por F. Morais Gomes

12
Set 10

Embalado pelo lento torpor outonal que anuncia o  virar de ciclo da estiagem sonolenta para o ritual despir das árvores, lembro do canto da velha roseira do jardim memórias da infância de veraneante burguês, a banhos em Sintra, com toldo ao mês na Praia das Maçãs e nêsperas suculentas das árvores da velha quinta.

Lembro o velho café do Alcino, durante décadas pensão e café, onde muitos de nós, veraneantes dos anos sessenta e setenta, ali assistimos ás tertúlias nocturnas de Agosto, quando as famílias da capital vinham a banhos,e se vestiam para ir à noite ao café, local de encontro social onde se escolhiam músicas na jukebox,, se admiravam os shows de ilusionismo do Xaimix, esse Merlin de aldeia que fazia chover moedas das nossas orelhas  e, onde nos gloriosos anos do Pantera Negra no Mundial de Inglaterra, se chegou a pagar para assistir aos jogos, numa das primeiras televisões que por lá apareceram, ainda abauladas e com falhas regulares na ligação á Eurovisão, enquanto se bebia um “pirolito” ou uma Laranjina C.

E havia o Salão, com cinema e teatro (cinco escudos dois filmes),e os matraquilhos "ao perde paga",e apanhavam-se enguias no rio, e tocava-se viola e ficava-se na conversa até ás 5 da manhã encostados aos muros das casas até que os galos da manhã cantavam e finalmente  um sono confortante nos esperava. Era um mundo imutável,  previsível, aconchego de certezas e promessas de felicidade renovada a cada Verão. E assim passaram anos, e décadas, e a sépia virou cor, as televisões viraram  rectangulares e os toldos ao mês mudaram para Sul.

Como parecia longa a viagem de 3 horas entre Lisboa e Sintra, por dentro da Amadora e Massamá (ainda sem prédios),e os carros da Sintra Atlântico e do Eduardo Jorge, os pêssegos gigantes e as maçãs reinetas, e as noites cacimbadas a falar de tudo no velho café do Alcino, inventando peças de teatro que depois se gravava altas horas da noite em bobinas de fita.

Um dia chegou um tempo novo, madrugada dita redentora, e as árvores viram novos personagens, novos sons, cartazes nas paredes, caseiros que agora também se sentavam na mesa dos “senhores de Lisboa”.Várias luas e sóis passaram, as mesmas árvores e ventos renovaram a sua magia todos os anos, e  de novo cá esperamos, como se da primeira vez se tratasse, mais um Outono intruso mas familiar, com a brisa leve vinda desse mar oceano soprando sobre a velha casa cheia de mundos idos e outros ainda a vir.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:56

Ao domingo pela manhã, é tempo de cumprir o ritual de ler os jornais para ver a opinião publicada e a partir daí passar-se também a ter opinião, já não própria mas de acordo com as tendências.A  preferência dos leitores varia conforme a proximidade dos factos:é mais importante o assalto da carteira da vizinha, reportado em parangonas, que o eventual lançamento dum míssil pela Coreia do Norte.

Aos domingos, entre a meia de leite, o desportivo de acordo com o clube de paixão, e umas partidas e chegadas para o centro comercial mais próximo, todos têm os seus 5 minutos de antena:"eles" é que são os culpados."eles" levam "isto" ao abismo, "nós" temos de aguentar, "eles" falharam o penálti, "nós" ganhámos.Nada é real, tudo resiste, persiste, mas não existe se não na forma como olhamos para o Outro.E assim vamos suspirando vítimas "disto" por entre nostalgias quotidianas onde o azul é cor fugidia e o cinzento forte paira como karma, por culpa "deles".

Procura-se a Verdade, mas ela nunca vai verdadeiramente lá estar pois cada um vai reclamar a sua, avassalada pelo estigma, a insegurança de tempos finitos.

Enfim, o mundo tem 4 ínfimos minutos,e convêm deixar alguns segundos ao domingo de manhã para salvá-lo, entre um pão de leite e uma bica pingada, e talvez, se o Sol brilha e o clube ganhou, uma tosta mista ou um favaios.

A serra vigia,o eléctrico passa na dolência de velho elefante,e nós esperamos o Godot que nos há-de trazer um jornal só de boas notícias e nos resgate do cinzento.É mais uma bica, por favor!

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:10

Eis um escrevinhador sob a égide de Baruch Spinoza: "Interessam-me os factos humanos não para aplaudi-los ou censurá-los, mas meramente para compreendê-los". Porque não há só preto ou  branco, muito cinzento por aí há também.

Alguém disse que quem não é revolucionário aos 20 anos, não tem coração, mas quem é aos 40 não tem cabeça. Revolucionar é viver sossegadamente inquieto, buscando ítacas tangíveis nos mares revoltos da incerteza, num tempo em que Cristo e Marx voltaram para o baú da História, e o blogue solitário venceu as tertúlias de café pondo milhões a "comunicar" sem falar e  discutir sem argumentar, quando as críticas dispensam a voz sentida e exaltam o teclado solitário, desassossegue-se, pois, pelo meio de um café. Com adoçante.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:53

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