por F. Morais Gomes

19
Nov 10

Intervalo da Cimeira da NATO, Lisboa. Duas horas de folga antes da reunião com o presidente afegão, Karzai, Obama chamou o conselheiro de imprensa:

-Bob, estes discursos são mais chatos que os do Tea Party.Inventa ai um compromisso para eu poder respirar um pouco…

-Yes, mr. president, -assentou logo o assessor, yuppie de gravata, um quanto nerd, viera  com a equipa que fizera a campanha.

Apenas  com Todd, prestável agente dos serviços secretos na pendura, Obama, carro de matrícula nacional arranjado na embaixada, guiou pelos arredores de Lisboa, paisagens a lembrar Atlantic City, seguiu pela marginal. A alguma distância, carros da CIA, olhos bem abertos não surgisse um suicida em Algés ou um talibã em Paço de Arcos, a ideia deixara os hiperactivos seguranças da Casa Branca com os cabelos em pé. Obama, presidente há 2 anos, apesar de chamuscado pelas realidades da política, Sarah Palin à perna, ainda não interiorizara as liturgias da White House, nada como um Big Mac com cogumelos no restaurante da esquina, flirtando Michelle, como nos tempos de Chicago.

Com o auxílio de um GPS, mal desconfiavam os pacatos moradores da linha que disfarçado ali ia o chefe da maior potência do mundo.Tirou fotos com o Blackberry na Boca do Inferno, ao longe descortinou o palácio da Pena.

-Sítio interessante, aquele.É um telescópio ?- aventou, lembrando-lhe um posto de observação-Não me parece, sir.-encolheu os ombros o agente, o seu mundo ia de Brooklyn a Harlem, castelos só nas fitas do Errol Flynn, -Deve ser algum cenário dum filme!-e ia ajustando o auricular por trás dos Ray Ban.

Obama quis ir conhecer o local, rolaram para Sintra, agentes no Ramalhão, carrinha de vidros fumados.

A Vila saboreava mais uma tarde de Outono, um vendedor apregoava castanhas assadas frente ao palácio. Apontando para o assador, cheiro penetrante, pediu uma dúzia, logo aviado. Ao pagar, o velho problema: um presidente nunca tem de pagar nada, não tem carteira, Todd pagou, deixou 50 dolares, estava feita a tarde do estupefacto vendedor.

Algumas pessoas olhavam de soslaio, era tal e qual o Obama, um velhote junto ao Café Paris, comentava para um vizinho:

-Ó Ti Chico, aquele camone parece mesmo o da América, o Obana

-Obama, ti Zé, Obama- e dirigindo-se a um divertido Barack que comia castanhas, lançou:

-Amigo,você podia ganhar umas coroas a tirar fotos aí com os turistas, a fazer de Obama, o gajo lá da América!-atirou, dando uma palmadinha no ombro, Todd impulsivamente a segurar-lhe o braço, nunca se sabe onde está um novo Lee Oswald.

-What, amigo? -sorriu o presidente- e oferecendo uma castanha-You have nice fruits here, whant some?

Ti Zé encolheu os ombros, em inglês só sabia dizer yes.

O segurança já olhava o relógio, havia que regressar ao Parque das Nações, uma última volta pela Piriquita, comprou uns travesseiros para Michelle. Fernando Cunha, o dono, ainda o mirou desconfiado, Todd lá largou mais 50 dolares, havia que voltar.

O carro ficara junto ao Turismo.Mal abriu a porta, viu no passeio em frente um vulto familiar, uma senhora de meia-idade, loura, baixa, olhando uma montra. Mirou, intrigado, ela, sentindo-se observada, acenou, automatismo rotineiro.Olhar logo pasmado.

-Barack?

-It’s not possible! Angela!

Era Angela Merkel, a chanceler alemã.Entediada, também fugira a fazer umas compras, logo afectuoso cumprimento, quando contasse na Casa Branca , Michelle havia de rir a bom rir.

-Então também iludistes a segurança ?- comentou, divertido.

-Ya, veio só um segurança comigo. Sabes, estas reuniões são uma seca, e depois o Sócrates e o Papandreou não me largam a pedir dinheiro, o Sarkozy armado em engatatão…-desabafou, político sofre.

-Sabes que mais? Vou mandar o meu chief of staff dizer que estamos a ultimar uma proposta para o G-20 e vamos tomar um chá e uns scones-sugeriu Obama, qual traquina fugindo das aulas com a amiga.

-Wunderbahr! -largou Angela, pequeno gritinho, uma fatia de bolo de chocolate também iria bem.

Eram seis da tarde, na sala de chá do Lawrence um bule fumegava e os dois senhores do mundo bebiam chá de camomila e contavam anedotas, dois agentes na rua em stress, Sintra anoitecia por entre o fumo das castanhas assadas. No Parque das Nações, o presidente afegão esperava, desesperando por um narguilé e entretinha-se simulando jogos de guerra num Magalhães que Sócrates prontamente lhe arranjara explicando que podia ser o futuro das escolas no Afeganistão....


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:27

Honório Carneiro,professor de História, vinte e cinco anos, filho de um industrial de Águeda, com o advento da guerra decidiu, em 1940, que deveria fazer alguma coisa naquela Europa em armas, e colaborar com os ingleses, único adversário real dos nazis, parecia-lhe o mais adequado, os bombardeamentos em Londres emocionaram-no, era um democrata num país sem democracia, oficialmente neutral.

Colocado no Liceu Pedro Nunes, alheado dum regime que se elogiava realizando a operática Exposição do Mundo Português, certo dia decidiu-se a oferecer os seus serviços à embaixada britânica, Churchill era inspirador, Portugal velho aliado, mas não o levaram muito a sério, com um sorriso o despacharam. Teve então, maniqueísta, a ideia de fazer a mesma proposta aos alemães, visando, atrair posteriormente o interesse dos britânicos, mente tortuosa funcionando.

Aos alemães interessava sobretudo quem pudesse sem levantar suspeitas entrar no Reino Unido. E assim, fez um acordo discreto com os nazis, de que conseguindo em Portugal um visto para ir para Inglaterra, aí secretamente trabalharia para eles. Um  pai salazarista convencia os alemães da alegada admiração do jovem Carneiro pela obra do III Reich.

Congeminando na forma de levar o seu plano por diante, pensava na forma de obter o tal visto, só com parecer favorável da PVDE o poderia obter, não tinha interesses reais que pudesse demonstrar para ir a Inglaterra.

Certo dia, no Hotel Netto, em Sintra, onde fora passar um fim-de-semana, conheceu Patrício da Nóvoa, tenente-coronel do serviço de Informações e antigo segundo comandante em Mafra, apaixonado por história militar com quem fez amizade, a história era o gosto comum das duas personalidades , distintas e de gerações diferentes. Passaram a ver-se frequentemente, ao fim de semana o  ponto de encontro era o bar do Hotel Netto.

Um dia, o coronel Nóvoa confidenciou-lhe que estava de partida para Inglaterra em missão oficial e mostrou-lhe mesmo o visto diplomático e um documento com o carimbo do Ministério dos Negócios Estrangeiros.Era a oportunidade.Convidou  Nóvoa para uma ceia no Netto, a desfrutar da frescura da Vila, e a meio do jantar, fingindo estar com dores de cabeça ausentou-se para o quarto, a tomar comprimidos, altura em que se introduziu nos aposentos do coronel, fotografou todos os seus documentos, passaporte e visto sobretudo , e, deixando tudo no seu  lugar, voltou ao jantar.

De volta a Lisboa, apresentando-se como funcionário do Ministério, conseguiu que uma firma em Pedrouços reproduzisse o brazão numa chapa metálica e numa empresa de tipografia imprimiu um documento estampado com o escudo, forjando um carimbo idêntico ao original. Acrescentou, posteriormente o seu nome e fotografia e voltou à legação alemã com o almejado visto, logrando convencer os desconfiados alemães a utilizarem os seus serviços com o compromisso de se instalar no Reino Unido.

Devidamente treinado pelo Abwehr de Lisboa, instalou-se então em segredo numa vivenda na Rinchoa de onde começou a enviar relatórios, simulando que estava em Londres. Buscando freneticamente obter informações em jornais estrangeiros ou quaisquer outras fontes que fossem úteis, com habilidade incomum para filtrá-las e grande imaginação para inventar factos, enviava  mensagens para a embaixada, que, julgando-o em Londres, as encaminhava para Berlim.

Contudo, era aos aliados que efectivamente queria ajudar. A situação era precária, e seria uma questão de tempo até que a farsa fosse descoberta, um erro que cometesse, fosse por uma confirmação de informações que passara, ou ainda qualquer  algum outro motivo que o denunciasse e ao seu plano. A habilidade de inventar factos de forma genérica e de chegar aos detalhes somente quando realmente os conhecia aliado a uma certa displicência da embaixada contribuíram para que a sua situação no seu bunker de Ranholas se sustentasse por alguns meses. A verdade é que os  relatórios pareciam credíveis, e surtiam efeitos.Uma vez conseguiu que a Alemanha deslocasse navios de guerra para afundar uma inexistente esquadra que saíria de Portsmouth com destino a  Gibraltar. Como essa esquadra nunca chegou ao destino, atribuiu o erro à ineficácia da aviação alemã, que não fora capaz de localizá-la.Os alemães desconfiavam,mas iam mantendo a colaboração.

Este episódio porém foi do conhecimento dos ingleses que rapidamente através do MI5 localizaram Honório sem que o posto da Abwehr em Lisboa suspeitasse.Era o momento de convencê-los a aceitar os seus serviços como agente duplo, afinal o que sempre desejara. Desconfiados, os ingleses pediram-lhe que enviasse uma mensagem aos alemães como teste de comparação entre essa mensagem e outras por eles interceptadas. Não restaram dúvidas: eram da mesma proveniência,Honório era o falso agente alemão,a sagacidade levou os ingleses a  finalmente incorporá-lo na rede de agentes duplos do MI5.

Não tinha acesso à sede central do serviço secreto nem contacto com outros agentes duplo nem conhecia a identidade verdadeira da maioria dos agentes do MI5, trabalhando num escritório em Paço de Arcos sob a fachada de tradutor da BBC, na companhia de Steve Miller, suposto jornalista mas este na verdade do MI5 e de uma secretária, que lhe fazia  traduções.

Daí em diante, a estratégia acertada com os ingleses passou a ser a de   convencer os alemães de que Lisboa estava limpa de ingleses, dispensando a vinda de mais agentes alemães.

Acabada a guerra, Honório abriu uma agência de publicidade, e nas horas vagas dedicou-se a escrever romances policiais, muito elogiados pelos amigos que se espantavam de onde vinha tanta imaginação…

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:15

17
Nov 10

Pensava Henrique Sousa Prego repousar uma temporada em Sintra, terra de seu pai e seu tio, depois de cinco anos como intendente da Marinha em S. Salvador da Baía quando nova e especial missão lhe foi destinada: a Família Real partia para o Brasil em 29 de Novembro de 1807, Sousa Prego, oficial experiente, ficava encarregue da retaguarda da esquadra ao comando da Medusa.

Na frente, o navio almirante Príncipe Real, com a rainha D.Maria   o  assustado príncipe regente e os infantes Pedro e Miguel, D.Carlota seguia no Afonso de Albuquerque com as quatro filhas.Com a pressa da partida não se haviam feito reparações na embarcação, pouco fiável para uma viagem de quatro mil milhas, a ideia de voltar para aquele ermo de macacos e palmeiras frustrara-lhe as delícias da sombra dos Pisões. Passada a barra, juntou-se-lhes a esquadra britânica de escolta, quatro vasos, com o HMS Hibernia comandado por sir Sidney Smith à cabeça. Lisboa atónita ficava órfã e desamparada entregue a facínoras franceses que logo a pilharam.

No barco de Sousa Prego seguiam vários dos mais de dez mil dignitários retirantes, entre eles o ministro dos Negócios Estrangeiros António de Araújo, um dos que mais insistir na retirada para o Brasil. Pedante, pusilânime, achava que devia seguir no navio-almirante e desde cedo se mostrou ressabiado com Sousa Prego, toda a viagem levantando recriminações e questionando a competência deste , afinal de contas proveniente duma família da pequena aristocracia de Sintra. Pateticamente tomava tisanas no convés, servido por um criado mulato sempre intercalando as conversas com expressões em francês, país onde fora embaixador.

Nos primeiros dias ventos fortes pareciam querer trazer a frota de volta a Portugal, as velas tiveram de ser amarradas, o convés  ia pejado de enjoados marialvas e senhoras só com a roupa que traziam no corpo, uma corja de lambe-botas, pensava, a corte de Lisboa era coisa a que como homem do mar era avesso e agora ali estavam todos, mais de dez mil, trinta e seis velas de ratos assustados a caminho do desconhecido.

Só depois o tempo amainou a caminho da Madeira onde nevoeiros espessos e borrifos de água se tornaram opressivos, o marquês dos Arcos vomitando na proa, a caixa de rapé derrapando borda fora. As apreensões de Sousa Prego faziam sentido: cordames envelhecidos, viagem mal planeada, parecia uma frágil jangada de cortesãos  com cabeleiras e  vestes douradas e matronas de saia de roda,estas  alvo lascivo dos marujos desdentados cobiçando aquelas fidalgas carregadas de pó de arroz, bem diferentes das rameiras da Ribeira das Naus.

Uma noite, alguns dias de viagem eram já decorridos, o mastro principal do Medusa partiu-se e Sousa Prego acordado às pressas deparou-se com o navio à deriva em pleno oceano. Alguns dias demorou a reparação, o resto da frota distanciou-se por essa altura. António Araújo recriminava:

-Sr Comandante, em bastante mau estado trás este navio. Se não fossem os criados de José Egídio, que traziam fio para uma peça de tecido, não teríamos tido com que coser as velas. Dommage!

Sousa Prego ignorou os remoques, paciente para com o tartufo. Finalmente, reparado no que pôde, retomaram a rota. A comitiva estava já dividida em dois grupos, um dirigindo-se a noroeste, o outro mais perto da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e assim foi daí em diante.

Outros contratempos surgiram entretanto: a água doce rareava, uma praga de piolhos obrigara as damas a rapar o cabelo, desesperadas e humilhadas, as caras cabeleiras vindas de Paris borda fora. Até o comandante teve de se desfazer da sua, deixando a descoberto a figura esguia e morena que desde a largada atraía os olhares provocadores de D.Luísa de Menezes, filha do marquês de Lavradio.

António Araújo ruminava com o Desembargador do Paço:

-O Príncipe Regente tem de ter muita atenção com o Sousa Coutinho, já em Mafra se postou para Ministro do Reino, é um ambicioso!...-relatava, simulando preocupação com D.João VI, a quem abominava os modos boçais e a insegurança alarve. Muitos o querem perder, Excelência!

Passado o pânico da fuga, intrigava-se agora à sombra dos mastros sobre as posições que tomariam na Colónia e o convés do Medusa substituía os salões de Queluz na congeminação dos novos postos que todos achavam vir a ter direito no Brasil.

À sexta semana entravam já na zona das calmarias.Com a costa de Pernambuco a algumas milhas, Sousa Prego perdeu o controle da rota, ficando quase um mês à deriva, para fúria de António Araújo que temia que a chegada do Príncipe Regente, e sobretudo do conde de Linhares que tudo faria por benesse ou nomeação, ofuscando-o, o tratante, ali retido naquela barcaça tresandando a peixe.

Tinham passado onze semanas desde a saída de Lisboa quando finalmente o Medusa aportou a Recife, a 8 de Março de 1808.D.João desembarcara já em Salvador, onde ninguém o esperava, a Colónia desconhecia a sua chegada.O rei de Portugal era uma imagem quase irreal, distante, como podia aquele ser balofo e de sarro nos dentes, a quem a natureza não bafejara em beleza, ser o senhor supremo do vasto império português?

Sousa Prego só mais tarde se juntou à Corte no Rio de Janeiro. O atraso produzira resultados: António Araújo, como suspeitara, já tinha sido substituído pelo Conde de Linhares, Rodrigo de Sousa Coutinho. A Corte de Lisboa descia aos trópicos e à sombra do Pão de Açúcar tornava-se a primeira monarquia a sul do Equador, o Reino definhando entre ingleses e franceses, D. João, abúlico, saboreando frutos tropicais e galinhas do campo.

O comandante do Medusa apenas voltou à Europa nove anos depois, para escoltar a futura imperatriz Leopoldina ao Brasil , para casar com o príncipe D. Pedro ,e já vice-almirante. Depois do regresso da família real,em 1822, foi o último capitão general dos Açores e activo apoiante da causa miguelista.Um português autêntico num tempo de mudanças.

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:52

O dolente e desconcertante exército deslocava-se por entre as areias revoltas, Larache para trás, a pouca distância uma aldeia, algumas cabras alheadas devorando as poucas urtigas. Era 1 de Agosto, a 25 de Julho haviam largado do Reino e até então nem sombras de Abd-Al-Malik.

André Gonçalves, segundo alcaide-mor de Sintra e seu cunhado João de Castro Albuquerque, neto do vice-rei D.João de Castro engrossavam o quixotesco mar de gente arrebanhado para a aventura com que o jovem rei D.Sebastião queria entrar na História, qual Lancelot em busca do seu Avalon. André Gonçalves por morte do pai sucedera não só num juro de cem mil reis que pertencera ao pai como também em toda a Casa e Morgado de Ribafria. Comendador de S. Mamede de Sortes na Ordem de Cristo, Porteiro-Mor de D. Sebastião, era, como o pai, alcaide-mor da Vila e castelo de Sintra. Ía pelos trinta e oito anos, o cunhado pelos dezanove.

Sempre próximos na expedição, partilhavam tenda e criados, em Sintra, com o jovem rei haviam feito passeios a cavalo e entusiasmados com a empresa africana seguiam voluntários naquela babel de guerreiros de várias nacionalidades, onde se juntavam criados rameiras camponeses e carros de bois. Era o anacrónico exército de Portugal.

Largados do Reino a 25 de Junho de 1578, passaram por Tânger, onde se lhes juntou o rei aliado, Abu Abdallah Mohammed II Saadi, e daí todos seguiram para Arzila e Larache por terra.

André Gonçalves e o jovem João seguiam junto com os cavaleiros de Tânger. Adalid, o batedor enviado por Mohammed e mais cem homens patrulhavam as colinas amarelas e ocres onde entre areias apenas cresciam cardos secos, enfrentando aquele suão que aos portugueses castigava o corpo, vestido com roupa pouco adequada, e trazendo os animais sedentos e nervosos.

Na tarde de 2 de Agosto chegaram à margem esquerda do rio Mekhazen, afluente do Loukkes, que contornaram no dia 3, atravessando um vau transitável.Aí já os homens davam sinais de exaustão. André Gonçalves coordenava a distribuição de alimentos, uma vaca e dois sacos de biscoito por cada companhia.

El-Rei hesitava na táctica, quatro a cinco mil inimigos vigiavam já a menos de duas milhas. Tudo aceitaria desde que lhe não fosse retirado o privilégio de ser o primeiro a entrar em combate, era a sua obsessão.

Amanheceu finalmente 4 de Agosto, dia de S.Domingo de Gusmão.O exército de Abd Al-Malik, com o rei moribundo numa liteira estava muito perto do exército de Sebastião e de Mohammed.Morabitinos arrebatados na colina ao fundo exibiam gritando símbolos do crescente e prometiam o céu aos soldados.

André Gonçalves, pela alvorada rezou, recolhido.Menos arrebatado, preocupado observava o terreno, campo demasiado exposto com a retirada dificultada pelo rio, o alferes-mor D.Duarte iluminaria o jovem rei na decisão a tomar, pensou. João a seu lado mostrava um ar determinado, ansioso pelo dia de glória e honra para o Reino fronteiro da cristandade na Terra.

O rei, depois de envergar uma armadura de tons azulados e debruada a ouro, de elmo na mão dirigiu-se aos homens, alinhados. Seria aquele o momento da decisão.

Posto o discurso de incitamento, o padre Alexandre da companhia de Jesus levantou um crucifixo ao alto e todos ajoelharam. Era chegada a hora.Ao mesmo tempo, lá longe, em Velilla, Aragão, sinos tocavam a rebate anunciando a derrota do exército português. Fatídica premonição…

A batalha estava em marcha: no campo português todos gritaram o nome do rei, qual celebração de vitória antecipada. André Gonçalves, resoluto, integrou o terço de Vasco da Silveira.Do lado dos de Abd Al-Malik, formados em meia-lua, Mulei Ahmed, irmão do moribundo rei comandava, à frente os atabales davam o sinal para a batalha. Quinze mil cavaleiros sob o comando do alcaide de Alcácer Quibir Abraham Suffin formaram num semí- circulo, qual lâmina de foice pronta para envolver aquele temerário exército chefiado por uma criança que ainda de cueiros ousava intrometer-se numa guerra de família.

Um arrepio na espinha atravessou André Gonçalves ao tocarem as trombetas. Eram oito da manhã. Duas horas depois os mouros tomavam a iniciativa com tiros de artilharia. Os portugueses vacilavam, ignoravam que possuíssem armas pesadas.Logo dois cavaleiros caíam mortos, os soldados, labregos mais familiarizados com arados e enxadas entraram em pânico, da surpresa. Depois de alguma hesitação na voz de comando, os aventureiros, cabeça do exército, avançaram mesmo sem ordem de combate.João de Castro juntou-se-lhes com maça e espada, era a hora de tremer o solo africano, mas logo tombaram todos, varados por setas. André Gonçalves não mais viu o jovem cunhado, que espezinhado sumiu na poeira.

Sem que ninguém se apercebesse, Abd El-Malik morria entretanto na liteira, o que os seus ocultaram, na frente a sorte balançava.

D.Sebastião trocou de cavalo e bramia a espada desfigurado e temerário, Mohammed, o aliado de ocasião, cobarde, pouco se expôs, o exército cada vez mais parecia um barco à deriva com um comandante alucinado. O alferes-mór D.Luís de Meneses pediu ao rei que se resguardasse, era preciso a sua salvação pessoal para segurança do Reino, mas ele repeliu-o, cerrando os dentes, febril por glória.

Pouco passava do meio-dia, André Gonçalves foi atingido por uma flecha no rosto, tão funda que só deixava ver as penas. Vendo o fim próximo resistiu com as forças que lhe sobravam até cair junto ao rio. Os terços mais adiantados do exército rendiam-se, impotentes, varados pelas setas e arcabuzes matraqueando sendo depois selvaticamente massacrados e despojados, naquela açougue exterminador da juventude e sangue de Portugal.

Pelas duas da tarde, só quase D.Sebastião resistia, frenético, alienado, cinco mouros cercando o seu cavalo. Muhamad fugiu, atravessando o Mekhazen logo morrendo afogado. Breve, nas ardentes areias de Alcácer- Quibir o vulto alvo do jovem rei de Portugal sumia também na voragem dos corpos e artilharia tombada. Eram três da tarde do último dia de Portugal.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:17

12
Nov 10

Apesar dos entrados de Setembro, a manhã nascera radiosa na Vila Nova da Praia das Maçãs. O Hotel Royal, fronteiro ao areal, acusava alguma agitação, ali estava havia alguns dias em repouso o dr.Afonso Costa, chefe do Partido Democrático e uma das figuras do regime que três anos antes instaurara a República. Desde Fevereiro de 1912, num processo de secessão entre os republicanos, tornara-se líder incontestado. Consolidado o partido, presidia pela primeira vez ao ministério desde Janeiro daquele ano de 1913 , formando o primeiro governo partidário da República, integrado por democráticos e pelos independentes de António Maria da Silva.

Costa, o mata frades, como era conhecido pelos seus inimigos, não era uma figura consensual, o seu vincado anticlericalismo gerara ódios entre os religiosos mais conservadores, era o chefe visível da facção mais radical.Por aqueles dias, fazia uma pausa de vilegiatura. Escolhera o Royal pela posição privilegiada sobre o mar, o cheiro a iodo que entrava pelas janelas pela manhã, o jornal diário na esplanada do Grego, poucos dias, pois a política não dava tréguas, avisara antes de se retirar ao velho presidente Arriaga.

Na manhã desse dia 23 levantara-se cedo, um pequeno-almoço frugal, como era seu hábito, a leitura dos jornais refastelado na cadeira de verga da varanda do Royal. Os hóspedes surpreendidos pela presença inesperada do ilustre veraneante cumprimentavam respeitosamente, muitos porém entre dentes suspirando pelo saudoso rei D.Carlos e pela ordem velha.

No exterior a defesa civil da Praia das Maçãs afecta ao partido democrático montara guarda. Costa tanto era visado pelo clero, como por Paiva Couceiro, até a Carbonária antes aliada agora que o PRP se dividira em partidos o parecia ter como alvo. Sebastião Lima e mais quatro elementos explicitamente armados e colocados nas entradas  do hotel velavam, Sebastião curando junto do presidente do Ministério sobre a sua segurança.Na taberna do Manuel Prego  comentava-se   aquela agitação.

-Só vem atrapalhar o negócio!-comentava o Prego, figura hirsuta e rude, pouco dado a política, entre uma malga de tinto de chão de areia do  ano anterior.O Padre Matias del Campo, num canto, habituado aos políticos da sua Espanha natal e seus humores, assentava com a cabeça, mais inexpressivo e cauteloso, porém.

Pelas dez horas, o sossego da leitura do jornal foi interrompido.

-Sr Doutor, avisam de Sintra que avançam para cá anarquistas armados.É melhor que recolha ao seu quarto, não há tempo de retirar para Lisboa!- Sebastião vinha alterado, notícias de Sintra de elementos do partido avisavam que uma caça ao homem estava em curso, não havia tempo de chamar a Guarda Republicana.

Afonso Costa, habituado a estas andanças, levantou os olhos do jornal e sorriu, já familiarizado:

-Nem uns dias se pode tirar já, meu caro? Vêm à pesca mas vão encontrar mar bravo…-ironizou.Não se preocupem, ando sempre prevenido,não me esqueci ainda do dr.Miguel Bombarda…-e com a mão acariciou o vulto do bolso da casaca onde a pequena pistola repousava.

Em Sintra, grupos de defesa avisados passaram a exercer apertada vigilância, mandando parar os carros e carroças que para a praia se dirigiam e revistando e identificando todas as pessoas. As notícias eram de que os alterados revoltosos em separado tinham entrado em várias estações do comboio com destino a Sintra. Todo o dia, perante a surpresa dos pacatos lavradores aquela agitação de carros entre Sintra e Vila Nova da Praia parecia denunciar um clima de nervosismo, ninguém chegava ao pé do Hotel Royal, sitiado, as informações eram contraditórias.

Miguel Costa Gaião, Jaime Augusto e Alberto Correia, jovens operários, idealistas de sangue quente, três dos que em separado haviam vindo de Lisboa, lograram mesmo aproximar-se do local de Monte Santos, onde havia um controle de estrada. Surpreendidos com um grupo civil armado barrando a estrada de paralelepípedo, acharam por bem  tentar volver ao comboio nas bicicletas que haviam providenciado com um cúmplice.

-Diabo, isto está tudo minado!Jaime Augusto, alfaiate do depósito de fardamentos, o mais velho não contara com a eficiência das informações dos partidários do mata frades, melhor seria deixar para outra ocasião. Voltaram para Sintra, tentando discretamente e sem denunciar que estavam mancomunados apanhar o último comboio para Lisboa. Mas um campónio que alugava burros a visitantes junto à estação, estranhou aqueles forasteiros, roupas humildes, não tinham ar de quem viesse a veraneio ou visitar o Paço. Avisada a Guarda, foram perseguidos ainda na gare de Sintra.

Miguel Costa Gaião foi quem primeiro se apercebeu que dois guardas se dirigiam a si, e avisou os outros

-Corram, vêm ter connosco! -e pôs-se em fuga, na plataforma da estação de Sintra, os outros atónitos logo o seguindo. Puxou da arma, escondida na saca a tiracolo, a bala ainda assobiou junto ao ombro de um guarda. Porém, outros vieram do lado da Estefânea, e o imobilizaram, o Jaime Augusto nem tentou ir mais longe, menos ágil. O Alberto também se entregou de imediato.Presentes no posto policial de Sintra, foram apreendidas várias pistolas automáticas e punhais, e conduzidos à cadeia comarcã, o Royal ficara longe demais.

-Não foi desta, será doutra! -vociferou o Gaião, escoltado por dois guardas a caminho do calabouço.

No dia seguinte, pela manhã, Afonso Costa, com um sorriso irónico, entrou bem disposto na tasca do Prego, onde nada transpirara para lá do alvoroço dos acólitos rondando.

-Bom dia cavalheiros! Belo dia para o mexilhão não acham? -ajustando os óculos, saudou, ar matreiro, levantando a bengala levemente, e foi ao seu passeio matinal, ante o ar boçal e sempre desconfiado do taberneiro.

O primeiro ministério de Afonso Costa ainda durou até  9 de Fevereiro de 1914.Como líder dos democráticos, venceu as eleições de 16 de Novembro de 1913, transformando o Partido Democrático no principal partido do poder da Primeira República e na força dominante de todo o processo político até 1926.Sempre na ponta das baionetas.

O Hotel Royal, esse, ainda subsistiu até 1921, pacato e sobranceiro ao mar, porém, longe das guerrilhas dos terra tenentes de Lisboa.Um incêndio pôs fim a menos de quinze anos de actividade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:21

11
Nov 10

— Está lá? – disse António, esfregando os  olhos, tentando acordar. — Está sim? – repetiu, já pronto para desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:

— Sim... António? Sou, eu o Marco

— Marco! Que se passa, já vistes  que horas são?

— António, tinhas razão.Nunca  me devia ter metido com eles…

— De que estás a falar? Metido com quem?

—  Vieram  buscar-me, eu sei... Está lá fora desde que anoiteceu.

— Marco– começou António, tentando manter a calma – andaste a beber? Quem está lá fora?

— Melanie….

A ligação caiu. António levantou-se, misto de raiva e preocupação. Não era a primeira vez que Marco o acordava no meio da noite mas havia algo diferente naquele telefonema, ainda mal tinha digerido o magusto do S.Martinho da véspera na casa do Sérgio. Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o amigo mas a ligação foi parar à caixa das mensagens.

— Ah, que se lixe! – resmungou, apagando a luz do candeeiro, provavelmente estava bêbado, nem sequer se iria lembrar da ligação no dia seguinte. No entanto não conseguiu dormir, tinha uma sensação de que alguma coisa havia acontecido. Olhou para o relógio na cabeceira, 4:30h da manhã. Se pegasse no carro chegaria à casa de Marco quando já estivesse a amanhecer. “Isto é de loucos”, pensava enquanto se vestia. “Bolas, Marco, se te encontro a  dormir e a curá-la vais ter de levar comigo!

Saiu da casa na Praia das Maçãs em direcção a S.Julião. Marco tinha-se mudado para lá há menos de um mês, era escritor, estava a trabalhar num policial inspirado nos Piçarra, uma família abastada da Ericeira. José Luís Piçarra fizera fortuna no Brasil, negócios no Algarve, um hotel na Ericeira, morrera 3 meses antes, lembrava-se de ter lido no jornal. Tentou lembrar-se do que ele falara, algo sobre alguém que tinha ido buscá-lo...Melanie. Quem seria essa Melanie? Talvez um familiar descontente com a história, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.

O sol despontava no horizonte quando chegou ao casarão, vista magnífica sobre o mar. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro tudo em silêncio. Chamou, ninguém respondeu. Vasculhou a casa, nenhum sinal de violência ou arrombamento. Talvez  nem estivesse em casa quando telefonou para ele. De qualquer forma, estava decidido a esperá-lo, queria saber como ia o livro e  quem era Melanie. No escritório, uma enorme janela envidraçada com vista para o oceano e uma escrivaninha com um computador portátil.Na parede, um enorme quadro retratava a mesma  paisagem da janela excepto que, na pintura um iate navegava ao longe. Nem sinal de Marco. Sentou-se diante do computador, estava ligado, uma mensagem de e-mail:“ “Caro Marco. Seguem em anexo cópias dos documentos que me pediu. Um abraço. Fernando ”.Anexados ,três documentos.

A curiosidade começava a mordê-lo.Abriu um documento, era a certidão de casamento de José Luís Piçarra  e Melanie Fergusson, uma inglesa vinte anos mais nova que conhecera ainda no Brasil e onde haviam casado. Outro documento  revelava a petição para o divórcio do casal, ela preparara um pedido dois anos antes mas o processo não teve andamento pois entretanto morrera afogada na Praia da Aguda, lembrava-se de ler no jornal. Noutro arquivo, a ficha clínica de Melanie, um histórico de lesões, um aborto espontâneo, depressão. Havia ainda uma pasta chamada Piçarra com uma série de artigos de jornal. Num  deles, uma notícia antiga de um jornal brasileiro:“Portuguesa morre afogada em Búzios”, falava sobre a bizarra morte no Brasil de Piedade, primeira esposa do empresário, afogada na piscina  da casa de Búzios vinte e cinco anos antes, suicídio, dissera a polícia na época.

António recostou-se na cadeira, pensativo. Então Melanie preparava-se para pedir o divórcio antes de morrer, havia uma série de reportagens sobre os Piçarra desde a morte da primeira mulher Piedade, em revistas cor-de-rosa.

Abriu outro arquivo. Uma grande foto de José Luís, sorrindo, num veleiro branco. Em baixo “Empresário diverte-se em Capri”.Observou-a com atenção,  virou o olhar para o quadro atrás de si, era com certeza o mesmo barco: casco comprido, uma faixa azul circundante. António desaparecera em alto mar seis meses antes quando navegava sozinho, jamais fora encontrado o corpo, aí estava a inspiração de Marco para o livro.

Havia um breve relato sobre a vida do empresário e uma entrevista antiga deste a uma revista, já dos anos noventa, junto a  Melanie e ao iate, felizes: “Melanie adora o mar, todos os anos viajamos pelo Mediterrâneo. Quando comprámos o barco fiz questão de baptizá-lo com o seu nome. Velejar é das coisas que nos fazem felizes “.Na foto via-se nitidamente o nome da embarcação: Melanie.

Começou a abrir mais arquivos, à procura do livro em que Marco estava a trabalhar, já envolvido com aquela história intrigante. Todos mortos, e afogados, de uma forma ou de outra. E por que Marco lhe  falara de Melanie ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre os acidentes e sobre as mortes, não só insinuava que José Luís seria o responsável pelo desaparecimento da esposa como também sugeria os motivos: a fortuna deste e o pedido de divórcio, uma inconveniente partilha dos bens. Só se deu conta  de que o tempo havia passado quando o sol alaranjado começou a enfraquecer. Pela janela  pôde ver os últimos raios do sol sobre o mar e o contorno negro de um barco já próximo  da praia. Levantou-se, preocupado, pensando se não deveria ligar para a polícia, afinal o amigo continuava desaparecido. Olhando a parede, o quadro já não era igual. A visão do mar continuava a mesma mas o iate branco era agora negro, com ar de abandono, no convés viam-se tenuemente as sombras de três pessoas. Saiu correndo do escritório e quando chegou à rua, frente à praia, a visão do barco foi nítida, era exactamente como  o vira no quadro segundos antes. O Melanie havia voltado. Quem teria vindo buscar desta vez?


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:23

09
Nov 10

As tardes desmaiavam invariavelmente nos tons do amarelo  bordejado a branco daquela cerveja redentora que lhe anestesiava os dias intangíveis, iguais,apodrecendo melancólico na mesa do canto do bar do Chico.

Tudo desabava sobre Zé Beto, vinte sete anos, cabelo ondulado. Ficara sem trabalho na oficina de torneiro do Rodrigues, levava seis  rotineiros meses na bicha  matinal do Centro de Emprego em Sintra.Não era exigente, duzentos euros para a renda da casa na Coopalme e as fraldas da miúda de oito meses, fruto da relação com a Filipa, o resto se veria. O Chico do bar no Algueirão Velho ia pendurando as cervejas na conta já amarelecida, o Manel da mercearia dava um jeito, tudo malta da criação, companheiros de copos e de sábados à noite, a malta safava. Invariavelmente mais uma dose de fiambre com ovos, um cachorrão no Vicente com ketchup e batata palha, sobrevivia sem vida. Separara-se da Filipa há dois meses, homem novo na costa, sentia-o pelas evasivas à noite, sempre cansada, querendo dormir.

Chegava o Rui, jogavam um snooker soporífero para distrair, mais umas bejecas para couraçar a alma perdida num pântano de incertezas. O Rui também andava mal, ia para trinta anos, a mãe já não o aguentava em casa sempre bêbedo, derrotado de si próprio, arrastando-se pelos cafés, iludindo a infelicidade com o excesso de álcool. Miúdas, era tudo fortuito. Sem grana um gajo não vai lá, meu!- dizia revoltado para o amigo, alma gémea da malapata. Metera-se nas novas oportunidades, andava entretido, sempre haviam umas tipas para lavar os olhos, iam pintando umas cenas fortuitas.

Um dia o Miranda, trolha lá do bairro desafiou-o para um biscate, pintar uma casa ao fim de semana. O dono era um finório de Lisboa, corrector da Bolsa com vivenda na Beloura. Aceitou. Tudo mudou quando, em cima do andaime, tinta pintalgando a cara e tronco, passou um carro, Carla , ar guloso daquele peito nu empoleirado, carne fresca de vinte e três anos. Uma bica num café do Linhó, troca de palavras sobre o tempo, e logo uma moita cúmplice na Lagoa Azul testemunhava o eterno apelo da derme.

Juntaram-se. Carla arranjou-lhe um emprego como vigilante num banco no subúrbio, trabalho rotineiro, farda ridícula, ritualmente  abrindo portas a clientes enfatuados, só amenizado pela cerveja ao fim da tarde e o snooker com o Rui.

Certa vez chegou uma carrinha com um saco de valores. Como de costume, ajudou a levá-lo para o cofre- forte, bezerro de ouro à mercê dum clique aventureiro, o gerente fora almoçar. Hesitante, naquele dia rodopiou duas ou três vezes à volta do saco, pegou nele ávido, qual Ali-Babá na gruta dos ladrões, podia ser o virar do ciclo, correu com ele para a saída de incêndio. Como num clique, deteve-se, porém, foi pô-lo no lugar.

À tarde, três cervejas no bar do Chico, aquele reflexo amarelo no copo, bordejado a branco. Foi ter com Carla,e sem lhe dar tempo a perguntas beijou-a arrebatadamente.

Vencendo o impulso, turbilhão de dúvidas, preservara o homem que ainda em si habitava. Arruinada a carteira, mas apesar de tudo, ainda não em ruínas.

Nos dias seguintes, a rotina do banco, as imperiais, o snooker.

Até que meses depois, novas oportunidades concluídas, passou para o balcão, ordenado melhorado, a conta paga no Chico. E um olhar sorridente sempre que o novo vigilante transportava um saco de valores para a caixa forte….

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:57

08
Nov 10

A frota sulcava as frias águas daquele norte, tundra ao longe, o fiorde para trás ficara e Sigurd, na ponta da proa reflectia com Magnus  sobre a viagem que acabavam de encetar.

-Sabes, Magnus, aprouvo que o Althing tenha concordado que os valorosos karls tivessem partido para esta cruzada -reflectia Sigurd, rei de Bergen, a quem o conselho dos nobres guerreiros autorizara a viagem aos Santos Lugares recuperados por Godofredo de Bulhão e agora nas mãos de seu irmão Balduíno, rei de Jerusalém.

-O povo está contigo, e os guerreiros também, Sigurd Jorsalafari. Oslo, Kaupang e Gokstad enviaram os seus melhores combatentes , com sangue resgataremos para sempre as chagas de Cristo!-jurava lealdade Magnus, companheiro de armas,o drakkar cavalgando as ondas para sul e para a glória.

Sigurd, filho do rei Magnus III, governava a Noruega com seus irmãos Oystein e Olaf desde 1103.Depois de em 1098 ter acompanhado o pai  às Orkney, e aí  feito conde e senhor, por essa altura igualmente foi celebrado como conquistador  dos pictos e rei da ilha de Man. Agora, aos dezassete anos saía de Bergen com uma armada de 60 drakkars e knorrs de apoio, um total de 6000 valentes, entre libertos e escravos a caminho da reconquistada Jerusalém que havia que manter em mãos cristãs. Era o ano 1107 da era de Jesus Cristo.

O  drakkar almirante, cabeça de dragão na proa velas listradas de vermelho e branco, lançava-se na imensidão fria destemido e desafiador.Os guerreiros,  em cima das armas e armadura  remavam cadenciados, qual sinfonia de guerra obedecendo ao encarregado do leme, marcial maestro do navio.

Breve acostaram a terras mouras, Vigo na costa da Galécia,  saqueada e purificada, aí se detiveram para repouso dos homens. Navegaram depois junto à costa acercando-se  da cidade de Al-Ushbuna, território inimigo na  taifa de Badajoz.

Perto dum promontório escarpado, fogueiras ao longe denunciavam vestígios de uma cidade, vendo que não estavam prevenidos, prepararam o ataque. Cada drakkar com quarenta guerreiros, as knorr muito mais ainda, adentraram-se, não havia vestígio de sereias nos rochedos atraindo os homens e fazendo os navios bater nas rochas e afundar.

Subindo um rio estreito, navegaram entre pomares com maçãs de vários palmos, chegando a um porto mouro.Filhos de Mafoma com arados despreocupados cultivavam as terras e tiravam água cristalina de azenhas movidas por dolentes mulas.

Sigurd achou por bem investir. Fez sinal a Magnus e Olafsson. Ancorados junto a um braço de rio estreito e rodeado de hortas, encetaram a ofensiva, machados maças e lanças apontados. Um dos mouros, vendo aproximar o drakkar almirante gritou ao muezzin que alertasse a aldeia mas  era tarde. Munidos das suas espadas os homens de Sigurd logo perseguiram e mataram dez deles que lavrando com uma charrua não puderam escapar, pegando fogo a uns palheiros de feno e pombais já com pombos esvoaçantes. Mulheres que teciam fujiram em pânico, corvos sobrevoavam o plácido vilarejo agora imensa armadilha onde uma matilha de voz estranha e estranhas roupas fazia presúria das fazendas, eterno ditame do vencedor sobre o vencido. Em duas horas aquela terra a que os nativos chamavam Colares caía às ordens daquele rei longínquo que preste respondia ao chamamento de  seus irmãos que em Jerusalém defendiam o Culto e  há já nove anos mantinham em mãos cristãs  os sítios sagrados . Ululantes bebedores de hidromel devassavam as frágeis construções fazendo do rio antes cristalino uma poça de sangue. À noite, escapulidos os que puderam, festejaram, assando bois e atolando-se em cevada tépida.

Nos dias seguintes, obrigaram os que haviam ficado a entregar todos os bens que dispunham, esvaziando os lagares e moinhos, jovens de alva carne foram arrebanhadas como presas e escravizadas por vândalos exangues, carneiros esfolados e recolhidos nas embarcações acautelando a longa viagem pela frente. O castelo de Xintara sofreu investidas e emboscadas, a defesa era frágil e inoperante. E assim passaram duas luas cheias até que ,saciados, Sigurd ordenou que aparelhassem as embarcações.

Detiveram-se depois em Al-Ushbuna, que igualmente saquearam, para depois pilhar Alcácer, e bastados, galgar o Mediterrâneo.

Sigurd tudo encarava com espírito de libertador, punho dum Deus morto numa cruz que o seu povo não há muito adoptara, mas que só expulsando e castigando o almorávida  soez podia honrar, esgrimindo  a espada e venerando a cruz.Nesta costa ibérica pululante de moirama infiel cumpria parte dum destino que só o desembarque em terra sagrada e a peleja pelo restauro dos santos sítios dariam por concluído em honra.

Depois de passagens nas Baleares e na Sicília foi em Jerusalém Sigurd  finalmente  ao encontro do rei Balduíno e, saudado reforço, baptizado no Jordão. Dois anos depois, eram 1110 anos do nascimento de Jesus Cristo cobriu-se de honra na tomada de Sídon  ganhando  uma relíquia da cruz de Cristo. Depois partiu para o norte de Chipre e Constantinopla, três anos longe das brancas neves do   Naeroyfjord, exilado nas areias quentes do Levante, e voltou a casa, onde ficara regente seu irmão Oystein, e onde continuou pugnando pela cristandade, fundando igrejas, criando dioceses. Até que, corria o ano de 1130, 27º do seu reinado, um vento gélido e polar, o Cristo da Cruz, ou o Odin dos seus antepassados, o levou dos trabalhos terrenos, quiçá para a Valhalha redentora dos povos do Norte.

Ainda hoje a Heimskringla, saga heróica  dos reis nórdicos, recorda Sigurd, vencedor de Vigo e Sintra.

From Spain I have much news to tell

Of what our generous king befell.

And first he routs the viking crew,

At Cintra next the heathens slew;

The men he treated as God's foes,

Who dared the true faith to oppose.

No man he spared who would not take

The Christian faith for Jesus' sake."


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:53

07
Nov 10

A sala estava engalanada, profusão de flores, orgulho dos jardineiros que todo o mês andaram numa azáfama para o grande momento do ano em Sintra: a noite das Camélias. O visconde de Asseca, o capitão Américo Santos, o presidente da câmara, Joaquim Fontes, Medina Júnior, Rui Cunha, todos compareciam mais as senhoras e as meninas casadoiras.

Nesse ano de 1959, o visconde de Asseca, representante da União Nacional em Sintra ia receber a irmã de Isabel II, a princesa Margarida, pelo que decorriam obras na Quinta de  S.Sebastião, era ano de círio da Senhora do Cabo em S. Miguel onde seria juiz da festa, um ano em cheio.Homem alto e altivo, fora visita em Versailles da rainha D. Amélia nos anos do exílio e sua ligação privilegiada desde que a condessa de Seisal falecera, de provecta idade.

O locutor, Amadeu José de Freitas, convidava os pares para mais um bolero, rumba ou valsa, alguns temas de Frederico Valério, Tavares Belo, e a orquestra excedia-se, ritmada, congas e matracas da moda na festa do ano. Os mais velhos falavam da política,reverentes, exaltando as obras públicas do governo.Fora o ringue novo do hóquei, o matadouro, o apeadeiro da Portela, o bairro económico de Queluz.A política de fomento do ministro Arantes e Oliveira chegava a Sintra a bem da nação.Mais um discurso, uma inauguração, uma lápide, o progresso em ritmo de jantares e homenagens a tantos beneméritos e filantropos.

Olavo Moreira, licenciado em direito, era secretário do visconde e   naquela noite estava particularmente atento a uma corista brasileira que conhecera numa revista do Maria Vitória e que Humberto Madeira lhe havia apresentado no Maxime semanas antes, quando fora a Lisboa a um jantar na Casa do Alentejo.Uma bebida com um procurador da Câmara Corporativa e a noite de Lisboa fez das suas. Letícia, riso malicioso, já conhecia aquelas mãos, e sobretudo a carteira, e disfarçava um trocar de olhares com o promissor advogado num canto da Sociedade União Sintrense, onde era suposta acompanhante do actor Humberto Madeira, estavam os dois na peça de Giuseppe Bastos no Maria Vitória.Madeira, sempre sorridente, contava uma história, um trocadilho, e de soslaio ia-lhes  lançando olhares, ele altivo, olhar de gavião, Letícia, lânguida, com um vestido de chita colorido, maracujá apetitoso na noite fria de Sintra.

Às tantas ,Olavo inventou uma indisposição e saiu em direcção do Hotel Nunes . O gerente do hotel era próximo, amigo do visconde e, cúmplice, logo lhe mandou entregar a suite rosa. Entrou e esperou, pediu uma limonada e girou pelo quarto, mirando o vale fronteiro. Ninguém o vira entrar, uma providencial nota de vinte escudos traria amnésia  ao porteiro do hotel.

Letícia chegou minutos depois. Lançou-se nos braços do pujante Olavo, e lentamente tirou-lhe o casaco, o colete, a cigarreira de prata, um batôn vermelho cereja pintalgava já a face alva do jovem bacharel, ali estava uma doce camélia ao seu dispor.

Já animados se abraçavam quando tocaram à porta, um toque seco e cadenciado:

-Quem é? -perguntou,maçado, mandando que Letícia se não mexesse.

-Um recado urgente, senhor doutor! Está aqui um senhor de Lisboa para falar consigo! -a medo respondeu o porteiro da noite.

-Comigo, aqui? - compôs-se, escondeu Letícia no canto do roupeiro e foi  ver.Era Arménio Raposo,agente da PIDE,colocado em Sintra, a quem a escapadela não passara despercebida.Em Lisboa seguira-o, havia ordens de discrição, o visconde era uma figura destacada do regime, nada de escândalos, castidade e abnegação, chefes de família devem ser exemplos de virtude.

-Sr doutor…Não queria incomodar, mas….Sintra, sabe, é tudo muito pequeno. Ainda se fosse o Estoril…-insinuou a figura, gabardina enxovalhada, chapéu de feltro, bigode farto e bem aparado.

Olavo ficou furibundo.-Você aqui? Como se atreve? -disparou, altivo e desafiador. Quer que o senhor visconde fale com o seu chefe de brigada, e o mande para os Açores fazer guarda aos cachalotes? -ameaçou.

-Eu se fosse a si não fazia isso…-e exibiu uma foto dos pombinhos no Maxime, champanhe purificador ao lado…-O senhor ministro  podia ficar incomodado, e nós não queremos por nada deste mundo que aconteça alguma coisa a quem colabora com uma das famílias mais ilustres de Sintra, pois não?...

A armadilha estava montada. Vestiu-se, irado, despachou Letícia num carro de praça para a capital, e voltou ao baile, a pé. Raposo seguiu-o e discreto  encostou-se ao  bar, onde pediu um copo de vinho. Por essa altura já o álcool fazia das suas entre os convivas, o capitão Américo Santos contava histórias do seu regimento, em Macau, no bar senhoras balzaquianas  já rubras e afogueadas pediam capilés de salsaparrilha.

O visconde, que trocava impressões com duas senhoras do seu grupo de canasta, estranhou a longa ausência  do secretário e procurou-o, curioso.

-Olavo, onde foi numa noite destas? O Provedor da Santa Casa queria dar-me uma palavra, queria que estivesse presente..

-Nada de especial, senhor visconde. Fui atender um telefonema, era o Pavão por causa das obras no apeadeiro da Portela, sabe, os empreiteiros…- e despachando a conversa, pediu um gin, já falando com o prof. Fontes,  o velho presidente a quem elogiou a obra e como magnífico ficara o  novo ringue do Hóquei no Parque da Liberdade depois das obras. O baile continuou, uma hora depois os viscondes tornavam ao remanso de S. Sebastião e Olavo à casa dos pais, abastados comerciantes, fortuna feita com o volfrâmio durante a guerra.

Uns  dias mais tarde, o agente Raposo era alvo de um processo disciplinar.Supostamente tinham desaparecido dum cofre da PIDE os abonos para falhas, o fundo de maneio diário, e o Mesquita e o Roldão, agentes de 2ª classe, juravam tê-lo visto a levar o dinheiro numa mala de couro castanha. A carteira com a valiosa foto havia sumido num aperto de convivas meio ébrios, colegas de curso do dr.Olavo perto do bar na noite do baile das camélias, não dera por nada.Mais tarde  a carteira apareceu, mas sem foto, no fundo da Fonte da Sabuga. Acabou em Elvas, depois duma suspensão de um ano, num rotineiro posto fronteiriço fiscalizando refractários ao serviço militar e contrabandistas da raia.

Um ano depois, no baile de 1960,de novo acompanhando o visconde de Asseca , Olavo Moreira lá compareceu em mais uma noite das Camélias. Desta vez Letícia não foi, tranquilamente aguardava-o numa vivenda na Rinchoa, vinho servido e  velas acesas esperando uma tardia ceia, camélia suplente no baile da vida. Uma foto dos dois no Maxime decorava o psyché do quarto junto à caixinha das jóias que ele, agora  novo administrador do matadouro e membro em ascensão na União Nacional, regularmente  acrescentava com gargantilhas de amor e anéis de paixão...


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:45

06
Nov 10

Os dois tinham chegado pela madrugada, três horas de voo desde Belém do Pará. Manaus pela manhã era um desvelo da natureza ,manguezais secos, floresta húmida esplendorosa, araras distantes gritando e adornando de música a selva mãe. Instalados num lodge longe da cidade, em pleno sertão, com receitas a reverter para a subsistência de um orfanato de símios, estavam qual Darwin à vista das Galápagos, verde fresco omnipresente, comodidades escassas mas perfeitamente dispensáveis, à descoberta dum mundo perdido e exótico. Um velho caboclo sugerira uma pescaria à piranha, simples anzol com carne na ponta que logo cozida, pegava a inadvertida fera de  dentes grossos, sabor deslavado. Á noite crocodilos, semáforos do rio com  olhos cintilando  com lanternas dirigidas aos olhos desafiavam,  o silêncio apenas intervalado pelo som de laboriosas térmitas. Emergindo poderoso, o encontro das águas, o Solimões castanho terra e o Negro cor de chá, magia de rio fértil para turista ocidental.

Manaus, a dos barões da borracha, que em terra agreste ergueram uma ópera em honra do  esforço seringueiro para outras aves canoras entreterem velhos coronéis, era uma cidade de contrastes, boat people enxameando o rio lotado e vivo,os mercados trepidantes de frutas, anárquicos e coloridos.

O carnaval anunciava a sua entrada de serpente, era quinta-feira da semana mais importante da cidade e de todas as daquele país arco-íris. Corpos lascivos rolavam o boibumbá , um trio eléctrico animava as ruas nas margens do Amazonas, o povo vibrava,  em pulsão de cor e libido.

Os  dois amigos deambulavam pelas ruas pejadas de jagunços, caboclos, comerciantes e garotas de programa. Na praça principal, vespeiro central daquela orgia colectiva, nem uma mesa livre nas esplanadas, todos abocanhando chopes gelados e guaranás refrescantes. Uma ajuda salvadora: dois polícias de apoio aos turistas acercaram-se, indagando sobre os forasteiros, fácies mais claro e europeu.

-Oi, caras, são paulistas?-perguntou um, meio desconfiado, meio afável.

-Não, somos portugueses -explicitou Bernardo, vinte e dois anos, estudante de História em Lisboa. Dum sítio chamado Sintra, já ouviu falar?

-Não. Poxa, netos de Cabral, não tem muitos por aqui, não…Bem vindos ao Amazonas, amigos. Tudo bem com ‘ócês?

-Tudo, obrigado. Andamos a ver se achamos uma mesa para tomar umas Brahmas fresquinhas, mas hoje estamos sem sorte…- respondeu Tiago, o mais velho, várias idas ao Brasil a negócios, mas primeira na Amazónia.

Olhando em redor, solícito, um deles descortinou uma mesa, quatro moleques dançando em redor ao som contagiante duma Daniela Mercury local e Brahma na mão.Logo os sacudiram, para dar o lugar aos patrícios das Orópa…

-Obrigado, não era preciso…-agradeceu Tiago, meio constrangido com o procedimento, bem sul americano, mas ainda assim aproveitando o gesto inesperado. Já agora, querem tomar algo?

-Não, amigo, obrigado. Mas  vamos ficar aqui por perto de olho, Manaus está cheio de pilantras, sabe…

A conversa prosseguiu entre os dois, a tarde quente e a música no ar convidavam a que a mesa se fosse enchendo de canecas logo esvaziadas, na presença próxima dos dois repentinos sentinelas, o que levou Bernardo a nova abordagem.

-Sentem connosco e tomem um chope , será um prazer!-insistiu.

Lá se sentaram, os chopes fluindo, tudo netos de Cabral reencontrados sob o calor tropical duma cidade no lado esquerdo do Paraíso. Às tantas, Laurindo, um dos polícias, quatro canecas depois, levantou-se e pediu a máquina fotográfica de Tiago.

-Cara, vou sacar uma foto de vocês para levarem lá para a vossa cidade!-e disparou uma, feliz logo outra, outra com os quatro, qual japonês e seu brinquedo, formalidades desfeitas.-Olha- aventou, ar malandro- vou buscar umas gatinhas para tirar umas fotos com  nóis…E sumindo na multidão extasiada com o trio eléctrico, maquina ainda ligada, prometia alegrar ainda mais a tarde. Era Carnaval,  que diabo, festa é festa, pensaram.

Dez minutos, vinte minutos,mais uma rodada. Olhando o relógio,Aldair, o outro,  levantou-se.

-Laurindo está demorando, vou ver onde para! Volto já!-e saiu no mesmo sentido.

Mais uns minutos, nada de polícias nem gatinhas, música cada vez mais alta, corpos cada vez mais soltos. Anoitecia. Foram à delegacia perguntar pelos dois. História explicada, um sargento de serviço.

-Caras, vocês estiveram com Laurindo? Então está tudo explicado!

-O que quer dizer?- desconfiado, Tiago ficava nervoso.

-É que não faz duas semanas que saiu de cana, e como já era policial retomou o serviço aqui em Manaus, veio de Mato Grosso do Sul! Sabe, Brasil é Brasil….

A música continuava, polícias e ladrões na mesma praça inebriada , a galera irmanada, era carnaval, nada mais interessava, o lodge era refúgio certo. Na favela, Laurindo mostrava ao filho o brinquedo topo de gama que comprara a um turista portuga. Afinal o que vale uma maquina fotográfica quando netos de Cabral se encontram algures no mundo…


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:02

Novembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
13

14
15
16
18

27

29


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO