por F. Morais Gomes

10
Abr 11

M. de Tréville tinha nova viagem para D’Artagnan e companheiros. Desta feita, acertado com o Cardeal, uma missão secreta para lá dos Pirinéus. A Richelieu chegara a notícia que estaria em curso a tentativa de assassínio do Duque de Bragança, em Portugal. Em ebulição política, a par da Catalunha, o Portugal ocupado via no descendente dos Avis uma esperança para a restauração do trono, dominado por Filipe IV, inimigo da França. Como dizia o Cardeal, os inimigos da Espanha, nossos amigos são, dessa forma havia que proteger o putativo pretendente e acarinhar a revolta. Conspirava-se em Lisboa e a França apoiava.

-Messieurs, La France a une mission pour vous, a Lisbonne- M. de Treville, com voz grave e contorcendo o bigode, juntava os fiéis mosqueteiros para nova e delicada tarefa, Porthos, animado, esfregava as mãos ansiando por alguma acção, cansado dos botequins de Paris e de perder ao jogo com Aramis. Treville, depois de uma pausa, sacou de uma carta de Duprés, espião da França em Portugal:

-Chegou-nos ao conhecimento que a vice rainha de Portugal, a Duquesa de Mântua, oferecerá  uma recepção a assinalar o aniversário do rei de Espanha, dia oito de Abril em Sintra, uma vila a trinta quilómetros de Lisboa. O duque estará presente, bem como nobres ligados à conspiração, Antão de Almada e Pinto Ribeiro, são de nossa confiança. Duprés relata contudo que o secretário da Duquesa, Miguel de Vasconcelos tem montada uma emboscada ao duque, no caminho para a recepção, de modo a enfraquecer a pretensão dos conjurados. É do interesse da França travar essa armadilha. O Cardeal, apesar de ainda estar aborrecido convosco reconhece contudo que sereis os melhores para lidar com a situação, e dá-vos carta branca para agir. É preciso sobretudo discrição. Partem amanhã, de La Rochelle em navio com destino au Portugal.

Entusiasmados com a missão, os quatro amigos correram a comemorar com Planchard e Bazin na Taverne d’Auverne, em Saint Dennis. Athos receava os mosquitos, diziam haver muitos no Sul, contudo, alegres lá se prepararam para o desafio, bem longe de Paris.

-Amigos, um por todos e todos por um!-  clamou D’Artagnan, logo todos repetindo em uníssono, a espada desembainhada numa mão e malgas de Bordéus na outra.

Dias mais tarde chegavam a Lisboa, sem uniforme de mosqueteiro, alegadamente viajantes da Bretanha em busca de produtos orientais, mais baratos que em Gand ou Antuérpia. Discretos, alojaram-se junto ao Paço, numa estalagem do Cais de Sodré. Lisboa trepidava de comércio, sobranceiros espanhóis patrulhavam a cidade em nome do rei de Espanha, sentia-se mau estar no ar, agentes do duque de Olivares achavam preparar-se algo para os finais desse ano de 1640, explicava Duprés, o contacto na cidade. Junto ao Hospital de Todos os Santos populares haviam sido presos por darem vivas ao Manuelinho, um rebelde que em Évora tentara organizar um levantamento contra Espanha.

A recepção seria dia oito, o duque viria pela manhã, saindo de Vila Viçosa. As recepções dos espanhóis aborreciam-no mas não poderia  recusar de forma ostensiva. De Lisboa partiria para Sintra, a recepção seria às seis, seguida de jantar, um grupo da Andaluzia actuaria depois. Pelas informações de Duprés, a emboscada seria numa charneca nas imediações dum sítio chamado S. Pedro, antes da estrada que conduzia ao Paço. Tropas de Olivares patrulhavam o percurso desde Lisboa, havia que ser discreto. Aí pretensos salteadores, de facto a mando de Miguel de Vasconcelos atacariam a comitiva e assassinariam o duque, simulando um banal assalto, por esses tempos frequente nas estradas de Sintra.

A cavalo e com mosquetes disfarçados em bornais dirigiram-se ao local. Eram quatro horas,  detendo-se num sítio chamado Ramalhão escolheram posições, Aramis, melancólico, absorvia o  odor a pinheiro manso, seduzido pela  fragrância  dos pinheiros. Pelas cinco, encapuzados aí  largados  por cavaleiros que se exprimia  em espanhol ocuparam posições atrás de moitas, sem que os mosqueteiros  se deixassem ver. À cautela, Duprés ficara a meia légua, guardando os cavalos e protegendo a retaguarda.

O restolho das rodas cadenciado pelos cascos dos cavalos na folhagem anunciava a aproximação da carruagem, o estandarte dos Braganças estampado na porta não deixava dúvidas, D. João, meio absorto e olhando a serra chegava para a inevitável recepção. Poucos metros faltavam para chegar perto dos embuçados, já estes desembainhavam as espadas, um deles, facínora, empunhava uma adaga afiada. De surpresa Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan  saltaram-lhes ao caminho, envolvendo-se em luta corpo a corpo. Porthos, cerrando os dentes, delirava, em poucos minutos dois ficaram-lhe nas mãos, Aramis e os outros logo neutralizaram os demais, surpresos pela inesperada armadilha, só um logrou fugir, ferido e chamando pela Virgem Macarena. Espreitando pelo postigo, sobressaltado, o duque de Bragança quis saber o que sucedia. Respeitosos, os mosqueteiros apresentaram-se, saudando-o e explicando o ardil. D. João, percebendo o sucedido , agradeceu, mais tarde  com tempo gostaria de os receber.

Em Sintra, Miguel de Vasconcelos sorria. A recepção estava  a começar, ensaiava a cara de consternação que disfarçaria quando soldados chegassem a comunicar a morte do Duque. No pátio árabe, Margarida de Sabóia, Duquesa de Mântua recebia os convidados, Grandes de Espanha, patentes militares, uns poucos portugueses coniventes com os negócios ibéricos, há seis anos que era  vice-rainha. Para espanto de Vasconcelos, incrédulo, chegou a comitiva do Duque, incólume e  efusivamente saudado, para irritação dos espanhóis. A tramóia falhara. Cínico, com uma ligeira vénia recebeu o duque nas escadas do Paço. A recepção continuou, por esta vez, espanhóis e bajuladores portugueses falhavam.

Dias mais tarde, em Vila Viçosa, D. João recebeu os franceses para lhes agradecer, obsequiando-os com uma caçada de lebres e rolas, a que se seguiu farto almoço, o melhor momento para Porthos, tão amante do garfo quanto da espada. Após uns dias de repouso, partiram. Já a cavalo, na estrada para Espanha, D’Artagnan desembainhou a espada, elevando-a no ar e desafiou:

-Um por todos!

-E todos por um!- em uníssono repetiram os quatro, o cálido sol do Alentejo brilhava, aquecendo os vetustos sobreiros.

 Três meses mais tarde, nesse reino sessenta anos vexado, o agora duque retomaria a linhagem de Afonso e aclamado em Lisboa, vitorioso se sentaria no trono. No Largo de S. Domingos,  o biltre Miguel de Vasconcelos, uma vez mais surpreendido, haveria de cair das nuvens…


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:29

09
Abr 11

Dois gigantes se contrapunham, Mediterrâneo e Atlântico, por fronteira as Colunas de Hércules, rochosa ponte entre mundos. Passado o sereno mar entre montanhas cavado, aí estava o Atlântico a perder de vista, maior que o mediterrânico lago onde como rãs homens viviam em volta dum calmo charco. Do lado de lá as afortunadas ilhas, e o  Mare Nostrum, na fronteira de Finisterra, entre o Promontório Sacro e  o Mare Gallicum.

Destruída Tróia e sua acrópole, Ulisses errante viu cidades novas, costumes de mil homens, no mar padeceu tormentos, no interminável regresso a Ítaca, cativa de cruéis Mnesteres ciosos dos favores da leal Penélope. Sete anos cativo de Calypso, libertado por Hermes e Atena, após partir para Esquéria, lar dos faécios, aí permaneceu, hábil em jogos, atento ouvinte de Demódoco e seus poemas.

 Uma vez mais sulcando o mar, após incursão em terras dos cicones, desviado por tempestades e capturado pelo ciclope, de  Polifemo só escapou após cegá-lo com o favor dos deuses. Éolo, senhor dos ares, protector lhe deu então um saco de  ventos que  bonançosos o levariam de regresso à Pátria. Mas a ganância de seus homens, abrindo de modo incauto o saco em busca de ouro os ventos deixou escapar, deixando-os perdidos à deriva. De novo bafejado por  Éolo, Ulisses  entrou no desconhecido Tejo, a conselho de Atena aí construindo muralha e a ela erguendo templo. Postos os trabalhos de Tróia, atraído para as escarpas da Roca-Mãe, onde Prometeu vigiava, ei-lo chegado à terra que Proteu a Menelau descrevera como Elýsion, nos confins da Terra, onde o ruivo Radamante reinaria e os humanos viviam felizes, livres do frio e da chuva, e Éolo soprava a brisa do Zéfiro.

Desembarcando no Tejo, enfrentou surpreso o desconfiado rei Górgoris, criador de abelhas, senhor de férteis pomares. Logo apaixonado por Calíope, sua filha, de furtivos amores lhes nasceu um filho que, enfurecido, o despeitado e manco avô mandou jogar ao rio para que o oceano o levasse. Desolado, em vão Ulisses o buscou, varrendo charnecas e campos, tágides prestimosas auxiliando na busca. Zeus, no Monte da Lua, cozinhava o destino dos frágeis humanos.

Sem voltar a ver o filho, Ulisses partiu, amargurado, reentrando as Colunas de Hércules, de novo sulcando o Egeu. Como distante ia o dia em que liberta Tróia infindável odisseia encetara em atribulado regresso a casa.A saudade corroía-o já, assaltado pelos mortos em sonhos à noite. Agaménon, Ajax, Aquiles, como longe estavam ainda Penélope e Telémaco, suplício era seu fado, como o de Tântalo sedento.

Passada a terra das Sereias, afrontou o monstruoso Cila, o redemoinho Caribde, e acostou em Trinácia, onde  ignorando avisos de Circe  os seus homens abateram o gado de Hélio, deus-sol. Por tal afronta, morreram afogados, excepto Ulisses, que exausto de novo reencontrou Calypso. Só então chega a Ítaca, e enfim se reúne a Penélope e  Laertes, velho pai, pródigo  marido  e filho, em muitas provações testado.

Aplacados os deuses, derrotados os demónios, Ulisses de novo reinou entre os seus. À noite, contudo, a imagem do filho perdido no Tejo assaltava-o, lembrando a terra do manco Górgoris bafejada pela Serra Lunar. Talvez Polifemo o mandasse matar, ou Circe o houvesse transformado em porco, cruel vingança de quem nada pudera contra o favorito de Atena.

Lá longe, na terra atlântica, protectores deuses haviam contudo feito o seu trabalho. Partido Ulisses de coração dilacerado, a cesta com o  corpo desse rejeitado filho três dias flutuou, arrastada  pela corrente e levado para junto da Roca. Perigando no ululante Alvidar, pela graça de Éolos a cesta de vida acabou arrastada  para um arborizado local, onde brotavam maçãs de quatro palmos e frutos suculentos, povoado por ninfas e nereidas, dríades e sátiros que livres viviam nas florestas, nos bosques e nos mares. Também fúrias habitavam o submundo, nas grutas da Roca e nos rios onde as maçãs boiavam. Hades bem rondara a cesta com a semente de Ulisses, mas atentos,  Atena e Dionísio manobravam com invisível mão.

Naqueles começos do Mundo, em que Prometeu roubou o fogo e Tântalo a Zeus tirou o néctar e ambrósia, o trágico corifeu carpia dramático fim ao atlante filho de Ulisses. Mas à ordem de Zeus, a corrente arrastou a cesta para local seguro onde uma  elegante corça a recolheu.

Entre faunos e ninfas, vinte anos aí viveu, na protecção da Serra Lunar. Passado esse tempo, tornara-se pujante guardião do rio, das milagrosas maçãs recebendo o segredo do Conhecimento e a graça de falar com os deuses, atentos no Olimpo. Levado à presença de Górgoris, já velho e moribundo rei do Tejo, uma chorosa Calíope identificou o filho por um sinal de nascença. Arrependido, Górgoris acolheu o neto e o fez herdeiro do reino, o maior a sul de Finisterra, farol das  ilhas atlantes. Sem nome, ao filho de Ulisses de vez descansando em Ítaca, um lhe foi dado por Atena, deusa da sabedoria: Portugal.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:18

08
Abr 11

O novo hóspede olhou pela janela do salão e terminou o cherry, na cozinha Jane Lawrence ultimava o pato assado que Hobhouse encomendara. Este, saboreando um Porto com Turner, achando o forasteiro abúlico   abordou o taciturno inglês:

-Algum problema, cavalheiro? Parece preocupado…permita que me apresente: John Cam Hobhouse, de Durham. Este é o meu amigo, o reverendo Turner. Está em Sintra a negócios?

O recém-chegado virou a cara, rugosa e envelhecida, coberta por longos cabelos ruços e suspirou.

-Sou William Galagher, de Bristol, prazer.

 Bebendo mais um cherry, sentou-se, disposto a desabafar, parecia cansado, desejando falar, como se um peso o sufocasse:

-Senhores, vou contar-vos uma história muito triste, preciso de a contar. Há seis meses, em Portsmouth, morreu tísico meu único filho. Desesperado e já viúvo há dois anos, uma noite, vai para dois meses, saltei de uma falésia para o mar, cansado desta vida. Pensava descansar já entre os mortos quando recobrados os sentidos me vi num escaler de marinheiros que remavam em direcção a um barco. Abeirando-se de mim, a boiar e sem sentidos, levaram-me para bordo e trouxeram-me para Portugal, o navio vinha para este reino em socorro do general Wellesley, o comandante, apiedado do meu caso, recebeu-me como amigo.

Detendo-se um pouco, William olhou o mar ao fundo e continuou:

-Agora, enchei os copos, senhores: o que vos vou contar é negro como negras são as trevas do Inferno - o ar grave deixou Turner e Hobhouse intrigados, até Miss Jane assomava ao corredor interessada na narração.

 Lord Byron, que com Hobhouse e Turner estava alojado no Lawrence, chegou dum passeio entretanto, o conterrâneopareceu-lhe perturbado. Juntando-se-lhes no salão pediu chá e scones que Jane diligentemente providenciou. Continuando, William adensava o mistério:

-Uma madrugada, já perto das costas portuguesas, avistámos um navio de Bonaparte. O barco que seguia em rumo oposto ao nosso virou o flanco e uma nuvem de balas veio cair junto a nós. Os navios ficaram lado a lado, os franceses estremeceram mas demos-lhe caça. Atracaram-se os dois navios para a luta e o combate foi sangrento, o chão do navio escorregava de tanto sangue. Alguns minutos depois o barco deles voou pelos ares. Foi uma cena pavorosa ver as chamas, o estrondo da pólvora, o reverberar do fogo nas águas, homens arrojados ao ar caindo no oceano. Uns meio queimados atiravam-se à água, outros, esfolados, nadavam com dores horríveis e morriam gritando maldições. Enquanto o comandante e os homens se batiam como bravos, fiquei na minha camarata. Porém, e apesar do sucesso com as armas, horas depois o navio encalhou num banco de areia e afundou-se sem apelo, metendo água por todos os flancos.

Byron interrompeu o relato, lembrava agora o naufrágio semanas antes do HMS Victória. Não houvera sobreviventes, dele falara emocionada a imprensa inglesa, antes da sua partida para Lisboa.

-Homem, você deve ser o único que sobrou vivo desse desastre. Segundo sei, terão morrido todos!

A dona do Lawrence e os outros dois pasmavam, William mostrou surpresa pela notícia na imprensa mas não deu sinais de alterar a postura, antes bebeu um pouco mais de cherry:

-Que horror, milord! Jesus, Mary, how did you save yourself?- replicou Jane, levando as mãos à cara, a irlandesa, há dez anos em Sintra, nunca tivera um hóspede tão castigado pelo destino.

-Creio que devemos deixar este cavalheiro explicar melhor a sua história. Go on, mr. Galagher! -Byron colocava um ar irónico, o colorido folhetim barato tão ao gosto de poetas do Lake District ajudaria a dar emoção à visita a Sintra. O inglês continuou:

-Depois foi horrível. Naufragado o barco, sobrámos cinco numa jangada no meio do mar. Cada vaga que varria as tábuas descosidas arrastava um homem. Quando a aurora veio, restávamos só três: eu, o comandante e um grumete. Durante alguns dias comemos bolachas com sabor a mar. Depois tudo o que há de mais horrível se passou: não havia que comer, as entranhas tinham fome. Isso tudo, senhores, para falar-vos de algo muito simples, da lei do naufrágio: a sobrevivência…

O grupo estava boquiaberto, Byron mal esperava para ouvir o desenlace, entretendo-se com os scones de Miss Jane.

-Uma semana depois de acabados os alimentos, restava eu e o comandante, macilentos e enjoados do balançar das ondas. Mandam as leis do mar que a morte de um seja a vida de todos. Tirámos á sorte a ver quem ficaria, coube ao comandante morrer.

-Que horror, é completamente perturbador! - John Hobhouse nem uma raposa conseguira matar na batida de Lord Grasmere, a ideia de  churrasco humano, ainda para mais compatriota, apavorava-o.

-O comandante ajoelhou-se, chorou, gemeu a meus pés. Mas eu tinha as entranhas em fogo. Morrer naquele dia ou depois... tudo me era indiferente, tinha fome. O velho lembrou-me que me acolhera a bordo por piedade, mas era eu ou ele. Transtornados, lutámos corpo a corpo por um mísero dia de vida!

A face de William estava agora transfigurada, recordando a cena, lobo esfaimado em alcateia flutuante.

-Caiu, pus-lhe o pé na garganta, sufoquei-o e de imediato morreu ...-aqui fez-se um silêncio na sala, só quebrado lá fora pela algazarra dos burros levando visitantes à Pena.

-Não cubrais o rosto com as mãos, faríeis o mesmo... O cadáver foi o meu alimento dois dias. As aves baixaram para reclamar a sua parte, os meus lábios secos e estalados apenas expeliam sangue, como fera ao abocanhar a presa. O mar rodava em torno de mim, como um sorvedouro pronto para me engolir. Nessa noite, uma sorrateira onda arrebatou-me o cadáver seminu, sumindo e boiando a distanciar-se, depois não o distingui mais, a minha sobrevivência perdia-se ali também. Entrei em delírio, quando acordei estava a bordo de um navio português.

Terminado o relato, o grupo hesitava entre o horror e o espanto, impressionados, já sem fome e em silêncio recolheram aos quartos. O suculento assado de Jane Lawrence parecia de repente herético e escandaloso, apesar do apetitoso cheiro vindo do forno da cozinha.

No dia seguinte William Galagher não apareceu no almoço da manhã. Miss Jane tocou à porta, como não respondesse, chamou Silvério, o cocheiro, que forçando a porta com um pé de cabra constatou ter o hóspede sumido, os poucos pertences em desalinho.

Na estrada da Pena, um alarido de mulheres após gritos estridentes denunciava um alvoroço inusitado perto dos Pisões. Byron e Turner, já à  mesa largaram a compota de laranja e acorreram curiosos a ver que banzé perturbava o harmonioso silêncio de Sintra.

Pendurado numa corda, na Sobreira dos Fetos, o corpo de William ondulava ao vento, atormentado predador do seu benfeitor. Duas vezes resgatado da morte, era tempo agora do encontro com ela e enfim descansar em paz.


publicado por Fernando Morais Gomes às 17:58

07
Abr 11

Chove lá fora. Maldita serra, toda a noite tossi, goteja no cómodo. Tal o fim do herdeiro dos Braganças, enjaulado em enxerga insalubre e húmida, tolhido de sua acção. Pedro levou de vencida, infame néscio e aleivoso, está por certo na real alcova com Maria Francisca, a rameira, bem sabe ela que com seu rei nunca quis fornicar pois  donzela não casara e  logo  revelada seria tal adúltera desonra.

Louriçal trouxe-me uma tisana.Detesto tisanas, querem prostrar-me neste desterro.Os Açores aumentaram-me as febres,os pulmões, purulentos quebram-me o ânimo. Abomino estas paredes, põe-me doido. Ontem a carne tinha um sabor estranho, veneno por certo, torcem pela minha perdição, estorvo para o biltre que se senta no trono. Ah, como me fazem falta Joana e Catarina. Pobre Catarina, tão só em Inglaterra com Charles, tão desprovido de carácter e nobreza, nenhuma alcova em Londres lhe deve ter escapado, só a de Catarina permanece fria e triste.

A mãe nunca me entendeu, piedosa senhora, sempre chorosa por Teodósio e Joana. Nunca me escutou os prantos quando a febre me tolheu o corpo e deixou só, tremendo e à mercê, Pedro, só ele, nas graças do Paço, e do rei e dos validos, a sombra de Pedro sempre. Ontem ouvi o chefe dos guardas dizendo que viera caçar veados na serra.

Estou à beira dos quarenta, incham-me os olhos, desespero pelo dia em que serei chamado à presença do Altíssimo, rei sem reino, marido sem mulher.

Vivo entre sombras, escuras como as estreitas ladeiras de Sintra. Como fiquei tolhido o dia em que fui aclamado e Sousa Macedo desdenhou de mim e exaltou meu pai para me humilhar. E Francisco de Faro, bajulador sinuoso, captando o favor da mãe e intrigando com Cantanhede. Onde estarão agora?

Em cárcere toda a vida vivi, prestes me tolheram sempre o andar, já quando ainda infante da janela  via os filhos dos criados divertindo-se no Paço e sem dó me impeliam para a Gramática e o altar. Mateus, o filho do cocheiro, que saudade das  furtivas correrias em Alfama atirando pedras a tratantes e almocreves. Sempre o quis, como era viril o seu sexo, o meu real só no título, avaro em tamanho, como seria Deus deixava a sua obra inacabada. E António, meu bom António, o único amigo que tive, onde estará ele agora? Desespero de desejo do seu cabelo louro, seus ombros fortes, o calor do seu corpo cheirando a estábulo, Conti, dotado príncipe dos bordéis.Até ele me tiraram dos corredores do Paço onde único confidente o adoptei. Recordará ainda aquela Maria Parda da Rua do Tijolo, entalado em cujos seios se ia finando asfixiado, de grandes que eram? Ou a sova que mandei dar no juiz dos órfãos por não me ter reconhecido embuçado certa noite em Alcântara, e ameaçar com a guarda municipal? Pudesse voltar atrás e a meus amigos sem estirpe teria feito condes e duques, fiéis que eram,e às mulheres da vida marquesas cortesãs, que as outras o não são menos, e mais feias.

Apontaram-me despropósitos, porém mais deboche não há em usurpador que captura o trono e esposa de seu irmão e corrompe físicos para que lhe denunciem maleitas no corpo mentindo sobre o seu saber para procriar?

Acaso o fraco sexo de mim estivesse apartado Ana de Moura se teria sangrado a si própria quando sofri de aleijão, para que mais só me não sentisse sendo apenas eu sangrado? E Filomena de Milão, as mais belas e sabedoras mãos que em homem tocaram, paraíso carnal a que nem frei Agostinho resistiu quando ajoelhada lhe suplicou bênção?

Ouvi a um guarda que  designaram o conde de Odemira para o Desembargo do Paço. Oxalá desonrado seja, e amaldiçoados os seus, intrigando junto de D. Luísa minha mãe a sugerir açoites e que de mim afastassem o estimado António.

Jerónimo de Ataíde perguntou por mim, disse-me o chefe da guarda. Meu bom amigo, como sinto a sua falta. A semana transacta contei as voltas que dei enlouquecido neste aposento infernal. Noventa e seis. Noventa e seis é de doidos, comecei a contar formigas em carreiro subindo às chaminés do Paço. Como gostaria ser uma delas, trepando, e escapulindo para a serra, apedrejando megeras à saída da missa ou roubando fruta como vulgar camponês. Rei do cárcere, eis o que sou, exilado em meu Reino. Antes o desterro!

Minha mãe nunca perdoou tê-la afastado da regência e do mando. Não mais a vi, recolhida aos Agostinhos Descalços. Morreu com rancor. Rancor! A bondosa Luísa de Gusmão não podia ceder ao rancor, impróprio de rainha, forte com os fracos e fraca com os fortes. Já partiu, partiram todos, eu mais só, insepulto e morto já.

Acabou de passar um rato. Acho que o vou nomear conde, rei que sou deste quarto, sala do trono do meu mando. Ontem nomeei marquesa a uma barata. Marquesa de Sintra. Soa bem. Jurou-me fidelidade eterna, os esbirros de Pedro vão ficar possessos. O vitorioso de Elvas e Montes Claros respira ainda acicatado pela raiva. Por pouco tempo, temo, os males da alma quebrantam as forças do corpo. Corvos negros pousaram no beirado do Paço, mau presságio.

A tinta está a acabar, os olhos ardem. Nos Açores ainda tinha a mercê de caminhar à beira mar. Tempo de mais uma volta, noventa e sete. Os homens de Cadaval patrulham o Palácio, para nove anos que assim é, oiço-lhes as botas servis e os boçais grunhidos.

Hoje cuspi sangue. Um físico sangrou-me, mas sinto que meu corpo se fina. Seja. Noventa e sete vezes amaldiçoados  Pedro e Maria Francisca nos reinos do chifrudo. Aos vis, até  perdão e a justiça  vis parecem.

Arrefece. O rato tornou a passar. Sorriu-me, o novíssimo conde. Fiz-lhe uma vénia, magnânimo, agradeceu, dei-lhe a mercê dum pouco de pão. Um rei zela sempre por seus vassalos!

Sintra, aos 7 de Abril do Ano da Graça de 1683

Afonso, Portugal Rex


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:24

06
Abr 11

Diziam descender de Baltasar, um dos Reis Magos. Falava-se de um reino com monstros vários, homens com cabeça de cão, o Inferno convivendo com o  Paraíso. O padre Francisco Álvares e Gonçalo de Vilhena trilhavam ia uma semana as longínquas estradas, poeirentas e áridas, nada ali parecia rico ou fértil, oceano de areia farta em escorpiões e calhaus, o Reino a meses de viagem. Pêro da Covilhã em  missiva, já havia descrito ao defunto rei D.João o achamento daquele Reino distante governado pelo lendário Preste João. Ao desembarcar na costa da África em busca de rota para as Índias, ouvira a notáveis do Benin que o grande rei Ogané, seu senhor, reinava a vinte luas de marcha para leste e a sul do Egipto, aí o velho fidalgo o localizara vinte anos antes. Desembarcara em Zeila seguindo pelo interior até Gondar e aí, pasmado, entrou na corte do Negus Alexandre, Leão de Judá, Rei dos Reis, descendente do Preste João das Índias. Por lá ficara, voluntário e adaptado, agora, passados anos, D. Manuel de novo mandava emissários ao seu encontro, a oferecer aliança e comércio, próprio de irmãos na fé de Cristo.

O Negus seria senhor de vastos domínios que se estendiam da África às Índias e a dezenas de reinos a elas subordinados, entre eles as dez tribos perdidas de Israel, que Alexandre o Grande teria perdido para além da Muralha de Gog, as quais anualmente em vassalagem lhe enviariam mais de duzentos cavalos carregados de ouro e prata. Gonçalo de Vilhena, jovem e impetuoso mal podia esperar o momento em que  encontrassem o fabuloso rei, só uma vez fora a Ceuta, oferecera-se para escoltar Francisco Álvares.

-Padre, será verdade que quando parte para a guerra manda levar dez cruzes de ouro ornadas com pedras preciosas e que atrás de cada marcham dez mil cavaleiros e mais de cem mil homens a pé?- interrogava, montado no dromedário que o levaria e a Francisco Álvares à cidade,  escoltados por guias de Melinde que acompanhavam a caravana.

-Mais interessante é saber se é verdadeira a fonte da juventude de que tanto falam escritos dos antigos. Dizem que faz com que qualquer homem que nela se banhe volte a ter a idade de 30 anos. Parece que o próprio Negus terá agora 500 anos, pois ter-se-á banhado várias vezes nessas águas!

A duas milhas da sagrada metrópole do Preste João, novo e misterioso rei Midas, a surpresa da vinda ao seu encontro duma comitiva, Pêro da Covilhã, a quem o padre Álvares não via há vinte anos chegava a saudá-los, com a esposa nativa e dois dos filhos. Fazia muito que  portugueses não se aventuravam nas terras ocres do mar Vermelho, à vista do estandarte das quinas flutuando no cimo do dromedário, emocionou-se, correndo a abraçar os patrícios, para Francisco e Gonçalo, finalmente a chegada a domínios do Preste João.

Com a morte recente do Negus Alexandre subira ao trono seu irmão Naod, que convidou Covilhã a continuar no reino, dando-lhe casa e esposa abissínia, com quem teve filhos. Á entrada da cidade, soldados do Negus olhavam desconfiados os forasteiros de pele clara, apesar da tez queimada pelo sol da Abissínia. Pêro da Covilhã alojou os patrícios em sua casa, onde  se refrescaram com tâmaras e leite de cabra, no dia seguinte o soberano faria a mercê de os receber.

Pela manhã quente e cálida de Agosto, entrados num palácio revestido por adobe onde exóticos cortesãos se desdobravam em preparativos, mal se abriram as cortinas dum dossel num pátio amplo, lá estava, majestático e ricamente adornado ao cimo de um palanque de seis degraus o defensor da cristandade em terras de Oriente. Pêro da Covilhã apresentou os portugueses, que com uma vénia se acercaram do trono. O Negus era jovem e de pele escura, como os negros do Mali, a um sinal mandou que se acomodassem nas almofadas de cetim. Na cabeça, uma coroa de ouro e pedras preciosas, nas mãos uma cruz de prata, à direita um pajem apoiava uma cruz  bordada em forma de pétalas. Naod usava um vestido de seda com bordados de ouro e prata, uma camisa também de seda com mangas largas, parecia alegre e feliz pela chegada dos emissários. Pêro da Covilhã já lha havia comunicado e mercadores vindos de Aden haviam avisado o palácio da breve chegada de enviados do distante reino de Portugal.

O palácio era ricamente decorado: teto de cedro, cobertura de ébano, janelas de cristal, mesas de ouro e ametista com colunas de marfim. Gonçalo de Vilhena, numa pausa enquanto um cortesão segredava algo ao ouvido do Negus sussurrou para o velho Pêro da Covilhã:

-D.Pêro, é verdade como dizem que por aqui há sagitários e faunos, bem como uma ave  rara à qual chamam  de fénix ?

Pêro sorriu, os vinte anos de Abissínia já o haviam familiarizado com aquelas gentes e com tais mitos, tudo seria culpa do sol do deserto.

O descendente do Preste João tinha um aspecto jovem apesar de contar já 500 anos de idade pois tinha o privilégio de se banhar na Fonte da Juventude. Essa, o português confirmava, era verdadeira, ele próprio se banhara uma vez, autorizado pelo velho Negus. Reparando bem, Gonçalo notava que apesar dos sessenta e cinco anos Pêro da Covilhã aparentava trinta e recordava como correra ligeiro ao seu encontro na véspera, na chegada à cidade.

-Esse é o grande segredo deste Reino que não é dos Homens: se alguém beber em jejum três vezes dessa fonte, a partir desse dia nunca mais sofrerá de doença e aparentará sempre, enquanto viver,a idade de trinta anos. Quando chegam aos cem anos, os homens rejuvenescem bebendo da fonte, e tornam a beber todos os cem anos, até completarem 500, quando  morrem,então, e, por tradição, são enterrados debaixo de árvores com folhas que nunca caem.

Naod entendendo a explicação pelos gestos, ergueu-se e chamou os portugueses para o acompanharem. Num jardim traseiro, cheio de amoreiras e frondosas árvores, lá estava, singela e límpida a cobiçada Fonte da Juventude, guardada por uma serpente com mais de três metros com nove cabeças e duas asas. A uma ordem do soberano, esta deslizou viscosa para um canto, deixando aproximar os portugueses, que observando espantados, não puderam contudo tocar ou beber da água milagrosa.

-Sei que vindes dum reino cristão e temente a Deus como o meu- disse o Negus- Dizei a vosso Senhor que em domínios de Preste João não há guerras nem violência, roubo nem rapina, adulador ou avaro, daí o dom que Deus nos deu desta água, vinda do Jardim do Éden. Setenta e dois reis são nossos tributários e setenta e dois nos prestam vassalagem, com todos vivemos em paz. E onde ficam exactamente os domínios do vosso rei?

Francisco Álvares sacou de um planisfério, apesar de parco em geografia, em domínios o pequeno Portugal rivalizava com o império do Negus. De qualquer modo, este concordou com a aliança e aceitou ceder o porto de Massawa para apoiar as naus de Portugal, a vaidade de saber que a léguas dali alguém o invejava tornava-o magnânimo e cordial.

Passados três meses, Gonçalo e Francisco Álvares voltaram ao reino. Foi a última vez que viram Pêro da Covilhã, que para sempre ficou entre aquelas gentes, agora suas,desde que um dia partira da sua Estrela, serra  invernosa. Pêro da Covilhã viveu 500 anos, bafejado que foi pela água da eterna juventude. Quanto a Naod, descendente do Preste João, viajantes recentes garantem tê-lo avistado nas montanhas da Eritreia, olhando o Índico montado num  dromedário, sentinela de Jerusalém e ungido de Deus. Da Fonte da Juventude perdeu-se entretanto o rasto, um dia, soprados que sejam muitos suões uivantes no deserto talvez de novo se descubra,guardada na noite dos tempos pela ciosa cobra de duas asas.   


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:30

05
Abr 11

Reinava o silêncio na biblioteca da mansão, a reunião da noite tinha só um ponto na agenda: afastar a influência de traidores do Governo de Portugal. O Priorado do Condestável não tinha existência legal, poucos sabiam da sua existência, a conjuntura impunha medidas. Banqueiros, juristas, escritores e militares integravam o grupo reunido na Quinta da Capela. A coberto dum alegado encontro de rotários, os Irmãos iam discutir formas de agir, a queda do governo antevia mudanças,era preciso assegurar a influência de Irmãos no novo que se seguisse.

Fundado em 1974, em segredo,depois dos eventos que conduziram à mudança do regime, o Priorado zelava pela restauração dos valores ligados ao desígnio místico de Portugal,farol da civilização, na tríplice aliança entre Exército, Igreja e Finança, os pilares da Pátria, sendo os membros admitidos sujeitos a rigorosas regras de iniciação. Secretamente vários ministros, bispos, generais e empresários eram membros, a reunião dessa noite era de emergência. Entre outros, o general Álvaro Salomão, monsenhor Taveira Braga, do Cabido de Viseu, o banqueiro Ricardo Sendim e o escritor Tolentino Peixoto, autor de livros zurzindo nos plutocratas e vendilhões que mandavam no país. Para segurança do grupo, usavam túnica branca e azul, as armas do beato Nuno bordadas no peito e cara tapada por um capuz, um anel de lápis-lazuli identificava a pertença ao priorado.O Grão Mestre, encerradas as portas , já todos  sentados na mesa oval, abriu a reunião:

-Irmãos, louvado seja D. Nuno, nosso Mestre e Patrono. Cabe-nos como Condestáveis da Pátria salvá-la do ateísmo e materialismo, que tudo subjuga ao relativismo da ciência e do imediatismo. Nunca como agora os nossos valores se demonstraram tão urgentes e a Comunidade Pátria tão falha deles. O momento é de acção! Há que ter mão nos jacobinos e maçons que corroem a sociedade, e destruir o Governo Secreto do Mundo que ora se apoderou da Nação. A isso nos obriga a emergência que a Pátria vive, cercada pela ameaça do judaísmo infiltrado na dita União Europeia e que governa as instituições financeiras mundiais. Este ataque à Pátria é obra sionista e visa vingar a expulsão dos marranos há  cerca de quinhentos anos, não tenhamos dúvidas!

Tolentino, lunático ideólogo e estudioso de Nietsche corroborava:

-Veja-se a imprensa, a excitar e inflamar as paixões entre o povo, lobos entre carneiros, empurrando para as mãos dos títeres. Há que controlar a imprensa, será boa ferramenta para oferecer tantas opiniões diferentes que se perderá a visão global no labirinto das informações. Devemos dominar a Comunicação e mantê-la na nossa dependência. Apesar das recentes reconquistas no audiovisual muito há a fazer ainda, Irmãos!

Também monsenhor Braga concordava, debaixo do capuz, a sua voz e as homilias inflamadas na Sé de Viseu eram conhecidas:

-O plano dos ateus é dominar as pessoas pelos seus vícios, distrair as massas com diversões populares, jogos, competições desportivas, divertir o povo para impedi-lo de pensar. Está tudo estudado: destruir a estabilidade financeira: multiplicar as crises económicas e preparar a bancarrota universal; parar as engrenagens da indústria; deitar por água abaixo todos os valores; concentrar o dinheiro do mundo em certas mãos; deixar capitais enormes em absoluta estagnação e agiotagem; e, no momento certo, suspender todos os créditos e provocar o pânico entre as Nações. O plano está em marcha, não há que hesitar,é  tocar a rebate nas aldeias, em busca da reserva moral da Nação, unir Espada e Cruz, e como D. Nuno buscar a redentora Aljubarrota nesta Pátria moribunda! O Grão-Mestre, austero, concordava, apontando missões:

-É necessário compreender que a plebe é cega, insensata, sem raciocínio, indo para a direita ou para a esquerda por mera leviandade. Só a Espada desembainhada pode levar a um novo desígnio. É preciso incendiar as ruas, os estádios de futebol, os jornais, a plebe. E depois apresentar o novo Salvador, o Irmão que na hora certa todos em conjunto alcandoraremos ao Trono do Rei Afonso! E enigmático, apontou um Irmão até ali silencioso, sentado ao topo da mesa.

-Irmão, pela Espada entrarás no redil dos ímpios e removerás o tumor que dilacera a Nação - o dedo indicado, profético, apontava o Salvador escolhido.

Levantando-se, sem se descobrir, o misterioso participante aproximou-se da janela, lá fora a serra silenciosa e escura repousava letárgica em tempo conturbado para os Homens. Enigmático, em voz baixa e pausada, deixou umas breves palavras à assembleia de embuçados:

-A violência deve ser o princípio; a astúcia e a hipocrisia, a regra para os governos que não queiram entregar a coroa a nós, os agentes da nova força. Por isso não nos devemos deter diante da corrupção, da velhacaria e da traição. Aqueles que transformaram os Estados em arenas onde reinam os distúrbios dentro em pouco verão surgir desordens e bancarrotas por toda a parte. Recordai o irmão Nostradamus no seu versículo III. 28 :"As representações do ouro e da prata vítimas da inflação, depois do vôo da doce vida, serão atiradas ao fogo em fúria; esgotados e perturbados pela dívida pública, os papéis e as moedas serão destruídos.". Antes que as eleições de Junho tenham lugar, a Aliança Infiel dos agiotas sionistas  cairá sobre a Nação, atacando-lhe as riquezas, subjugando-a pelo pecado do juro e roubando-lhe o Futuro. Nessa altura a Espada de D. Nuno cairá sobre os traidores,de dentro e de fora. É a hora!

-E quando será isso, Irmão? -sondou Tolentino, impressionado e ao mesmo tempo excitado.

O Irmão, silencioso, nada disse, numa secretaria da biblioteca do Grão Mestre, uma folha solta de calendário marcava com uma bola a vermelho a data de 28 de Maio, sábado.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:54

04
Abr 11

O professor Segadães pasmava, mas era verdade. Apesar da distância e de as hipóteses serem mínimas, poeira radioactiva chegara a Portugal provinda de Fukushima, no Japão. As primeiras medições efectuadas não eram inquietantes, não havia que lançar o pânico, mas após o relatório da manhã medidas de contingência impunham-se, e logo agora que o governo estava em gestão. Teresa Damásio, do Instituto Tecnológico e Nuclear apenas detectara pequenos vestígios de radionuclídeos de iodo e césio em amostra de aerossóis colhida na estação de Sacavém. Apesar de as concentrações serem baixas o relatório enviado pelos japoneses, porém, aconselhava medidas imediatas:

-A coisa agravou-se, professor! - Teresa parecia agora preocupada, mas havia que não lançar o pânico -Segundo eles, os níveis de radioactividade detectados  são mil vezes superiores aos mínimos de segurança. E os contaminantes radioactivos detectados na água do mar apresentam valores astronómicos, veja! -o relatório via mail era aterrador.

-Oh diabo!... os  japoneses comunicaram às Nações Unidas uma fuga radioactiva originada no incêndio do reactor 4 onde havia combustível radioactivo usado. Eles acham foi provocado por uma explosão de hidrogénio e estão a comunicar taxas de 400 millisievert por hora!- Segadães  tentava manter a calma, mas a dimensão do que aí vinha era incalculável, de acordo com o relatório.

-Terrível, o máximo deveriam ser três millisievert! Podemos vir a ter  casos de queimaduras na pele,mutações genéticas e danos irreversíveis nas células. O que sugere professor?

-Temos de lançar uma operação em larga escala, ligue-me ao Presidente da República. Deve estar a cortar alguma fita em Celorico ou Gavião, diga que é uma emergência nacional!

Teresa correu a contactar o presidente, este apesar de tudo ficou tranquilo, pensava que era para chamar o FMI daí a meia hora, antes isso, mas precisava reunir o Conselho de Estado.... Contactada a Protecção Civil, como era domingo um gravador de chamadas com uma voz maviosa aconselhava a deixar recado, segunda de manhã se veria, Álvaro Segadães bufava:

-Francamente! Olha se houvesse um tsunami a sério! Palavra de honra….Protecção civil, sim, mas aos dias úteis das nove às cinco,  era domingo e todos os bombeiros estavam em almoços de confraternização.

Pescadores da Praia da Adraga, em Sintra entretanto haviam sido acometidos de náuseas depois de haverem almoçado uns carapaus, alegadamente estragados. A notícia ainda não se espalhara mas começava a fazer estragos, o “síndroma de Fukushima” ceifava na costa atlântica portuguesa. Teresa e o prof. Segadães de imediato foram para lá, alertados pelo INEM, os sintomas não pareciam de intoxicação alimentar, um mirone, estudante de Física garantia ser radioactividade. Um dos pescadores, o Alberto, de Galamares, suava em bica, a boca ressequida e sensação de cansaço, suspeitava do azeite do molho à espanhola. Discreto, com o aparelho de medição, Segadães, depois de se identificar junto ao INEM aferiu: a dose de radioactividade era letal, com urgência todos os pescadores e toda a orla costeira deveriam ser evacuados, a propagação fora excessiva e por certo os japoneses estavam certos, só um nível monstruoso de radiação poderia justificar ter chegado a Portugal. Um alerta foi finalmente lançado pelas televisões, o contacto com a água do mar devia ser evitado e criado um cordão de quarentena de cinquenta quilómetros. De imediato os restaurantes e praias deviam ser encerrados, o trânsito proibido, uma evacuação em massa para o Alentejo teria de ser posta em marcha nas vinte e quatro horas seguintes, o cancelamento do Benfica-Porto deixava os nortenhos possessos e acusando o “sistema”, era tudo para lhes tirar a taça nesse dia, dizia irónico Pinto da Costa.

-Professor, vão ser precisas pastilhas de iodo para evitar a contaminação. Milhares! Se administradas nas primeiras 24 horas após o contacto com poeiras radioactivas, podem evitar cancros da tiróide.

- Esperemos que os ventos e marés mudem, Teresa. Em pequenas doses, a exposição à radiação não oferece riscos para a saúde,o corpo tem tempo suficiente para substituir as células que tenham sido alteradas ou destruídas. Mas em doses extremas, é fatal, nem quero imaginar: Chernobyl matou 30 pessoas  apenas num mês e originou milhares de cancros da tiróide. A radiação emitida pelo combustível das centrais nucleares  altera a carga eléctrica dos elementos das células humanas. A extensão dos danos depende da dose e do tempo de exposição e até da região atingida. Os pulsos são mais resistentes à radiação, a medula óssea pelo contrário, é mais sensível. Atendendo mais uns pescadores, que ainda ignoravam o porquê daqueles testes, Segadães rematou:

-A radioactividade pode alterar o 'relógio biológico' das células, fazendo com que cresçam formando tumores. Leucemias, por exemplo, podem aparecer em dois anos. Um ser humano pode morrer em poucas horas se o corpo for exposto a 50.000 milisieverts. O primeiro sintoma são as a náuseas,em 30 dias as pessoas ficarão anémicas e sem defesas contra as doenças.-o panorama era catastrófico, Teresa estava apreensiva.

As notícias oficiais que chegavam do Japão continuavam a garantir que tudo estava controlado, em Lisboa, na televisão, a ministra da Saúde garantia pastilhas de iodo para todos, Segadães pasmava:

-Mas esta gente ensandeceu? Será que pensam que só acontece aos outros? Todos sabem que não temos reserva de pastilhas!

Zé Taborda e Abílio, dois dos pescadores da Adraga esperando serem examinados reclamavam já de tanta espera, no bar do Café Adraga:

-Ó amigos, então isso anda ou não anda? É que ainda temos de ir comer uma bela duma caldeirada. Olhe, aqueles lá do Japão é que não comem mais nenhuma! Apesar de tudo, ainda se está bem neste cantinho!

Apesar da radioactividade, o dia estava quente e o sol radioso. Entretanto, um mail urgente da Agência Internacional de Energia Atómica garantia estar errado o primeiro relatório enviado, os carapaus portugueses estariam a são e salvo e o Benfica-Porto lá poderia acontecer. Radioactivo, contudo, no estádio o aparelho teria leitura máxima, por certo. Teresa não se convencia: então a leitura do aparelho e as náuseas do Alberto? Contactado o Ministério da Saúde lá veio a explicação: eram leitores de radioactividade comprados à China e faltava a homologação. Quanto ao Alberto, uma observação mais profunda revelava não passar tudo de ressaca da despedida de solteiro do António, na véspera. Muito activa, mas sem rádio...

             

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:42

03
Abr 11

Sintra,2042.O presidente da Câmara, Djaló Varela,quinta geração de  cabo verdianos, chegava os Paços do Concelho no velho Sintra Fórum para reunir com o ministro da Economia do Governo Federal Europeu. Lech Zibrinski despachara verbas para obras, e estaria em Lisboa no dia 3.De TGV ,a partir de Bruxelas ,seriam 4 horas, duas reuniões em Paris e Madrid pelo caminho. Diógenes Durão, o delegado do Governo para os assuntos de Portugal mais tarde acertaria consigo os pormenores das verbas para o  novo CICV.

Varela era dinâmico e audaz. Antigo rapper, fora recentemente eleito através do Facebook, recolhera mais de 2/3 de “gosto”,  e tinha projectos estruturantes para o concelho: a Cidade do Cinema abriria em 2043,bem como a nova Universidade de Pêro Pinheiro, baptizada de " Cristiano Ronaldo”, em homenagem ao comendador, vulto da cultura nacional agora com  67 anos, proprietário do Praia Grande Hilton e do resort de montanha na Pena. No plano desportivo, a fusão de todos os clubes originara o Futebol Club de Sintra, presidido pelo antigo internacional Nani.

O concelho dispunha agora de 700.000 habitantes, metade de origem crioula. O canal de TV,em Montelavar, o Sintra Sky Network-SSN,  era dirigido por Gustavo Facas, neto dum conhecido DJ dos anos 10, o vereador do multimédia, Simeon Pereira igualmente descendia de romenos radicados no Mucifal(agora Mucifalisoara).

O problema número um  era a violência.Com 50% de desempregados, agora designados como inactivos orgânicos, alguns de longa duração, criara um plano de reforma para aqueles que tivessem frequentado pelo menos 25 cursos de formação profissional. Ganhara as eleições com a promessa de legalizar a violência urbana, desde que não se ultrapassassem 5 roubos por esticão e 3 assaltos a multibanco anuais, considerado falta leve. Esse era o principal problema, todas as noites havia desacatos no metro Oriente-Mem Martins obrigando a intervenções com armas a laser por parte da Força Ninja, recrutada entre veteranos da guerra contra a Coreia do Norte de 2036, na qual o distrito de Portugal participara integrado no Exército Federal Europeu.

O telemóvel ligou.O vereador da multimédia, Simeon, anunciava que o busto de Miguel Real estava pronto para inaugurar na Volta do Duche. Com milhares de e-books por ano,o escritor era uma referência de Sintra, ganhara o Nobel da Literatura de 2016.Ali ficaria, ao lado do Memorial à Grande Hecatombe de 2011 quando Portugal caíra na bancarrota, sobreviventes ali colocavam flores com frequência, exorcisando esses tempos de fome e incerteza em que 90% da população perdera o emprego e sobrevivera graças ao apoio humanitário do Ruanda e Haiti.

Agora era diferente, as coisas mexiam, com Varela, Sintra era de novo cool e progressiva . A imagem romântica em que se insistira no passado não pegara, desde os anos vinte que se apostara na Sintra tecnológica, trendsetters haviam apontado como target as indústrias criativas de base tecnológica e Fab Labs tinham surgido em Morelena e Negrais.Os call centers em videoconferência, os transgénicos de estufa, a par das fábricas de veículos a biodiesel no Cacém, eram a base da economia em retoma. Doces tradicionais como a queijada ou o travesseiro haviam desaparecido nos anos trinta do século XXI substituídos por uma versão light sem açúcar nem ovos, dentro do plano de combate à obesidade designado "LOL Sintra"que igualmente banira o courato, o hambúrguer e, mais dramático, o leitão de Negrais, proíbido pela Organização Mundial de Saúde.

Os anteriores presidentes haviam apostado no  teletrabalho em part time e na privatização dos serviços camarários: o urbanismo era gerido por uma consultora de Marbella,  as obras municipais pelo consórcio Pires e Rodil, franchisado de empreiteiros de Taiwan, pelo que  só restavam 70 funcionários em permanência, ganhando cerca de 300 yuans por mês(o yuan, moeda chinesa, era agora a moeda única mundial, depois do estoiro do euro em 2018, após a entrada do FMI na Alemanha).Até a justiça fora privatizada e entregue a uma holding de magistrados por cem anos, a Isaltino,Vara e Associados, com sede nas ilhas Salomão e escritórios em Lourel, a nova sede da comarca.

Depois da reunião com Zibrinski, Sintra, sob a sua presidência teria finalmente um Centro Integrado para a Conservação da Vida-CICV, algo em tempos chamado hospital, uma empresa de saúde onde os doentes comprariam quarto e assistência em time-share podendo trespassá-lo, após tratamento. O acesso seria permitido após um chip do genoma atestar a veracidade da doença e a situação fiscal do candidato, e seria gratuito para todos os que se houvessem reformado aos 90 anos e desde que provassem ainda viver em casa dos pais. Em 2060 terminaria a revisão do Plano Director, velho de 70 anos e a torre biónica das Azenhas do Mar, com 750m e setenta marisqueiras ficaria pronta. Aí sim,o Admirável Mundo Novo e multicultural chegaria finalmente a Sintra pelas mãos do visionário Djaló.


publicado por Fernando Morais Gomes às 01:24

02
Abr 11

Partindo da R. Almada Guerra e subindo ao Largo do Morais lá estava a casa, abandonada no largo deprimido e triste, antes lar de vidas desafogadas, agora decrépita, com madeiras apodrecidas e telhado periclitante. Em tempos ali morara uma velha solteirona, falecida para três anos. Apenas um descontraído gato dormitava agora ao sol no muro de pedra, carcomido pelos anos e conquistado pelo musgo.

Vizinhos garantiam que de lá vinham ruídos à noite, alguém cantando, nunca luzes ou pessoas ali se viram mais em três anos, apenas uma música antiga vinda de dentro, a Guilhermina do 56 jurava ser uma cantada por Milú num filme português dos antigos. Apesar de bem situado, ninguém aparecera a comprar o imóvel, desconhecido que era um proprietário visível.

Joaquim Fernandes, aposentado da polícia e  vizinho no Morais, desde há tempos lhe fazia espécie a música vinda da casa fechada, ele mesmo escutara já a canção por demais conhecida, um tom de voz sumido e um quanto amargurado contudo, quase podendo imaginar a cena do“Costa do Castelo” inexplicavelmente ali ressoando, pelo menos três pessoas garantiam ter ouvido a mesma, num timbre cristalino como se  dum velho vinil se tratasse.

Numa sexta-feira à noite, um vento desagradável assolava o já silencioso Largo do Morais e a lua acetinada recortava o vetusto torreão da Quinta dos Lagos, quando do interior da casa o som familiar da música de novo invadiu sussurrante e melódico a pacatez do largo. Joaquim, que apanhava ar depois do jantar,decidiu-se a  seguir o som, levava-o até à casa encerrada. O gato pardo das tardes miou, vindo do quintal traseiro,as portadas há muito encerradas não adivinhavam presença alguma, no escuro, tropeçou mesmo num galho de plátano tombado e seco. O som era agora mais claro e audível e maior o breu, nem vivalma em redor, as casas próximas demasiado longe para que o som ali fosse perceptível. Feito silêncio por minutos, voltava já a casa esquecendo a misteriosa música quando o gato, roçando-lhe as pernas, correu em direcção a um galinheiro nas traseiras, desaparecendo lá dentro. Curioso, seguiu-o, no interior havia um postigo de acesso a um anexo em cimento, um cheiro nauseabundo denunciava a presença de animal  e acumulação de detritos. Uma ninhada de gatos, pensou.

Sem que o tresmalhar na folhagem deixasse denunciar-lhe a presença, aproximou-se e por trás dum candeeiro a petróleo descortinou uma mulher, velha e desdentada, cabelos brancos em desalinho e roupas enxovalhadas, nunca por ali a vira, ignorava mesmo que alguém ali vivesse ou abrigasse. Ficou um pouco a observá-la: à sua volta uma mala de cartão, caixas velhas, uma contendo um largo chapéu de cerimónia, coisa antiga e debruada com plumas, numa mesa manca com três pernas apenas, velhas revistas espalhadas, nas  capas eventos já esquecidos pelo tempo emprestavam o ar de cenário passado. A velha, trincando uma maçã que religiosamente retirou dum plástico, trauteava canções esquecidas, êxitos dos anos trinta, uma estola ratada e carunchosa ao pescoço revelava um passado interessante e quiçá próspero. Absorta,sorrindo para o infinito, cantava agora a Casinha, como se de um hino se tratasse. Olhos fechados e encerrados no passado, sem que se apercebesse do Joaquim, saiu pouco depois na direcção da Portela a buscar algo que comer nos caixotes, o gato, desinteressado, deixava-se ficar aninhado na enxerga que lhes servia de cama.Aproveitando a ausência da misteriosa intrusa, aventurou-se no tugúrio: uma caixa de pó-de-arroz e um espelho enferrujado sobressaíam na mesa de três pés. As revistas, muito antigas, guardavam notícias de espectáculos de outros tempos, antigas revistas do Parque Mayer, o corpo de baile, vistosas coristas, numa um grupo posava sensual com Maria Matos, a Mafalda do Costa do Castelo. Comum a todas elas, um corpo de baile, numa , aberta na página central, Milú posava alegre e glamorosa com uma bailarina, a legenda identificava a jovem como Ausenda Rebordão, promissora corista do Maria Vitória e anunciada primeira figura na próxima revista do Capitólio, com Ribeirinho.

Um súbito ruído de passos alertava para o aproximar de alguém, a velha retornava agora da Portela, alguém lhe dera a esmola de uma sopa já fria. Joaquim voltou a esconder-se, descoberto o lenço com que ela abrigava a cabeça do frio, reconheceu  traços da Ausenda que gloriosa se deixara fotografar com Milu na revista amarelecida, uma velhice desamparada, entendeu então, ali estavam os despojos duma vida atirada para a valeta do destino, alguma altivez no olhar, o pano quase a cair numa peça que virara drama. Sem coragem para a abordar retirou-se, nostálgico, arrefecia, a velha corista abrigava-se num canto, comendo a sopa, o gato a seus pés, dormitando.

Nos dias seguintes, à hora costumada, a voz já rouca de Ausenda, antiga vedeta do Parque Mayer, voltou a soprar trazida pelo vento do galinheiro e camarim improvisado, sem conforto ou comida mas onde não faltava uma preciosa caixa de pó de arroz. Misteriosamente, um cesto com sopa e fruta e dois cobertores foram lá deixados depois e todos os dias desde então. Ainda hoje uma já roufenha melodia ecoa nostálgica no discreto palpitar da noite de Sintra, até que findo o terceiro acto, o pano desça de vez, sem palmas nem flores. Sem modesto primeiro andar, talvez pertinho do céu….


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:02

01
Abr 11

O telefone não parava de tocar, José atendeu, ainda estremunhado, do outro lado uma voz ofegante transmitia algo que parecia importante:

-Sim…não….óptimo!.Porreiro pá!- o dia começava bem, o Teixeira ainda com azia por causa dos 8,6% da véspera corria a comunicar a novidade, José ligou a correr para o adjunto Pereira:

-Pedro, já sabes?- despejou, ainda incrédulo- a Angela aprovou uma lei a obrigar os tipos do rating a fazer um seguro de risco, por cada palpite não comprovado que façam vão ter de indemnizar, e os gajos agora dizem que é arriscado e vão tirar-nos das análises de conjuntura. Ganda Angela, é das nossas, só é pena ser da CDU!

-Ouvi, ouvi, Zé- Pedro exultava também- mas olha, também tenho uma notícia boa: o Basílio Horta chegou da China e os tipos vão comprar-nos 30% da dívida, temos é de garantir que lhes vamos comprar tudo nos próximos dez anos, e nunca mais receber o Dalai Lama!

-Só isso? Então é canja! Eu até já compro materiais de bricolage na loja dos trezentos perto da minha casa. Grande dia, olha só por causa disso prepara aí o despacho a lançar a nova ponte sobre o Tejo. Se estamos em gestão e podemos chamar o FMI também podemos lançar a ponte. Não hei-de sair sem colocar a primeira pedra, em Xabregas. Olha, depois até podemos almoçar na Bica do Sapato!

José saiu para o gabinete, na rádio anunciava-se com pesar que Medina Carreira sofrera um AVC e perigava no Hospital das Descobertas, José, de sorriso mal disfarçado pensava para consigo, “Bem feita! O rating deste já desceu para lixo”….

A sucessão de boas notícias levou-o a desviar e passar pelo alfaiate, o stock de fatos azuis estava já visto em excesso, precisava de dois novos, um blasé, para a campanha eleitoral e outro para explicar pela vigésima vez porque não pediria ajuda ao FMI. No alfaiate, o Travassos, já familiar, cumprimentou o cliente, tentando saber novas da política enquanto mostrava os tecidos:

-Então, senhor engenheiro, vamos ganhar isto?- Travassos metia conversa, familiar, na véspera dissera o mesmo a Paulo Portas, à procura dum fato Príncipe de Gales às riscas, os agricultores do Sorraia gostavam desse padrão.

-O país há-de resolver os problemas, Travassos. São uns ingratos mas o povo não é parvo. Olhe, escreva o que lhe digo: ali onde está a estátua do Saldanha daqui a cinquenta anos hei-de estar eu, até já falei ao Cutileiro. Não quero é nada fálico, como aquela coisa do 25 de Abril no Parque. O Berlusconi é que me compreende, a gente a querer andar com o país para a frente e todos a guiarem em contra-mão!

O rádio no fundo da sala de provas interrompia agora a emissão: notícia de última hora revelava que afinal Dias Ferreira era o novo presidente do Sporting e Futre o vice para o futebol, haviam esquecido a contagem dos sócios de Macau, todos com mais de 25 votos e 90 de idade. Apoiantes de Bruno Carvalho com pedras prometiam uma Intifada no Alvaláxia e os donos das roulottes de couratos ofereciam apoio logístico, o Travassos comentava com o cliente:

-Estes tipos… Mas como é que é possível terem falsificado os números assim?- incrédulo ía enfiando os alfinetes nas bainhas, o cliente, seguro de si opinava:

-Sabe, números são coisas metafísicas, valem o que valem…- o risinho discreto deixava antever que não falava tudo o que sabia, isto a política…

De regresso ao carro e antes de seguir para S. Bento, tempo ainda para atender um telefonema de Amado, as senhas de presença para o almoço em Bruxelas tinham acabado e só tinha que chegasse para uma waflle:

-Luís, até parece que isso agora é problema. Põe na conta da embaixada, depois mandamos a factura ao Junker, quem tem 75 mil milhões prontos também paga o almoço a um amigo. Hoje estou muito bem disposto, a Angela é fixe. Olha, até lhe vou mandar um bouquet de flores. Rosas, claro, só ela faria um tal milagre, a nossa santa…

-Qual milagre?- Luís Amado parecia fora do assunto, na cabine em Bruxelas, as moedas estavam a acabar, os cortes nas verbas do gabinete de ministro…

-Então, saímos das análises do rating,agora é tudo negociado sem pressões e os chineses até nos compraram 30% da dívida. São óptimas notícias….

Do outro lado a voz grave parecia contrariar o optimismo larvar de José, a caminho do gabinete. Chegado a S. Bento, Santos Silva confirmava, era falso alarme:

-Sabes como dizem os ingleses, “no news, that’s good news”.Melhor não haver nenhumas...

-Estes gajos!....- José estava furibundo, para aliviar a tensão até telefonou a encomendar mais um fato ao Travassos, a terapia para o stress era ir às compras e gastar compulsivamente.

-Dia das Mentiras, Senhor Primeiro-Ministro!- alvitrou  Ivone, a secretária, José havia esquecido completamente, na agenda estava apenas o jantar com militantes em Caneças.

-…em exercício!- acrescentou com uma ponta de maldade o ministro das Finanças, acabado de chegar, com dificuldade rompera pelo meio dos "Homens da Luta" que vendiam rifas da dívida a um euro na escadaria da Assembleia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:28

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