por F. Morais Gomes

20
Out 10

2h30 da manhã, urgência do Amadora-Sintra, sala branca e sem graça, cadeiras desconfortáveis, pessoas provisoriamente sentadas à espera da romagem para o balcão seguinte, burocratas da doença, mangas de alpaca da água oxigenada, sempre sempre ao lado da vinheta e da credencial.

O segurança vai dizendo que só pode entrar um familiar, enfermeiras assargentadas olham os doentes como bife do acém em matadouro. Sangra? Gabinete nº 2 porta esquerda, a doutora vem já, tenha as análises à mão. É da ADSE? Cartão, por favor. Não, este não, que já caducou. E sempre o cheiro a álcool etílico e as macas de tinta raspada, velhos seminus deitados em impessoais marquesas esperando o milagre duma aspirina ou duma atenção.

3h30m, alguém vem tirar a febre, siga para a  sala de tratamentos, o enfermeiro fuma um cigarro e faz gracinhas com a colega,ausente, soslaio sobranceiro sobre o utente, deve ser mais um que  gosta de vir chatear à noite, a família não o quer em casa. Muda o turno dos enfermeiros, o meu colega não me disse nada, não, é melhor ir tirar a febre de novo, sala 3,  senha 19.

Espera de novo na sala branca com cheiro a água oxigenada. Na TV passa o Dr.House, aqui não há médicos desses, resmunga um careca desdentado,passou um parecido coxo ,mas velho e feio,o doente da série morre, e eu? As dores não passam, o ar sofrido de quando se vai aos hospitais ,espera-se, trânsito cadenciado dos que entram com a dor na cara e saem com um papel na mão.

4h30m,sala de espera, uma senhora de meia idade e um filho  adulto esperam novas do marido e pai, caíra na sala, talvez AVC, tinha a tensão alta, disseram, a fábrica ia fechar e os descontos não dão para viver, há a  prestação do carro para pagar. Uma hora lá para dentro, nada de notícias.A máquina das águas está avariada, comeu a moeda.

Finalmente um médico, barba de três dias, desfraldado, mais um, é a rotina.

-Familiares de João Silvestre?-olhar agastado, burocrático, duas noites de banco seguidas.

-Sim, sou a esposa.O meu João está melhor sôtor?

-Tenho más notícias. O seu marido infelizmente não aguentou, os meus sentimentos.Despacha célere, um acidentado no IC-19 jorra sangue e tripas na cirurgia.

Choro tonitruante, o filho agarra a mãe, o hospital solidário, nós a seguir se calhar, calha a todos, isto quando começam a mexer.

Um copo de água com açúcar, um calmante depois,respirava saúde, notícias, há autópsia?, choro convulsivo, mundo a desabar.

O filho aborda a enfermeira no guichet, outra já, mudara o turno.

-Quando pode vir a família levantar o corpo?-arrisca, dor contida, o  filho-homem agora chefe de família.

Um olhar  seco,em silêncio. Nome completo?

-João Almeida Silvestre

Computador, consulta rápida ao armazém de pacientes feitos números.

-Esse senhor está na radiologia à espera de ser visto, ainda leva uma meia hora.

Estupefacção,surpresa, alegria,ao menos um final feliz. Que não, o falecido era o João Gomes Silvestre, acontece, trabalhar em stress, agora com os 5% a menos nos ordenados, acontece, anda tudo com com a cabeça fora do sítio, ai ,ai…

Abraço ao Lázaro ressuscitado em Queluz,parece impossível,isto só cá, emoções fortes na noite, uns analgésicos, quinze dias de baixa, depressão nervosa, repouso absoluto.

Á saída, já táxi chamado para a Abrunheira, uma enfermeira correndo atrás até junto da porta

-Senhor João Silvestre! Por favor!

-Sim,aconteceu alguma coisa?- os três detendo-se, noite de surpresas.

-Faltam os dois euros e quarenta e cinco da taxa moderadora. Está coberto pela ADSE?

publicado por Fernando Morais Gomes às 08:39

18
Out 10

Pierre Schlumberger, o alsaciano milionário do petróleo passeava por entre as luminárias e archotes da Quinta do Vinagre, inspeccionando os pormenores para a festa do ano enquanto repórteres da Time e Paris Match chegavam a Colares.250 militares da GNR garantiam a segurança dos mais de 1200 convidados servidos por cerca de 200 criados impecavelmente vestidos de libré, dois dias antes da festa que outro milionário, o boliviano Anteñor Patino daria na sua quinta no Alcoitão, era o momento de brilhar.

Pierre acabara de se retirar da direcção da Schlumberger Well Surveying Corporation, com actividade em Houston e sede em Curaçao, depois de desde 1956 assegurar a presidência da mesma. Seu pai, Marcel e seu tio Conrad haviam iniciado os proveitosos negócios da Schlumberger em 1927.Petróleo, equipamentos eléctricos, mais de 343 milhões de dollares em vendas só em 1966, era apenas parte do império construído em quarenta anos.

Com mais tempo disponível, era tempo de mostrar ao mundo o poderio dos Schlumberger. Casara quatro anos antes com Sãozinha, uma portuguesa com sangue alemão, que estudara História em Lisboa e o convencera a comprar aquela quinta em Colares.

A casa era quinhentista, ricamente decorada. Mandara vir Picassos, tapeçarias, samovars, castiçais.Vinte quartos, onde durante meses decoradores e arquitectos prepararam um cenário feérico, mais de três milhões de dólares de ostentação. No pátio da entrada, onde pontificava uma comprida varanda aberta assente sobre colunatas um tanque com dois leões heráldicos rematava o conjunto.

Antes da festa, alguns momentos a sós com Sãozinha, um anel de brilhantes mais a  premiar o bom gosto que como anfitriã emprestava a toda a parafernália desaguada em Colares.

Na noite de 3 de Setembro de 1968 toda a beautiful people, confluía para Lisboa. Jactos, iates, bólides, todos os que foram bafejados pelo almejado convite. Não ir à festa Schlumberger era ser condenado à irrelevância. Até ministros quiseram ir, Salazar opôs-se porém, havia que ter contenção, já iam as filhas do senhor almirante Tomás.

À hora aprazada, o glamour da Europa e da América, o exotismo asiático, playboys, tycoons da finança, desfilavam pela estrada de Colares enquanto nas bermas, populares dando largas ao voyerismo tentavam identificar as estrelas, apreciar os vestidos, as jóias, os decotes das celebridades:o rei Umberto de Itália, Juscelino Kubitschek, os duques de Bedford, a princesa Ira von Furstenberg, Vincente Minnelli, Zsa Zsa Gabor, Audrey Hepburn, Françoise Sagan ,Gina Lollobrigida, a Begum Aga Khan, entre outros.

Flûtes de champanhe  e canapés de lagosta circulavam ao som de duas orquestras, qual conto e fadas, mas  daqueles que à meia noite os cocheiros não viram ratos nem as carruagens abóboras. Alguns populares acenavam, a condessa Rotschild trazia mesmo uma tiara cópia  fiel de uma que viram a Grace do Mónaco, asseveravam alguns.

Gina Lollobrigida, a mais decotada, desde o Palace do Estoril que vinha seguida pelos papparazzi, de repente canalizados para um exótico palacete em Colares. Audrey Hepburn recordou que nessa noite eram os 51 anos de Henry Ford II, e lá veio o “happy birthday,dear Henry”.

Os guardas da GNR, entre o pasmo e o assombro contemplavam aquela Sodoma de pavões e peruas, as luzes admiráveis, a fartura de comida e bebidas, que gentilmente os anfitriões puseram à sua disposição. O cabo Antunes, recentemente transferido de Mesão Frio, sentia-se  chefe dos guardas em Buckingham Palace, tendo montado um perímetro entre Almoçageme e Galamares onde só carros de alta cilindrada circulavam. Ainda provara uma coisa chamada cabiar, disse depois lá no posto, mas para ele aquelas mariquices não davam,umas  bolinhas pretas sem sabor a nada, antes uma posta mirandesa com um tinto do Dão, reclamara, a comida dos finos não puxa carroça.

A ex-rainha Soraya, da Pérsia, alertada para a ocorrência dum sismo no seu país nesse dia, comentava com Curd Jurgens que sismos há muitos, mas bailes como aquele eram imperdíveis, que não a incomodassem com essas trivialidades…

Sãozinha obsequiava, os milhões de Pierre eram mais que suficientes para a “festinha”, como lhe chamara. O vestido deslumbrante, meteria o da empertigada Duquesa de Argyll, uma das dez mais bem vestidas do mundo, num sapato, passeando o seu charme regado a Chanel pelos jardins da Quinta do Vinagre.

Como era exótico este Portugal em 1968.Num país onde as notícias frequentes eram da partida de soldados para o Ultramar ou os festivais da canção onde o jet set doméstico desfilava anualmente, ocorriam duas festas rivais com dois dias de intervalo apenas separadas pelas dezenas de vestidos, penteados, diademas, charutos, e uma serra silenciosa e serena.

Por cá, aproximava-se o fim de uma era. A 6 de Setembro, à noite, um carro saía de São Bento. Salazar, com o médico, Eduardo Coelho, ao lado e o director da PIDE, Silva Pais, à frente, seguiam a caminho do Hospital de S.José. Os médicos não se entendiam quanto ao diagnóstico mas concordavam que era preciso operar, o que aconteceu a 7 de Setembro. Uma cadeira, que por certo não viera da festa milionária, havia feito das suas…


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:42

17
Out 10

A Santa Catarina de Ribamar partiu de Goa para o Reino a 17 de Março de 1635, sob o comando de D.Luís de Castanheda de Vasconcelos. Deveria ter levantado ferro em Dezembro, mais propício a passar sem moléstias a monção no Cabo e depois as calmarias da Guiné,mas  o vice-rei insistiu em retardar a partida para que o capitão de Ceilão, D. Jorge de Menezes, de regresso a Lisboa pudesse embarcar nesta carreira, junto com a esposa e filhos, para assumir o governo de S.Paulo de Piratininga, no Brasil. Só a 26 de Fevereiro D.Jorge chegara a Goa, os tratos com a feitoria de Cochim para o embarque da pimenta estavam igualmente atrasados.

Em dia calmo, finalmente embarcaram as 470 almas e escravos, o padre pregador da Ordem de S.Agostinho, o provincial da Companhia de Jesus, capitães e oficiais da Casa do Rei, de regresso, fartos carregamentos. 700 toneladas de poderio comercial português apoiadas por 30 canhões de bronze,  150 soldados,  44 marinheiros, 17 artilheiros, 30 grumetes e 10 pajens sob as velas latinas de Portugal, por essa altura tutelado em Madrid.

A viagem correu de feição até Melinde, panos em cima e velas de gávea, em Sacotorá carregaram víveres e biscoito, águas quentes no Golfo de Ormuz.Naus holandesas nem uma, algum vento forte em Mombaça.

Farta era a carga. Para cima de quatro quintais de pimenta, no corpo da nau, debaixo da ponte e na tolda, caixões de fazendas por todo o lado, junto ao batel e mesmo junto ao cabrestante, tintas de tingir, canela de Damão, de sorte que as velas mal podiam ser mareadas, a cobiça dos homens poderia saír cara.

Passadas as águas austrais, cinco mortos do mal de Luanda, escorbuto purulento, tombaram numa só semana, iam já quatro meses de viagem e mais de quinze a bordo padeciam de moléstias próprias do clima, o provincial dos jesuítas rezava para afastar o enjoo, os tratantes cuidavam pelas suas mercadorias, que chegadas a Lisboa logo seguiriam para Antuérpia e Bruges, passado o crivo dos funcionários régios na Casa da Índia.

Á passagem de Fernando Pó tomaram precauções, pois os holandeses espreitavam, sagazes. D.Luís montou um dispositivo de defesa e nomeou Samuel Saraiva para o convés,Filipe Araújo para a proa e João Afonso de Aguiar para a tolda. Além das trinta peças de bronze, 8 canhões de sessenta quintais que atiravam pelouros de vinte e quatro libras de ferro coado reforçavam a defesa. D.Pedro Hilário de Angra, coadjutor militar, mandou limpar os mosquetes e arcabuzes e fazer turnos de vigia. As águas permaneciam pacíficas, porém, holandeses só mais para as costas do Recife.

Passados eram sete meses e três semanas de viagem, a Mina à vista, logo Mazagão e finalmente mais uma carreira das índias preparava-se para arribar em calmaria a Lisboa.

Entrava Novembro quando avistaram o promontório da Roca, na costa de Sintra, o destino a poucas léguas. Mar alteroso, nortada fria, chuva furiosa para os lados de Alvidrar. D.Luís, inquieto, mandou baixar as velas, percebendo uma revolta anormal naquele mar soez, que nem no Cabo das Tormentas se havia até então sentido, sacudindo a pesada embarcação, carregada das mercadorias que a ganância permitira.

Após forte borrasca, começou a abrir fendas pelas picas e delgados da popa, descosendo-se por vários lados, cuspindo a estopa e calafetado. Vários caíram ao mar, logo se afogando por não saberem nadar, a mulher do capitão de Ceilão Ana Telles, rezando, agarrada aos filhos, alguns ratos fugidos do porão serpenteavam pelo convés.

Em desespero, D.Luís mandou aliviar a carga e caixões de fazendas foram arremessados borda fora, os canhões rolavam desgovernados num baile tétrico, qual castigo de deuses orquestrado pelo Olimpo. A distribuição da carga não ajudava a equilibrar o navio, a quilha apresentava o desgaste de muitas monções e baixos de água nas praias do Índico. O porão, carcomido pelas algas e águas chocas, exibia fragilidade, capturado pelas águas invasoras.

Após duas horas de tormenta, qual frágil cesto de fruta, despedaçou-se o navio almirante contra as rochas. Pouco faltava para o nascer do dia de 2 de Novembro quando a natureza capturou a sua presa, num  cenário de gritos impotentes, corpos a boiar, fazendas despedaçadas, o madeirame a quebrar contra as escarpas alcantiladas da Roca. O mar  estava roxo  e negro o céu.

O capitão-mor, quebrantado, morreu ao passar pelo convés, no arrebento do virador, desandando o cabrestante com tanta fúria que, alcançado por uma barra, logo morreu.Apenas quinze esfarrapados e esbugalhados infelizes arribaram à Adraga e Alvidrar em restos de tábuas flutuantes.

O Santa Catarina de Ribamar repetia o fado do Nuestra Señora de la Concepcion, naufragado na Praia das Maçãs em 1620,retornado de Porto Rico, e do Nuestra Señora de la Encarnacion , que Pedro Rebolo perdera entre a Roca e Cascais em 1611. Aquele Adamastor, que escorria os medos do mar sem fundo, atacava uma vez mais,frio e gélido, nos penhascos de Sintra.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:08

16
Out 10

-O Povo está! Com o MFA! -gritava a multidão Estefânea abaixo, pelo país igual, naquele 1º de Maio de 1974, mal refeito dos acontecimentos dos dias anteriores, festejando a reconquista da liberdade. Coisa nunca vista em Sintra, mesmo pelos antigos, pessoas desfilavam, braço dado, grande família reencontrada, faixas gigantes com a palavra liberdade, como se não bastasse tê-la conquistado e houvesse que gritar para que todos ouvissem.

Susana, eufórica, esperava o cortejo junto à Farmácia Simões, cravo vermelho na lapela, a alegria de criança com brinquedo novo, João vinha no cortejo, velhas personalidades de Sintra à cabeça, alguns militares à mistura, o símbolo do novo poder popular devolvido pelo povo de uniforme a todos os exangues da libertação.

O dr. Sargo, velho republicano e advogado, com residência fixa em Sintra desde os anos trinta, participara na revolta da Madeira, do general Sousa Dias, parecia uma criança, abraços aos companheiros, já falara com o Salgado Zenha, a Junta de Salvação Nacional convidara-o para o novo Governo.

Aqui e ali alguns descrentes profetas da desgraça assustavam com os perigos do comunismo. O Quintas, fiscal da Câmara e salazarista convicto, ainda três dias antes do golpe estivera num almoço da PIDE em Queluz, falava dos riscos da anarquia, o Spínola estava na mão dos capitães, foram questões de dinheiro, todos a orientar-se com as comissões em África, instigava.

O desfile, que começou na Vila Velha e seguiu pela Volta do Duche, terminando na Portela de Sintra, foi uma inesquecível procissão da democracia, liturgia da nova liberdade, crentes e conversos celebrando o milagre redentor, também ali no velho burgo.

João, sorriso aberto, a vasta cabeleira ao vento, chamou Susana à passagem junto à Farmácia Simões que logo correu para ele, rompendo pela multidão abraçando-o, beijo cúmplice, seguiram no cortejo, um país de braço dado. Daí a dois meses casariam, tudo parecia um sonho, já tinha um emprego apalavrado como telefonista no serviço de PBX que se previa abrir em breve.

O dr Sargo, na cabeça do cortejo ao passar pelo Capote avistou o José Alfredo à conversa com o Cortez Pinto e o Lacerda Tavares e acenou, olhar cúmplice, braço erguido, sorriso largo.

-Viva Portugal! -gritou, voz grossa de velho tribuno, qual general romano depois da conquista da Gália

-Viva! -responderam todos, com o Zé Alfredo a orquestrar, cabeça descoberta, olhos vivos brilhando por trás dos óculos de massa.

Um carro de som ecoava canções de libertação antes trauteadas em surdina nas cantinas universitárias, agora consagradas novos hinos. Fanhais, Luís Cília, Adriano, a marcha do MFA, curiosamente criada para o exército americano por um luso descendente John Philip de Sousa. A democracia ganhava novos ícones, os novos sons de Portugal chegavam a uma Sintra sonolenta, mais dada aos passeios pela Vila Velha que a grandes manifestações de rua, as maçãs da Urca e a montra do Parracho testemunhas da excitação popular. Mal sonhava o dr. Forjaz, que com pompa e circunstância recebera em Janeiro o ministro do Interior e antigo presidente da Câmara, Moreira Baptista, que menos de 3 meses depois o Portugal do “a bem da Nação” ficava ali arquivado na prateleira da História.

Com o 25 de Abril caiu a Câmara e foi designada uma Comissão Administrativa presidida por José Alfredo Costa Azevedo, com Cortez Pinto, Álvaro de Carvalho, Lino Paulo, entre outros, período conturbado, que culminou no afastamento, agastado, do grande Zé das lides políticas em 1976. Nesse período, teimoso, ainda conseguiu inaugurar a estátua a D.Fernando II, no Ramalhão, e inumar as cinzas de Ferreira de Castro na serra de Sintra.

As eleições para a Assembleia Constituinte em 75 e para a Assembleia da República em 76 deram a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, as autárquicas de 1976 valeram a Câmara ao PS, sob a presidência de Júlio Baptista dos Santos com Maria Barroso a presidir à Assembleia Municipal.

Susana, recentemente reformada da Portugal Telecom passando um destes dias com a neta a caminho do Tirol deu consigo inerte junto à Farmácia Simões assaltada por esses sons trinta e seis anos distantes.”O povo, unido, jamais será vencido!”ressoava, som cavernoso, imagem sépia, aquelas patilhas e cabelos compridos e calças à boca de sino. -Tão ridículos que éramos -pensou.

-Oh avó, andas ou não andas? -questionou a pequena, agitada, puxando-lhe o braço.

Subitamente desperta, apressou-se, o 441 para Fontanelas estava a passar.

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:45

15
Out 10

Dum torreão do palácio da Pena, em pé e silenciosa, do alto do seu 1,82m, aquela senhora idosa e de cabelo branco, rosto marcado pela vida, contemplava o vale, verde e húmido.

Chegara a Portugal dias antes, as armas fumegantes mal se haviam calado na Europa em destroços, o governo português autorizara e deixara-lhe os passos livres para uma sentida romagem de saudade.

Maria Amélia Luísa Helena de Orleães e Bragança, última rainha de Portugal, oitenta anos quase cumpridos, naquele Junho de 1945 voltava peregrinando o passado trinta e cinco anos depois daquela manhã em que um barco de pescadores apressadamente a levara para um exílio inesperado.

Uma pequena lágrima correu-lhe pela face, logo enxuta com um lenço de seda sempre na mão.

Naquele lugar vira Carlos pintar alguns desenhos que ela depois sarcasticamente criticava, para o aborrecer, rira divertida com as traquinices de Luís Filipe enfiado na farda de soldadinho de chumbo, passeara com o grand danois ,o Maurice, oferta do papá, o velho conde de Paris.

A Pena suscitava-lhe isso mesmo : pena. Ali passara a última noite em Portugal, escapando à pressa e deixando uma vida interrompida naquela correria louca para a Ericeira. Estivera já em Lisboa e Mafra. Vila Viçosa não, aí as memórias de Carlos eram muito mais fortes, amavelmente declinou o convite.

Pediu ao Fontão, antigo motorista da casa real, que agora, já velho e retirado, se oferecera para a guiar nesta jornada de saudade, que a deixasse a sós meia hora. Passando o arco do tritão, sorriu, melancolicamente, lembrando a vistosa recepção ali oferecida a Eddie, o rei Eduardo VII, seu grande amigo e de Carlos, as camélias na abegoaria, o povo, pobre e humilde, que a abordava nas bermas de Sintra, suplicando “monnaie! monnaie!”,naquele francês arrevesado , ânsia duma esmola caridosa que quase nunca negava.

Muito tempo passara, vivia há muito retirada em Versailles com os seus fantasmas e as suas fotos. O dr.Salazar, actual chefe do governo, oferecera-lhe asilo nos anos da guerra, mas preferira manter-se afastada na França ocupada. Depois da morte de Manuel e mais um golpe num coração já dilacerado, saía cada vez menos, fora uma melancólica sensação de proximidade da morte que a levara a procurar os seus espectros, a ir até eles nos locais onde os deixara, em sombras via a sogra, Maria Pia sarcástica e austera, Luís Filipe, garboso na farda de Lanceiros, as recepções, os pobres, as flores, Portugal, país de amor, ódio, veneração .

Como ia longe aquele dia em 1886, em que, noiva do herdeiro de Portugal a discreta filha dos condes de Paris, chegara à sua nova pátria, descendo tímida na Pampilhosa, e com o pé esquerdo, para dar sorte.

A sua vida, agora revisitada, oferecera desde cedo prenúncios de turbulência, logo no ano seguinte com a morte à nascença da pequena Maria. O reinado de Carlos fora sempre atribulado, afogado por aqueles políticos intriguistas sempre azucrinando, ao que ele reagia   piscando-lhe  um  olho maroto ou fazendo-se  desentendido, sorvendo o seu cachimbo ,cada vez mais ausente em Vila Viçosa ou Cascais.

Despertada daquela letargia, a que o clima de Sintra é favorável, voltou com o velho Fontão para Lisboa, a ver a reconstituição do iate Amélia que o Museu da Marinha havia exposto, e percorrer  a cidade, que muito mudara nas mãos do ministro Duarte Pacheco, a Avenida da Liberdade, o Marquês de Pombal, por todo o lado haviam coisas novas e sinais de modernidade. Sofrera muito neste país, mas não guardava rancor.

Subindo a Avenida Almirante Reis, plena de lojas e passantes no carro preto que o protocolo lhe destinara, perguntou ao Fontão como se chamava aquela avenida.

-Avenida D.Amélia,Majestade!.....-respondeu, sem hesitações, assim fora anos antes, ela bem o sabia.

Sorriu, e cerrou os olhos. Ao longe, uma ruidosa  varina  apregoava na Praça da Figueira.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:08

14
Out 10

Olhar absorto, dedos férreos, tez altiva. Na pequena sala, pinturas campestres inglesas e tectos de flores em papel estampado, ecoavam os acordes cristalinos dum piano solitário, voz obediente a seu mestre e criador.

Viana da Mota ensaiava para um concerto em Galamares, no cineteatro que em boa hora o Visconde de Monserrate mandara erigir, pequena ilha numa floresta de palácios altivos e férteis pomares, concerto de angariação de verbas para a electrificação da estrada até Colares. Pedira a comissão de melhoramentos e com prazer anuíra.

Já à beira dos sessenta e cinco, sempre tivera Sintra no coração. Desfiando aquele piano com o transe próprio dum profundo apaixonado, ensaiava a sós o concerto que essa noite tocaria a favor dessa luz tão necessária ao progresso.

Brincando com as notas, familiares e cúmplices, recordava os anos já longínquos em que vindo duma roça nos trópicos aportara a essa Colares húmida e silenciosa, palco de pescarias no rio da sua infância. Os primeiros concertos no Salão da Trindade, jovem e aplaudida promessa da música. E acima de tudo, a felicidade daquele dia em que a doce condessa Elise lhe anunciou a vontade de pagar os estudos com Scharwenka, em Berlim.

Nunca esqueceria a emoção desse encontro no chalé de cortiça na Pena, e mais tarde da récita, onde jovem executante, perante D. Fernando, a condessa d’Edla e convidados, tocara pela primeira vez  “Au bord du lac de Pena”, que compusera em sua homenagem. Gratidão de artista paga-se com arte, pensou.

Pela tarde, chegava entretanto o gerador da Sintra- Atlântico para iluminar a sala para o concerto, que as famílias abastadas amavelmente pagariam. Viana da Mota ensaiava agora andamentos mais exaltados, levado pelo eco daquela sala ainda vazia.

Escolhera as “Cenas da Montanha” para abertura, o von Bullow sempre lhe dissera que era um dos seus temas mais conseguidos, partes da “Evocação dos Lusíadas”a seguir. No fim, se a luz não falhasse, “A Pátria”, a sua imagem de marca, que o visconde sublimemente apreciava e a plateia quase sempre reclamava.

Era 15 de Setembro de 1923, o Outono afastava já os veraneantes para a capital, havia risco de não encher, disseram. Viana da Mota adorava o desafio, porém. Que viessem dois mas bons em vez de trinta a bocejar.

A sala afinal encheu afinal, senhores de fato impecável, senhoras com os melhores chapéus, os homens da Sintra-Atlântico, a cultura juntando-se ao progresso. Cumprimentos, vénias, Guilherme Oram, feitor da casa Monserrate, verificando os pormenores, as tosses da praxe, a função.

Saudando com uma simples vénia, José Viana da Mota saboreou o silêncio expectante que sempre ocorre nos recitais, e depois dum momento sepulcral, qual guerreiro alucinado de espada em riste, esperando a fera desafiadora, espalhou o néctar inebriante de melodias redentoras sobre aquele cineteatro ufano e orgulhoso, São Carlos de aldeia, nem por isso menos vibrante e atento. Toda a família do visconde assistia, Eduardo Gaio e esposa, também pianista amadora, os Farias, da casa do visconde, bombeiros, autoridades. Algum povo, desconfiado e distante não deixava de espreitar ou ouvir no exterior.

Nessa noite mágica e luminosa, os tordos na serra fizeram silêncio, os sapos abafaram o coaxar, o som hipnotizado e hipnotizador do piano  mágico atravessou o vale e Monserrate,  agitando as acácias, amenizando  as almas .Galamares, por umas horas, ganhava o seu pedaço de paraíso,

Lá longe, em Lisboa, já para lá dos oitenta, a velha condessa d’Edla tomava chá, e sorria, como se o som daquele concerto dum tímido rapaz que um dia mandara para Berlim lhe chegasse perfumado pela brisa da noite.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:31

Mário, Florêncio, Osmán, trinta mais, sessenta e nove dias de escuridão ,sessenta e nove dias de luz brilhante  e redentora para  quem desceu  mineiro  e subiu Homem. Sessenta e nove dias de sombras, palavras partilhadas, noivas sonhadas, vidas de sobrevivência. Como naquela outra alegoria, sem espelhos, sombras projectadas na parede interna da caverna. E o fogo da esperança sessenta e nove vezes aceso em torno duma lata de conservas , duma reserva de esperança e provação. Perto do fogo destruidor dos medos e das finitudes humanas, ofuscados pelo presságio dum fado de vida quase certeza de morte, o milagre para lá das sombras, a unir para a sobrevivência. Por eles, por elas, por nós. Do insuportável calor numa mina perdida do deserto chileno, as sombras viraram esperança, a esperança virou luz, o braço aflito e sequioso dos homens na sombra encontrou o braço solidário e quente de toda Humanidade naquela cápsula elo entre a Vida e a Morte.

Estão já fora da caverna. Da tangível, escura, castigadora, mas também da do medo, do desalento, da descrença. A Vida venceu o Destino algures nos arredores de Capiapo, Chile, Mundo.

publicado por Fernando Morais Gomes às 08:53

Era dia de círio em S.João das Lampas. Zé da Adega, Domingas e os rapazes pequenos preparavam-se para, fato domingueiro envergado, irem na burra Zorra de Alfaquiques até S.João, ao círio da Senhora do Cabo. Era a segunda vez que o círio se efectuava em suas vidas, passara em 1830, e vinte seis janeiros mais haveriam de viver, graças a  Deus, para ver um terceiro. Domingas estava de novo prenha, o quinto cachopo vinha a caminho, vinha irritadiça, pois gulosa como era aborrecia-a ter de comer pão alvo e galinha durante os trinta ou quarenta dias do regimento, evitando aquele toucinho que tinha guardado da última matança na casa do ti Januário.

Em casa, para que o rapaz pequeno viesse em boa hora, usava o chapéu do marido, nos ombros os calções do mesmo, nestes preparos andava na monda. Hoje, porém, era dia de festa, Zé da Adega lá pudera usar os calções para que não fosse apanhado desprevenido.

O círio era tudo.Era aí que cada um na aldeia mostrava o valor da sua bolsa. Zé da Adega comprara barretina nova à Domingas, postas as festas não voltaria por certo a usar. Para si mandara fazer uma casaca, tinha obrigação de durar os próximos vinte e seis anos, pelo menos.

O filho do ti Ambrósio que Deus tenha, o Justino, amanuense na capital, viera à terra para os festejos, mas tendo um temporal arrasado o telhado da casa onde ficaria, logo na véspera da procissão, aceitou de bom grado a oferta do ti Zé de ficar a dormir lá em casa.

-É pobre, mas malga de vinho e lume de chão não lhe há-de faltar , amigo  Justino!-reforçava o ti Zé , orgulho pouco escondido de albergar o filho da cidade do ti Ambrósio, -Boa gente era o senhor seu pai! Todas as quintas -feiras íamos á venda na Malveira, bons tempos!

O Justino vivia em Lisboa há cerca de seis anos. Alojara-se num quarto na Praça da Alegria, serventia de águas quentes e frias, era já um homem da cidade, enfiado em papéis e letras de câmbio.

No dia do círio, pela manhã, leite directo da vaca e presunto adornavam a mesa de madeira em honra do visitante, a Domingas fizera filhoses.

Logo pela manhã, o Januário pediu um alguidar e um pano, e foi para o quarto compor-se para a grande festa. Estranhando o interesse de Januário pela água, o mais velho da Domingas, maroto, foi espreitar na enxerga, deparando pasmo com o Januário a lavar a cara e os sovacos.

-Oh mãe, oh mãe, vem ver o que ele está a fazer! -correu para a mãe o pequeno Serafim, assustado com o que vira.

Domingas acorreu prestes, e benzeu-se ante aquela visão invulgar

-Nossa Senhora! Parece que lá na cidade agora lavam-se com água! Água é para o baptizado, benza-os Deus!

Saíram para o círio. A procissão, deslumbrante, Serafim de anjo pela primeira vez, toda a aldeia vestira o melhor fato, as burras tiveram reforço de pasto.Na quermesse, Zé da Adega e Justino, já de nariz avermelhado, provavam a pipa do Teodoro, malvasia da boa, o Verão fora farto.

-Pois é como lhe digo, compadre Teodoro.Com a venda das vacas e o vinho das minhas terras da Assafora já consegui um bom cabedal. Este ano vou arrematar o boi cobridor que o ti Estevão de Cheleiros tinha lá na Malveira! E, copo erguido, já meio cambaleante, falava das colheitas,    enfiado naquela fatiota que lhe impuseram para ir ao círio.

-Os seus filhos já ficam arranjados, ti Zé- concordava o Justino, eufórico com o terceiro copo, vinho agora era raro.

-E já comprei um bocado de chão para mim e a minha Domingas no cemitério de S.João! Quando morrer, já cá fica, pago e tudo! Antes para ali que para o boticário!

-Eu boticário é logo meia canada de vinho e uma folha de alecrim dentro!- adiantou o Teodoro- quando morrer vou deitado! –arengou sentenciador, emborcando mais uma malga do tinto.

Assim passava mais uma Senhora do Cabo em S.João.O comendador Nogueira, juiz da festa, mandara distribuir um bodo, coisa farta, todas as noites se rezava a novena, rara ocasião para as mulheres casadas recolherem mais tarde á alcova.

Passadas duas semanas, a Domingas teve a sua hora pequenina.Mais um rapaz. Correram a dizer ao Zé da Adega, na vinha.

-Há-de criar-se! -disse entre dentes –e continuou a cavar, rude de modos, mas no fundo coração mole.

Domingas lembrando-se do Januário, decidiu experimentar dar um primeiro banho ao rebento.

-Se lá na cidade se lavam com água e não morrem, mal não pode fazer!....-pensou.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:00

13
Out 10

A chegada ao aeroporto internacional de Maiquetia fora acidentada, turbulência irritante, trovoada tropical ao sobrevoar as Caraíbas. Malas desaparecidas, humidade asfixiante, polícias excessivamente zelosos mirando os passaportes.

Era a primeira vez que Jorge Antunes, gerente duma empresa informática de média dimensão em Mem Martins visitava a Venezuela, movido pelo sucesso das vendas do Magalhães, aqui baptizado de Canaima, e bandeira do poder bolivariano na campanha da educação para todos.Tinha um contacto em Caracas, um irmão dum amigo do Porto Santo, que para ali tinha ido abrir um talho nos anos sessenta. Vasco Jardim esperava-o na zona das chegadas.

-Viva! Você é o Vasco, irmão do Silvino, não é?- cumprimentou, largando a mala de rodas, o  seu “bobby”, como lhe chamava.

-É ele mesmo. Bem vindo à Venezuela!- respondeu o anfitrião, sotaque castelhano, sessenta e picos anos, bigode farto, um general Tapioca lusitano, pareceu-lhe, na primeira impressão.

A viagem para a cidade, cerca de trinta quilómetros, parecia saída dum filme de narcotraficantes. Casas abarracadas, de longe até pareciam presépios de zinco e tijolo, crianças seminuas jogando à bola, humidade, mosquitos, transportes públicos e carros de modelos  ultrapassados na Europa. E cartazes, muitos cartazes, Hugo Chavéz omnipresente, o novo caudilho da esquerda, pai dos pobres, protector do povo contra os yankies imperialistas

-Então como vai isto por aqui? O povo gosta do Chávez?

-Estão todos iludidos, sr.Antunes. Enquanto o petróleo render, o Chavéz aguenta-se, mas não acredite em nada do que vê lá na televisão. Os portugueses, então, vão de mal a pior, raptos, assaltos- desabafou, entre o angustiado e o orgulhoso, três talhos abertos desde que chegara, quinze postos de trabalho, uma vida de sacrifício. Já tratei da sua reunião, amanhã às quatro, levo-o lá!

Jorge alojou-se no Hotel Altamira, Jardim insistira para que ficasse em sua casa mas não quis abusar da hospitalidade.

No dia seguinte, reunião no Ministério del Desarollo Nacional. Edifício kitsch, bandeiras venezuelanas por todo o lado, funcionários de feições ameríndias com grandes orelhas e narizes achatados. A reunião era com um tal engenheiro Montalbán, numa sala dominada por grandes fotos, Símon Bolívar e Chavéz lado a lado, ventoinha rodopiando, velhas máquinas de escrever ainda, um universo bem diferente da Europa. Jardim preferiu esperar num café próximo.

-Pois, caro senhor, a Venezuela quer estreitar cooperação com empresas de Portugal, e como sabe, os nossos governos estão cooperando. Que novos projectos podemos lançar? -iniciou o engenheiro, perto dos cinquenta anos, camisa vermelha, símbolo dos chavistas, funcionário do partido, por certo, pensou.

Antunes sacou de dois grandes dossiers e um portátil, foi desfiando um powerpoint com as virtualidades do software português, mais barato e exportável. Angola já tinha adoptado, e seria uma ajuda na gestão documental dos serviços públicos daquele país amigo, enfatizou, tentando tirar partido do discurso “politiquês” a que se habituara a ouvir nos telejornais das oito.

Montalbán chamou um assessor e mostrou os dossiers, enquanto Antunes bebia um café, mirando pelo canto do olho o retrato de Bolívar.Parecia o D.João VI, naquele tempo eram todos iguais aqueles tipos, interiorizou.

Retomando a conversa, Montalbán foi mais assertivo:

-E falamos de que valores, siñor Antunes?

-Temos software, assistência, patentes, e seguros, podemos assegurar um contrato inicial, de, vejamos, dois anos, com opção de mais dois. Seria bom para ambos, veja bem, até tendo em conta os nossos patrícios que cá vivem. Coisa pequena, para começar, aí uns quinhentos mil euros, não sei em bolívares, mas asseguro-lhe que a concorrência não fará melhor, só se for chinesa…

Montalban com a mão fez sinal de atalhar.

-Siñor Antunes, não sei se me entendeu. Falo de amizade, da generosidade com que o povo venezuelano pode olhar para esta  proposta . Os amigos não podem ser esquecidos, está a ver…

Antunes estranhava o discurso. Estava tudo descrito, o AICEP apadrinharia, o BANIF também.

-Precisa de mais esclarecimentos? Posso ligar para Lisboa e mandar vir detalhes por mail, não há problema…

-A Venezuela espera é que os amigos não esqueçam os amigos….E sacando duma folha, escreveu uns números e uma morada que entregou a Antunes, dobrada em quatro. Dando a reunião por encerrada, despediu-se, deixando-o à toa, papel dobrado na mão.

Chegado à rua, percebeu finalmente. Afinal, tudo se tem de fazer pela amizade entre os povos, não é verdade?

Dois meses depois, durante a visita do Ministro do Desarollo Nacional a Lisboa, em cerimónia pomposa no CCB, Antunes ufano celebrava com os amigos a entrada da sua empresa naquele mercado amigo, realçando as virtualidades da tecnologia nacional, e os preços competitivos da sua firma. A Guiné Equatorial estava na calha. Como era bela Caracas, clima caloroso e ruas largas, rumo ao futuro com software de Mem Martins…

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:24

12
Out 10

Artur conduzia a motocicleta a alta velocidade quando fazia entregas ao domicílio. Naquele dia, chegara adiantado à morada indicada. Trânsito no IC 19 calmo, não fora necessário sair muito cedo do Cacém, as pizzas ainda estavam quentes. Anoitecia quando parou junto a uma vivenda, um quanto isolada, em Meleças. Era uma havaiana familiar, ananás, chourição e cogumelos. O Rogério, seu chefe no Pizza Hut, conhecia bem o cliente e enviava-lhe também uma carta por seu intermédio aproveitando a viagem.

Era uma zona com poucas casas, urbanização recente. Encostou-se a um muro e acendeu um cigarro, esperando pelo cliente, ninguém atendera a campainha, chegara 15 minutos antes da hora marcada. Entre uma baforada e outra, pensou em Joana. Já tinham comprado as passagens para a Suíça. Lá, tinha alguns amigos que lhe prometeram trabalho num restaurante, coisa limpa, vistos de permanência, tudo o mais, iam tentar uma nova vida.

Isto de entrega de pizzas não era coisa segura.Na loja há dez meses, sempre à disposição, a qualquer hora, contrato a prazo sempre incerto. Rogério mandava, ele corria a fazer mais uma entrega. À noite era um vê se te avias, margherita para S.Marcos,  calzone para Mira Sintra, massa fina, familiar.

-Isto não é futuro!– pensou. – becos escuros na Tapada,ruas perigosas em Colaride…

Envolvera-se com Joana, mulher do seu chefe no Pizza Hut. Quando ficara sem emprego no Lidl, Rogério arranjou-lhe trabalho no restaurante onde era gerente, e ainda lhe alugou um anexo atrás da sua casa para morar, perto dali, um quarto e casa de banho. Uma noite de trovoada, em que Rogério fora jogar snooker ao Lubango, ela batera-lhe à porta do quarto, não conseguia dormir, e não pôde evitar. Foi coisa de dez minutos.

Agora iam fugir para a Suíça. Tinha juntado algum dinheiro, daria para os primeiros tempos, iriam no dia seguinte, de surpresa para evitar a reacção de Rogério. Mais tarde, dariam notícias de forma discreta.

Chupou o cigarro e deixou que a fumaça lhe envolvesse o rosto. Eram raros os momentos em que podia apreciar um, sempre com pressa, enquanto esperava para entregar a pizza e o envelope.

- Só espero mais 5 minutos! Onde é que este gajo se meteu?

Mirou  o envelope, fechado,pareceu-lhe leve demais. Esta seria a última entrega, Rogério mal desconfiava. Tinha sonhos, afinal não era nenhum bandido, a sua vida iria mudar.

Subitamente, dois faróis iluminaram-lhe o rosto, sem perceber a aproximação dum carro. Ofuscado, ouviu uma voz, sem distinguir quem.

- Trouxe a encomenda ? perguntou um indivíduo, para aí trinta anos, barba por fazer, o cliente por quem esperava.

- Sim, sim! Aqui está. Ainda vem quente!- respondeu, sem conseguir ver bem a pessoa.-O sr.Rogério também mandou isto para si- acrescentou, entregando pizza e envelope.

- Hummm! Deixe-me lá ler isso! –retorquiu o sujeito, rasgando o envelope , apenas continha  um pequeno papel.

- É! Realmente você merece o combinado com o Rogério!- respondeu - Aguarde um pouco, já trago o que é seu... – acrescentou, dirigindo-se ao porta luvas do carro.

Rápido percebeu que este era um serviço diferente ao vislumbrar uma pistola de 9 mm a si apontada. Era tarde demais para qualquer reacção. Tombou com 3 balas cravadas no peito, enquanto o carro se afastava a toda a velocidade, o coração batendo aceleradamente,depressa  fraquejando.

Bem em frente a si, na calçada, a folha de papel que estava no envelope. Já a desfalecer, turvo, ainda pôde ler, “é esse o tipo”.A letra era de Rogério, reconheceu-a, ainda tentou gritar sem sucesso.

- Grande cab…- bolçou, logo parando o coração, olhos sem cor, inerte.

A essa hora, Rogério e Joana, no Cacém, recebiam uma visita.

-Pois é, sr. Rogério, vou ficar com o quarto. Fui despedido, mas  tenho o fundo de desemprego para me manter até aparecer alguma coisa ,para mim está óptimo!

Ricardo ouvira falar no Lubango, que Rogério estava a alugar o anexo dos fundos de sua casa. O antigo inquilino iria mudar para o Algueirão, disseram.

-Ora! Chama-me Rogério! Podes mudar hoje ainda se quiseres. A propósito, esta é minha mulher, Joana…

Pondo-lhe  as mão no ombro , entraram os três no anexo.

Olha, vou-te propor um negócio fixe.Tens carta de motorizada, não tens?....

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:25

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