por F. Morais Gomes

29
Abr 11

A cerca ficara mal vedada, bem lhe parecera que a rede estava periclitante, o Seca-Adegas, com a pressa dum tinto no Miranda despachara o assunto em três tempos. Antevia já problemas com o Acúrcio, há mais de vinte anos que as famílias não se falavam por causa dum cavalo, vinha borrasca dali, pela certa.

Na quinta, Virgílio cultivava hortaliças e criação, tudo vendido na praça ao fim de semana e na Malveira à quinta, com os filhos criados, para ele e para a Micas chegava. Pior era a vizinhança. Com o Acúrcio era impossível falar, certa vez por causa dum marco quase se mataram com uma forquilha, não fosse o Zé de Fontanelas e a coisa teria metido sangue. Saloio que se preze é cioso do seu cantinho, e nisso eram muito parecidos, daí as quezílias e os ódios que lhes infernizavam a vida e a das famílias. Café onde fosse um, o outro não entrava, e se um comprava um porco na Malveira o outro tinha de comprar dois, tudo devidamente relatado na tasca do Miranda.

Ambos tinham gado, para consumo dos seus e para venda, criava umas vaquitas, a carne para o Júlio do talho, o leite ele mesmo vendia, mais os queijos que a Micas fazia. Com o Ernesto formado e a viver em Lisboa, para eles bastava. Sem vícios, que a diabetes não perdoava, pachorrento levava os dias da feira para casa e da casa para o Miranda.

A rede da cerca ficara efectivamente solta, quando apanhasse o Seca-Adegas lhe daria a coça. E para mal dos pecados, das cinco vacas, faltava uma, bem a viu na propriedade do Acúrcio, já misturada com as dele. A contra gosto, chamou-o, o ódio era de muitos anos, a reclamar a propriedade:

- Ouve lá, não te chegam as tuas, também tens de pilhar as vacas dos outros, minha anta? Passa para cá a minha vaca, ou tenho de ir buscar a Flaubert?

O Acúrcio, já vermelho só de o ver, veio do celeiro, de mão na anca, a barafustar com o Virgílio:

-O que queres, unhas de fome? Mete-te na tua vida e deixa os outros em paz.Ou queres que te parta a cara….

-Passa mas é para cá a minha vaca, e enquanto estou calmo, se não…

-Qual vaca? Estás mas é doido, as vacas que ali estão são todas minhas, vai mas é apanhar bonés!

Furibundos, já quase em vias de facto, chegou o Ernesto, filho do Virgílio, a pedir calma. Mais ponderado, achando aquelas guerras absurdas, sem desapoiar o pai, chamou-o à parte, para se ver a melhor maneira de recuperar a “Mimosa”:

-Isto com violência não vai lá, pai, depois ainda perde a razão. O melhor é falar com um advogado e arranjarmos maneira de recuperar a vaca.

Rosnando, a caminho do Miranda, onde o Seca Adegas jurava a pés juntos, já sem poder fazer um quatro, que a rede ficara bem posta, lá anuiu, no dia seguinte procuraria o dr. Anselmo, em Sintra, era advogado dos antigos, conceituado, ganhara uma causa ao Domingos por causa dumas partilhas. Iria sozinho, mas a vaca tinha de voltar, a bem ou a mal.

No dia seguinte, pela manhã, lá apareceu no escritório, na Portela de Sintra, o doutor Anselmo, com mais de quarenta anos de tribunal e um escritório de bilros, clássico,tinha  com ele um estagiário, o Afonso, licenciado meses antes e dedicado aos processos, rapaz diligente.

Virgílio lá expôs a situação: a vaca era dele, toda a gente em Bolembre podia atestar, tinha uma mancha preta entre os olhos, e todos sabiam que o Acúrcio só tinha três. O dr. Anselmo, dando umas passas no cachimbo, ouvia, matutando, Afonso tirava notas. No fim lá sossegou o Virgílio:

-Ó homem, isso nem tem discussão. Com as testemunhas e o recibo da compra, não tem de saber. A vaca é sua!

Mais descansado, lá saiu a contar ao Ernesto, o sacripanta do Acúrcio havia de ver, ainda havia de pagar uma indemnização e ser  levado preso, por roubo. Descansado,até pagou uma rodada no Miranda à chegada de Sintra.

No dia seguinte, no escritório do dr. Anselmo, outro cliente marcara consulta. O Acúrcio, aconselhado pelo compadre a ir àquele advogado, queria saber dos direitos sobre a vaca, o tribuno ouvia, dando uma baforada:

-Pois é como lhe digo doutor, apareceu-me uma vaca no meu terreno, não tem identificação do veterinário, que é obrigatório, o meu vizinho anda a dizer que ele é que é o dono, o que é que o doutor acha?

-Não se preocupe, senhor Acúrcio- o dr. Anselmo, seguro do Direito e da razão, sossegava o cliente- sendo assim como diz, isso nem tem dúvidas: a vaca é sua!

-Tirou-me um peso de cima, doutor! Deixe estar que eu sou de boas contas….

-Não se preocupe, não se preocupe…- o advogado acompanhava-o  à porta, contas era com a Cecília lá fora. Voltando ao cadeirão, Afonso, que igualmente assistira à conversa, coçava a cabeça, intrigado, era a mesma história da véspera, do cliente de Bolembre:

-Ó doutor Anselmo, o senhor ontem disse àquele cliente, o sr. Virgílio, que a vaca era dele, hoje diz a este senhor que a mesma vaca é dele. De quem é a vaca, afinal?

Sorrindo, matreiro, o velho causídico deu duas palmadinhas nas costas do colega, ainda verde e ingénuo, e rematou, sacudindo o cachimbo no cinzeiro:

-Oh meu rapaz,mas tu não vês que a vaca é nossa?..


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:25

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme tendo por tema a  Gafaria de S.Pedro, a mal conhecida  leprosaria no Arrabalde.Lázaros escorraçados  e errantes ali encontraram refúgio até ao sec XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o assunto era fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning,lendo nas sombras e silêncios dessas fitas grandes semelhanças com as angustias do mundo actual.

Da pesquisa que fez para o filme, chamou-lhe a atenção a história de Mabília, uma leprosa que morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de bruxaria, que usava para   seduzir os homens e depois os roubar e matar. Morrera no maior sofrimento, jurando vingança.

Falando com pessoas mais velhas de S.Pedro,André verificou que apesar do tempo passado a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo inclusive  quem jurasse ter assistido a missas negras nos Capuchos  comandadas por Mabília, enquanto velas acesas rodeavam galinhas oferecidas em sacrifício.

Por essa altura alguns casos ocorreram,porém,denunciadores de anormalidade numa terra bucólica e pacata, surgindo notícias nos tablóides relatando o desaparecimento de pessoas que não deixavam pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março de 2008, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda cujo ultimo avistamento fora perto da Mourisca pouco depois de encerrar. Vozes  delirantes, dos que visionavam filmes perturbantes de Sintra no You Tube associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido,se bem que emprestando um ar trocista aos comentários.

Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e com a adrenalina do perigo decidiu investigar  por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo,nada descobrira. As pessoas não voltaram a ser vistas e a GNR pensava em arrumar o assunto, para eles a dispensar grandes investigações. Até nem eram pessoas da terra, comentavam, se calhar tinham sumido zangados com  familiares. Importante eram os gangues da linha de Sintra, e fechar os bares a horas por causa das inevitáveis reclamações de sábado à noite.

Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior e assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo de serviço que o acompanhasse com algumas praças a S. Pedro, tinha a certeza de haver descoberto algo aterrador,tendo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta em frente da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar boçal dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se alguém ali tivesse estado recentemente. Perturbadoramente, restos de uma mão  putrefacta começaram a aparecer.

Face à macabra descoberta, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando, possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como  presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos a tempos  se tinha de saciar.O corpo era de um dos desaparecidos, e alienado, André o havia morto, tal como os outros,embora nada recordasse.

Arrancou a camisa e desatou a gritar,possesso, qual marioneta desalmada e impotente capturada por um dono invasivo de quem se queria apartar. Dos seus olhos emanava o olhar de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer saber sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído,e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando  André como títere do seu plano predador.

André recupera lentamente numa casa de repouso em Mértola, absorto,com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda pode ser avistada junto ao Ramalhão, no Túmulo dos Dois Irmãos, esperando infelizes presas em noites de lua cheia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:12

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