por F. Morais Gomes

20
Jan 11

Era uma agitação na Praia das Maçãs, a retroescavadora retirava  terras para executar as fundações da obra atrás do mercado e tinha chocado em algo compacto, uma espécie de parede em pedra não longe do tholos romano ao abandono, local de alívio de muitos banhistas perdido atrás do canavial. António Alves obtivera licença para uma moradia, três  longos anos no Parque Natural para parecer,  os tipos da Rede Natura 2000 a chatear, arrancava agora  finalmente com a obra, mas  a máquina deparava-se com um inesperado obstáculo rochoso apenas a 3m de profundidade. Destapada a camada dura com enxadas,  ficaram à vista três colunas de pedra cortadas em forma de prisma, com uma grande quantidade de letras  inscritas nos pedestais,  atraindo a atenção do Marinho e do Lopes que logo vieram coscuvilhar, vindos do clube da praia onde jogavam uma partida de sueca.

Nas colunas estava gravada  uma figura feminina envergando uma túnica, braços abertos para o céu, um halo com ramificações em frente, como se fosse um sol ou uma medusa, arte romana,parecia ao João Rodrigues, jurista recente mas entendido em História, e que também passava na altura. O Alves. pensativo ,antevia já chatices, se aparecessem os tipos da Câmara mandavam por certo parar a obra por causa duns achados velhos, bem vira o que acontecera em Almornos com a moradia da filha, três anos parada por causa duma lápide que o lunático do arqueólogo da câmara teimou em achar que era valiosa, para ele boa para  decorar a churrasqueira, isso sim. Um pouco mais escavado o terreno,  mais colunas surgiram, coisa antiga, pelo aspecto, alvitrava o velho Alberto do Búzio, palitando os dentes. Logo mais uns artefactos e umas ânforas, cada cavadela cada minhoca.

O Alves, preocupado,achou que deveria resguardar mais os achados antes que se propagasse a notícia, e vai de fazer constar que ia meter tudo numa carrinha e levar para um museu, para estudo, discretamente  desviou os populares e foi pagar-lhes uma rodada  ao Loureiro enquanto o Crispim e o Zé Luís  longe dos  mirones carregavam as malditas colunas para uma carrinha de caixa aberta. Meia hora e três imperiais depois, o tema de conversa era já o Benfica e o sorteio da Taça, o Rio Ave ia levar cinco secos, prometia o Alves, lampião empedernido, despachando os tremoços.

Na obra entretanto,máquinas  paradas e o buraco semiaberto, passou um carro da GNR,um guarda zeloso  a perguntar pela licença a um operário que ficara de guarda.Faltava a placa identificativa da obra,  dizia o guarda com ar de reprovação, amanhã a ver se está afixada senão são quinhentos euros.Cesário anuía, humilde, com o patrão no bar e as colunas já longe da mira. Ah, e o capacete sempre na cabeça, frisou o guarda do alto da autoridade, seguindo na direcção das Azenhas do Mar.

Retornado à obra, com os outros já dispersados e  a caminho de mais uma partida de sueca, o Alves  continuou a escavação, aparentemente sem mais  sobressaltos, havia que dar fogo à peça para executar as sapatas e começar a betonar nas semanas seguintes, as colunas diligentemente a caminho dum vazadouro na Amora, entulho por cima para disfarçar.Como é que alguém pode dar importância a tralha velha desta, ainda pensou o Alves com os seus botões, nada mais no seu caminho, aparentemente.

No dia seguinte, com  sol radioso e as máquinas em movimento acelerado, o Alberto do Búzio abeirou-se da obra e sondou o Alves:

-Então ó António, chegaste a saber o que eram aquelas pedras de ontem? Se calhar pertenciam àquela coisa do tôlo ou tólo, como chamam ao matagal acolá, os gajos lá de Odrinhas andam sempre à procura de trampa dessa, ainda se fosse  para virem comer um robalo ao sal dos meus... - e logo partia na direcção do Barmácia, ganhara uma aposta ao Luís  com o resultado do Braga, ia a cobrar o seu tinto, que de manhã é que se começa o dia.

O Alves pelo sim pelo não mandou colocar uma vedação à volta do desaterro, se aparecesse algo de novo ninguém chegaria a aperceber-se, arriscava sete ou oito anos parado com o processo num gabinete em Lisboa e o banco não ia esperar, os juros logo a contar, a ver se alguém  já se governara com o tal tholos, atrasos de vida duns tipos que nunca fizeram nada na vida senão chatear, pensava.

Ao mesmo tempo, não longe dali,  no museu de S.Miguel de Odrinhas, Maria João, mestranda de Arqueologia debruçava-se sobre uns manuscritos de Félix Alves Pereira, arqueólogo e estudioso da zona de Sintra, há meses que dissecava textos sobre a presença romana na Praia das Maçãs, aventara-se mesmo a existência de um importante templo dedicado ao sol no alto da Vigia. O director do museu, Cardim Ribeiro tinha obra prolixa sobre o assunto, Maria João cruzava documentos e ia juntando o puzzle. Nessa tarde, excitada,como quem descobriu a  pólvora, entrou no gabinete do doutor Cardim, que se regalava com uma maçã reineta, e disparou a sua descoberta:

-Professor, ou me engano muito, ou a localização do templo do sol  não é na Vigia, como vaticinou o Francisco de Holanda, mas no lado oposto, junto ao mercado, veja aqui, os pontos cardeais estão mal assinalados! - e mostrava um papel vegetal onde desenhara localizações a partir dos estudos de Alves Pereira.

Cardim até ali ausente,logo sacudiu a maçã , óculos apontados ao papel, fez silêncio uns segundos e concordou, olhos arregalados, havia que escavar no local, finalmente podiam estar à beira de descobrir o lendário templo do sol da Praia das Maçãs, só podia ser ali, pensava agora, o tholos era a ponta do icebergue.

- Veja professor, o Francisco de Holanda dizia que o templo seria um recinto circular implantado sobre uma plataforma de terra, sobre a qual se distribuíam 16 aras prismáticas  organizadas a espaços regulares, com um disco solar raiado ao centro -continuava a investigadora.- Porém, não é de excluir a hipótese de o desenho dele ser apenas aproximativo: as aras poderiam ser simples bases ou socos de uma colunata ou de estátuas, e ser apenas em número de doze, o que permitiria supor o carácter astrológico do santuário. E repare, diz-se que era junto ao mar, mas o mar nessa altura chegava ao local do actual tholos,  o assoreamento pode ter levado a que esteja hoje onde está e não junto ao mar, aconteceu o mesmo com a Torre de Belém!

-Maria João,os meus parabéns, creia-me, esta descoberta vai ser mais importante que os fósseis de Foz Côa! –gritava o professor Cardim, voz de criança com brinquedo novo, casaco no braço a caminho da Praia das Maçãs.

Nos Foros da Amora, as colunas despejadas pelos homens do Alves, entre carroçarias podres de carros vazadas no aterro aberto para os inertes e terras retiradas do novo túnel da Arrábida descansavam  já, incógnitas para mais dois mil anos, quando talvez voltassem a ser descobertos e dessa feita lançados, quem sabe, ao mar, para não prejudicar de novo alguma construção.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:38

19
Jan 11

O arquitecto apressava-se a apanhar um táxi, fila extensa na zona das chegadas do Aeroporto da Portela, uma corrida até ao Algueirão, depois da visita à Batimate em Paris, queria chegar e tomar um banho, o atelier esperaria para o dia seguinte. O motorista, cabelo grisalho, cinquenta anos, calado transportava a mala para o porta bagagens, taxímetro ligado, a menina da central monocordicamente a debitar pedidos pelo intercomunicador.

António Salaviza depois de quinze anos como técnico da Câmara Municipal de Sintra metera uma licença sem vencimento e aventurara-se na privada, umas moradias no Algarve, um projecto interessante para o Lobito agora, como todos os anos vinha de mais uma feira de materiais de construção, menos portugueses agora, sinal da crise.

O motorista pelo retrovisor de quando em quando deixava escapar um olhar sobre o passageiro, António meteu conversa:

-Então o serviço? Muitos passageiros?

-Está mau, nesta altura do ano menos turistas, não chega para o petróleo -desabafou, uma buzinadela para um Fiat a fazer uma manobra perigosa na Gago Coutinho.

A voz e a expressão do rosto pareceram-lhe de súbito familiares

-O amigo é daqui da zona?

-Sou da Abrunheira, aliás sou de Tomar mas moro há muitos anos em Paiões. A seguir a deixá-lo aproveito e até vou almoçar a casa -respondeu, mais expansivo.

De repente uma luz avivou ao arquitecto a memória daquela figura:

-Desculpe lá, mas você não é o Ribeiro Antunes, que tinha umas urbanizações ali para os lados de Paiões?

O taxista deixou escapar um ar de surpresa, virou-se e mirou o cliente:

-Olha se não é o arquitecto Salaviza, da Câmara de Sintra!.Há muito tempo, senhor arquitecto!- um sorriso recordando velhos tempos, melhores por certo, o rádio apagado para falar melhor.

-Então mas o que é que lhe aconteceu? Mudou de ramo?

-Coisas da vida, arquitecto. Lembra-se daquela urbanização em Paiões, os vinte lotes da minha empresa, a Antunobra, até levou cinco anos para aprovar..

-Sim, tenho uma ideia, eu também já não estou na Câmara, sabe, nem vou lá há muito tempo.

-Pois é, deu tudo para o torto. O meu sócio o Parreira, fez um desfalque nas contas, e o banco veio em cima de mim, até o terreno lá na terra foi à vida. Depois com a crise, os lotes não se venderam, a Câmara começou a cortar nas licenças e tive de me virar.

António Salaviza meditava sobre as ironias do destino. Lembrava  anos antes o agora motorista de táxi num Porsche a convidar para almoços no Porto de Santa Maria, garrafas para os amigos no Elefante Branco, o boom da construção no seu auge. Desorganizado, fazia do banco do lado do Porsche o escritório, onde se misturavam licenças e alvarás, plantas e alçados, reuniões com vereadores que lhe ligavam directamente, sessenta empregados com que sempre fazia lautos almoços em cada pau de fileira das urbanizações a crescer na Sintra dos anos 90.Agora, guiava um táxi e  almoçava em casa.

-Então e não pensa retomar noutro lado?

-Já estou velho arquitecto. E sabe, assim até estou melhor, são menos dores de cabeça, fiquei com uma moradia lá em Paiões, os filhos estão criados... -encolheu os ombros, o semáforo caía na segunda circular, pelo telemóvel a mulher perguntava se ia almoçar, eram pataniscas com arroz de grelos.

-Pataniscas? Bem bom, com um tinto lá de Tomar, vai saber que nem ginjas! -consolou-se, outra vida, outro mundo. Salaviza lembrava os almoços com vereadores e empreiteiros, as lagostas suadas e os whiskies de vinte anos, como Portugal mudara do oito para o oitenta, da selva de betão que sempre lhe fizera confusão, mas que os políticos pressionavam, em nome do interesse para o concelho, ao  quase marasmo, nem uma obra que se  visse ou uma grua em toda a linha de Sintra, noutros concelhos também.

Ao passar por Rio de Mouro, o taxista teve um olhar melancólico para a esquerda. Ao fundo ainda se viam as silhuetas dos prédios da Antunobra por vender, tomados pelo banco, o andar modelo no último piso. Ribeiro Antunes suspirou e carregou no acelerador, IC 19 acima. Chegados ao local, Salaviza deixou-lhe o telefone, mal ou bem era um personagem  dum passado recente e ao mesmo tempo longínquo, alimentado pelo novo-riquismo da época, a convicção de que as coisas não acabam nunca. Antunes agradeceu, tirou as malas  à porta da moradia e lançou um olhar cúmplice ao antigo técnico da Câmara:

-Deseja factura, senhor arquitecto?


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:20

17
Jan 11

Fechadas as urnas após a votação para a Presidência da República, nos estúdios de televisão as primeiras previsões apontavam para um cenário semelhante a um terramoto e que já algumas reportagens da tarde deixavam antever: a par da enorme abstenção,as projecções vaticinavam  a surpreendente eleição do madeirense José Manuel Coelho como 19º Presidente da República Portuguesa. No silêncio da cabine de voto, o povo português desagradado com os políticos optara pelo voto de protesto, e o que poderia não passar de uma contestação  de franjas descontentes, empurrado pela abstenção massiva (no Nordeste a roçar os 90%) conduzia  a um imbróglio político difícil de desatar. O povo português escolhia o seu Tiririca com sotaque, 54% dos votos expressos.

Na primeira ronda televisiva pelas sedes de candidatura desvalorizava-se a projecção, era cedo, Manuel Alegre jantava  nessa altura na Trindade com apoiantes e Cavaco em casa via "Nós, os Ricos" na RTP Memória, mais tarde com mais resultados fariam comentários. O putativo presidente eleito, apanhado a comer um prego numa roulotte  do Campo das  Cebolas , já rodeado de televisões, mini na mão, apreciava o momento e lá ia dizendo que o povo português não era parvo e que nessa noite iria dar uma lição aos políticos corruptos do continente e ao tiranete das ilhas, alguns populares desdentados acenavam para a televisão com o Emplastro  em destaque atrás.Na SIC, Mário Crespo ia pondo  o ar  grave de quem anuncia o início da III Guerra Mundial, a excelência da informação atrás da notícia do ano, quiçá do século, as sedes de candidatura em polvorosa.Os resultados que chegavam eram esmagadores, só a Madeira respeitara as ordens do chefe  votando em Cavaco, que o respeitinho é muito bonito.

Pelas 21h,contadas quase todas as freguesias,confirmava-se a eleição à primeira volta. Manuel Alegre no Ritz, reconhecia a derrota e cumprimentava o novo presidente, algum alívio até por aquele frete ter chegado ao fim, o novo romance podia agora ser acabado e voltar a atacar o Zé Sócrates por estar a acabar com o Estado Social, Nobre anunciava a partida para Teresópolis com a AMI em apoio aos desalojados das cheias, Defensor Moura ria a bandeiras despregadas, chegara aos 3% e ganhara a aposta ao Francisco Assis, um jantar no Gambrinus. Na Soeiro Pereira Gomes o candidato do PC enfatizava os extraordinários 8% de Francisco Lopes e a histórica  derrota da reacção, seu principal objectivo, o novo presidente até fora militante do PC, amenizava Jerónimo de Sousa aos camaradas .

Mais dramática foi a reacção do agora presidente cessante. Cavaco Silva, semblante carregado, a Maria com ar de   enterro, netos ao lado, lá dizia ter sido uma honra servir os portugueses, que poderiam contar sempre com ele para ajudar o país, iria retirar-se para a Praia da Coelha e escrever sobre  o futuro do euro, o staff cabisbaixo  e  agora desempregado logo rompendo em gritos de Cavaco! Cavaco!. Era o sair de cena definitivo ,na SIC Mário Crespo já usara oito vezes a palavra “histórico”antes do directo.

Na Baixa de Lisboa, carros de recentes apoiantes buzinavam  em apoio do novo presidente, já a caminho dum  restaurante para a declaração de vitória ,com as motas de reportagem das televisões a segui-lo no táxi dum amigo madeirense. O Protocolo de Estado enviara um BMW  de vidros fumados e dois seguranças ao Campo das Cebolas mas dispensara-os, o slogan “Coelho ao Poleiro” vingara, de sorriso rasgado acenava aos populares que o saudavam no Rossio. Alguns, entrevistados para a televisão logo diziam ser um político brilhante, erudito até, o madeirense sem medo com eles no sítio,até pagara um courato. Do Funchal, as notícias menos agradáveis: Alberto João Jardim recentemente saído do hospital tivera uma recaída e estava nos cuidados intensivos, com a fúria partira uma cadeira contra a parede na Quinta da Vigia antes de lhe dar uma apoplexia.

Pelas dez da noite, José Sócrates, meio surpreso meio preocupado, apareceu em S.Bento a saudar o novo presidente, ar circunspecto, já lhe ligara a dar os parabéns pela eleição e prometia cooperação institucional , necessária para acalmar os mercados, até lhe enviara um Magalhães pelo chefe de gabinete. Curiosamente, em Nova Iorque as cotações das empresas portuguesas até valorizaram, a expectativa era positiva pela mudança de rostos, a CNN e a Al-Jazeera reportavam o acontecimento em rodapé nas breaking news com títulos como Maverick takes over in Portugal ou Political tsunami in Lisbon.

Finalmente o novo presidente com dois amigos e o taxista,o seu staff  durante a campanha eleitoral ,falou aos jornalistas em conferência de imprensa no Madeirense das Amoreiras,pejado de repórteres nacionais e estrangeiros, um apetitoso cheiro a carne  e semelha no ar. Agradeceu ao povo português, e  anunciou que já tinha mandar servir uma rodada de ponchas aos presentes por sua conta ,com ele seria o povo em Belém, fazia questão de no futuro só andar de táxi e referiu orgulhoso já ter recebido um telefonema de Berlusconi, que o tratou por Giuseppe e se disponibilizou para o aconselhar sobre como lidar com a comunicação social  incómoda. No fim, sacou um coelho branco dum cesto, e de braços no ar deixou-se fotografar, o coelho numa mão, o V de victória com a outra, ao fundo apetitosas espetadas passando para as mesas.

Ao fim  da noite, já as agências noticiosas profusamente tinham difundido a notícia e o perfil do novo presidente, procurando no Google as escassas informações sobre o novo incumbente lusitano. Depois de um dia memóravel na História do Portugal moderno, um carro oficial precedido de batedores enviado pela Casa Civil da Presidência deixava o novo  Chefe de Estado numa  velha pensão na Almirante Reis onde se instalara desde que viera fazer campanha  no continente, e onde no dia seguinte receberia o primeiro-ministro em audiência na sala de jantar da Mariette. Ufano, já a sós no quarto, mirou-se ao espelho, endireitou a gravata azul e com os seus botões reconheceu satisfeito, Portugal afinal ainda não era uma República das Bananas…


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:09

João Carlos, 25 anos, era o típico chico esperto, vivendo rodeado de mulheres e de dívidas, arrastando-se ébrio pelos bares de Sintra. Inteligente, sempre envolvido com mulheres duvidosas, o Fernando da Junta já o tentara convencer a mudar de vida, mas estava-lhe na massa do sangue. Tal originava-lhe frequentes dissabores, por vezes dormia nos baixos do café Paris, embriagado e cravando cigarros aos passantes. Até que um dia, depois de uma zaragata mais violenta na Tasca do Manel o levar ao hospital decidiu que era tempo de mudar de vida.

A oportunidade surgiu quase por acaso, o tio Albertino, solteirão,    antiquário na Vila Velha morreu de repente, deixando metade do negócio a ele e a outra sobrinha, a Salomé, sua prima, quase da mesma idade, morava em Lisboa, eram os sobrinhos favoritos do velho. Mas havia uma observação enigmática no testamento dirigida a João, em voz grave lida pelo Dr. Celso, o notário no dia da abertura do testamento: ”Tudo está escrito, respeita tudo o que escrito estiver”. Loja herdada e reaberta, era a nova vida que precisava, deixou de beber e aos poucos pagou as dívidas do poker, fato e gravata novos, ar respeitável de antiquário.

Salomé era linda, cabelos castanho-claros, olhos esverdeados, corpo esculpido. Morava em Lisboa com a tia Júlia, o negócio a meias fez por aproximar os dois e mudar-se para Sintra e durante muito tempo deram-se bem, aliados. Os problemas começaram depois que um armário adquirido a um português natural de Goa chegou à loja. Era um móvel grande, negro, com baixos-relevos orientais, e  com ele vinha um misterioso bilhete que alertava para que a porta da direita nunca fosse aberta. João Carlos achou piada, coisa de hindu supersticioso, pensou, e em desafio diletante enfiou o bilhete na porta dita proibida. Coincidência ou não, naquele mesmo dia, uma conta não paga logo azedou o clima entre ele e Salomé.

O tempo ia passando e ninguém comprava o dito móvel, primeiro na montra, depois num canto, acabou nos fundos, poeirento. Os desentendimentos por causa dos negócios que começaram a fraquejar passaram a ser constantes, e João Carlos sentia-se mortificado, sem prazer no que fazia.

Já com a relação com a prima degradada, ao entrar certa vez na Piriquita deu com ela a tomar café com um estranho, bem parecido demais para ser só amigo, um namorado oportunista, pensou. Apesar de os ver, ignorou-os e na manhã seguinte mal falou com a prima, amuado. Estavam meio desencontrados, mas era um palmo de cara e ainda tinha esperanças que um dia as coisas resultassem entre eles.

O tempo ia passando, ia ficando cada vez mais triste e desalentado, pouco a pouco voltava à vida que levava antes de pegar no negócio herdado do tio. Jogo, álcool, prostitutas, a prima junta com o manguelas do Renato. Na loja, o armário indiano, silencioso, lá continuava há mais de um ano. Passara tanto tempo desde a compra que desistiu de vendê-lo e passou a usá-lo para guardar papéis relativos ao negócio. Encheu as gavetas, abrindo a porta onde guardara o bilhete que aconselhava a não usá-la, este havia sumido, o interior vazio. Imaginou que Salomé o tivesse jogado fora e colocou lá os livros de cheques da firma.

Dias mais tarde a prima veio perguntar pelos cheques, ao abrir a porta do armário, nada dentro, tal como o bilhete, nada de cheques, deixando Salomé furibunda e suspeitando de desvios e a ligar ao Renato para ele se travar de razões com João, queria contas. Renato, no dia seguinte e a sós com João entrou a matar com ironias, o móvel não havia de ter engolido os papéis. Aí, João, boa pessoa há tempo demais para o seu gosto, instintivamente pegou num Santo António em pau-santo, maciço, e certeiro atingiu a cabeça do garanhão da Vila Velha. O corpo caiu no chão, esperneando e acabando por morrer. Estava ainda quente no chão, turistas japoneses fotografando querubins na montra, quando Salomé chegou, vinda do Bristol. Enrascado, abriu a porta direita do móvel indiano, e empurrou o corpo lá para dentro, enchouriçado. Mal  a fechava  quando a prima entrou pela porta da frente:

- Viste por aqui o Renato?  Ele disse que vinha para cá!

- Não, não vi, porquê, hoje é dia de marmelada? - insinuou, invejoso, ao mesmo tempo sabendo o outro lastro para saco de batatas, valha isso.

- Deixa-te de brincadeiras. Se ele aparecer diz-lhe que estou no Arneiro! -a voz não era de brincadeiras, continuava bonita zangada, aquele narizinho…

Assim que a prima saiu, abriu a porta do armário, mas o morto havia desaparecido por completo, coisa anormal. Foram os cheques, agora o corpo, estranho mistério, nos dias seguintes a polícia em verdadeira caça ao homem em Sintra, o sumiço era o tema na Vila Velha, com fotos de Renato espalhadas na Junta de S. Martinho e nos bares e lojas de artesanato das redondezas .Com o tempo, nada se apurou, as buscas foram reduzidas e os primos até se reaproximaram, mas um mistério atormentando João, ao mesmo tempo aliviado por não haver um corpo que o denunciasse.

Três meses depois, ao entrar na loja, Salomé, com João ausente, tropeçou numa cadeira e caiu desgovernada no chão, mesmo em cima de uma mancha avermelhada no tapete, era sangue seco e ressequido, como logo apurou. Tomada duma consciência dos factos que rapidamente lhe avassalaram a memória, arrastou as peças expostas e enrolou-o, levando-o com ela, agora juntava dois mais dois.

João Carlos chegou mais tarde, estranhou a loja ainda fechada e entrando notou a falta do tapete velho mas não ligou. Já se sentava na escrivaninha do canto quando sirenes da polícia soaram vindas do lado do posto da GNR na estação parando junto á loja, o vulto da Salomé no banco de trás. Uma súbita palpitação levou-o a crer que teria a ver com o desaparecimento de Renato, e assustado tentou escapar-se, mas a prima antes de sair trancara todas as saídas das traseiras, não tinha como sumir. Fixando o móvel indiano à sua frente, abriu a porta proibida e escondeu-se lá dentro. A GNR entrou no local, arma em riste, Salomé a acompanhar, mas nada, tudo foi vasculhado, o móvel aberto, João Carlos não mais apareceu. Até hoje.

No cartório notarial, meses mais tarde, arquivava o Dr. Celso um testamento recentemente aberto quando lhe surgiram manuscritas as últimas vontades do velho Albertino. Pausadamente releu a misteriosa frase dirigida a João Carlos, infelizmente desaparecido, toda a Vila lamentara, e sorriu, patetices de velhos perturbados pela idade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:22

16
Jan 11

Um programa Erasmus na Hungria, Engenharia do Ambiente, era o novo desafio de Vanessa, 12º ano na Leal da Câmara, a mudança de Rio de Mouro para Budapeste soou a coisa caída dos céus, um mundo novo e novos amigos em perspectiva.

Bilhete de avião na mão, uma residência universitária não longe do centro, era a aventura magiar, se a Europa servia para alguma coisa era para isto. Chegou a Budapeste no início de Setembro, ano lectivo a começar duas semanas depois.

A cidade era limpa e aristocrática, velhos edifícios da era dos Habsburgos marginando o plácido Danúbio, pontes pedonais e praças perfumadas pelas harpas e violinos dos artistas de rua, todo um universo diferente do multicultural subúrbio sintrense. Os primeiros dias foram de total descoberta, num inglês pirrónico, a impronunciável língua local  abafada pelos gelados e gulosos crepes gundel palacsinta. A universidade  funcionava num edifício clássico,colegas quase todos húngaros, no programa Erasmus apenas um italiano,Matteo,  e  Ilse, sueca de trato fácil, José Mourinho superstar a unir logo as conversas sem rodeios iniciais. Ao fim de uma semana tinha já amigos, a alegria esfuziante da jovem de Rio de Mouro derrubava  fronteiras e conquistava  o leste.

Aí surgiu András. András Szabo, 19 anos, colega de turma, ar franzino,  das aulas aos passeios na Praça Vörösmarty  para um  sorvete logo chegaram as deambulações de mãos dadas pelas velhas pontes  entre Buda e Peste. A paixão falou alto, e apaixonados passaram a partilhar um apartamento  não longe da verdejante ilha Margarida.

András nas horas vagas ganhava um dinheiro extra  no Karpátia, um restaurante junto à catedral, em Buda, invariavelmente  lautos pratos abrilhantados pelas czardas e marchas debitadas pelos nervosos violinos dos zíngaros.Á noite, ela esperava-o e ceavam  juntos, Portugal cada vez mais só uma recordação do sol e dos amigos.O Facebook amenizava as saudades e um amanhã parecia despontar naquele país de que vagamente ouvira falar  e onde agora o futuro parecia sorrir. Aos fins de semana passeavam em Visegrád, Danúbio acima de bicicleta por  florestas pintalgadas de cavalos selvagens ou banhavam-se no Balaton,  cristalino  lago a sul, copo de Tokay branco a aquecer os corações  e a cama nas noites frias da estepe magiar.

Ao fim de dois meses, András começou a  ter  de ausentar-se com frequência, a mãe viúva adoecera e tinha de lhe dar assistência viajando até Esztergom, terra natal perto da Áustria. Vanessa a início compreensiva, entretinha-se nessas alturas a passear pela cidade e estudar na biblioteca, onde Matteo, o divertido italiano de Pisa  surgia frequentemente, a alegria tonitruante do italiano, mais anárquica e expansiva contrastava com a postura eslava  e marcial do magiar, os risos eram agora mais com Matteo que com András, de repente um ambiente rotineiro e seco a instalar-se no apartamento, quando à noite ele voltava do Karpátia já só beijos silenciosos, o odor a goulash e sültmalac da roupa dele a suscitar agora enjoos. A adrenalina do ménage a trois mesclada com um desejo físico irreprimível estimulava o ego de mulher e a volúpia de fêmea dividida. András era o cérebro, Matteo o corpo.

Até que Matteo, inevitável, sucedeu a András naquela poliglota sociedade de nações do desejo. Certa noite, com András ausente  em Esztergom, jantaram numa acolhedora trattoria perto do Kempinski, na baixa da cidade.Ele, vinte anos, moreno e ar atlético, transpirava virilidade, umas Dreher loirinhas ao som dum cimbalon embalado e logo o apartamento foi o destino óbvio sem apeadeiros, a jovem de Rio de Mouro em onda de internacionalizações trepidante nos seus dezanove anos.

Assim se foram passando  ambíguos os dias e  semanas. Em finais de Abril voltou a Portugal, de férias, apesar dos jantares com os amigos, era em Budapeste que os pensamentos estavam já, mais com Matteo que com András, deixaria correr, despreocupada, gata dengosa  com os seus dois bichanos.

No regresso , András inexplicavelmente deixara o apartamento  sem aviso e levara as suas coisas, na faculdade ou no Karpátia ninguém o vira mais. Telefonou-lhe  durante alguns dias, perguntou por ele, desaparecera sem rasto. Matteo, liberto do rival passou a acompanhá-la mais  assiduamente, acabou mudando para o apartamento, rei morto rei posto. Dois meses passaram, András definitivamente  para trás, talvez em Esztergom junto à mãe, esqueceu-o.

Num primaveril domingo de Junho foram até Visegrád para um  passeio a cavalo , rotina agradável adquirida apesar de nem um ano na Hungria, com Matteo cavalgava agora, cabelo solto ao vento. Findo o passeio, Vanessa deteve-se feliz no miradouro sobre o rio, o Danúbio deslizante entre colinas verdes tranquilo e seguro, sobranceiro ao velho castelo,a paixão profunda que vivia era o azul que sempre almejara, e mais, podia escolher, ganhara liberdade e dimensão.

Matteo fora aos lavabos, demorava já porém, as noites húngaras chegam cedo,havia que regressar, foi procurá-lo. Nos serviços não estava, no picadeiro ninguém mais o havia  visto desde o final do passeio, o castelo medieval estava já fechado a visitas. Contornava já preocupada a vetusta barbacã  quando um vulto ,hirto, um cachecol familiar ,ressaltou no meio do capim: Matteo jazia morto, uma faca de cozinha espetada nas costas. Enfiado na boca um papel branco com a frase “Com os cumprimentos do Karpátia”.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:50

15
Jan 11

Seis meses. Seis parcos meses restavam de vida a Cristóvão Valdágua, cruel sentenciara o dr.Chambel, um linfoma trepando a montanha que conduziria ao desenlace, ingrato e furtivo. Primeiro revoltara-se, pensando em Felícia, os quarenta anos de casamento, os estudos islâmicos e viagens no  mundo árabe, a finitude das coisas. Agora queria ganhar tempo e ser feliz, preparar a partida em paz com ela ao lado.

Uma última viagem a dois seria o selo com que repararia algumas falhas para com a companheira, muitas vezes  deixada só e com os filhos, sobretudo durante as  várias  e longas viagens à Turquia , a tese de que a Arca de Noé nunca baixara em Ararat tinha sido a sua luta dos últimos anos, um documentário no National Geographic. A Tunísia, amena e próxima, mediterrânica, seria o destino do adeus, miscelâneo e tépido.

Felícia, conformada mas com amargura, acedeu, a tangencia da carne terminaria mas a paixão ficaria, um último  álbum de fotos seria tirado.

Em Port El Kantaoui, mar quente e amendoeiras em flor, Algarve de lá, perderam-se em passeios pela areia, tâmaras ao fim da tarde, um cúmplice narguilé na tenda do Youssuf  na noite estrelada do Magreb, com  o  muezzin ao longe chamando para a prece nocturna. Um circuito pelas pedras de Cartago, berço de Cipião e Jughurta que tanto estudara devolveu-o ao seu mundo de civilizações antigas, agora tomadas pelos escorpiões e turistas em busca da foto. Sidi Bou Said e um peixe fresco nessa cidade branca, solarenga e florida, propiciaram a felicidade dos momentos simples, agora avaramente saboreados, Felícia sempre com os medicamentos na bolsa, as olheiras cavadas nele moldando já a máscara do fim. Ao contrário de outras viagens já não tirava notas, em guardanapos de papel escrevinhava  pensamentos que depois rasgava, indignos de imortalidade.

Depois, o grande Sul, aquele deserto agora tão cheio de sentido, também ele ali iniciando uma travessia do deserto a caminho de Lá, fosse lá onde fosse, ateu empedernido descobria-se agora com pensamentos místicos, a provável existência dum outro mundo amenizava as dores do corpo e da alma dilacerada. Uma última vez,o amarelo vivo das dunas, os palmeirais de Tozeur, o branco fantasma do Chott-El-Jerid, o grande lago salgado. E os chás de menta nas covas trogloditas, sempre rodeados dos inefáveis vendedores de quinquilharia, seduzindo, com a graciosidade de mosquitos e com as inevitáveis referências ao clube de futebol ou jogador mais conhecido do momento.

Em Douz, fronteira do Grande Deserto, num jantar berbere enfiaram tradicionais djellabia, ele um tarbush na cabeça, e andaram de camelo,figurantes em remake de filme da legião estrangeira, encenando os cada vez mais raros momentos de felicidade, a ampulheta de areia esvaziando, como toda aquela imensidão seria agora desejável para encher uma nova, acabar os livros, perseguir o tempo desperdiçado Na tenda que lhes servia de hotel, um alaúde dedilhado ao longe, amaram-se como na primeira vez ainda jovens estudantes em Coimbra, Felícia a mais bela, fora ele o sortudo do curso de 67.É fria a noite no deserto, mas ali estava todo o calor do mundo com que se queria aquecer.

Na última etapa, depois da cidade santa de Kairouan, a calmaria de  um  quarto junto ao mar em Jerba, pescadores em frágeis batéis na faina e  turistas ocidentais na placidez do azul marítimo. Cristóvão, já cansado, dispensou as visitas aos souks, quedaram-se pelo hotel, junto ao mar, Felícia e ele, ele e Felícia, mãos dadas em silêncio, o sol laranja dominando o horizonte, quente.

Uma tarde, na varanda, Cristóvão, ofegante mas  rosto sereno, acariciou-lhe o rosto e beijou-a:

-Agradeço  teres aparecido  no meu caminho na hora certa e no lugar certo. Naquele momento, tudo foi tão perfeito. Adorava ficar ao teu lado, sentir o teu abraço, o teu cheiro, teu calor! Fostes o anjo que veio até mim e me  fez esquecer  o sofrimento que  passei na minha vida. Mas agora já não há tempo. . .Foi - se o tempo…

-Cristovão, não digas nada, meu amor. Ninguém vai partir, vais ver…

Ele pôs-lhe um dedo no lábio, cerrando-o, pequeno, e continuou:

-Já não pertencemos um ao outro, tomamos rumos diferentes agora. Quero que continues na estrada que percorremos. Eu na berma, tu ao centro, esplendorosa, a melhor de todas!

Felícia continha uma lágrima, ele acariciava-a,  olhar perdido no mar azul vivo, bafejado pelo suão da tarde.

Fixa no horizonte deixou escapar uma confidência:

-Lembras o dia em que me pediste namoro e eu te disse que tivesses respeito e não fosses atrevido? Foi o dia mais feliz da minha vida, há semanas que secretamente desejava que sucedesse, eu…

A mão de Cristóvão, ainda enlaçada na sua estava agora morna e sem força, ele fixo no horizonte e sorrindo, inerte, o Grande Sul levava-o já, talvez num cavalo alado, uma nuvem de areia uivante soprava dos lados de Monastir. O historiador de assuntos islâmicos encerrava também ele agora o último capítulo do derradeiro livro.


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:50

14
Jan 11

Verão de 1970.Mais um Verão em Colares, a escola acabara e as férias prometiam novas aventuras, enguias no rio, teatros na garagem, a velha Amália, caseira e amiga da família abrira já as portadas para sair a humidade do Inverno.

O Verão chegava previsível para as famílias da capital a banhos e  com toldo alugado ao mês na praia. No café  do Ambrósio voltavam  as habituais tertúlias, enquanto os mais novos deambulavam entre os jogos de matraquilhos ao “perde paga” e as músicas da moda seleccionadas na jukebox que trazia a modernidade possível .

Jorge, filho do Dr.Américo, juntava-se aos amigos de Verão, a Lurdinhas, o Zé Tó, até o António, filho do  Gaitinhas,o jardineiro, se  juntava nesses dias aos filhos dos senhores doutores, jovens e ardentes nas diversões e partidas por entre os pomares e as hortas.

Durante as manhãs, praia, o farnel da velha Amália, sandes e sumos,o panamá para o sol, delícia dos treze anos naquele Portugal a preto e branco e inocente. Á tarde, a traquina apanha dos incautos pardais com visco ou fisga e enguias do rio de Colares, um alguidar a fazer de rede, patos mudos grasnando nas margens.

Certo dia, irrequietos, lembraram-se de fingir que se estavam a afogar no rio, escondidos nas margens gritavam por socorro junto ao canavial, rindo, malandros a pregar o susto do afogamento, a tia Teresa em casa em pânico  a correr logo direita ao rio mais o fiel Gaitinhas que  podava as roseiras, pensando o pior. Chegados ,logo  os traquinas amigos se  mostraram e desfizeram em risadas, haviam caído na peta, a tia a arfar a pedir um copo de água, não ganhara para o susto,  o Gaitinhas, ruborizado, atrás do António com uma cana para o espancar,ele  fugindo quinta abaixo. Claro está que foram cinco dias de castigo, sem ir à praia nem beber groselha, o traseiro vermelho das merecidas palmadas, uma história para rir a bandeiras despregadas nos tempos seguintes.

Vários anos passaram, a sépia virou cor, as televisões   rectangulares  e com vários canais, os toldos ao mês mudaram para Sul, substituídos por surfistas e meninas com telemóveis coloridos. De novo a brisa leve vinda do mar oceano  voltou a soprar sobre a velha casa cheia de mundos já idos e outros ainda por vir, a serra sentinela, o eléctrico dolente e repetível estrada abaixo, união do presente com o passado.

No Verão de 2010, Jorge, agora engenheiro civil , casado e pai, voltava à velha casa da sua adolescência, o Dr.Américo falecera há dez anos, mantiveram a vivenda para o fim de semana, Lisboa ali ao lado. Os filhos, a Tininha e o Marcos ,gostavam ,e, qual herança de pais para filhos, fizeram amizade com o filho do António, o Jaime, aluno no Colégio Militar, orgulho póstumo do velho Gaitinhas, o avô analfabeto que nunca soube o que era ter um filho numa escola  de elites, sinal dos tempos novos, todos alegres nos seus catorze anos de muito computador e mp3, zapping nos canais por cabo.

A várzea permanecia igual, as mesmas casas estilo português suave, burguesas nos seus alpendres e trepadeiras, o mesmo penetrante  cheiro a maresia e pinheiro manso trazido com a brisa da tarde. As brincadeiras eram outras, nem piões nem cavalinhos de pau,agora  computadores portáteis e auriculares, uns passeios de bicicleta até à  Praia Grande  ou ao Angra, a ter com os amigos ou o pai,o  Jorge, cinquenta anos já, casamento tardio, embrenhado no jornal com o seu martini ou saboreando uma sapateira ao fim da tarde com um branco  de Palmela que o Faísca bem conhecia.

Um sábado de Agosto, churrasco em Almoçageme em perspectiva para a noite, aventuraram-se os três amigos num pomar perto do Covão, autêntico safari rural para quem morava em Miraflores,o rio domado serpenteando até á foz, duas ovelhas do velho João pastando sem pressas. Junto à berma, dois sapos, coisa só vista nos filmes, saltitavam numa zona onde bogas cruzavam o riacho, o verdete das águas paradas ao fundo. Tininha, curiosa, aproximou-se, um pé em falso na terra mole e caiu à água, sem pé firme, logo submergindo, não sabia nadar. Jaime lançou-se ao rio, mas  poucos minutos depois  já a pequena estava inanimada e à deriva, enquanto Marcos corria a chamar o pai, que sonolento cortava a relva  no jardim sob o ladrar desafiador do Boris, o fox terrier de estimação.

-Pai,depressa, a Tininha está a afogar-se!Caiu ao rio, não reage!-Marcos corria, assustado, o mp3 caindo na relva desgovernado.

-O quê?De verdade?Deixa-te de brincadeiras,Marcos, que não se brinca com coisas sérias!- repreendeu o pai, sem sobressalto,de súbito lembrado da história com os amigos de quarenta anos antes, os miúdos são todos iguais, pensou, sorrindo e pouco crédulo.

-É verdade!O Jaime até lhe está a fazer respiração boca a boca!

-O quê?Isso é que não, nada de abusos.Onde é que estão esses dois?-reagiu,logo largando a mangueira ainda ligada, o cão  molhado de rasante.

-Venha comigo ali ao Covão, depressa!

No local, Tininha meio zonza e molhada, estava já encostada a um carvalho, a mão de Jaime segurando a dela, de atalaia, salvador do dia.

-Tininha!Estás bem miúda!Por que é que não me disseste o que aconteceu á tua irmã,Marcos, onde estás com a cabeça?!- desorientou-se Jorge, a imagem da tia Teresa e do Gaitinhas sumida, no mesmo local anos antes.

-Mas, pai, acabei de dizer! Ninguém me dá ouvidos, bolas! –refilou,  amuado.

Depois de seca e retemperada, abraçando-a, levou-a para casa ao colo, o Jaime  logo promovido a herói doméstico da Tininha, já recuperada do susto mas recordando o bafo ofegante e fresco dos lábios do amigo, até que valera a pena apesar de tudo, quando a Mónica soubesse...

À noite, no varandim, Jorge dava uma passa no cachimbo e sorrindo recordava a brincadeira, essa sim malandreca, dos velhos amigos de anos atrás, ao longe,os sapos coaxando no riacho sereno.Os anos passaram, mas o rio, silhueta de fertilidade e força continuava  eterno companheiro das  renovadas estações de várias vidas.

Foto:Pedro Macieira, "Rio das Maçãs"

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:35

11
Jan 11

Na barbearia do Quintela três gerações de cabelos e barbas passaram já pela rotineira e ritual cerimónia do corte,  higiene para uns, cuidado com o aspecto para outros, meia hora a olhar para um espelho enquanto a  forma, que não o íntimo, renova o aspecto, um emprego ou namorada a exigir, vaidade, o desejo de ter com quem conversar.

O futebol é fatal, o Correio da Manhã, essencial para dar o mote do estado a que isto chegou ,do que “eles” andam a fazer, enquanto a tesoura laboriosa vai esculpindo o novo corte, tradicional ou irreverente, uma imagem vale mais que mil palavras. Hoje, modernizada a barbearia, uma televisão permite  comentário na hora aos talk shows matinais,quase sempre suspirando por mais uma desgraça, o roubo do multibanco, o abuso de menores, a política ou o golo roubado por aquele “ladrão” do arbitro, comprado pela certa.

Três clientes  logo pelas nove, o velho Saraiva, reformado das finanças, viúvo recente, fanático do Benfica e saudoso de Salazar, o Alcino, dono do Café Lisboa, ainda fã da brilhantina,manequim da R. dos Fanqueiros ,calça de vinco demodê, e um jovem, pela primeira vez, nunca visto por ali, magro, olhos cavados,um brinco na orelha esquerda.

Pela ordem de chegada, primeiro o Saraiva, visita quinzenal, apenas uma coroa a aparar ,a careca dominava já,não precisava lavar.

-Ora então amigo Saraiva, o costume?

-É para ver se elas ainda nos pegam, Quintela-falava, tom elevado,um aparelho auditivo recente,  logo tirando o casaco e sentando, toalha branca a proteger, rotineira.-Então que me diz desta coisa do Carlos Castro?Isto a bichanagem... mas cada um leva onde gosta!.É o que dá as liberdades!.No meu tempo alguma vez isto se passava?...

-Mas ó amigo Saraiva, daí a matar?...,Fosse lá o que fosse nada justifica, Então o gajo afiambra-se ao dinheiro do velho, toda a gente sabia o que ele era e faz-se de anjinho quando é convidado para ir passar o ano com ele?.Deu cabo da vida é o que é,mas olhe, antes a dele que a minha,isto é querer subir a qualquer custo!- argumentou o Quintela, a tesoura dançando entre os dedos, uns poucos cabelos grisalhos caindo no chão.O Alcino ia anuindo com o Quintela, atento á necrologia, o rapaz em silêncio folheava uma Caras já antiga,os olhos no telemóvel a receber mensagens.

-Isto está tudo perdido, senhor Saraiva- interrompeu o Alcino-ainda no outro dia apareceram dois de mãos dadas lá no café e aos beijos isto é de nunca terem ido á tropa, a juventude está perdida!

-Pois, mas o gajo já era velho, e parece que foi ele que aliciou-alvitrou o Quintela.O jovem em silêncio nada dizia,tinha um ar absorto,umas patilhas estilizadas, roupa de marca justa ,ar andrógino, agora é assim, pensou o Quintela.

-Pois eu era uma coça em todos, isto está tudo perdido!- de dedo em riste,rematava o velho Saraiva, falando para o espelho como se de lá estivessem a ouvi-lo,a tesoura quase raspando a orelha.

-O Alcino ainda ironizou:

-Deixe lá, assim sobram mais mulheres livres para a gente, ó Quintela,o que uns não querem estão os outros desejando!-gracejou ajeitando a melena,a D.Rosa da lavandaria no pensamento.

Às tantas o rapaz,impávido e frágil,levantou-se e despediu-se, voz sumida e delicodoce:

-Desculpe, mas não posso esperar, tenho um compromisso ás dez e está demorado!- e saiu,em silêncio,rua acima.

-Quem é este tipo? Nunca o vi por cá!- interessou-se o Alcino,uma lugar ganho entretanto com a desistência.

-Alguém que veio para aqui morar recentemente, se calhar-rematou o Quintela, a escova já limpando os cabelos no casaco do Saraiva, despachado.

-Olhe olhe, ó Quintela, veja lá aqui o Correio da Manhã!-soltou acelerado o Alcino,como quem descobriu um tesouro em gruta, jornal escancarado no balcão junto ao espelho.

Todos precipitados para o jornal delator, na página 46, uma foto de um conhecido cantor do burgo, ao lado, sorridente, mão sobre o ombro, o jovem que acabara de sair, um pouco mais de cabelo, ambos flûte de champanhe na mão. Em título “ Ruben  M, o conhecido cantor  romântico vai casar com  jovem designer de 21 anos”

-Está tudo perdido!-reclamou o Saraiva, meneando a cabeça,logo se precipitando para o Café Lisboa a refrescar-se com um tinto que dum trago emborcou boca abaixo.No talk show da TV no canto,falava-se de mudanças de sexo.


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:13

08
Jan 11

O voo desde Miami tinha sido atribulado, San José da Costa Rica de noite parecia minúscula comparada com a explosão de luz americana, o bafo quente e tropical misturando-se com o calor expelido pelos motores do 737 acabado de aterrar.

Vítor Mascarenhas, fotógrafo free lancer vinha em busca dos quetzal, pássaros multicolores que com a ajuda de uma empresa de birdwatching iria fotografar, um catálogo de fotos de natureza selvagem em preparação. Acabara recentemente com Magda, estagiária num canal de notícias por cabo, que o trocara pelo seu chefe de redacção, e partia para um defeso emocional, a distância daquele país exótico seria o bálsamo  que pássaros emplumados viriam distrair e ajudar a esquecer.

Na companhia do discreto Ramon, ameríndio motorista do velho  yellow cab americano em segunda mão, partiu à conquista do pequeno país sem exército, oásis de paz em mais de sessenta anos ,paraíso da biodiversidade, e na verdade os sons e cheiros da terra dos ticos inebriavam, sempre renovados, mais áridos, de cactos e chaparrais em Guanacaste, no Pacífico, rainforest húmida em Tortuguero, ondas fortes e ventosas em Tamarindo. E por todo o lado as iguanas, como gatos, jurássicas e dolentes, macacos pululando na copa de imensas árvores, o trovejar dos vulcões sempre acordados num dormitar perigoso, revolta da terra, ejaculação de vida.

Foi em La Fortuna que se instalou para a primeira etapa, resort de casas de madeira fronteiras ao cónico El Arenal, vetusto vulcão adornado de fumarolas, à noite sangrando de vermelho quente e furioso, os bungalows tremendo ,o som distante do grito dos símios com o cio chamando as fêmeas na noite profunda.

Na segunda noite, no  bar do resort, depois de um safari fotográfico, já Ramon  saíra a deambular na vila , entre uma cerveja  refrescante e um prato de  tapas picantes, revia as fotos do dia, a seu lado uma mulher, trinta anos, olhos verdes e cabelo escuro, pedia um copo de vinho, chileno de preferência,um livro com marcador  na mão,cujo título não distinguiu. No silêncio da noite  interrompido pela lava incandescente e segura, o  distante ruído do caruncho laborioso na floresta cerrada ali  ao lado, apenas o som das teclas de um grupo de calypso local soava dum velho rádio no bar. Olhando-a de frente, esboçou um brinde levantando a cerveja na sua direcção,tentou um diálogo:

-Buenas noches!Tudo bien?

A mulher olhou-o sem surpresa, como se já o tivesse visto antes e aguardasse um contacto, só estavam sete a oito clientes no resort, era época baixa, Vítor era bem parecido, barba de três dias, a Canon apetrechada denotava não ser apenas mais um turista de pacote.

-Hi!I’m american, Marjorie, from Columbus,Ohio!

Era afinal pintora de naifs, buscava naquele país quintal dos americanos  exotismo e cor para mais uma exposição, sózinha,um marido  professor,mas  num congresso em Fort Lauderdale. Durante duas horas as cervejas e a conversa foram fluindo, o calor soltando as libidos, nos vinte e nove graus das duas da manhã banhavam-se  já despidos na piscina sem luz do resort, o vulcão rugindo vigilante. Acabaram no quarto dela, nada como ser estranho num lugar distante para a aventura que a rotina dos rituais não permite, também isso apreciava naquela vida onde podia ganhar dinheiro divertindo-se.

Sem nada que a detivesse, dois dias depois juntos seguiram viagem com  Ramon, um chalé de montanha em Monteverde, inesperada Suiça tropical entre as brumas do lago Arenal revelava a diversidade desse pequeno país, casa de montanha com uma só via de cabras, um S.Bernardo dormindo no lobby como casa de lenhadores de repente familiar. Aí entre as chuvas quentes e por trilhos enlameados, juntos fotografaram orquídeas e palmas, um ou outro armadillo ou capivara cruzando os refúgios por momentos profanados, colibris de todas as cores beijando flores brancas e verdes, altivo e reinante nos céus e nas copas, o quetzal, rara oportunidade de fotografar, por vezes mais de uma hora para  captar pousado ou em voo.

Nessa noite Marjorie e Vitor fizeram um improvável jantar á luz de velas no restaurante do hotel, um risotto com espargos e vinho da Califórnia precederam mais uma noite de bálsamo, a felicidade dura pouco mas enquanto dura é para ser desfrutada, por baixo do varandim o S.Bernardo perseguindo um tatu furtivo logo escapulindo numa moita.

Os dias iam passando, longos e estupidamente felizes, os últimos  em Tamarindo, praia pujante na costa do Pacífico, passeios a cavalo nas dunas ao sol intenso e purificador culminavam uns dias de retorno ao paraíso, Ramon, cúmplice  e maroto sorria das avançadas dos gringos, despedir-se-iam em S.José, cada um ao seu destino.

Naquele último dia, ele desceu mais cedo para o pequeno-almoço, no varandim, ela tardava a arranjar-se. Voltando ao quarto, vazio,   desaparecera, a bagagem sumida. Perguntou por ela, ninguém a vira, Ramon dormia, alguém chamara um táxi disseram no jardim. Vítor sorriu, pegando na Canon, todas as fotos com ambos haviam sido apagadas, apenas o sopro da brisa na noite cálida dos trópicos e o cheiro a alfazema restavam da aventura tropical. Na mala, perfumado, um bilhete testemunhava não terem sido sonho aqueles dias fabulosos:

“A felicidade é o momento. Este foi o nosso, não há que estragá-lo agora”.

No voo S.José-Madrid, Vítor bebendo um whisky que uma amável hospedeira  serviu, de olhos fechados sorria, revisitando os dias passados,entre as imagens com as recordações de prazer e liberdade, voavam   beijoqueiros  colibris osculando narcisos,um quetzal ainda jovem pavoneava  longas e coloridas penas ao sol.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:40

06
Jan 11

A esperança é a maior e a mais difícil vitória que um homem pode ter sobre a alma

George Bernanos

Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar da famigerada crise, já não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se um dia porventura acabar a sensação de orfandade será  tão grande que se há-de arranjar logo outra se possível pior para pôr à prova o nosso sadismo colectivo.Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que cá vamos estando(aliás, Portugal, país do gerúndio, não se vai ,vai-se andando , é a vida!)

A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados".Já vêm da época dos descobrimentos os velhos do Restelo mas não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª  lingua mais falada em todo o mundo, 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão,devastados por guerras que provocaram milhões de mortos , e destruição em massa,e, contudo,sempre a renascer das cinzas. Temos  sempre a desculpa de achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós,todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país.O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.

Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm as elites e a opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações,desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literariamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se  olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça,(os optimistas chamam-lhes "visionários...) quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles,premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers.Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofágicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é "lá". Já Almada dizia que o  pior de Portugal eram os portugueses, e os visados aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas com "eles".

Faça-se uma experiência: ouça-se um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira,  Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, a equipa do Eixo do Mal ou o inenarrável Mário Crespo, e, se não estiver deprimido e enterrado em whiskies veja qual o contributo positivo deles para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto não viram e se viram não avisaram ( até  presidentes passam a vida a dizer que avisaram, mas que podiam eles fazer, coitados, míseros presidentes da República,calimeros da política, sem poder real...)

As elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo masldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e nisso pouco mudou desde a fuga de D.João VI para o Brasil. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos e apesar daquele autor que escreveu que um país que nasceu com o filho a bater na mãe não pode ir muito longe, somos uma matriz da civilização ocidental, um berço de culturas,(eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendessemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta. Temos  a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Como aquele velho anarquista que dizia:há governo? Sou contra!

Com crise ou sem crise, os povos não acabam,pode é suceder que como nos vírus da gripe, com o tempo transmutarem-se noutros, com novas roupagens e a geração que abriu o século XXI  não vir a sair muito bem na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de estar negro, na rua e nos espiritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte".


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:19

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