejo trunfal partiu para a Ajuda num UMM blindado, escoltado por motards e campinos a cavalo.O bisavô D.Miguel, derrotado em Évoramonte exultaria por certo lá onde estivesse.

Na sala do trono no Palácio da Ajuda logo as forças armadas prestavam lealdade ao novo monarca, enquanto as chancelarias europeias mandavam felicitações, quase todas monarquias por sinal, os primos da Holanda, Juan Carlos,Alberto II,Beatriz, tudo família.

Dirigindo-se da janela ao povo eufórico que aos milhares ali se juntara e envergando o manto branco que pertencera a D.Carlos, o novo rei prometia democracia e pluralismo ,respeito pela tradição e julgamentos isentos para os derrotados, seria um monarca constitucional e moderno. Frente à multidão inflamada,uma banda no final tocou o Hino da Carta. Os Braganças estavam de volta.

Depois, as primeiras medidas: a extinção da Guarda Nacional Republicana substituída pela Guarda Real, a convocação de Cortes, a nomeação dum governo, chefiado por Paulo Teixeira Pinto. A aclamação oficial de D.Duarte II ocorreria na Sé um mês depois, perante o clero, a nobreza, e os parceiros sociais.

Ainda nessa noite, o deposto presidente Cavaco Silva partiu para o exílio em Lanzarote, ficando com residência fixa numa vivenda onde outro português já morara. Perturbado, ao embarcar  falava sozinho e soltava frases sem sentido, como alimentar o monstro e violar e-mails.O ex-primeiro ministro Passos Coelho, ameaçado com prisão se regressasse, ficou pela Guiné, onde visitava a família da esposa, onde lhe foi oferecido um lugar numa empresa de Ângelo Correia. Nas ruas, o povo exultava, grupos de forcados de Salvaterra e ganadeiros de Alter acorriam a celebrar o novo rei, agora  reinstalado e não mais embuçado. Uma corrida à antiga portuguesa celebraria com pompa a entronização, a velha nobreza, os marialvas estavam vingados.

Refreadas as emoções desse dia histórico, havia que retomar a administração da coisa pública. Três dias depois, Conselho de Ministros das Finanças da UE em Bruxelas. O novo ministro, agora rebaptizado da Fazenda, o marquês da Amareleja, muito cumprimentado pelos outros colegas ouvia o plano de resgate para a economia portuguesa: liberalizar os despedimentos, tirar mais 3% suplementar aos vencimentos, privatizar toda a segurança social. Desolado, pedia tempo para o novo regime atacar os problemas e dar a volta à trapalhada herdada dos republicanos, ainda estavam em estado de graça. Sorumbáticos, os colegas negaram, monarquia ou república   estavam ali para resolver problemas a sério e não para reinar….

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:35

22
Nov 11

Manhã cinzenta e ventosa, alheia, a serra eléctrica empunhada por vulto amarelo e vermelho avançava segura para a execução da sentença: o abate. Culpadas de antiguidade, de folhagens invasivas, de suspeitas alergias, demasiadamente verdes e roubando espaço aos carros, esses novos habitantes, formigueiros e anacrónicos buscando espaço na Vila.

D.Ermelinda, chegando à janela onde o Tareco já se instalara vendo a agitação, ainda no roupão coçado e rolos no cabelo, apressou-se a aplaudir:

-Já não era sem tempo! Estas árvores só fazem é moléstia! Ó sr.Arlindo, ainda a semana passado caiu aqui uma ramagem que me partiu um vaso da varanda!- comentou para o Arlindo do talho, que chegando à porta assistia às manobras, um segundo carro ia recolhendo os galhos logo transformados em serradura.

-Isto queria era tudo abaixo, menina Ermelinda!- sentenciou o talhante para a velha solteirona. E se fossem todas, não se perdia nada, que o que faz aqui falta é estacionamento! -acrescentou, antevendo já mais dois ou três lugares para os clientes, que assim, mais comodamente encostariam a comprar bifes e enchidos das melhores proveniências.

Um plátano e duas tílias, sentinelas de décadas perfumando a Vila, tombaram em meia hora. Desolada, a rua deixava a descoberto rachas e mazelas no velho casario, que a sombra e porte das malogradas árvores escondiam, a cúpula dos paços do concelho via-se agora nitidamente, enquanto os homens de amarelo e vermelho avançavam para a rua seguinte.

Sempre atento, chegou entretanto Pedro Nogueira. Jornalista aposentado, dedicava-se agora a um blogue que criara para denunciar situações destas. Sintra ia soçobrando de ano para ano, sob a ameaça do cutelo, só ele e um punhado mais se interessavam por manter as árvores, no mínimo que se explicassem razões, ouvissem os moradores, uma vez mais os burocratas do machado levavam a melhor.Junto do suposto chefe quis apurar motivos:

-Desculpe lá, amigo, quem ordenou o abate destas árvores? Trabalham para quem?

Um gordo com ar boçal e bigode farfalhudo, olhando de soslaio e  medindo-o de alto abaixo, escarrando para o lado, despachou o Nogueira com ar de quem não tem de dar explicações:

-Isto é ordem da Câmara! Está tudo podre, não vê? Olhe, esta aqui mais uma semana e era capaz de cair em cima do telhado ali!- rosnou, apontando o prédio da Ermelinda, onde o gato, o  Tareco, se instalara para assistir às operações- Eu aqui só cumpro ordens, mas por mim iam todas, isto só faz é lixo!- rematou, afastando-se a dar ordens a um brasileiro que do alto da grua ia decepando a tília lentamente.

Pedro ia tirando fotos, chegariam tarde, mas mostrariam a execução antes do trânsito em julgado da sentença. Chegado o Rodrigo, dum grupo ambientalista, tentou ainda demover do abate. Nada a fazer, era uma empreitada, quando mais rápido melhor, a ver se a Câmara pagava antes do Natal. Com a crise, este trabalhito vinha a calhar, havia que despachar.

-Então e é para plantar aqui o quê, agora?- sondou Rodrigo, mandando SMS para vários lados.

-Isso já não é connosco. Por mim, nada. É alcatroar e limpar. Não acha que já há árvores a mais? Não lhe chega a serra, cheia de secos e matagal? Também é desses amigos das florzinhas?- desdenhou o capataz, ordenando a progressão para a árvore seguinte. Queixem-se ao Totta, que eu a mim tanto se me dá!

A meio da manhã um descampado nu e desolador deixava expostas as portadas em ruínas da casa da Ermelinda. O Fidélio do café ainda sondou um dos homens, tentando levar lenha para casa, secaria no telheiro. Analisando o tronco viril e de decénios, nada denunciava as supostas doenças. Pedro ia recolhendo provas da execução sumária, meneando a cabeça, posto que se ia consumando a purga. Fotos dos troncos mostravam que mais uns anos durariam por certo:

-É o que dão as obras mal feitas, amigo Pedro!- consolou o Rodrigo, a preparar um comunicado de repúdio da sua organização. Enfiam-se manilhas, cabos, ferem-se as raízes, e depois fica fácil justificar os abates. É este o país que  temos!- rematou, colando-se ao telemóvel.

A chuva engrossava. Com o chá ao lume, a Ermelinda voltou para a cozinha, o Tareco ronronando junto às pernas, o Arlindo voltou para o talho a aviar dois frangos para a D.Lurdes da retrosaria, chegando  o meio dia, os da serra partiram para o ritual almoço, ritmado pela sirene dos bombeiros soando ao longe. No dia seguinte, cantoneiros da Câmara replantariam com granito o sítio onde durante anos floresceram árvores, agora só guardadas na sépia dos postais, ou na objectiva revoltada do Pedro. Felizmente para a Ermelinda, não teria de se preocupar mais com o anti-alérgico de sete euros, respiraria agora ar puro e a luz, acolhedora invadiria o saguão para felicidade do Tareco, já velho de sete vidas, Em S.Martinho, as doze badaladas pontuavam o dia, malogradas, as árvores não morreriam de pé.

Foto do blogue Rio das Maçãs

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:21

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