por F. Morais Gomes

17
Nov 10

Pensava Henrique Sousa Prego repousar uma temporada em Sintra, terra de seu pai e seu tio, depois de cinco anos como intendente da Marinha em S. Salvador da Baía quando nova e especial missão lhe foi destinada: a Família Real partia para o Brasil em 29 de Novembro de 1807, Sousa Prego, oficial experiente, ficava encarregue da retaguarda da esquadra ao comando da Medusa.

Na frente, o navio almirante Príncipe Real, com a rainha D.Maria   o  assustado príncipe regente e os infantes Pedro e Miguel, D.Carlota seguia no Afonso de Albuquerque com as quatro filhas.Com a pressa da partida não se haviam feito reparações na embarcação, pouco fiável para uma viagem de quatro mil milhas, a ideia de voltar para aquele ermo de macacos e palmeiras frustrara-lhe as delícias da sombra dos Pisões. Passada a barra, juntou-se-lhes a esquadra britânica de escolta, quatro vasos, com o HMS Hibernia comandado por sir Sidney Smith à cabeça. Lisboa atónita ficava órfã e desamparada entregue a facínoras franceses que logo a pilharam.

No barco de Sousa Prego seguiam vários dos mais de dez mil dignitários retirantes, entre eles o ministro dos Negócios Estrangeiros António de Araújo, um dos que mais insistir na retirada para o Brasil. Pedante, pusilânime, achava que devia seguir no navio-almirante e desde cedo se mostrou ressabiado com Sousa Prego, toda a viagem levantando recriminações e questionando a competência deste , afinal de contas proveniente duma família da pequena aristocracia de Sintra. Pateticamente tomava tisanas no convés, servido por um criado mulato sempre intercalando as conversas com expressões em francês, país onde fora embaixador.

Nos primeiros dias ventos fortes pareciam querer trazer a frota de volta a Portugal, as velas tiveram de ser amarradas, o convés  ia pejado de enjoados marialvas e senhoras só com a roupa que traziam no corpo, uma corja de lambe-botas, pensava, a corte de Lisboa era coisa a que como homem do mar era avesso e agora ali estavam todos, mais de dez mil, trinta e seis velas de ratos assustados a caminho do desconhecido.

Só depois o tempo amainou a caminho da Madeira onde nevoeiros espessos e borrifos de água se tornaram opressivos, o marquês dos Arcos vomitando na proa, a caixa de rapé derrapando borda fora. As apreensões de Sousa Prego faziam sentido: cordames envelhecidos, viagem mal planeada, parecia uma frágil jangada de cortesãos  com cabeleiras e  vestes douradas e matronas de saia de roda,estas  alvo lascivo dos marujos desdentados cobiçando aquelas fidalgas carregadas de pó de arroz, bem diferentes das rameiras da Ribeira das Naus.

Uma noite, alguns dias de viagem eram já decorridos, o mastro principal do Medusa partiu-se e Sousa Prego acordado às pressas deparou-se com o navio à deriva em pleno oceano. Alguns dias demorou a reparação, o resto da frota distanciou-se por essa altura. António Araújo recriminava:

-Sr Comandante, em bastante mau estado trás este navio. Se não fossem os criados de José Egídio, que traziam fio para uma peça de tecido, não teríamos tido com que coser as velas. Dommage!

Sousa Prego ignorou os remoques, paciente para com o tartufo. Finalmente, reparado no que pôde, retomaram a rota. A comitiva estava já dividida em dois grupos, um dirigindo-se a noroeste, o outro mais perto da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e assim foi daí em diante.

Outros contratempos surgiram entretanto: a água doce rareava, uma praga de piolhos obrigara as damas a rapar o cabelo, desesperadas e humilhadas, as caras cabeleiras vindas de Paris borda fora. Até o comandante teve de se desfazer da sua, deixando a descoberto a figura esguia e morena que desde a largada atraía os olhares provocadores de D.Luísa de Menezes, filha do marquês de Lavradio.

António Araújo ruminava com o Desembargador do Paço:

-O Príncipe Regente tem de ter muita atenção com o Sousa Coutinho, já em Mafra se postou para Ministro do Reino, é um ambicioso!...-relatava, simulando preocupação com D.João VI, a quem abominava os modos boçais e a insegurança alarve. Muitos o querem perder, Excelência!

Passado o pânico da fuga, intrigava-se agora à sombra dos mastros sobre as posições que tomariam na Colónia e o convés do Medusa substituía os salões de Queluz na congeminação dos novos postos que todos achavam vir a ter direito no Brasil.

À sexta semana entravam já na zona das calmarias.Com a costa de Pernambuco a algumas milhas, Sousa Prego perdeu o controle da rota, ficando quase um mês à deriva, para fúria de António Araújo que temia que a chegada do Príncipe Regente, e sobretudo do conde de Linhares que tudo faria por benesse ou nomeação, ofuscando-o, o tratante, ali retido naquela barcaça tresandando a peixe.

Tinham passado onze semanas desde a saída de Lisboa quando finalmente o Medusa aportou a Recife, a 8 de Março de 1808.D.João desembarcara já em Salvador, onde ninguém o esperava, a Colónia desconhecia a sua chegada.O rei de Portugal era uma imagem quase irreal, distante, como podia aquele ser balofo e de sarro nos dentes, a quem a natureza não bafejara em beleza, ser o senhor supremo do vasto império português?

Sousa Prego só mais tarde se juntou à Corte no Rio de Janeiro. O atraso produzira resultados: António Araújo, como suspeitara, já tinha sido substituído pelo Conde de Linhares, Rodrigo de Sousa Coutinho. A Corte de Lisboa descia aos trópicos e à sombra do Pão de Açúcar tornava-se a primeira monarquia a sul do Equador, o Reino definhando entre ingleses e franceses, D. João, abúlico, saboreando frutos tropicais e galinhas do campo.

O comandante do Medusa apenas voltou à Europa nove anos depois, para escoltar a futura imperatriz Leopoldina ao Brasil , para casar com o príncipe D. Pedro ,e já vice-almirante. Depois do regresso da família real,em 1822, foi o último capitão general dos Açores e activo apoiante da causa miguelista.Um português autêntico num tempo de mudanças.

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:52

O dolente e desconcertante exército deslocava-se por entre as areias revoltas, Larache para trás, a pouca distância uma aldeia, algumas cabras alheadas devorando as poucas urtigas. Era 1 de Agosto, a 25 de Julho haviam largado do Reino e até então nem sombras de Abd-Al-Malik.

André Gonçalves, segundo alcaide-mor de Sintra e seu cunhado João de Castro Albuquerque, neto do vice-rei D.João de Castro engrossavam o quixotesco mar de gente arrebanhado para a aventura com que o jovem rei D.Sebastião queria entrar na História, qual Lancelot em busca do seu Avalon. André Gonçalves por morte do pai sucedera não só num juro de cem mil reis que pertencera ao pai como também em toda a Casa e Morgado de Ribafria. Comendador de S. Mamede de Sortes na Ordem de Cristo, Porteiro-Mor de D. Sebastião, era, como o pai, alcaide-mor da Vila e castelo de Sintra. Ía pelos trinta e oito anos, o cunhado pelos dezanove.

Sempre próximos na expedição, partilhavam tenda e criados, em Sintra, com o jovem rei haviam feito passeios a cavalo e entusiasmados com a empresa africana seguiam voluntários naquela babel de guerreiros de várias nacionalidades, onde se juntavam criados rameiras camponeses e carros de bois. Era o anacrónico exército de Portugal.

Largados do Reino a 25 de Junho de 1578, passaram por Tânger, onde se lhes juntou o rei aliado, Abu Abdallah Mohammed II Saadi, e daí todos seguiram para Arzila e Larache por terra.

André Gonçalves e o jovem João seguiam junto com os cavaleiros de Tânger. Adalid, o batedor enviado por Mohammed e mais cem homens patrulhavam as colinas amarelas e ocres onde entre areias apenas cresciam cardos secos, enfrentando aquele suão que aos portugueses castigava o corpo, vestido com roupa pouco adequada, e trazendo os animais sedentos e nervosos.

Na tarde de 2 de Agosto chegaram à margem esquerda do rio Mekhazen, afluente do Loukkes, que contornaram no dia 3, atravessando um vau transitável.Aí já os homens davam sinais de exaustão. André Gonçalves coordenava a distribuição de alimentos, uma vaca e dois sacos de biscoito por cada companhia.

El-Rei hesitava na táctica, quatro a cinco mil inimigos vigiavam já a menos de duas milhas. Tudo aceitaria desde que lhe não fosse retirado o privilégio de ser o primeiro a entrar em combate, era a sua obsessão.

Amanheceu finalmente 4 de Agosto, dia de S.Domingo de Gusmão.O exército de Abd Al-Malik, com o rei moribundo numa liteira estava muito perto do exército de Sebastião e de Mohammed.Morabitinos arrebatados na colina ao fundo exibiam gritando símbolos do crescente e prometiam o céu aos soldados.

André Gonçalves, pela alvorada rezou, recolhido.Menos arrebatado, preocupado observava o terreno, campo demasiado exposto com a retirada dificultada pelo rio, o alferes-mor D.Duarte iluminaria o jovem rei na decisão a tomar, pensou. João a seu lado mostrava um ar determinado, ansioso pelo dia de glória e honra para o Reino fronteiro da cristandade na Terra.

O rei, depois de envergar uma armadura de tons azulados e debruada a ouro, de elmo na mão dirigiu-se aos homens, alinhados. Seria aquele o momento da decisão.

Posto o discurso de incitamento, o padre Alexandre da companhia de Jesus levantou um crucifixo ao alto e todos ajoelharam. Era chegada a hora.Ao mesmo tempo, lá longe, em Velilla, Aragão, sinos tocavam a rebate anunciando a derrota do exército português. Fatídica premonição…

A batalha estava em marcha: no campo português todos gritaram o nome do rei, qual celebração de vitória antecipada. André Gonçalves, resoluto, integrou o terço de Vasco da Silveira.Do lado dos de Abd Al-Malik, formados em meia-lua, Mulei Ahmed, irmão do moribundo rei comandava, à frente os atabales davam o sinal para a batalha. Quinze mil cavaleiros sob o comando do alcaide de Alcácer Quibir Abraham Suffin formaram num semí- circulo, qual lâmina de foice pronta para envolver aquele temerário exército chefiado por uma criança que ainda de cueiros ousava intrometer-se numa guerra de família.

Um arrepio na espinha atravessou André Gonçalves ao tocarem as trombetas. Eram oito da manhã. Duas horas depois os mouros tomavam a iniciativa com tiros de artilharia. Os portugueses vacilavam, ignoravam que possuíssem armas pesadas.Logo dois cavaleiros caíam mortos, os soldados, labregos mais familiarizados com arados e enxadas entraram em pânico, da surpresa. Depois de alguma hesitação na voz de comando, os aventureiros, cabeça do exército, avançaram mesmo sem ordem de combate.João de Castro juntou-se-lhes com maça e espada, era a hora de tremer o solo africano, mas logo tombaram todos, varados por setas. André Gonçalves não mais viu o jovem cunhado, que espezinhado sumiu na poeira.

Sem que ninguém se apercebesse, Abd El-Malik morria entretanto na liteira, o que os seus ocultaram, na frente a sorte balançava.

D.Sebastião trocou de cavalo e bramia a espada desfigurado e temerário, Mohammed, o aliado de ocasião, cobarde, pouco se expôs, o exército cada vez mais parecia um barco à deriva com um comandante alucinado. O alferes-mór D.Luís de Meneses pediu ao rei que se resguardasse, era preciso a sua salvação pessoal para segurança do Reino, mas ele repeliu-o, cerrando os dentes, febril por glória.

Pouco passava do meio-dia, André Gonçalves foi atingido por uma flecha no rosto, tão funda que só deixava ver as penas. Vendo o fim próximo resistiu com as forças que lhe sobravam até cair junto ao rio. Os terços mais adiantados do exército rendiam-se, impotentes, varados pelas setas e arcabuzes matraqueando sendo depois selvaticamente massacrados e despojados, naquela açougue exterminador da juventude e sangue de Portugal.

Pelas duas da tarde, só quase D.Sebastião resistia, frenético, alienado, cinco mouros cercando o seu cavalo. Muhamad fugiu, atravessando o Mekhazen logo morrendo afogado. Breve, nas ardentes areias de Alcácer- Quibir o vulto alvo do jovem rei de Portugal sumia também na voragem dos corpos e artilharia tombada. Eram três da tarde do último dia de Portugal.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:17

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