por F. Morais Gomes

11
Out 10

Um mês após o regresso à velha Albion, após prolongada viagem pelo Continente, John Hobhouse e Byron juntaram-se para um Porto, no clube em Tavistock Road, batiam pontualmente as onze em St Paul's.

Lord Aviemore, na sala de fumo, puxando do seu cachimbo e  levantando o olhar do livro deparou com os dois a um canto, junto ao bilhar, degustando o seu Croft. George Noel Gordon,6º barão Byron, era membro da Câmara dos Lordes e reputado maverick, fazia meses que não o via.

-Byron!Hobhouse!De volta à City?

-Lord Aviemore, os meus respeitos. Sim, infelizmente  tornámos à chuva de Londres, e aos becos escuros cheios de carvoeiros indigentes -ironizou Byron, interrompendo a conversa com Hobhouse e  meneando a cabeça na direcção do velho Aviemore, senhor de vastas propriedades em Durham e tory empedernido.

-Well….E o Continente  ,aqueles jacobinos todos, já ganharam juízo?

Hobhouse até ali calado ensaiou um relato:

-A bem dizer, Portugal foi o mais interessante, mylord. A capital está cheia de salteadores e rameiras, mas há recantos que surpreendem, num pardieiro daqueles…

-Really? Como o quê?Igrejas católico-romanas?

Byron retomou o relato:

-Sintra, nos arredores, verdejante como o Yorkshire, clima ameno como Brighton. Misturam-se de forma peculiar os labregos nos seus burros e a formosura dos jardins, uma dádiva inesperada que ninguém adivinharia naquela parte de Espanha…

O navio que de Falmouth transportara Hobhouse e George chegara a Lisboa em plena ocupação francesa e inglesa, com anarquia nas ruas  e assaltos generalizados. Acompanhados dos criados, Fletcher, Murray e Bob, porém, tudo lhes parecera exótico  naquele país afundado no caos. Foram por uns dias, tudo poderia acontecer.

Hobhouse, após dois dias em Lisboa, juntou-se a Marsden, e ambos marcharam para Sintra, por uma estrada com muitas curvas, com três jugos de vinho, pão e queijo,a visitar  o palácio de Marialva e os jardins de Monserrate, antes propriedade do sodomita Beckford. Byron  aventurou-se em Mafra, no  convento, onde antes da invasão os frades eram 150 e agora apenas 30.Fora agradável a primeira noite em Sintra, à conversa com  Scott, Simmons e Turner , três reverendos ingleses, igualmente de visita,todos alojados na estalagem da irlandesa, que agora recordavam.

-Mas esse lugar tem algo de civilizado? -questionava Aviemore, para quem Manchester já era suficientemente  desinteressante, quanto mais uma terra de negreiros e estivadores esturricando ao sol. -Só para impor a lei do Império, e à distancia!

-Há de tudo, lord Aviemore muito pitoresco, indeed! -contava divertido Hobhouse.-No mosteiro de S. Jerónimo, na montanha, veja só, vivem 4 monges, pobres mas remediadamente vestidos. No Cork Convent, na parte mais alta da região, uns franciscanos que não comem carne nem bebem vinho, flagelam-se! Mas melhor, melhor foi Colares!

Lembrando as quentes pipas de tinto e palheto retomou o relato:

-Bela vila, vinho abundante, clarete. Em Colares , o pobre reverendo Turner soube o que o vinho português pode fazer ao fígado…A  estalagem é que foi um horror, cheia de  hóspedes embriagados, a dona, uma irlandesa gordurosa ,presenteou -nos com uma escandalosa conta de quarenta libras, imagine!

Lord Aviemore, que começava a achar a descrição colorida demais, acenou a um criado para lhe trazer tabaco para o cachimbo. Byron, sentindo o velho asceta incomodado, apimentou a conversa:

-Foi muito divertido nadar no Tejo, montar burros, dizer palavrões em português.”Carracho” é a grande praga dos fidalgos, ocupa o lugar do nosso 'damme!- relatava, gesticulando.

-Sim, sim…Meus senhores, deixo-vos com os vossos rústicos portugueses. Tenho de almoçar com Lord Windermere. Passar bem! E saiu, agastado com as informalidades do jovem lorde, tinha quatro minutos e meio para chegar a Marble Arch.

Hobhouse e Byron apenas haviam estado dez dias em Portugal, mas a imagem daquele verde selvagem e dos palácios guardando ogres famintos e lagos naturais  ficara-lhes na memória.

Observando a chuva que caía forte dos lados de Kensington, recordavam agora os cheiros a eucalipto e os musgos daquela selva ao sul da Europa. Pudesse aquele recanto separar-se do resto e ser transportado para terra de gente decente…

-Carracho!-soltou Byron, estalando os dedos, e engolindo o seu Porto de um trago.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:07

10
Out 10

Naquele sábado ia passar outra vez o Quo Vadis? no barracão da Praia das Maçãs, momento para o anual reencontro que  Samuel e Joana faziam com os amigos desde  a infância.1973 ia acalorado, findo o liceu, no Pedro Nunes, veraneavam antes do desafio da entrada no Técnico, ele já em Outubro. Joana, tudo aprontava para o seu sonho de ir para Letras e ser professora, sua ambição de sempre.

De amigos por via das famílias, vizinhas na casa do Vinagre, um impulso de fim de semana depois dum jantar na casa do Topê, na Praia, tornara-os namorados, e se já em Lisboa furtivos encontros para café haviam no Vavá ou na biblioteca do Palácio Galveias, o Verão, com o seu despertar de instintos tudo libertava e precipitou-os definitivamente um para o outro.

Todos os anos o mesmo ritual: as idas à praia com  o David e a Lurdinhas, João, agora com cabelo à Bob Dylan embrenhado no seu Sartre, invariavelmente ao fim de semana as festas na garagem da Francisca, onde mais tarde a Luísa e  o Topê casariam ao som do Hotel Califórnia, depois de concluída a Faculdade de Ciências e entrar para os quadros da CUF.

O Verão na Praia era rotineiro e por isso também previsível. A  Concha, o Quivuvi, a pirosa discoteca do Hotel Miramonte cheia de velhos ingleses, as idas à Praia de eléctrico, com toldo pago no mês de Agosto,os jogos de matraquilhos no café e festas de fim de semana, onde se passava  música dos Génesis e cumpriam os slows daquelas vidas, sonho sonhado de promessas de amor e amanhãs de fraternidade, eternos amigos de Alex.

Um dia, já em Setembro, alvoroçado e lívido, surgiu o Samuel no Bibió, levantando um envelope. Tinha recebido uma carta do DRM. Julgava que era o deferimento do adiamento do serviço militar, para entrar no Técnico, mas afinal recrutavam-no, dois meses para se apresentar em  Santarém, Cavalaria. Aquela manifestação junto à Voz do Operário durante o 1º de Maio, reprimida pela GNR três meses antes não ficara esquecida. Depois, talvez Moçambique, Wiriamu estava fresco.

-E agora?Estou tramado!-África nunca!Vou dar o salto!

Joana ficou apreensiva, mas abraçou-o longamente, acariciando-lhe os cabelos.Uma pequena lágrima espreitava, mas havia que dar força.

-Vou desertar!Tenho uns amigos em Paris, um dia isto há-de mudar!-reclamava, injustiçado.

Ao longe, o som do mar, a velha senhora de pele queimada apregoando as bolas de Berlim e batatinhas Ti-Ti, que todos os Verões ouviam desde crianças quando construíam castelos de areia naquele mar de toldos às riscas e cheiro a iodo.

Naquela noite amaram-se na Praia Pequena, rádio da 4L ligado, os Shadows soando em fundo.

Santarém chegou em Outubro, em Fevereiro de 1974 embarcou para Moçambique. O pai, advogado influente, ainda tentou um coronel do Estado Maior, mas o caso fugia-lhe, tinha vindo nos jornais, pouco podia fazer. Para trás a Joana e um mundo de sonhos, o toldo do Verão, os slows na garagem. O plano de Paris falhou, o sol de África surgia invasivo na brisa da Praia das Maçãs.

Um dia, logo na primeira semana de Abril, contemplava Joana o pôr do sol no miradouro das Azenhas, o velho Jerónimo, caseiro dos pais de rompante pedia que a menina fosse até casa, o senhor doutor tinha urgência em falar-lhe.Um aerograma de Lourenço Marques, levado por um capitão com ar formalmente pesaroso comunicava a morte do jovem alferes Samuel vitimado por uma mina durante uma operação de reconhecimento.

A vida para Joana terminava naquele ocaso do fim de tarde dum Abril ainda imóvel. Ao fundo, a senhora das bolas de Berlim e o pregão estafado, um horizonte gradualmente desfocado, a morte antes de morrer. Na rádio, passava um fado letárgico vagamente alterado pelas interferências na rede.

Era Portugal.

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:56

Sintra, Ano do Senhor de 1414.El Rei D.João voltava de mais uma caçada, três lebres e uma corça, nada mau para um dia chuvoso. Agradavam-lhe as estadas em Sintra, onde anualmente caçava e jogava canas desde que se apossara das propriedades de Henrique Manoel de Vilhena, que tomara o partido de Castela durante os eventos de quase trinta anos antes.

O encontro que Pêro Anes de Sintra, regressado de viagem secreta, lhe solicitara em termos algo misteriosos havia-lhe suscitado curiosidade. Pêro Anes era um místico e profundamente religioso, mas acima de tudo devotado a D. João.

-Estimado D.Pêro, que novas trazeis das costas de Algeciras?

-Eu sei, Senhor, que em cuidados vos encontrais sobre as terras dos  moiros. Mas não é de Gibraltar, Algeciras ou da montanha de Djabal Musa, ou sarracenos mercadejando que é meu mister aqui falar. Outro é meu intento e ,  se me permitis a ousadia!

-Explicai-vos D. Pêro. Não fostes espreitar a cova do infiel em terras de Septa, como vos instruí? -ripostou o de Boa Memória, já aborrecido por ser tirado às suas lebres a fim de ouvir temerosos vassalos.

-Assim fiz, e em verdade vos digo: perigosa e inútil será a empresa, pois nem especiarias nem ouro, cereais ou fazendas para o erário do reino e de Vossa Majestade, meu rei e senhor podem as naus de Portugal porfiar nessas bandas. Antes ousava sugerir uma aliança com vosso genro, o conde da Flandres, a fim de que os laços de comércio entre ambas as casas possam prosperar, e desse trato possam os proventos do reino aumentar e com eles a vossa fazenda.

-Mercadejar é impróprio dum rei, D.Pêro!- soltou o infante D.Henrique, presente na sala, até então em silêncio. A honra dum infante só pode ser resgatada quando lavada no sangue dos infiéis. Honra, conquista e glória, esse o dever de quem reina, e não curar de arcas de peixe salgado ou pipas de vinho, coisa de almoxarife e não de um príncipe da cristandade!

-Que vos parece, Senhora? -apurou o velho rei, olhando para a já doente rainha D.Filipa.

-Henrique tem razão.Prudente será evitar cuidados e maleitas, mas mais acertado e próprio dum monarca é a expansão da Fé e dos Santos Evangelhos- aconselhou a alva senhora, empalidecida e de voz sumida.

D.João postou-se breves momentos em silêncio. Por fim, despachou o avisado fidalgo, e chamou o prior do Hospital, D.Álvaro Gonçalves Camelo a quem incumbiu de uma missão secreta.

Meses mais tarde, voltando D.Álvaro a Sintra, depois de com favas e areia ter reproduzido a fortaleza dessa misteriosa Ceuta, o Reino se lançou num novo e perigoso destino.

A  22 de Agosto de 1415, e com poucas horas de combate, o vencedor do Andeiro, de Castela, e dos filhos de Inês de Castro, virava-se em definitivo para o Mar Oceano, para  apenas cinco séculos depois voltar ao ponto de partida. Nunca a Europa e Portugal se olharam como semelhantes, mas como diferentes e distantes.Se a geografia nos havia colocado junto ao mar apenas um desígnio se impunha aceitar: sulcá-lo.Para sul.

publicado por Fernando Morais Gomes às 01:22

08
Out 10

Bento Rodrigues levava quinze anos no Ministério da Agricultura. De simples terceiro oficial, nos anos sessenta, subira a pulso na repartição, cinzenta sala interior, sem vista para o Terreiro do Paço, submetendo dezenas de despachos aos "concordos" dos sete directores gerais com quem trabalhara, todos eles veneradamente “ a bem da nação”.

O senhor doutor Marcelo Caetano já  lhe havia garantido reforma na velhice, Deus o guarde!, a mãe lá na aldeia finalmente obtivera uma pensão da Casa do Povo. O  António, estava a concluir o Ateneu, e com orgulho da família iria matricular-se em Económicas.

Não tinha vícios repreensíveis. Não fumava nem bebia, torcia pelo Belenenses. Uma vez por ano toda a família ia em Agosto para casa duns primos na Foz do Arelho e a ajudar na apanha das batatas, que depois recheariam o carro e a dispensa  todo o Inverno.

Era um homem satisfeito, bom cristão, sempre pontual, casaco e gravata usados mas apresentáveis, o funcionário público que o País precisava, não percebendo como é que turras instigados pela corja soviética atacavam o nosso glorioso trabalho no Ultramar.

Havia alguns anos que a pedido do senhor director geral discretamente elaborava relatórios sobre  conversas que ia ouvindo a alguns engenheiros mais ingratos com o que a Nação lhes dava e,que sussurrando pelos cantos iam falando da necessidade de reformar a lavoura, sobretudo no Alentejo, criticando as avisadas opções do terceiro plano de fomento.

-Esta gente precisa de rédea curta, há sempre bicho até na melhor maçã, Rodrigues!- alertava o doutor Madureira, chefe de divisão da confiança de quatro ministros,”todos grandes portugueses”, como costumava repetir.

E Rodrigues lá cumpria religiosamente o patriótico trabalho de expedir ofícios e  diligentemente vigiar os prevaricadores da lei e da ordem, na discrição do seu canto no Ministério.Por vezes puxava conversa com alguns dos engenheiros,a pretexto do tempo ou da prestação do Benfica na Taça das Cidades com Feira, assim obtendo preciosas informações para o leal dr.Madureira,

Uma quinta-feira chuvosa, já em 1974, cenário anormal e surpreendente se lhe deparou à chegada  ao Ministério, ás cinco para as nove, sagrada hora da entrada à mais de quinze anos. Veículos militares ocupavam o Terreiro do Paço e militares armados gesticulavam e rodeavam os vetustos ministérios. Tentou entrar, mas mandaram-no para casa, que ficasse atento às rádios.

O mundo de Bento Rodrigues mudou muito desde então. Aos poucos, do espanto pelo sucedido com a “tal Abrilada” passou  à revolta, e da revolta á resignação.

No Ministério passaram ministros militares, alentejanos gritando por reforma agrária, o doutor Madureira foi  saneado.

Com o tempo, foi-se adaptando. Afinal, a bem ver, o país estivera  estagnado, a guerra fora injusta, os malandros latifundiários não passavam de  ociosos proprietários de campos escandalosamente abandonados. Revolução à cubana nunca, que a NATO nunca deixaria, mas liberdade com responsabilidade, a Europa do Mercado Comum, isso sim, anuía.

Certo dia, com surpresa, foi convidado por um partido de esquerda para candidato à  Junta de Freguesia.Agradado, lá aceitou. Foi eleito.

Dois mandatos, várias placas em ruas e três parques infantis depois, o partido estava rendido. Estava na calha para a vereação nas eleições seguintes.

Bento Rodrigues reformou-se à poucos anos. Na hora da despedida foi agraciado com a medalha de ouro do município, agradecimento sincero ao contributo insubstituível que dera para as causas da democracia e da liberdade.

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:31

07
Out 10

Estava escura e cinzenta a manhã, uma chuva miudinha regava Lisboa naquele Setembro de 1930 à chegada do “Alcântara”, vindo de Dover.

Fernando Pessoa esperava o visitante que mal conhecia mas com reputação de tenebroso. Aleister Crowley, conhecido apologista do satanismo, desperto por uma carta astrológica que Pessoa a medo lhe enviara, desembarcava  ao encontro, quem sabe, de uma alma gémea e atormentada.

Pessoalmente detestava barcos, nunca  se lhe desvanecera a viagem no "Koenig"desde Durban anos antes  acompanhado o féretro da irmã Madalena, precocemente falecida e sepultada em Lisboa, o carácter misantropo era igualmente avesso a eventos sociais, mas não pudera dizer não.

-Mr.Crowley , welcome!- cumprimentou, reverente, naquele inglês que tão bem dominava e no qual se expressava em muitos  textos literários.

-Prazer em vê-lo, sr.Pessoa! É tal e qual como mo descreveram! - rosnou o inglês gordo e baixo, ar banal e um  tique num olho-Deixe-me apresentar-lhe fraulein  Jaeger, minha colaboradora- adiantou, apontando para uma loura com cerca de quarenta anos, enterrada num chapéu da moda  e envergando um vison  cor de rato.

Pessoa saudou-a, com um leve toque no vasto chapéu, e guardando as malas, levou-os no Chevrolet  ao Hotel Avenida Palace, onde se instalaram,  logo aí acertando encontro para o dia seguinte, depois de merecido repouso.

No dia 3, Pessoa, que pedira dispensa no escritório, levou-os a Sintra, pela estrada de Cascais.

-Pois é, Pessoa, fiquei muito intrigado com a carta astrológica que me enviou! Bateu na mouche! Nada a ver com os charlatães que por aí campeiam!-ia desfiando.

-Obrigado,Sr Crowley.A hora e minutos do nascimento são muito importantes nestas coisas.

-Trate-me por Aleister.-atalhou o inglês.

-Muito bem. Sabe, desde sempre me atraíram os estudos astrológicos.Em tempos pensei em abrir um consultório. Ainda cheguei a escrever em jornais, com o pseudónimo de Raphael Baldaya…

-Eu sei, eu sei…-cortou Crowley, insinuando saber mais do que dizia. Você também fez parte do Golden Dawn, não foi?

-Ah, também sabe disso?-estranhou Pessoa, por conhecer a associação de rosa cruzes inglesa.Pelos vistos, Crowley também pertencia.

Pararam na Boca do Inferno, levou-os a ver as vistas, fraulein Jaeger contudo,mais preocupada com a maquilhagem aproveitou para renovar o batôn vermelho  vivo.

-Gosto muito do mar, Aleister.Sou dum país em que o mar é sofrimento e força ao mesmo tempo- afirmou, olhando o horizonte, e segurando o chapéu para não voar com o vento gélido.

-Sim, espaço fabuloso. Foi aqui que viveu o tal do vosso Adamastor?

-Não ,mas neste país as pessoas vêm adamastores em todo o lado…

Seguiram para Sintra, Crowley achou sublime, logo descortinando símbolos  que só ele reconhecia nas pedras silenciosas e reveladoras.

-Há aqui a mão do Templo, Aleister, muitas coisas estão escritas nestas pedras: a necessidade de lutar contra a ignorância e o fanatismo.

-Um Irmão reconhece sempre a  presença espiritual-referiu Crowley,também ele iniciado nos labirintos da Maçonaria. Oiça, tenho uma proposta para si: gostava de editar no seu país alguns dos meus livros, você podia ser o meu tradutor, que me diz?.

-Interessante .Já li o  seu Hino a Pã, e….

-E gostou? Antes que Pessoa respondesse  lançou-lhe uma frase enigmática: Lembre-se que desde a morte física, até à percepção de que ela é só ilusão, há que passar a estalagem do assombro, despir-se do corpo mental antes de seguir por diante. Só então o corpo será divino!.É essa a busca, esse o desafio! – gesticulou o druida saído do Surrey.

--Eu sei! Já várias vezes morri antes da verdadeira morte….

O diálogo transformava-se em monólogos de dois obcecados pelo destino, espadas vivas ao serviço de batalhas para as quais só eles entendiam os sinais. Já bebia uma “Águia Real”, pensou Pessoa,carente duma aguardente.

A ameaça de chuva levou-os de volta, ainda se viram mais duas vezes, em Lisboa. Depois, combinaram novo encontro para a  semana seguinte. Pessoa não se podia dar ao luxo de faltar ao trabalho de correspondente comercial donde vinha o seu parco vencimento, havia que intercalar.

Chegado o dia, lá se postou no lobby do Avenida Palace, sem que nem Crowley nem fraulein Jaeger  comparecessem à hora marcada.

-O sr Aleister Crowley não está? Ou a acompanhante,a sra Hani Jaeger…?- perguntou na recepção.

-A sra Jaeger saiu no vapor de dia 19, caro senhor, e o sr Crowley também já não está alojado neste hotel.Saiu, e deixou todas as contas pagas!-informou um diligente empregado, impassível.

Pessoa ficou admirado. Desaparecia sem deixar rasto, nem um bilhete sequer. Crowley, alucinado, tal como se precipitara para Lisboa movido por uma carta astrológica, sumia como aparecera. Ainda lhe escreveu para Inglaterra, mas nunca mais teve notícias. Só uma vez um soturno individuo, que depois soube ser da PVDE o procurou no escritório perguntando sobre os seus encontros tempos antes.

Mais tarde os jornais teceram um novelo de intrigas em torno da estranha visita. Ainda voltou à Boca do Inferno, onde absorto reconstituiu  as conversas havidas. Constava em Lisboa que aí se teria suicidado.

Com o tempo, alheio, esqueceu Crowley, mais empenhado em afogar-se  em aguardente e absinto.

-Há nisto metafísica que baste para  pensar!-comentava, falando consigo mesmo ao balcão do Abel Pereira da Fonseca, na R.do Ouro, ortónimo em transe ganhando fôlego para à luz do candeeiro a petróleo libertar em papel o tumulto interior que o atormentava.I know not what tomorrow will bring!- rematou, emborcando mais uma Aguia Real.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:28

Trinta e cinco anos de poder local são tempo suficiente para se ponderar as virtualidades e patologias do nosso sistema de governo das autarquias, bem como das políticas que lhe estão cometidas.

A começar pelo número e dimensão das mesmas. Desde Mouzinho da Silveira que não há uma reforma de fundo do quadro das câmaras e freguesias como unidades coerentes, soçobrando até hoje o critério de campanário e os regionalismos bacocos sem ligação com uma correcta racionalização de serviços e recursos humanos a nível regional. Autarquias há que têm uma população que cabe toda em 3 ou 4 ruas de Lisboa, por exemplo.

Também ao nível da escolha dos eleitos e governo da polis, o sistema se revela desajustado, produto dum obsoleto método de Hondt e da distribuição de mandatos de forma proporcional, obrigando a coligações contra natura. Mais curial seria a eleição de listas apenas  para a Assembleia Municipal, das quais o primeiro candidato seria presidente da câmara e livremente escolheria a equipa de gestão, com apresentação de programa na Assembleia Municipal e aí negociando maiorias e políticas.Com o sistema actual, alguém que por virtude tenha sido candidato para agradar à secção local do partido proponente, pode ter  de repartir o poder  sem que seja particularmente dotado para o lugar, e apenas por mérito partidário. Igualmente a queda do executivo por via de moções de censura seria um critério mais transparente e dinâmico, no fundo semelhante ao que já funciona para o Governo.

Igualmente deveriam  ser definidas quais as áreas que deve manter na esfera das competências próprias  e aquelas que se pode contratar com privadas a sua gestão conjunta, ou seja, definir os princípios gerais e estratégias globais e sectoriais, tanto de desenvolvimento como de implementação.

A chave está na imposição de uma cultura de responsabilidade. É imperativa a avaliação de situações, critérios de julgamento, capacidade de decisão, lidar com o conflito, construir  consensos, distinguir o essencial do acessório. Acresce ainda a gestão do tempo como bem escasso, embora temperado com a necessária ponderação que o interesse público importa; a gestão dos recursos financeiros e dos recursos naturais com responsabilidade, de forma a evitar que o solo urbano ou a urbanizar seja parasitado pelas autarquias que vejam nas mais valias a taxar a forma de financiar os programas municipais, ao mesmo tempo que não indemnizam aqueles que perdem valor com a classificação dos seus terrenos como zona não aedificandi, numa verdadeira falta de justiça distributiva balizada pela proporcionalidade.

As reformas deveriam incluir a reestruturação dos quadros de pessoal, adequando-os às necessidades e evitando duplicações de tarefas  com outras já exercidas por privados ou empresas municipais. Igualmente o estatuto das polícias municipais em nome da necessária proximidade deveria evoluir para um assumir da maioria das competências hoje afectas à PSP e GNR, apenas se excluindo a investigação judiciária.

Na área dos  planos de ordenamento do território, a  decisão sobre localização e realização de investimentos públicos com impacte no ambiente e vida dos cidadãos deveria estar  sujeita a um efectivo e não semântico  dever legal de participação, consagrando-se como um direito fundamental dos cidadãos e não apenas como tarefa, incumbência ou fim do Estado, como um interesse colectivo confiado à Administração como interesse público, em que o fim último está em prevenir danos e não tentar remediá-los.

Os PDM deveriam ser objecto de revisão em permanência e não apenas nas datas actualmente previstas, adequando-os à dinâmica da economia local e num quadro inter regional, corrigindo os erros dos PDM de 1ª geração Nessa perspectiva, seria importante  um quadro geral em que a pró-acção fosse a captação de investimentos sustentáveis e geradores de qualidade e receita qualitativa, através dum quadro urbanístico, ambiental e fiscal claro e supervisionado por uma Agência Municipal de Investimentos; fazer coincidir as ambições de gestão do território das várias entidades num mesmo espaço categorial, seja no PDM, PP’s ou outras servidões administrativas vinculativas para a gestão do território ;promover uma carta de redes que permita integrar e orientar as intervenções dos fornecedores de serviços públicos e assim planear o seu modus operandi,  bem como reforçar o papel de autoridades locais de transportes e acessibilidades. E, sendo o PDM um plano de estabilidade mais duradoura, agilizar o processo da elaboração de planos de pormenor que estariam em actualização permanente, abertos á sociedade e ao escrutínio dos destinatários duma verdadeira Democracia do Território.

Como escrevia Vitor Hugo, “saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo”.

publicado por Fernando Morais Gomes às 04:30

04
Out 10

1808.Naquela  manhã de 22 de Agosto, Andoche  Junot reunia de emergência o seu estado-maior numa  improvisada tenda de campanha nas colinas de Torres Vedras. Apesar das tropas do barrete frígio se haverem batido com valentia, os confrontos no Vimeiro haviam sido um autêntico desaire. O corpo misto luso-britânico estava prestes a receber mais reforços, Abrantes havia sido tomada, cortando o caminho para Espanha,os franceses já estavam entrincheirados a norte do rio Ebro. As tropas ocupantes estavam desmoralizadas, nova batalha seria suicida. A alternativa era negociar.

-Delaborde , convoque os generais! -ordenava o homem que Bonaparte enviara como amigo a Lisboa, e agora se portava como pró-consul deste recente protectorado a sul dos Pirinéus. Tem de se reavaliar a situação! Paris não vai tolerar más notícias. E mande um pelotão de lanceiros requisitar víveres a esses campónios. Kellerman, você, vá ao Vimeiro escutar o que  Wellesley tem para nos dizer, e encontre-se comigo em Lisboa, depois. Há que controlar os acontecimentos! Proponha negociações, em meu nom.Surtout il faut qu'on gagne l'avantage!

Depois duma entrada conquistadora em Lisboa meses antes, o agora Marquês de Abrantes, apesar das crueldades do maneta Loison e de Thomiéres,  espalhando o terror e as  pilhagens nos campos do Alentejo, sentia que os ventos mudavam de direcção após vir actuando actuando como putativo rei na ausência do pusilânime regente, alvorado às pressas para terras insalubres a sul do Equador.

Por banda dos britânicos, o comandante sir Henry Dalrymple recebeu com prudência a proposta de negociações de Kellerman, com o apoio de outro dos generais no terreno, Harry Burrard. Wellesley, um dos principais comandantes, todavia, torceu o nariz.

Dalrymple e Burrard estavam desejosos de uma trégua para acertar posições, os franceses estavam forçadamente conscientes que a sua situação era nessa fase insustentável, sem a certeza de receber reforços ou assegurar abastecimentos junto duma população hostil e sem recursos, caso decidissem prosseguir os combates.Para mais, a  24 de Agosto desembarcara na Maceira o general Moore, com um reforço de dez mil homens. A melhor solução seria uma pausa negociada nas hostilidades, que após cedências e recuos, lá se apalavrou.

A 30, o Estado Maior aliado retirou para Sintra, para aí solenizar o aviltante acordo. Antes de se encetar a marcha, o general Bernardim Freire de Andrade até ali a principal patente portuguesa no exército anglo-luso, apreensivo, ainda interpelou Dalrymple.

-Sir Henry, sei o quanto as forças britânicas querem ajudar a libertar o nosso Reino e repor o Governo do Príncipe D.João, mas não podia ter-se aproveitado a situação de força no terreno? Em Roliça correu-nos bem, temos mais peças de artilharia e cavalos, os homens estão animados..

-General,trust us.We know how to deal with those french peasants. Your country will be freed ,i say-respondeu o velho militar, com o proverbial paternalismo britânico

-Mas a partilha já acertada parece exagerada para quem está em posição de fraqueza.Kellerman está a fazer um jogo de gato e rato para ganhar tempo. Podíamos cortar-lhes a retirada antes de Tomar e ….

-Your Regent Prince and our King are supporting  these procedures, as well as my admiral,Sir Charles –atalhou Sir Henry, sem deixar o ingénuo Bernardim concluir.And besides, I suppose I don’t need to remind who's in comand of this army ,sir!-cortou riste, sem dúvidas de quem dava ordens naquele improvável exército, maioritariamente composto por soldados de Sua Majestade compelidos a enfiar-se naquele rincão pejado de mosquitos,mais  dado a procissões que batidas à raposa,e a broa com sardinhas comidas à mão. Ah, a carne do Yorkshire! .Dreadfull!

-Sir Charles Cotton aprova?- questionou ,surpreso, ao ver mencionado o nome do almirante ,superior de Dalrymple.

-Indeed.Listen, it will be my first time in Sintra,so,when we'll get there, we'll sign the papers with those bastards and enjoy some decent weather .Wellesley told me that Colares wine is fine,and Kent mentioned a certain irish lady, miss Lawrence,may be she'll be attending...

Bernardim anuiu, sem mais poder alvitrar.A 30, Dalrymple e Burrard assinaram em Sintra em nome de Sua Majestade Britânica um dos textos mais vergonhosos da guerra, manchando a vetusta aliança anglo-lusa.

Os termos da Convenção, foram extremamente favoráveis aos franceses, apesar de derrotados no terreno. Os portugueses, postos de parte nas negociações, não aprovaram as condições acordadas na convenção, que permitiam a saída de riquezas do país, sem hipótese de recuperá-las. Junot, ele mesmo, aboletara-se com vasto património, entre ele uma Bíblia dos Jerónimos de valor incalculável. Os protestos de Bernardim Freire de Andrade, foram ignorados pelos generais ingleses.

Mas também o governo de Londres, sabedor tardio do acordo, não viu com bons olhos a saída dos imerecidos despojos e das tropas afectas ao Corso. Dalrymple, Burrard e o próprio Wellesley, acabariam mesmo por responder em tribunal militar pelos seus actos. Só as acusações contra Arthur Wellesley foram retiradas, pois este se recusara, num primeiro momento, a assinar a Convenção, acabando por o fazer instado pelos seus superiores.

Durante o mês de Setembro e princípios de Outubro ficou concluído o embarque das tropas francesas, após quase dez meses de ocupação, vencidas no campo de Marte, mas premiadas com o espólio esbulhado e garantias de integridade física, estranho prémio para quem acabava de sofrer um revés.

Sintra emprestava o nome a um vergonhoso jogo das potências, mas o Reino parecia poder descansar por momentos, e Dalrymple beber um Colares na fresca Sintra esticando as pernas à sombra duma acácia na estalagem de Jane Lawrence.

Enquanto um país órfão e desnorteado via o seu futuro decidido por recentes inimigos e pouco assumidos amigos, lá longe, em Fontainebleau, Napoleão preparava já um exército de 200 mil homens para repor o domínio francês na Península na primeira oportunidade...

publicado por Fernando Morais Gomes às 06:44

02
Out 10

Em Novembro de 1924 veio a Sintra o então Presidente da República, Teixeira Gomes, para o lançamento da primeira pedra do novo hospital a localizar atrás da então cadeia comarcã e confinante com a R. das Murtas, junto à estação ferroviária. Usou-se da palavra, exaltou-se o progresso, peroraram os comendadores encartados, fez-se auto do acontecimento e do mesmo se lavrou cópia, que se depositou debaixo da pedra em recipiente de vidro, enterrada testemunha para a eternidade daquele momento solene em que Sintra ia passar a ter o "seu" hospital. Era projecto de Porfírio Pardal Monteiro, vistosa foi a  cerimónia, com ministros, edis, fardas com dragonas e filantrópicas damas, tudo com  acompanhamento musical das Bandas do 1º de Dezembro e dos Bombeiros da Vila e S.Pedro. Sintra rejubilava com mais esse acertado passo no sentido dos melhoramentos, a saúde ía inscrever-se no mapa dos direitos que uma sociedade civilizada não podia dispensar.

Os anos passaram, os regimes também, e do novo hospital nem um tijolo. Noventa anos depois, perdeu-se o velhinho Hospital da Misericórdia, na Vila e a assistência ao maior concelho do país (em residentes) é feita em unidades dos concelhos limítrofes. Outras pedras e outros projectos se foram sucedendo, mas o Verbo é inimigo da Verba e a saúde continuou bastante adoentada. Inclusive, não fossem as normas do registo civil alteradas, ninguém, não fosse  nascido dentro da ambulância ou em algum carro dos bombeiros poderia reclamar ter nascido em Sintra, pois há vários anos que  maternidade é valência desconhecida por aqui, nunca um primeiro choro de bebé ressoa nestes ares avessos a parturientes. As poucas  cegonhas  vindas de Paris sobrevoam a Pena, mas com destino a Cascais ou a Lisboa.

Projectos, terrenos e comissões, já houve vários, conforme os ciclos eleitorais (e por causa deles),mas  um Hospital de Sintra (e em Sintra, concelho)é já do domínio da lenda. Aquela pedra e aquele recipiente de vidro solenemente enterrados em 1924, são  homenagem perene e subterrânea à incapacidade de decidir, apanágio de quem nos tem (des)governado de forma endémica, na fúria estatística de coleccionar primeiras pedras para mero arremesso de propaganda.O Hospital de Sintra deixou de ser uma prioridade para os vivos, mas será por certo um atractivo para os futuros arqueólogos que um dia descubram a pedra, qual Graal redentor, e até pensem que tenha havido um holográfico hospital em Sintra, na velhinha Rua das Murtas.

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:31

01
Out 10

José Alfredo acelerava o passo Estefânea  abaixo, fugindo a uma chuva miudinha que desde manhã ameaçava dos lados da praia e rápido se abrigou no hall do Jornal de Sintra, onde levava mais um dos seus poemas, carinhosamente assinados como Zé da Vila. Desde que escrevera o poema contra as intenções do Conde de Sucena de ajardinar Seteais e que levara as gentes da Vila Velha a tocar o sino a rebate dedicava-se com denodo a despachar para o seu jornal de estimação textos  sempre actuais. Quando o Zé Alfredo não escrevia nada se passava no burgo.

Aí cruzou-se com o Mário Reis e o Medina, que escutavam  mais um poema da prendada Maria Almira, finalista do Curso Superior de Letras e orgulho do pai babado.

-É sempre a mesma coisa, ó Zé, o chapéu fica sempre em casa- saudou o Medina, pondo a mão naquelas costas magras e secas.

-Chapéu só se for para dar umas “patadas” em certos cavalheiros…-rematou logo, voz vigorosa

Aquele ano de 1935 corria de feição em Sintra. Em Setembro, no Casino, dirigido por Lafayette Machado, tinham actuado  Auzenda de Oliveira e Fernanda Coimbra, em Novembro as instalações da Pensão Nova Sintra de Miguel Rebelo passaram para a antiga sede do Sintra Club e as noites vinham animadas de forma garbosa  pelo  Estefânea Jazz, fundado em 1930 por José Martins de Oliveira. Estavam ainda na memória as cerimónias de pompa e circunstância da visita do presidente Carmona, no Verão.Tudo corria em clima de paz e progresso, mal se adivinhando que lá na Europa Central um franzino demagogo se preparava para mudar a História do século.

-Sabe que mais, ó Medina, lembrei-me que cá no jornal vocês podiam lançar uma campanha para uma estátua ao D.Fernando II.

-Estátua? Ó homem, então você é um jacobino encartado e agora quer alinhar com os talassas? Isto de reis está fora de moda! -alvitrou Mário Reis, o chefe da redacção.

-Pois é, mas sabe, eu pra mim quem faz pela terra não tem cor nem posto, o homem pôs isto no mapa! -retorquiu o Zé. Além do mais, até o Carmona, que apesar de apoiar o “Botas” nem  é mau tipo inaugurou uma lápide na Pena em homenagem a ele.

-Mérito do Carvalho da Pena! Aquele homem vale o peso dele em ouro!...-assentou Medina, abanando a cabeça

-Escreva o que digo: o Carlos Carvalho percebe mais da Pena que todos os engenhocas dos serviços  florestais  juntos! -lançou Zé Alfredo, de dedo em riste. Mas o que acha da ideia da estátua? -insistiu

-Mas quem poderia fazê-la? O Anjos Teixeira ainda no outro dia foi para a terra da verdade .E se quer que lhe diga, está mais fresco na memória  o Brandão de Vasconcelos. E não se falava em reis e rainhas…-ajuizou Mário Reis.

-E punha-se onde ? Na Pena? -perguntou Medina

-Não, no  Ramalhão,de frente para o palácio .Assim, quem viesse de Lisboa ficava logo a saber a quem se devia aquilo tudo!-explicou o Zé Alfredo.

-Olhe, esqueça isso, e vamos mas é almoçar, que o Alberto Totta veio das Azenhas  e trouxe umas perdizes e um tinto do dele. Isso é que é de rei, sim senhor!- apressou Mário Reis.

E lá foram em direcção à Sociedade União Sintrense, onde Alberto Totta já se adiantava com suculentas fatias de presunto e uma garrafa de tinto.

A estátua ficou para as calendas.Com o início da Guerra, outras preocupações sobressaltaram o velho burgo, o país aninhado á sombra protectora do sacristão do Vimieiro. Quarenta anos depois, um Zé Alfredo feito autarca pelo novo poder abrilino voltou á carga, e a estátua lá se inaugurou.José Alfredo da Costa Azevedo, o republicano maçon, contra a corrente dos tempos, inaugurava no Ramalhão a estátua a um rei que foi em si Sintra e o Portugal instruído e atento, contra vozes que lhe estranhavam tendências monárquicas no simples facto de homenagear não o cargo mas o Homem.

Nestes tempos de celebrações da República, um exemplo de que não há monárquicos nem republicanos para venerar. Apenas Homens Bons.

 

António Medina Júnior,José Alfredo Costa Azevedo e Alberto Totta em 1935

 

Inauguração daEstátua a D.Fernando II-28 Junho 1975

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:47

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