por F. Morais Gomes

19
Nov 10

Intervalo da Cimeira da NATO, Lisboa. Duas horas de folga antes da reunião com o presidente afegão, Karzai, Obama chamou o conselheiro de imprensa:

-Bob, estes discursos são mais chatos que os do Tea Party.Inventa ai um compromisso para eu poder respirar um pouco…

-Yes, mr. president, -assentou logo o assessor, yuppie de gravata, um quanto nerd, viera  com a equipa que fizera a campanha.

Apenas  com Todd, prestável agente dos serviços secretos na pendura, Obama, carro de matrícula nacional arranjado na embaixada, guiou pelos arredores de Lisboa, paisagens a lembrar Atlantic City, seguiu pela marginal. A alguma distância, carros da CIA, olhos bem abertos não surgisse um suicida em Algés ou um talibã em Paço de Arcos, a ideia deixara os hiperactivos seguranças da Casa Branca com os cabelos em pé. Obama, presidente há 2 anos, apesar de chamuscado pelas realidades da política, Sarah Palin à perna, ainda não interiorizara as liturgias da White House, nada como um Big Mac com cogumelos no restaurante da esquina, flirtando Michelle, como nos tempos de Chicago.

Com o auxílio de um GPS, mal desconfiavam os pacatos moradores da linha que disfarçado ali ia o chefe da maior potência do mundo.Tirou fotos com o Blackberry na Boca do Inferno, ao longe descortinou o palácio da Pena.

-Sítio interessante, aquele.É um telescópio ?- aventou, lembrando-lhe um posto de observação-Não me parece, sir.-encolheu os ombros o agente, o seu mundo ia de Brooklyn a Harlem, castelos só nas fitas do Errol Flynn, -Deve ser algum cenário dum filme!-e ia ajustando o auricular por trás dos Ray Ban.

Obama quis ir conhecer o local, rolaram para Sintra, agentes no Ramalhão, carrinha de vidros fumados.

A Vila saboreava mais uma tarde de Outono, um vendedor apregoava castanhas assadas frente ao palácio. Apontando para o assador, cheiro penetrante, pediu uma dúzia, logo aviado. Ao pagar, o velho problema: um presidente nunca tem de pagar nada, não tem carteira, Todd pagou, deixou 50 dolares, estava feita a tarde do estupefacto vendedor.

Algumas pessoas olhavam de soslaio, era tal e qual o Obama, um velhote junto ao Café Paris, comentava para um vizinho:

-Ó Ti Chico, aquele camone parece mesmo o da América, o Obana

-Obama, ti Zé, Obama- e dirigindo-se a um divertido Barack que comia castanhas, lançou:

-Amigo,você podia ganhar umas coroas a tirar fotos aí com os turistas, a fazer de Obama, o gajo lá da América!-atirou, dando uma palmadinha no ombro, Todd impulsivamente a segurar-lhe o braço, nunca se sabe onde está um novo Lee Oswald.

-What, amigo? -sorriu o presidente- e oferecendo uma castanha-You have nice fruits here, whant some?

Ti Zé encolheu os ombros, em inglês só sabia dizer yes.

O segurança já olhava o relógio, havia que regressar ao Parque das Nações, uma última volta pela Piriquita, comprou uns travesseiros para Michelle. Fernando Cunha, o dono, ainda o mirou desconfiado, Todd lá largou mais 50 dolares, havia que voltar.

O carro ficara junto ao Turismo.Mal abriu a porta, viu no passeio em frente um vulto familiar, uma senhora de meia-idade, loura, baixa, olhando uma montra. Mirou, intrigado, ela, sentindo-se observada, acenou, automatismo rotineiro.Olhar logo pasmado.

-Barack?

-It’s not possible! Angela!

Era Angela Merkel, a chanceler alemã.Entediada, também fugira a fazer umas compras, logo afectuoso cumprimento, quando contasse na Casa Branca , Michelle havia de rir a bom rir.

-Então também iludistes a segurança ?- comentou, divertido.

-Ya, veio só um segurança comigo. Sabes, estas reuniões são uma seca, e depois o Sócrates e o Papandreou não me largam a pedir dinheiro, o Sarkozy armado em engatatão…-desabafou, político sofre.

-Sabes que mais? Vou mandar o meu chief of staff dizer que estamos a ultimar uma proposta para o G-20 e vamos tomar um chá e uns scones-sugeriu Obama, qual traquina fugindo das aulas com a amiga.

-Wunderbahr! -largou Angela, pequeno gritinho, uma fatia de bolo de chocolate também iria bem.

Eram seis da tarde, na sala de chá do Lawrence um bule fumegava e os dois senhores do mundo bebiam chá de camomila e contavam anedotas, dois agentes na rua em stress, Sintra anoitecia por entre o fumo das castanhas assadas. No Parque das Nações, o presidente afegão esperava, desesperando por um narguilé e entretinha-se simulando jogos de guerra num Magalhães que Sócrates prontamente lhe arranjara explicando que podia ser o futuro das escolas no Afeganistão....


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:27

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