por F. Morais Gomes

20
Abr 11

Zé Socas chegava para a Páscoa, Lisboa estava já cheia de espanhóis rezando pelo rating, por supuesto, sendo recebido em apoteose no Rato pelos fiéis, gritando hossanas e tocando a música do Gladiador. Vindo de Bruxelas, à última hora conseguira negociar um PEC 5, que reenviava os burocratas da troika para casa mais cedo. Aborrecido com o percalço, um até já tinha uma mariscada combinada no Guincho com o Bagão Félix.

Ufano, ganhando pontos nas sondagens, convidou os mais chegados para um robalo no Gambrinus, era Semana Santa, convinha não abusar de carne. Contudo, antes de chegar, premonitório predisse que seria traído por um dos seus. Todos se entreolharam, admirados. Ao servir o presunto comentou: "Tomai e comei todos, este saiu-me do corpo", logo após, em sinal de brinde, ergueu o Reguengos e disse: "bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que por vós será emborcado para comemoração dos meus feitos”. À mesa, os doze correligionários celebravam, apenas Teixeira dos Anjos preocupado via a taxa do vinho, 13º, em dez minutos subiria até o juro mais recalcitrante. Falava Socas com Barroso ao telemóvel quando, ruidoso, chegou o Corpo de Intervenção. Mal pousava o telemóvel para ver o que se tratava, logo Teixeira lhe deu um beijo na cara de soslaio, coisa de panila. Surpreendido e sem reacção, olhando ora Teixeira ora os polícias,  foi algemando ante o olhar incrédulo do pessoal do Secretariado. António Vitorino, em bicos de pés bem tentava chegar ao corpulento comandante da força para lhe explicar que cometia um grave erro, aquele era o Primeiro dos Primeiros, Senhor do Rato e Guardião de S. Bento, mas nada, havia ordens expressas. Teixeira, infiltrado combinara a  revelação do local do jantar com Pôncio Cavacus, o Governador de Belém. Em troca iria para embaixador na OCDE, precisava de descanso, nada como Paris, longe da crise e da dívida. “Eis o vosso homem”, apontou Teixeira, com os nervos o sotaque do norte acentuava-se-lhe um pouco. A coisa era séria.

Levado ao Parlamento, reunido de emergência, apesar da Semana Santa, sentado algemado na bancada do governo, vários deputados o cercaram quais chacais. Inquisitorial, Saulo Tortas, com ar sério, abriu o interrogatório:

-Sabemos, Primeiro dos Primeiros que contra nossa vontade negociaste um novo PEC com a Angela Lidl, a valquíria do euro. Quem te mandatou, depois de aqui o termos chumbado, nos idos de Março?

-Sim- rancorosa, Manuela Ferreira Leite, carinhosamente tratada pelos amigos como “a Bruxa Velha” quase lhe enfiava o dedo num olho- eu bem avisei…- e virando-se para Pacheco, o filósofo de serviço, buscou apoio:- avisei, não avisei?….

Socas pasmava com este autêntico golpe de estado. Quisera chamar apoios mas com o fim de semana prolongado  estavam todos no Algarve a discutir os cortes à sombra dum toldo, em Vilamoura. Altivo, manteve-se calado, afinal falar com estes era para ele um frete, um simples telefonema e despacharia a oposição, tonitruante mas inofensiva, já fora assim com o Puto Coelho. Pensava, enganado porém.

Dali, os líderes sublevados levaram-no à presença de Pôncio Cavacus, que se deliciava  em Belém comendo um pedaço de folar. Acusavam-no de trair o país com o PEC5, ainda para mais estando o governo em gestão. Pôncio hesitante ainda pensou enviá-lo de presente a Heródes Alegre, mas este, ouvido ao telefone, devolveu-o a Cavacus. Era de praxe libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Cavacus alinhou Socas e um burlão de nome Oliveira e Costa, o “Robin dos Bosques dos ricos” na escadaria do palácio, e pediu à multidão  que escolhesse qual dos dois deveria ser  libertado. A multidão voltou-se contra Socas e escolheu o velho, pelo sim pelo não podia ser que pagasse as dívidas do BPN- Banco de Pagamentos Nocturnos. Então, Cavacus, lavando as mãos entregou-o, para ser crucificado num interrogatório conduzido por Manuela Moura Guedes e Vasco Pulido Valente, o “bêbedo mais lúcido de Portugal”, segundo alguns.

A crucificação às mãos deles era a forma comum de execução em prime time e aos domingos à noite. A Socas, em fato de treino, enfiaram na cabeça orelhas de burro, ao pescoço, pendurado, um avariado Magalhães azul e branco. A seguir, forçaram-no a carregar até aos estúdios e a pé, três caixotes com o projecto do TGV, aí a megera Manuela esfregando as mãos o esperaria no estúdio 1.

Lá chegado, bastante combalido, sentaram-no numa cadeira, e cruéis, negaram-lhe o teleponto e o bom servo Luís. Acesas as luzes, grande plano da presa, Manuela atacou:

-Diz-me, tu a quem chamavam Primeiro dos Primeiros, são ou não verdadeiras todas as acusações que te faço: é verdadeiro o negócio do Freeport? e o cheque do Figo? e o curso ao domingo? e a derrota do Sporting? e aquela vez que o José Eduardo falhou  na cama comigo alegando cansaço? Não vale a pena negar, eu e os espectadores sabemos tudo- os lábios, carnudos, pareciam jorrar sangue, Marcelo, a um canto assistia deleitado, lendo quatro livros de cada vez. Já o pior parecia ter passado, sempre o mandando calar antes que pudesse responder, quando cruel, nova tortura estava preparada: Louçã, sepulcral, de  túnica negra e gadanha na mão, avançava com a sentença do público, votada a 60 cêntimos mais IVA: como castigo por negociar novo PEC sem autorização parlamentar, a demissão, e o exílio no Poceirão, precário e a recibo verde, trabalhando nas obras de reposição da mata já cortada para o agora adiado aeroporto.

Antes de o levarem, levantou os olhos ao Céu e suspirou:

-Angela, Angela, porque me abandonaste!

O Novo Primeiro dos Primeiros, empossado no Domingo de Páscoa foi o finlandês Soini, que depois de apear  as fotos de Socas pôs o país a arenque e instituiu a semana de 166 horas, só duas de descanso para uma pequena sauna. Os do Parlamento e Cavacus ainda reclamaram mas tardava já, Medina Carreira, novo ministro da Salvação Nacional ordenara o fecho do hemiciclo e a abertura em S. Bento de um call-center para atendimento de queixas contra os políticos. Saulo Tortas, indignado, comentou com a Bruxa Velha:

-Acho que errámos nas contas, Manuela. Queríamos amêndoas na Páscoa e saiu-nos  amêndoa amarga….


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:06

Hoje em vez da habitual história, uma pausa para falar da causa do restauro do chalé da Condessa, quase concluído e que a Alagamares vem acompanhando e defendendo há mais de 5 anos. Para tanto sugeria a leitura dos textos sobre a luta cívica pelo restauro que cidadãos de Sintra promoveram (links abaixo), e a visualização de 2 pequenos filmes, um  sobre a recuperação dos jardins envolventes, e outro, de Pedro Macieira, sobre uma das várias visitas de sensibilização promovidas. No final, um poema de Maria Almira Medina escrito para essa visita e por si lido no local. Quando o Verbo se harmoniza com a Verba as coisas nascem e avançam.5 anos de persistência, que contudo, não acaba aqui, mas encerra uma primeira e importante etapa.

Textos em:

 

http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/noticias/561-chale-da-condessa-a-fenix-renasceu

 

http://www.alagamares.net/documentos/item/downloads/dossier-chalet-da-condessa-por-fernando-morais-gomes

 

 

 

 

 

 

Poema de Maria Almira Medina-  Chalé da Condessa, 2 de Março de 2008

 

Pés vegetais descobriram caminhos

longitudinais

Logo troncos asrbóreos verticalizaram  os sonhos

                                     de navegação em verde

na busca de muitas outras índias mais

Depois

os fetos

tais desenhos de mãos e dedos

a acariciar dolentes os penedos

linguajaram falas alegrias mágoas

num diálogo poliglota banhado de águas

Então as flores da cameleira rebentaram

em notas musicais

o pitósporo odorizou a primavera inteira

o junípero a tília a magnólia e o

eucalipto "obliqua" marcaram uma etapa de amor

uma chegada

 

 

 

 

o farol da viagem era a casa

com seus olhos de lume e boca incendiada

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:01

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