por F. Morais Gomes

03
Dez 10

O Douglas DC-3 proveniente de Casablanca já noite e entre nevoeiro aterrava na Granja do Marquês, em Sintra. Ilsa Lund e Victor Lazlo, errantes fugitivos da barbárie nazi, logravam escapar do major Strasser, com o apoio de Rick e a complacência do ubíquo capitão Renault. O cobiçado chefe da resistência em Praga esperava agora em nova etapa o necessário visto de trânsito para a América, a partir de onde reorganizaria a oposição à ocupação hitleriana.

No aeródromo em Sintra aguardava-os o elemento de ligação destacado pela resistência portuguesa, Mário Soares, jovem aluno de Letras e destacado pelo sector intelectual do Movimento de Unidade Democrática para os acompanhar enquanto não se obtivesse o almejado visto. Mário e Ilsa logo trocaram cobiçosos olhares, mas primeiro a missão, os inimigos espreitavam. Conduzindo um Ford de 1935,levou-os para Sintra onde os alojou no Hotel Netto sob o falso nome de Walinski, casal de ourives polacos em visita a Elieser Kameneski, amigo russo radicado em Portugal e esporádico actor, entrara no Pátio das Cantigas, como o amigo dos animais.A estadia seria de pelo menos duas semanas, Soares seria o elemento de ligação.

No dia seguinte, acompanhado pela companheira e jovem actriz Maria Barroso, levou-os no Ford a conhecer o litoral do Estoril. Ilsa interessou-se por Mário.

-Mário, já alguma vez esteve em Paris?

-Nunca, miss Ilsa, embora tenha a maior paixão pelos escritores franceses, o Anatole France, o Malraux, que é nosso camarada sabia…-comentou, num francês arrevesado, as línguas não eram o seu forte.

-Ah Paris... -suspirava, transportada para as recordações daquela existência de desencontros. Em Paris fora feliz com Rick e o perdera, em Casablanca de novo, a vida madrasta os cruzava sem nunca os juntar.

Mário era um idealista de esquerda.Recrutado pela célula intelectual do partido comunista, as relações com a resistência no exterior já eram frequentes para si, o seu controleiro era um professor de geografia do Colégio Moderno, o esfíngico Álvaro Cunhal. Curioso, sondou Victor, até ali calado, sobre o curso da guerra, ele, subitamente despertado ganhou vigor na voz:

-A Résistance está muito activa, Mário, os partisans estão espalhados por todo lado, muitos patriotas lutam contra os colaboracionistas, Vichy está por dias.Em Lyon a propaganda está muito activa desde que mataram Marc Bloch, sabia?

-Quando a guerra acabar, também Salazar será afastado, Victor. Ele faz-se de neutro mas é um germanófilo convicto. Lisboa está cheia de alemães, e você é um alvo, tem de se resguardar. Não aconselho que saia muito de Sintra até chegarem os vossos papéis! –recomendou com  Maria concordando e segurando-lhe o braço.

Os dias seguintes foram passados em Sintra. De manhã, passeio a pé até Seteais, à tarde lendo e escrevendo cartas, momentâneo descanso do guerreiro porém sempre em cuidado pelos seus camaradas no terreno em Praga e em toda a Checoslováquia. Vaclav, soubera, fora capturado e internado em Teresin, muitos estavam na clandestinidade.

Duas semanas depois, descia para o pequeno-almoço, Ilsa reparou em dois vultos com malas falando com o recepcionista. Um de gabardina branca e chapéu preto alto, o outro era de cor, falavam inglês e exibiam uma reserva. Sentiu um frémito quando reconheceu aquelas personagens familiares: Rick e Sam, o velho pianista do Rick’s Café.

-Rick! Sam! -correu para eles, feliz.

Voltaram-se os dois, Rick surpreso, fitando-a fixa e pausadamente.

-Olá, miss Ilsa, o mundo é mesmo pequeno! -saudou alegre e sorridente o velho Sam.

-Que fazem aqui, quero saber tudo!

Rick ainda retraído logo sondou:

- Victor…?

-Está no quarto, escrevendo.Mas o que fazem aqui?

Antes que Rick respondesse Sam logo contou as novidades.

-Mr.Rick vendeu o café, vamos para França, miss Ilsa.O capitão Renault foi colocado em Marselha e convidou-nos para abrir um café-concerto lá, quando a guerra acabar vai ser o novo sócio.

-Que bom para vocês…-comentou Ilsa, Rick ainda parco em palavras. Mais uma vez o destino os juntava e separava apenas fruindo intervalos de felicidade.

Victor sabedor da chegada logo veio cumprimentar os amigos em trânsito e viajando em direcção oposta à sua. À noite jantaram juntos no Netto, quatro vidas, quatro caminhos, finais diferentes naquela Europa esfacelada e ainda sem esperança. Depois do jantar, Victor recebeu uma chamada de Mário e Sam, avisadamente, levantou-se para fumar um charuto, deixando-os a sós.

Na varanda, vista para o Palácio recortado pelas chaminés alvas e estranhas ficaram em silêncio uns momentos.Ilsa após hesitação achou oportuno falar-lhe:

-Rick, eu….

-Palavras não alterarão nada, Ilse -atalhou, cortando o cigarro e pondo-lhe ao de leve a mão nos lábios. - Victor precisa de ti, eu sou um aventureiro solitário, nunca te daria a felicidade que mereces. Vimos de mundos diferentes e eu não pertenço a sítio nenhum….

Rick saiu, pensativo, chupando o cigarro e deambulando pela rua, a noite estava amena e convidava à reflexão. Ilse, acabrunhada passou ao salão onde Sam descobrira um velho piano e logo familiar o experimentou, desviando o olhar de Ilsa, o seu segredo estava seguro consigo.Ilse agarrou-o no braço e pediu:

-Toca, Sam.Toca o  “As time goes by”….

Sam hesitou, mas anuiu, e a nostálgica melodia ecoou uma última vez no velho salão do Netto, definitivamente seguiam o seu rumo, desencontrados.Três dias depois Mário e Maria levavam-na e Victor ao aeródromo a caminho da América enquanto noutro avião Rick e Sam voavam para França.

A guerra acabou, Victor Lazlo feliz voltou a Praga, mas novo percalço o esperava. Estaline, novo senhor, substituía os anteriores ocupantes adiando as esperanças de liberdade. Acabou preso, torturado morreu em 1950.Ilsa, agora só, foi, para a América e dedicou-se a escrever para crianças. Rick e Sam, depois de uns anos em Marselha, instalaram-se em Cuba onde abriram um casino. Sempre ao balcão do bar, um cliente especial, Hemingway.Rick morreu no ano da revolução cubana.

Por cá, Mário e Maria casaram, ele acabou por se afastar do partido e encetou uma carreira política noutra direcção e marcada por vicissitudes. Na casa de Nafarros, entre as centenas de livros e quadros, uma foto já amarelecida de Victor e Ilsa, recordação do jovem compagnon de route naquele Portugal adormecido de 1943.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:54

02
Dez 10

O momento era solene na Quinta do Espingardeiro. Sua Alteza Real El-Rei D.Duarte II, novo rei de Portugal, recebia os conjurados que o haviam restaurado na Coroa depois dos extraordinários eventos daquela manhã.

Assinalando-se como de costume todos os anos a romagem do 1º de Dezembro, grupos monárquicos haviam convocado para esse dia e através do Facebook e SMS uma manifestação contra o regime no Terreiro do Paço em  protesto contra a degradação das instituições e do prestígio do país. Bloggers do 31 da Armada, João Braga, Paes do Amaral, Paulo Teixeira Pinto, entre outros, estavam entre os promotores e cedo se juntaram no local onde em 1908 o saudoso rei D.Carlos fora assassinado por cobardes carbonários.

Habitualmente discreta e pouco participativa, desta vez muita juventude marcava presença, descontente com o estado das coisas, afinal os melhores anos de glória nacional foram sob a égide de reis e em novecentos anos oitocentos haviam sido em monarquia.

Rápido alguns milhares acorreram em apoio.O fadista João Braga, usando da palavra ,incitava contra os corruptos e vendilhões da Pátria, momento em que um grupo mais determinado apelou a que se restaurasse a monarquia no país. Inflamados e fugindo ao controlo dos poucos policias destacados, marcharam até à fragata Corte-Real, ancorada em Alcântara, onde em dia de folga só o oficial de dia e alguns marinheiros permaneciam. Invadindo a mesmo e aprisionado o pobre tenente de serviço, fuzileiros veteranos à paisana apoderaram-se do navio e do paiol, para gáudio da populaça,com  nacionalistas e skinheads à mistura, bem como alguns noctívagos pouco antes vindos duma noite nas docas, conduzindo o amotinado vaso de guerra para Belém, onde  via rádio e já frente ao palácio presidencial contactaram o Estado Maior da Armada.Mal este imaginava que vinha aí um 31…

Enquanto grupos civis cortavam os acessos a Belém e S.Bento e as saídas dos cacilheiros e metro, os do Corte- Real ameaçavam com fogo sobre o Palácio e exigiam a rendição do Presidente da República. Este encontrava-se na residência da R. do Possôlo, ironicamente acabando uma fatia de bolo-rei... O Chefe da Casa Militar tentava parlamentar com os revoltosos, enquanto o presidente era evacuado para a Base Aérea nº1, em Sintra.

Entretanto,Paes do Amaral, conde Cantanhede ia-se desdobrando em contactos com a comunicação social, captando apoios e tempos de antena, a CNN ,alertada, tinha já um correspondente no terreno. D.Duarte, que se encontrava tranquilamente a beber um café na Natália, em S.Pedro,pelo telemóvel ia sendo informado do curso dos acontecimentos.

O primeiro ministro José Sócrates, ausente em Caracas, informado pelo telefone, ameaçava com a força militar. Chavez auxiliaria o amigo, mas no terreno os regimentos tardavam a reagir, em dia feriado. A Armada ainda tentou accionar o novo submarino, o Tridente, mas este tinha o pessoal ainda em formação e nunca fizera tiro real. Os Comandos, surpreendidos, não tinham operacionais ou artilharia, estava tudo no Kosovo e Afeganistão.

Pelas quatro horas, os conjurados com o apoio de forças civis invadiram o  Palácio de Belém, apeando a foto de Cavaco Silva e içando a bandeira azul e branca. Uma proclamação ao país circulava já nos SMS e no Facebook. Mais bandeiras azuis e brancas se multiplicavam agora nas ruas da Baixa e no  mastro do Castelo de S. Jorge.

Às cinco horas, sem tropas ou apoios e sem derramamento de sangue,caía a III República implantada a 25 de Abril de 1974.As redes sociais estavam entupidas e os telemóveis saturados,o Hino da Carta era o vídeo mais visto no You Tube.

Por essa hora, na casa de Sintra, D.Duarte recebia uma delegação de conjurados que em exaltação patriótica o proclamaram legítimo herdeiro do trono gritando real por el-rei de Portugal. Ainda atónito e rodeado de Isabel Herédia e dos filhos, aceitou o pesado fardo que o povo português, nação de gente boa lhe pedia, e em cortejo trunfal partiu para a Ajuda num UMM blindado, escoltado por motards e campinos a cavalo.O bisavô D.Miguel, derrotado em Évoramonte exultaria por certo lá onde estivesse.

Na sala do trono no Palácio da Ajuda logo as forças armadas prestavam lealdade ao novo monarca, enquanto as chancelarias europeias mandavam felicitações, quase todas monarquias por sinal, os primos da Holanda, Juan Carlos,Alberto II,Beatriz, tudo família.

Dirigindo-se da janela ao povo eufórico que aos milhares ali se juntara e envergando o manto branco que pertencera a D.Carlos, o novo rei prometia democracia e pluralismo ,respeito pela tradição e julgamentos isentos para os derrotados, seria um monarca constitucional e moderno. Frente à multidão inflamada,uma banda no final tocou o Hino da Carta. Os Braganças estavam de volta.

Depois, as primeiras medidas: a extinção da Guarda Nacional Republicana substituída pela Guarda Real, a convocação de Cortes, a nomeação dum governo, chefiado por Paulo Teixeira Pinto. A aclamação oficial de D.Duarte II ocorreria na Sé um mês depois, perante o clero, a nobreza, e os parceiros sociais.

Ainda nessa noite, o deposto presidente Cavaco Silva partiu para o exílio em Lanzarote, ficando com residência fixa numa vivenda onde outro português já morara. Perturbado, ao embarcar  falava sozinho e soltava frases sem sentido, como alimentar o monstro e violar e-mails.O ex-primeiro ministro José Sócrates, ameaçado com prisão se regressasse, ficou pela Venezuela, onde lhe foi oferecido um lugar como administrador numa empresa de computadores. Nas ruas, o povo exultava, grupos de forcados de Salvaterra e ganadeiros de Alter acorriam a celebrar o novo rei, agora  reinstalado e não mais embuçado.Uma corrida à antiga portuguesa celebraria com pompa a entronização, a velha nobreza e os marialvas estavam vingados.

Refreadas as emoções desse dia histórico, havia que retomar a administração da coisa pública. Três dias depois, Conselho de ministros das Finanças da UE em Bruxelas. O novo ministro ,agora rebaptizado da Fazenda, o marquês da Amareleja, muito cumprimentado pelos outros colegas ouvia o plano de resgate para a economia portuguesa: liberalizar os despedimentos, tirar mais 3% suplementar aos vencimentos, privatizar toda a segurança social. Desolado, pedia tempo para o novo regime atacar os problemas e dar a volta à trapalhada herdada dos republicanos, ainda estavam em estado de graça. Sorumbáticos, os colegas negaram, monarquia ou república   estavam ali para resolver problemas a sério e não para reinar….


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:27

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