por F. Morais Gomes

15
Dez 10

Passam hoje 15 de Dezembro 125 anos do falecimento do rei D.Fernando,após uma queda à saída do teatro de S.Carlos na qual entrou em coma falecendo três horas depois.

Foi D.Fernando II quiçá o primeiro grande defensor do património nacional.Desde obras profundas que mandou fazer no então arruinado Mosteiro da Batalha e em Alcobaça(onde chegou a pensar instalar uma escola de restauro),até ao Mosteiro dos Jerónimos,onde gastou do seu bolso 6.000.000 réis(foto abaixo)ao Paço dos Duques de Bragança,em Barcelos,em ruínas e consumido pelo fogo em 1852,ou ao Convento de Cristo em Tomar, o rei não só pugnava pelo restauro,como fazia ofertas do seu bolso e amiúde visitava as obras.
A ele se deve o restauro do tríptico Tentações de Santo Antão,de Jeronimus Bosch,que ele descobriu no Paço das Necessidades,ou a descoberta, na Casa da Moeda de Lisboa,á beira de ser fundida,da Custódia de Belém,de Gil Vicente.Ou a recuperação do Templo de Diana,em Évora,ocupado como talho e totalmente desprezado à época.
Este alemão foi  como poucos um Grande Português.

D.Fernando Saxe Coburgo-Gotha,filho do Duque de Saxe Coburgo e da Princesa Kohary da Hungria foi o príncipe mecenas de Portugal,e de Sintra,tendo a Sintra trazido uma plêiade de artistas que moldaram o que ainda hoje é a sua paisagem e com marcas visíveis.
Entre eles,Friedrich Welwitsch,biólogo que em 1939 foi nomeado director do Jardim Botânico da Ajuda,Wenceslau Cifka,austríaco que arborizou a serra de Sintra da forma que ainda hoje conhecemos,ou o dr Kessler,médico do príncipe-rei,cujo filho construiu o elevador(ainda existente) da Nazaré.Mas também o músico Victor Hussla,compositor da "Suite Portuguesa",o pintor Katzenstein,e seu irmão,Emil Biel,que introduziu a fotografia em Portugal,a luz eléctrica,o primeiro gramofone,ou o primeiro automóvel,um Benz.Inclusive por essa altura vieram os pais de Alfredo Keil,o autor do hino nacional anos mais tarde.
De todos se destaca contudo o barão von Eschwege,que veio para Portugal como mineralogista em 1803,e que lutou enquadrado no exército português contra o exército napoleónico,até 1810,quando foi chamado ao Brasil por D.João VI,onde se manteve 11 anos,em trabalhos topográficos e levantamentos.Regressado a Portugal,foi promovido a general e nomeado Intendente Geral das Minas e Metais do Reino,e a quem D.Fernando confiou a elaboração do projecto de transformar o convento jerónimo da Pena num monumento  neo-gótico que representasse o imaginário de Portugal em pedra.
Também estes estrangeiros,portugueses de coração, fizeram parte da história de Sintra.Cabe aos que cá estão guardar a Memória estudar-lhes o Legado e fazer crescer o Projecto.Sábado, num concerto em Monserrate com música os sintrenses vão recordá-lo, lá na Grande Floresta onde ainda o seu espirito vive eterno.

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:18

14
Dez 10

O plátano cresceu pujante junto à várzea, companheiro fiel  e sombra fresca do fértil rio.

O plátano viu maçãs e romãs, uvas e alfaces, hortas fecundas  bordejando as plácidas águas da charneca na serra da Lua.

O plátano acompanhou círios e charangas, descargas de uvas  e o pisar de muito vinho.

O plátano chorou com cheias e ciclones, fogos e queimadas, natureza amiga também madrasta.

O plátano vibrou com ciclistas e atletas, corredores e amadores do crosse,colarejas e saloios.

O plátano protegeu caçadores e pescadores, lebres e furões,galinholas e  patos nadando livres no rio.

O plátano viu choros de vida , enlaces de amor, lamentos de morte ao som do sino na igreja distante.

O plátano foi verde, amarelo, castanho, sombrio, vestido, despido, frondoso, perene,pigmalião , guerreiro da vida na várzea.

Muitos sóis e muitas luas passaram e não era já um,  eram dezenas,patrulhando as alamedas nas estradas da serra, da vila ao oceano, garbosos guardando a dolente locomotiva vermelha que  sorridente levava a banhos e  aos ares iodados ruidosas crianças conquistandoras de acessíveis nespereiras e respirando os  perfumes da terra e do estrume, da alfazema e jasmim.

Um dia o som terrível da humana trituradora silenciou os chilreios dos pássaros, os ninhos das andorinhas, o esconderijo do ouriço e a sombra do pachorrento jerico. Mercenários de Cynthia, de viseira e espada avançaram e esquartejaram, implacáveis no crime de lesa floresta com cúmplices silenciosos e mandantes impunes, os pássaros  em uníssono carpiram chilreios , pombas esvoaçaram, mas em vão,o sol se fez noite e o rio vermelho cor de sangue.

Já despido das folhas , ensanguentados cotos , perenes testemunhas de muitos solstícios e equinócios passados, fúnebres marcharam para a câmara ardente de muitas lareiras, crematório de muitos passados, num deles  a marca ainda de um coração esculpido, os nomes enlaçados de eternos namorados perdendo-se no fogo.

Em Dia de Trevas, o Deus da Floresta, capturado pelos gnomos da viseira e serra eléctrica nada pôde fazer no infausto campo de batalha da sagrada terra de Colares nesta era do  Aquário.

Logo logo os pequenos seres que habitam a floresta  laboriosos fertilizarão o plátano, todos os plátanos, e no tempo que as flores despontarem e os pássaros voltarem do Grande Sul a seiva da vida e o clorofila do Tempo voltarão a reinar, sagração da mágica renovação da Fénix, permanecendo por muito tempo depois dos homens da viseira e serra eléctrica desaparecerem das florestas.

Foto de Pedro Macieira, no blogue Rio das Maçãs

http://riodasmacas.blogspot.com/

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:15

Passam também agora setenta anos que faleceu o regente florestal Carlos Eugénio de Oliveira Carvalho, o "Carvalho da Pena".Nascido em 1870 e falecido em Julho de 1940 na Vila, na rampa do castelo, foi um dos mais importantes promotores da plantação do Parque da Pena, onde foi administrador florestal desde 1911 até à sua morte. A ele se deve o mérito de cuidar do pessoal, criando condições higiénicas para desempenhar o seu trabalho dando seguimento ao trabalho fundador de D.Fernando e da condessa d’Edla. Uma lápide na casa onde viveu e morreu é o mínimo que Sintra pode fazer, para além de não deixar nunca morrer o Éden de que foi leal guardião.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:30

11
Dez 10

Os pequenos príncipes Pedro e Luís estavam já no salão, impecáveis nos fatos tiroleses que o tio Augusto  oferecera para a recepção que  a rainha sua mãe e D.Fernando iam oferecer ao corpo diplomático no Natal de 1847.A noite estava amena, nas Necessidades um presépio gigante e dourado ladeado por  serafins de asas abertas adornava o salão contíguo à sala do trono.

Pedro  terminara as lições de geografia da tarde com o visconde  de Carreira, seu preceptor, e como sempre estava sorumbático, era o intelectual da família, dizia o papá, meio orgulhoso meio grave, Lipipi, mais bonacheirão, contemplava intrigado um barco numa garrafa tentando descobrir como o enfiaram dentro. Pedro seria rei um dia, o velho preceptor vigiava-lhe os movimentos, a postura, apesar de já ter dez anos não deixava de ser uma criança franzina e pálida.

Pelas sete horas,o salão profusamente iluminado e decorado com esculturas que Fernando comprara em Paris estava já repleto, embaixadores das nações amigas,ministros e mais convidados. O país estava por ora  pacificado com um governo de Saldanha, apesar dos reforços eleitorais dos cabralistas  depois da  convenção de Gramido, a família real procurava ficar distanciada,empenhada na educação dos filhos, já sete nesta altura, com o  recente nascimento do príncipe Augusto, em Novembro.

À hora marcada, D.Maria II fez a entrada na sala, Fernando a seu lado,as camaristas seguindo-a.Muitas gravidezes haviam-na tornado obesa ,um  lábio descaído,enfiada num vestido de veludo roxo que nada lhe favorecia as formas, evidenciava uma postura mais própria de  burguesa  que de rainha.D.Fernando, na farda de general dos exércitos ,cabelo louro em desalinho fazia suspirar as muitas cortesãs, ele próprio um pinga amor ,mas respeitador de Maria e  zeloso na educação dos filhos.

Nessa manhã fora sozinho a Mafra montando o Monarch e misterioso avisara que se preparassem pois iria fazer uma surpresa durante a recepção da noite. Tinham nascido poldros à Campo Maior, a égua da rainha, ia a  inspecionar, no regresso passaria na Pena a ver as obras, os carros de bois transportavam agora pedra para a ala sul, já se descortinavam os contornos altivos do palácio.

Na sala, rodopiavam os ilustres e grandes do reino.O príncipe Augusto, irmão de Fernando, de visita à corte para o Natal e conhecer o novo sobrinho, a quem puseram o seu nome,animado conversava com o barão Eschwege, que  ia dando pormenores sobre a construção da Pena, noutro canto,o  visconde de Carreira comentava com a marquesa de Lavradio como a rainha ficara desgostosa com um óleo que Beaulieu fizera dos príncipes, nada favorecidos.

Após  a rainha ter proferido breves palavras de boas vindas,Fernando, num português arrevesado pediu silêncio e mandou entrar o coro de S.Vicente de Fora. Doze jovens, não mais de doze anos e impecavelmente vestidos, em canto ambrosiano entoaram então canções de Natal,afinados e  compenetrados.No final,participante e contente,D.Fernando fez questão de cantar uma melodia tradicional austríaca, Stille Nacht, Heilige Nacht. Entusiasmado chamou então ao piano Manuel Inocêncio, o professor de música dos príncipes, e como já previamente combinado,qual barítono de voz possante num alemão perfeito e impressivo cantou para uma assistência maravilhada e rendida.

O ambiente, antes formal e protocolar estava agora desanuviado, qual festa de família na casa de um simples lenhador da Floresta Negra. D.Fernando  pediu  então a palavra, intrigante:

-Majestade, Excelências, cavalheiros, se não vos importais, passemos à biblioteca, tenho uma surpresa para vós!-era a altura de desvender o mistério da ida a Mafra de manhã.

Aberta a sala contígua até ali intrigantemente fechada, um pinheiro gigante  profusamente engalanado  irrompeu  repleto de luzes, doces e frutos .Vários candelabros  com velas e uma acolhedora e crepitante lareira emprestavam um ambiente de conto de fadas, logo todos irrompendo numa salva de palmas em sinal de admiração.

-Em Coburgo temos uma  lenda que  conta que São Bonifácio salvou um príncipe que ia ser sacrificado num bosque de carvalhos por alguns druidas. -explicou-Ao derrubar a árvore onde o príncipe ia ser imolado nasceu um pinheiro, que  para nós simboliza a paz. É nossa tradição desde então colocar nas casas uma árvore pelo Natal,como  símbolo de paz e fraternidade!.

Lipipi e Pedro logo extasiados  correram para a colorida árvore, enquanto a rainha Maria ,expansiva,apreciava as luzes que Fernando com o auxílio de Eschwege e alguns criados passara a tarde a colocar. Mas não estavam ainda concluídas as surpresas. A um bater de mãos do rei, um indivíduo vestido como um bispo antigo, oriental,barbas brancas, irrompeu pela sala transportando um grande e repleto saco:

-Eis um Weihnachtsmann, não sei como dizer em português, mas é alguém que  no Natal premeia quem praticou boas acções e distribui prendas, sobretudo às crianças!-explicou, olhar misterioso e promissor na direcção dos filhos.

Perante o espanto infantil de Lipipi, futuro rei D.Luís, seguiu-se a distribuição por todos de presentes saídos do saco que o homem das barbas carregava e Fernando pessoalmente entregava. Para Maria, um  vestido mais condicente , atenuando a sua figura desenxabida, vindo do atelier de madame Clochard, em Paris; para Pedro livros com a anatomia dos animais, oferta da rainha Vitória, que adorava os primos portugueses, um chapéu de almirante para Luís. Nenhum convidado  na sala foi esquecido, todos presenteados com pequenas aguarelas de flores e pássaros, pintadas por Fernando  no Verão nas sombras de Sintra.

Naquela noite serena e feliz, iluminou-se  pela primeira vez entre nós, uma árvore de Natal,sendo Fernando o émulo perfeito do misterioso weihnachstmann das distantes  terras do Norte, invadindo as Necessidades naquele  Natal português. Finda a  memorável noite, a todos saudou, feliz e agradado,coração cheio:

-Feliz Natal para todos vós!-Frohliche wehnachten!


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:59

10
Dez 10

Um pequeno parêntesis nas "estórias" diárias para assinalar hoje, 10 de Dezembro ,o Dia Internacional dos Direitos Humanos,no  dia em que Liu Xiaobo, activista e director do Pen Club chinês deveria receber o Prémio Nobel da Paz em Oslo mas preso a  cumprir pena de  onze anos por delito de opinião.

Estando o mundo globalizado muito longe de privilegiar os direitos do homem como uma conquista civilizacional (it’s the economy, stupid!) este paradoxo surge num momento em que minorias étnicas como os rom são perseguidos sob a capa de normativos burocráticos na França de Sarkozy, as cleptocracias africanas e asiáticas lavam as mãos sujas de sangue no petróleo e gás natural que o dito Ocidente rendido lhes mendiga, e o securitarismo paranóico nos aeroportos faz de cada vulgar turista um terrível extremista pronto a sabotar com um sapato ou um perfume. Isto ao mesmo tempo que aqueles que revelam as verdades inconvenientes são presos em nome da dita “segurança nacional”…

Uma palavra hoje pois em especial para a China, a de Liu Xiaobo e os activistas da Carta 08,bem como Han Dongfang,advogado que tem lutado pelos  direitos dos trabalhadores na China, ou Hu Jia, detido em Dezembro de 2007, juntamente com a sua mulher Zeng Jynian  antes dos Jogos olímpicos de Pequim e a quem o Parlamento Europeu atribuiu o Prémio Sakharov em 2008.

Em Portugal, país de brandos costumes, algumas patologias mantêm-nos ainda na lista dos países com reparos: a polícia e os guardas prisionais ocasionalmente agridem ou abusam de detidos e presos, os menores encarcerados nem sempre são mantidos em separado dos adultos, as condições nas prisões são más e muitos detidos pela polícia não tiveram direito eficaz a um advogado, com relatos frequentes de uso excessivo de força pela polícia e maus tratos a detidos por guardas prisionais.

Alguns destes relatos levaram a investigações ao nível da Inspecção Geral da Administração Interna que culminaram em reprimendas, suspensões temporárias, penas de prisão, reformas compulsivas e expulsão das forças de segurança.

Quanto às prisões subsistem problemas de sobrelotação, instalações degradadas e insalubres e violência entre reclusos com taxas de prevalência de HIV/Sida e de hepatite C altas.

Em crescendo estão os casos de discriminação e de agressões a mulheres, incluindo violência doméstica. No campo da igualdade homens/mulheres esta na prática  ainda sofrem discriminação económica com um salário em média 23% inferior à média dos homens.

O caminho para a cidadania plena é lento mas estimulante.

Liu Xiaobo

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:36

09
Dez 10

O italiano executara tudo como solicitado e naquela tarde Manini e António Augusto Carvalho Monteiro faziam a primeira visita ao poço agora findo, uma impressiva galeria com escadaria em espiral sustentada por colunas esculpidas.

-Senhor Monteiro, está como pediu, nove patamares separados por lanços de 15 degraus cada, e as referências à Divina Comédia. Lá em baixo mandei embutir em mármore uma rosa-dos-ventos sobre uma cruz templária -ia explicando o italiano, cenógrafo de óperas agora metido a arquitecto.

-Perfeito!- soltou satisfeito o velho Monteiro, tirando a cartola a escorrer o suor, esse era o seu emblema heráldico e simultaneamente indicativo da Ordem Rosa-Cruz, tudo estudara em pormenor para dar um cunho pessoal e simbólico à sua nova Quinta da Regaleira onde pedra de Ança chegava às toneladas nos comboios de mercadorias e canteiros trabalhavam incessantemente desde há quatro anos. Com ar sério deixou escapar um comentário meio enigmático:

-Sabe que é impossível elevar-se para a luz sem descer ao inferno? Só o afrontar do Mal em nome do Bem permite o acesso aos estados superiores do Ser!

Entrados no poço, o eco ampliava qual rugido do além a já de si tonitruante voz do velho magnata. O labiríntico poço estava ligado por várias galerias e túneis a outros pontos da quinta, a Entrada dos Guardiães, o Lago da Cascata e o Poço Imperfeito, morcegos deambulavam também eles guardiães no escuro e no desassossego. A luz rareava naquele fim de tarde, pela primeira vez iam subir a escadaria, qual ritual secreto e cadenciado, começando pela torre subterrânea. Carvalho Monteiro antes de subir, parando meditativo, abordou Manini:

-Este já era o espaço e agora é o tempo para abandonar o velho e enfrentar o novo. A cada entrada, um novo nascimento, nova renovação…

-Como vê, sente-se a mão do Grande Arquitecto…-ironizou Manini, retorcendo o bigode, naquele sotaque lombardo, apesar de vinte anos de Portugal.

-Neste caso, você, meu caro! -sorriu o velho filantropo, com uma palmadinha nas costas do italiano.

-Agora repare: saindo da escada em espiral o elemento aquático ganha aqui novo esplendor, previ uma passagem sobre o lago por cima de quinze pedras ziguezagueantes -Manini com as mãos abertas, gestos largos, desenvolvia o seu plano, qual mapa do tesouro por etapas, Monteiro absorto tomava atenção aos pormenores enquanto dois belos cisnes brancos nadavam principescos. Passaram de seguida por uma íbis egípcia logo lhes surgindo a estátua de um leão encravada entre três bancos:

-Este leão simboliza os reis de Chipre, familiares dos Lusignan seus antepassados. Eu mesmo o desenhei!

-Podia ser um pouco maior…E agora?

-Agora sobe-se a torre em direcção à cripta.

A escada em caracol remetia-os para o mundo de sombras que a megalomania do velho bibliófilo idealizara, hiperbólica teia pronta a ser tecida. Passando ao palácio, para onde já a vasta biblioteca de Lisboa estava a ser transferida, Monteiro fez questão que Manini observasse um livro que havia adquirido recentemente:

-Conhece este livro? -pegou num largo volume encadernado contendo a cópia de um manuscrito, Fama Fraternitatis e desfiou-o:

-Aqui está a verdadeira história dos rosa cruzes. Sabia que o Rosenkrautz era descendente de uma família alemã do século XIII que abraçava as doutrinas albigenses? Toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, excepto ele, com cinco anos foi levado secretamente por um monge e colocado num mosteiro sob influência dos albigenses onde conheceu os quatro Irmãos que mais tarde estariam na fundação da Irmandade Rosa-Cruz.

Manini ouvia em silêncio, mais interessado num magnífico relógio numa prateleira, em lugar destacado que dois empregados acabavam de trazer com luvas brancas. O milionário reparou e correu a mostrar o troféu:

-Já tinha visto o Leroy O1? Esteve na exposição de Paris, tem um mecanismo de quatro níveis e mais de novecentas peças…Custou-me vinte mil francos, um capricho!-e riu como uma criança junto dos brinquedos de estimação, o mundo de Carvalho Monteiro era sem dúvida outro.

De seguida, juntos completaram o périplo pela obra quase pronta Patamar dos Deuses acima, a água da serra-mãe correndo cristalina na fonte dos íbis, detendo-se extasiados na Entrada dos Guardiães, imponente e altiva. Na gruta de Leda, Monteiro colocou a mão sobre o cisne, também ele Zeus do seu império terreno, e suspirou, enrolando a sedosa barba branca:

-Quem nunca demandar os interiores da terra nunca encontrará a verdade oculta! Aqui semearei o caminho da verdade, caro Manini!

Nesse final de 1909 Carvalho Monteiro tinha o seu Olimpo quase concluído, deus entre os deuses, sortilégio das trevas, a torre, ímpar, rasgando o céu triunfante. Nos anos seguintes, o caldeirão do Espírito fervilhou nas entranhas da terra-gruta, palpitante guardando os segredos que só o génio dos homens consegue e pode desvendar. Até que uma noite, findava já o ano de 1920, o Druida partiu para a Grande Viagem, etéreo descendo ao poço, etapa por etapa, das Trevas á Luz, ecoava o grasnar lancinante e premonitório de dois cisnes brancos reflectidos pela Lua-Prata protectora do Jardim.


publicado por Fernando Morais Gomes às 17:58

08
Dez 10

Ricardo Lacerda recebera a nomeação e apressou-se a marcar uma reunião com o arguido. Jovem advogado, crente na justiça, fora nomeado defensor oficioso num processo de furto, um indivíduo de etnia cigana que furtara uma carteira com 300 euros e alguns cartões de crédito a um farmacêutico à saída do apeadeiro da Portela de Sintra. Um empurrão simulado, umas mãozinhas de veludo e logo voava a carteira. O arguido, de nome Eugénio, negava, mas duas testemunhas que saíam do comboio à mesma hora garantiam que tinha sido ele, o facto de ter começado a correr sem justificação logo que a vítima deu por falta da carteira apontavam para ele, infelizmente ocorria muito na linha de Sintra.

Ricardo chamou Eugénio para combinarem a defesa. Eugénio, pouco mais de vinte anos, fio de ouro ao peito, cabelos negros desalinhados possuía já antecedentes criminais, uma rixa na feira de S. Pedro com um cliente na banca de roupas que lá explorava, com a irmã, por causa dum casaco de cabedal levaram a seis meses de pena suspensa, era primário e ficou em dúvida quem provocara quem.

Eugénio argumentou que era inocente, a carteira não fora descoberta, as provas eram circunstanciais e as ditas testemunhas não viram nada, só começou a correr porque ia apanhar um autocarro e estava atrasado, já estava a sair da paragem e não o podia perder.

Ricardo tomou as suas notas, recomendou a Eugénio que no dia do julgamento levasse uma camisa usada e tirasse o fio de ouro, e falasse sempre olhando o juiz de frente, tom humilde, que os juízes gostam, a verdade haveria de vir ao de cima.

No dia do julgamento, toda a família e amigos de Eugénio enchiam a sala de audiências, os mais velhos de preto e chapéu de feltro, as mulheres mais novas barulhentas e com crianças ao colo. Ricardo olhou a plateia e viu que dele se esperava que livrassem o Eugénio, a ver bem podia ser uma boa aposta, os ciganos estão sempre metidos em sarilhos e se ganhasse o processo outros viriam ter com ele, pagavam sempre em dinheiro vivo e a horas, nisso não tinha razão de queixa.

Eugénio em silêncio aguardava. Iniciada a sessão, cumprimentos ao tribunal e ao procurador, todos sentados, o juiz leu a pronúncia e perguntou pelos costumes, a tudo respondeu com verdade. Sobre os factos de que vinha acusado negava, era inocente e tinha um filho para criar.

-Muito bem! -referiu o juiz. Mandem entrar a primeira testemunha!

Entrou uma senhora já na casa dos sessenta, óculos de massa, coxeava um pouco. No dia dos factos, vinha no comboio desde o Rossio e o réu vinha na sua carruagem, calado. Ricardo contra-interrogou:

-A senhora pode dizer como ia o réu aqui presente vestido na altura dos factos?

-Se bem me lembro, sôtor, ia com um casaco amarelo esverdeado, era já fim da tarde e havia muita gente. Só sei que de repente começou a correr e aquele senhor ali presente disse que lhe faltava a carteira.

-Mas concretize lá, o casaco era amarelo ou era verde? -insistiu.

-Não me lembro bem, acho que era amarelo…-hesitou.

-Ah, acha! Então não tem a certeza?

-Certeza não, mas era amarelo esverdeado.

-Muito bem. Senhor juiz não desejo mais nada! -concluiu, o testemunho era vago e inconclusivo, estava a correr bem.

A testemunha seguinte, outra senhora, trinta anos, foi mais afirmativa:

-Aquele senhor roubou a carteira que eu vi. Aliás é mesmo do tipo que não engana ninguém, infelizmente a linha de Sintra está cheia disto! -rematou, para ela não havia dúvidas.

Postas as alegações do Ministério Público, Ricardo achou que tinha achado o mote para a defesa:

-Senhor doutor juiz, senhor procurador. Este tribunal tem hoje que decidir um caso em que nenhuma prova ou testemunho é assertivo no sentido de considerar o réu culpado do crime de que vem acusado. Eu diria mesmo que estamos perante um caso nítido de preconceito. Preconceito pelo meu cliente que pertence a uma minoria étnica já de si socialmente desvalorizada. Ora este tribunal tem de apreciar factos e de tratar os cidadãos por igual, em função da sua culpa concreta e provada! Não caia o anátema da suspeição permanente sobre a cabeça dos inocentes. Este tribunal só se honrará absolvendo o réu aqui presente! -rematou contente consigo próprio, o juiz coçava o queixo.

Passada uma semana, a sentença absolvia o Eugénio, “in dúbio pro reo”e mandava-o em paz. Abraços barulhentos, vários ciganos pedindo já cartões ao jovem advogado, afinal ainda há justiça, clamavam uns de sangue mais quente.

Já a sala se esvaziava, Eugénio foi cumprimentar o advogado:

-Obrigado, doutor, ao menos você não teve problema em defender-me….

-É para isso que cá estou, senhor Eugénio! -E aproveitando aquele talvez último momento em que estaria com o cliente, perguntou-lhe em tom discreto:

-Diga-me uma coisa, agora que isto acabou, eu tenho de guardar sigilo profissional, como sabe, e portanto o que você disser para mim é como se fosse para um túmulo. Você roubou ou não roubou a carteira?

Eugénio baixou os olhos, pôs um ar pungente e confessou:

-Roubei sim…

-Eu suspeitava…-rematou o jovem advogado, sorrindo irónico. Licenciara-se jurando lutar pela justiça, mas a verdade é sempre a verdade que se quer que seja, ensinara-lhe o patrono, velho advogado batido na barra.

E saíram a juntar-se à autêntica excursão de familiares continuando a distribuir cartões do escritório, talvez úteis para o futuro…


publicado por Fernando Morais Gomes às 19:58

Mais uma rotineira viagem do 441 das 7h 35m de Fontanelas para a Portela de Sintra com os irritantes e habituais cinco minutos de atraso.

Logo em Fontanelas entrou José Alexandre, funcionário da câmara, mais um dia ouvindo munícipes carpindo reclamações, silencioso e distraído ia lendo o último Miguel Real, seu antigo professor, absorto da diária e  familiar paisagem, as mesmas pessoas entrando nas mesmas paragens com os seus passes e pré-comprados. Era o primeiro passageiro como sempre, o dia ainda a clarear. Na paragem junto à escola das Azenhas três adolescentes ruidosos a caminho da secundária de S.Carlos, a derrota do Benfica na véspera estimulando picardias, em voz alta chingando Jorge Jesus e a prestação de David Luís.

Na Praia das Maçãs, Susana, funcionária no Pingo Doce já atrasada  meia hora lentamente arrastava uma barriga de oito meses, breve seria mãe, uma menina,babada colocara a ecografia no Facebook para os amigos verem. O companheiro estava desempregado e apenas o seu ordenado ajudava nas despesas da apertada casa da sogra na Tomadia, esse desordenado  Cacém junto ao mar.

Quatro velhotas a caminho da praça subiram em Colares a tia Josefa, toda de preto, denunciava a morte recente ,atropelado na curva da Praia Grande, do neto de cinco anos. O marido falecido há seis meses, e agora o neto, carregava o calvário da vida solitária, só intervalada pelas viagens no 441 das 7h35m e a diária volta pela praça a buscar ração para os animais. Sozinha com os dois gatos e um canário, a quinta das tabuletas não tardaria, pensava.

O autocarro seguia atrasado e embaciado, tempo pastoso e vento de nortada ameaçavam um dia de chuva, esquecera o chapéu, lembrou José Alexandre, um de três euros nos chineses colmataria por ora.

O motorista, fleumático e algo antipático, mecanicamente fazia o papel, paragens com e sem passageiros, bilhetes e trocos, o irritante semáforo em Galamares, seis  viagens diárias para cá e para lá, os mesmos passageiros às mesmas horas, para variar um japonês perdido perguntando pelo Cabo da Loca, que não, é o 403, espere mais dez minutos.Subitamente acelerou,os  passageiros a travar com os pés para não serem cuspidos da inesperada montanha russa.

Na recta da Ponte Redonda, Susana até aí lendo uma revista cor de rosa, teve uma pequena dor, uma cólica, pensou, agitando-se na cadeira. A tia Josefa, na cadeira ao lado, reparando, meteu conversa:

-Está tudo bem,minha senhora? -sorriu, timidamente, olhando-lhe a barriga já proeminente -não tarda muito tem aí uma menina…

-Obrigado, não é nada, já passa. Como sabe que é menina? -interrogou, curiosa.

-Na minha idade essas coisas não enganam….só eu foram cinco, no tempo da fome. Mas todos se criaram, graças a Deus!

Na curva da Ribeira, apenas os jovens barulhentos no alvoroço próprio de quinze anos quebravam a modorra dos dolentes passageiros, vidas em tumulto, a crise nos olhares, os mp3 debitando músicas metalizadas. Susana de novo fez um esgar de dor súbita, quase pânico, e agitou-se na cadeira.

-É agora! Ai Jesus, é agora!

A tia Josefa assustada, prestável, segurou-lhe na mão e sorriu premonitória:

-Chegou o momento….rebentaram-lhe as águas não foi? Ó senhor motorista pare lá aí o autocarro que esta senhora está a ter uma criança!

A notícia apanhou o cinzento motorista de surpresa. Encostou o autocarro, já Susana se reclinava com dores ao longo de dois lugares na fila do meio. A tia Josefa e as outras velhotas faziam um círculo em torno dela, o xaile de uma logo a fazer de almofada, os passageiros de repente personagens duma viagem diferente.

José Alexandre abeirou-se enquanto os barulhentos miúdos na ponta de trás do autocarro de repente emudeceram. O motorista correu a pegar uma caixa de primeiros socorros na bagageira, tesoura e álcool pelo menos teria, os carros na retaguarda impacientes apitavam e blasfemavam contra aquele autocarro mal estacionado e sem triângulo.

Susana aflita e enervada fazia força reclinada de acordo com as instruções da tia Josefa, improvável parteira na maternidade do 441.José Alexandre logo despejou a mochila e improvisou um cesto de bebé para deitar o rebento mal visse a luz do dia.

Três minutos depois, um choro, um rosto ensanguentado, Susana arfando ofegante em clímax de felicidade, as velhotas regozijadas com mais aquele rebento, todas recordando as suas horas pequeninas muitos anos atrás.

Num gesto compulsivo, todo o autocarro rebentou numa salva de palmas, as velhas pegando como em troféu na mais recente passageira para Sintra, sem bilhete, ironizava agora embevecido o até então sorumbático motorista, os miúdos pelo telemóvel ligavam aos amigos, não iam acreditar.

Recomposta e chorando de alegria, Susana agarrava os três leves quilos de vida que não quiseram esperar pela cama do hospital, e instintivamente beijou a testa da tia Josefa, a quem uma lágrima correu pelo rosto, aliada a uma sensação de apesar de velha ainda ser útil, só por isso nesse dia a ração para os animais haveria de ser reforçada.

Três meses depois, realizou-se o baptizado da pequena Sofia e todos os passageiros e motorista daquele dia diferente foram convidados, testemunhas e cúmplices do renovado milagre de vida no 441.A tia Josefa perdeu um neto mas ganhou agora uma neta nova para quem no regresso do mercado todos os dias traz chupetas e bonecos e feliz e ocupada toma conta durante as horas de trabalho de Susana.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:47

06
Dez 10

Acamado na velha casa de Colares, António Melo e Castro rodeado de livros e quadros agonizava vendo os dias esgotarem-se como areia em ampulheta, ameaçados pelo cínico evoluir do linfoma desmancha prazeres.As barbas brancas antes milimetricamente tratadas estavam agora em desalinho, breve deixaria aquele mundo de mundos já mortos, ele próprio já alfarrabista da vida.Solteirão empedernido, valiam-lhe nesta fase os sobrinhos, Gustavo, professor de português na Sarrazola e Gabriela, pianista na Metropolitana de Lisboa, herdeiros daquele legado de séculos de história vertidos em cada objecto ou livro raro.

Naquele dia, depois de a enfermeira  ter saído, o velho antiquário chamou os sobrinhos, queria falar-lhes:

-Este corpo velho já pouco vai durar, mas antes que chegue a minha hora é meu dever contar-vos o Segredo.

-O Segredo? Mistérios agora, tio António? -sorriu complacente Gabriela, sempre adorara aquele tio, culto e melómano, custava admitir ter de em breve separar-se dele.

-Sim, o Segredo. Gustavo, vai ali à biblioteca e da segunda prateleira traz-me um livro castanho com lombada em couro, está na horizontal por cima dos outros.

Gustavo trouxe o livro e entregou-o ao tio, agora misterioso e ofegante,a doença deixava-o em estado de prostração.

-Este livro contém o segredo que de geração para geração tem passado na nossa família. É agora a vez de vo-lo transmitir.Mas como a mim fizeram meu pai e antes dele meu avô e bisavô tereis de o descobrir por vós mesmos.Só assim sereis merecedores dele.Poucos na nossa família o conseguiram.

O livro era uma versão fac-similada de um velho pergaminho, a Fábula do Rio das Maçans, dum Francisco Melo e Castro.

-Um antepassado nosso escreveu este poema, que durante quase duzentos anos esteve sumido, até que em 1800 um frade franciscano Frei Vicente Salgado o descobriu e copiou no Convento de Nossa Senhora de Jesus,em Lisboa. Foi o meu bisavô quem o descobriu num alfarrabista -ia desfiando, enquanto folheava o livro -Mas no princípio do século ele descobriu que o livro continha a pista de um mistério que ninguém até hoje deslindou.Cabe-vos agora a vez de tentar e ganhar a felicidade ou falhar.Eu não consegui, daí ter chegado a este estado! -lamentou, conformado.

-Ora tio, deixe-se de fatalismos, vai melhorar, vai ver! -animava Gabriela, pegando-lhe nas mãos.

Gustavo tirando os óculos leu a anotação a lápis na última página.

-“Quem partindo do dez alcançar a dezasseis o meio a luz plena verá a vinte e nove”.Uma charada, pensou.

Três dias depois António partiu deste mundo, deixando órfão aquele cemitério de pinturas e livros, depósito de muito mundo e muitas histórias, descansando em S. Gregório não longe da velha casa de Colares.

Gustavo e Gabriela não voltaram a interessar-se muito pela conversa, porém quando tiveram de despejar a casa e dividir os bens, de novo depararam com o livro castanho, e a frase a lápis. Gustavo pegou nele e mostrou-o a João Subtil, um amigo das Azenhas do Mar que se especializara em história de Sintra, com alguma obra já editada. João interessou-se vivamente pelo exemplar e pediu se podia ficar com ele uns dias, eles anuíram.

Dias depois, João telefonava eufórico marcando encontro no café das Patrícias.

-Creio ter desvendado o mistério, Gustavo, está tudo no livro!

Gustavo mostrava impaciência, tanto poderia ser importante como o produto de uma mente febril, mas confiava em João, Gabriela chegava também entretanto para ouvir o que teria descoberto.

-Este livro conta a história do rio de Colares, e tem duas vertentes: uma iniciática e simbólica, se assim quisermos, onde tudo aponta para um mundo de signos e símbolos e outra que esconde, creio, um caminho no fim do qual estará a recompensa que deve ser merecida. Terá sido isso que o vosso bisavô descobriu, e por qualquer motivo não teve tempo de desvendar! -e continuou, folheando o livro, ar místico -este livro divide-se em 65 oitavas. Conjugando a décima com as últimas quatro da décima sexta descobriremos o ponto de chegada que está claro na vigésima nona! Amanhã vamos seguir esta pista!

No dia seguinte encontraram-se junto ao Cantinho da Várzea, João sugeriu que seguissem até ao Covão, onde o rio de Colares, o tal das Maçans passava não longe do Hotel Miramonte.

-Lê a oitava nº 10, Gustavo! -ordenou João. Este pegou no livro e recitou:

"Na mais secreta parte onde com pena

Me leva o murmurar da agua leve

Escondida se queixa Philomena

Onde apenas irá quem não for ave

Apartando da entrada assaz pequena

Os ranmos d!hum loureiro;hu velho grave

Hua espaçosa gruta manifesta

Onde elle em frio passa a ardente sesta"

-Estás a ver ali aquele loureiro? O que é que está atrás dele?

-Um castanheiro grande

-“o velho grave”…-sentenciou João

Acercaram-se da margem do rio. Dois patos mudos nadavam tranquilos, num mouchão sinais de uma pequena abertura. Gustavo e João com a mão afastaram a terra, mole e húmida, e destaparam uma pequena gruta, restos de troncos e já sinais de mar próximo, seixos e conchas dispersas há centenas de anos o mar chegara a Colares, sabia-se, formando alagamares e enseadas, hoje assoreadas.

-Lê agora o final da 16-continuou João, guardando algumas conchas mais vistosas.

-"Nas paredes se vê pintura viva

De búzios e de conchas debuxada

Desencontradas ellas e elles tais

Que dous não achareis que são iguais"

João com um pincel raspou o que parecia um paredão argiloso e o contorno de vieiras e conchas pintadas na superfície, de diversas matizes, ficavam agora à vista. Não a cor viva, mas o tempo aí era inexorável…

-O local é este! -sentenciou. E pegando numa pá, começou a cavar, Gustavo e Gabriela entusiasmados mas ao mesmo tempo sem saber o que procurar. A certa altura um sapo cruzou a pequena gruta, quando João tocou uma coisa rija e avermelhada. Raspou a terra húmida em torno e qual Arquimedes na hora do banho gritou ufano:

-Achei! Lê o princípio da 29, Gabriela -atalhou João.

-“Sobre um leito de toscas pedras frias

Entre epatica esta, e língua Servina

E o verde limo ali de largos dias

Lhe serve de colchão e de cortina”

-Meus amigos, o vosso bisavô soube ler a mensagem criptada no manuscrito do vosso antepassado.O velho do poema não é um velho físico, mas sim metafórico.Ele descobriu o segredo que muitos almejam há séculos: a pedra filosofal!

 

Gustavo e Gabriela estavam incrédulos.João, segurando a pedra prosseguiu -Por qualquer razão que nunca saberemos o vosso antepassado ter-se-á cruzado com Nicolas Flamel o alquimista que da cabala retirou a fórmula que transmutava a pedra em ouro. Vejam bem!

E raspando a pedra, esta ganhou cor e solidez, era em ouro maciço.

Ainda tais palavras não eram findas, um inesperado desmoronamento de terras deslocou um pedregulho grande que logo esmagou os três intrusos de novo bloqueando a entrada da pequena gruta.Saliente e inerte debaixo dele, a mão de João segurava ainda a pedra, agora vermelha e incandescente, de novo liberta.

A Polícia Judiciária procura ainda hoje três pessoas desaparecidas em Colares no Verão de 2008,sob pena de ao fim de seis anos ter de se decretar a morte presumida. Na casa de Colares, fechada para inventário, uma Fábula do Rio das Maçans repousa abandonada no fundo duma caixa de cartão.


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:31

04
Dez 10

Tudo a postos na Quinta do Relógio. Manuel Pinto da Fonseca, rico aventureiro alcunhado o Monte Cristo, antigo traficante de escravos, oferecia uma recepção para apresentar à sociedade a sua delicada filha Carlota, dezoito pueris e esperançosas primaveras. Compareciam o Príncipe Real D.Afonso, a condessa d’Edla, o conde de Sucena, Chaves Mazziotti, donzelas casadoiras e jovens garbosos, quiçá o pretendente que se procurava. Era Primavera e 1893.

Carlota, tímida, criada por uma mãe religiosa e duas tias solteironas pouco convívio tinha para lá das aulas  com miss Lisa, a preceptora inglesa e as idas à missa em S.Martinho pelo que o pai achava que era altura de providenciar um genro de boas famílias e com fortuna adequada.

Tudo fora cuidadosamente arrumado, salões, móveis, jardins, criadas trabalhando denodadamente no vestido e no penteado da sua menina, que acompanhavam desde o berço e agora mulherzinha era apresentada à sociedade, tomara ser para elas a cintilante festa que se preparava.

Pelas oito horas chegou a primeira carruagem, com Lucrécia, prima de Carlota. As duas, muito amigas, costumavam trocar confidências nas tardes de lavores nos jardins do Relógio. Logo outras carruagens foram chegando e pelas oito e meia os músicos iniciaram a função com  uma  valsa aquecendo o salão.

Sózinho chegou também entretanto o moço mais cobiçado  da noite, Miguel de Sousa Holstein, filho da Duquesa de Palmela, cadete de cavalaria e herdeiro duma fortuna de família que a Regeneração havia acarinhado com desvelo.Pinto da Fonseca logo o obsequiou, correndo a apresentar a doce Carlota, que ruborescida, tímidamente o cumprimentou com uma pequena vénia.

Passado algum tempo, com o salão cheio, criados de libré serviam acepipes, no jardim luminárias e balões  incensavam o dinheiro do velho negreiro, agora dedicado a outros negócios com o Brasil, têxteis e madeiras exóticas. Miguel pediu Carlota para uma dança e logo perante olhares ora invejosos ora satisfeitos rodopiaram ao som do Danúbio Azul, toda a sala  os acompanhando chegada a inebriante Marcha Radetsky.

Enquanto isto, lá fora, um restolhar vagaroso e dissimulado quase imperceptível quebrava o silêncio junto a uma vedação da propriedade. José, o cocheiro da condessa d’Edla que dormitava na carruagem esperando, ouviu vagamente algo mas não deu importância, seria alguma lebre ou um dos gatos da casa, Carlota adorava-os e tinha três.

Depois de muito dançarem, os convidados, sobretudo os mais novos, espalharam-se pelos jardins da quinta, oportunidade para trocas de olhares mais insinuantes e uma possível e envergonhada troca de beijos. Lucrécia mais afoita e descarada  provocava um tenente de Lanceiros já meio avermelhado e fixo no proeminente decote, enquanto Miguel e Carlota passeavam falando do tempo e de Sintra naquela noite primaveril e generosa. A certa altura, esta, desculpando-se, pediu para se ausentar a retocar a pintura no toucador do quarto.Miguel, cavalheiro, retornou ao salão.

No quarto soprava uma leve e desconfortável brisa nocturna vinda da janela entreaberta, a estouvada da Ermelinda esquecera-se de fechar, pensou. Já ajustava o fecho das portadas quando uma mão lhe abafou a boca a outra encostando-lhe uma faca de mato rente à jugular. De coração aos pulos, um intruso voltou-a para si e com um dedo ordenou silêncio.

-Quem é você, o que quer? -perguntou Carlota, assustada, voz trémula.

-Silêncio, ou a festa vai virar velório! -ameaçou um negro, calvo, roupa suja e sapatos esburacados -Se não queres morrer ou alguém da tua família chama aqui o teu pai já. E nada de ideias, ou será pior para todos!

Perdida, Carlota assomou ao corredor que do piso superior debruçava sobre o festivo salão. Pinto da Fonseca conversava com Miguel e  ao sinal duma pálida Carlota pedindo-lhe que subisse desculpou-se e foi ao encontro dela.

Ainda risonho entrava nos aposentos logo o rosto se alterou ao deparar com Carlota tolhida numa cadeira de palhinha dourada e ao lado em pé o negro, ameaçador, uma mão no ombro da refém e a outra  segurando a faca rente.

-Mas que é isto? Quem és tu, canalha? Larga já a minha filha, ou mando açoitar-te, escaruma!

Apesar de abolida a escravatura, Pinto da Fonseca conservava os modos de senhor da casa grande que durante anos lhe porfiara a fortuna nos campos de algodão na Baía. Embora não mantivesse já qualquer criado ou escravo negro, aquela imagem transportava-o para a fazenda em Itabuna onde na sanzala chegara a alojar mais de quatrocentos escravos.

-Lembras-te da Jociara lá na fazenda a quem mandaste açoitar quando te disse que trazia um filho teu há trinta anos, branco velho?

-O que tens tu a ver com isso? Acaso tenho de dar satisfações a um preto como tu? Larga já a minha filha ou acabas enforcado! Eu mesmo me encarregarei disso!

-Eu sou o filho da Jociara. E sabes o que lhe sucedeu? Com tanto açoite  que lhe mandaste dar morreu no momento em que eu nascia lá no quilombo.És tu quem vai pagar agora!

O velho traficante empalideceu, olhou o negro e logo a filha e ficou abúlico.

-Pai, isso é verdade? Este moço é seu filho? Não me minta, peço-lhe…-Carlota sentia-se num pesadelo mas ao mesmo tempo ganhava serenidade e uma súbita simpatia pelo seu sequestrador. Voltava a interpelar o pai quando a porta do quarto  se abriu a pontapé e Miguel de  pistola na mão ordenou ao negro que largasse Carlota. Este, entre a raiva e o desalento, largou a faca e forçado a ajoelhar logo foi imobilizado pelo jovem cadete, que desconfiado com a cara pálida de Carlota chamando o pai, o seguira e tudo escutara no corredor.Fonseca aproveitando a mudança nos acontecimentos já se apressava a esbofeteá-lo quando a mão de Carlota o agarrou:

-Espere meu pai! Se este homem é seu filho é também meu irmão.E a sua raiva parece-me justa!

Miguel, ele próprio abolicionista e liberal, mantendo o preso imobilizado com a pistola concordou com um movimento da cabeça, sem contudo querer hostilizar o velho negreiro enquanto o negro espantado com a atitude de quem seria de esperar vingança mantinha silêncio, expectante.

-Proponho uma coisa: vamos arranjar-lhe um quarto para ficar e pela manhã se cuidará que se arranje uma reparação- e virando-se para ele colocou-lhe a mão no ombro, qual desculpa que o velho pai nunca pediria. Fonseca em silêncio  e remorso rendia-se àquela frágil jovem que assim tomava o pulso dos acontecimentos no seu baile de debutante.

Acalmado o negro, de nome Coriolano, Miguel  levou-o a comer uma sopa na cozinha e providenciou aposentos, não na ala dos criados mas dos hóspedes. Carlota e o pai voltaram à festa e sem que os convidados se tivessem apercebido acabaram  discretamente aquela inesperada noite, já Lucrécia alheada do salão se enrolava com o ofegante tenente atrás dum eucalipto.

Dias depois, Coriolano, ódio mais apaziguado, foi convidado para caseiro duma propriedade da casa Palmela, familiar de Miguel, casa própria para sempre e vencimento fixo mais uma parte do que a terra desse. Miguel depois de três felizes meses cortejando Carlota, pediu a mão desta ao envergonhado sogro que quebrado pelos anos abençoou os dois e movido por Carlota acabou também pedindo perdão ao filho que abandonara. E todos redimidos se juntaram de novo para a boda na Quinta do Relógio na qual  Lucrécia exibia já  seis meses de esperanças dum filho do capitão, seu marido….

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:02

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