por F. Morais Gomes

06
Mai 11

Para quem queira carregar energias, um filme que resume o que somos em 6 minutos.

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 23:28

Fazia um mês que Sílvia se encontrava reclusa numa cela em Tires, grávida de um filho. Vinte e dois anos de pobreza, caída na prostituição, fora apanhada uma noite no Cacém com uma pequena quantidade de haxixe, guardada a pedido do Marco, ele fugira, deixando que a prendessem, junto com duas amigas no privado do bar de alterne. Na cela, Sílvia pensava o quanto a sua barriga crescera nos cinco meses que levava de gravidez, não estava tão ágil como dantes. Se não estivesse tão pesada e disforme, certamente teria conseguido fugir dos seus perseguidores e escapar quando a polícia a perseguira naquela noite, como nos tempos em que corria sentindo o vento nas costas e o sopro da brisa batendo no rosto, convidando-a a participar na valsa da vida.

Conseguia perceber os contornos daquela criança no seu corpo, o espernear, o coraçãozinho batendo. Em toda a sua vida as coisas quase sempre foram acontecendo rápidas e se foram mais velozes ainda. Em seguida, mal se fizera mulher, engravidara do Marco. E agora ali estava trancada numa cela à espera do julgamento. Tudo na sua vida decorrera de forma muito veloz e quando num momento ou noutro parava para pensar sobre isso sempre se sentia frustrada e angustiada.

Agora que transportava outro ser dentro de si, o mero acto de sentar-se numa cadeira bastava para que ficasse extenuada com o excessivo peso que carregava e aquilo acabava produzindo-lhe intensa falta de ar e sensação de formigueiro nas pernas.

Na véspera do julgamento, uma das companheiras de Sílvia afirmara ter absoluta certeza de que seria um rapaz, o formato e o tamanho da barriga indicavam a gestação de mais um infeliz. Ao ouvir aquilo os seus olhos brilharam por um segundo e em seguida se marejaram-se-lhe de lágrimas.

No dia seguinte, quando viu aquela mulher franzina e grávida dar entrada na sala, o Dr. João Baptista, o juiz do processo, sentiu um arrepio e um aperto no peito. A ré afigurara estar muito magra e pálida e carregava uma criança no ventre. Não era a primeira vez que o juiz se encontrava diante de uma situação semelhante, a intensa experiência de trabalho nos juízos criminais  já lhe haviam proporcionado inúmeras cenas parecidas. Em cada uma dessas ocasiões, contudo, sempre experimentara um misto de insatisfação e fragilidade tanto em relação à sua actividade profissional quanto à sua condição de homem e cidadão.

No momento em que avistou Sílvia, o Dr. João Baptista não conseguiu  conter-se. Chamou a escrivã e pediu que ela registasse nos autos tudo o que ele iria ditar a partir daquele momento. Já lera o processo e ajuizara sobre o caso.

A ré estava quieta e silenciosa, o coração parecia querer saltar para fora do peito. Imaginara que iria ouvir ali algo de muito grave e ruim, palavras duras e secas que apontariam e recriminariam a sua conduta actual e o seu passado. No entanto, viu sair dos lábios daquele homem de negro as palavras mais doces que já ouvira, talvez as primeiras mesmo em toda a sua vida.

Eram pouco mais de três horas da tarde. E foi ali, que o juiz, a quem um filho de três anos falecera meses antes, principiou a ditar para a escrivã:

“O tribunal considera que a ré é repetidamente marginalizada: por ser mulher, numa sociedade machista; por ser pobre, possuidora apenas de  sete palmos de terra; por ser prostituta, desconsiderada pelos homens mas amada por um Nazareno que em tempos passou neste mundo; por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentro de si, mulher diante da qual este Juiz deveria ajoelhar, numa homenagem à maternidade”.Nesse momento, o Dr. João Batista fez uma breve pausa e dirigiu um olhar na direcção das duas mulheres que se achavam na sua companhia, Sílvia e a escrivã Virgínia.

Esta última, espantada, olhou o juiz como que dizendo, não pare, continue, vá em frente! E foi o que o juiz fez :”Quando tanta gente foge da maternidade; quando se deve afirmar ao mundo que os seres têm direito à vida, quando, por motivo de conforto ou até mesmo por motivos fúteis, mulheres se privam de gerar, a ré engrandece hoje este tribunal, com o feto que traz dentro de si. Este Juiz rasgaria todos os seus princípios, trairia a memória de sua Mãe, se permitisse que a ré daqui saísse sob prisão. Saia livre, saia com seu filho, traga seu filho à luz, pois cada choro de uma criança que nasce é a esperança de um mundo novo, mais fraterno e mais puro”

Assim que terminou, o magistrado sentiu que o seu coração estivera prestes a explodir, mas que agora se aquietava subitamente. Sílvia escutara tudo em pé, entre silenciosa e aflita. Ao ouvir, porém, a palavra “saia”, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas para em seguida se iluminarem com um brilho profundo e diferente. Um sorriso de pura alegria surgira no seu rosto cansado e pálido. Junto com a satisfação que sentira ao saber que deixaria a cela escura e fria, o juiz rematou: “É uma dupla liberdade a que concedo neste despacho: liberdade para a ré e liberdade para o filho que aí vem.” Foi provavelmente naquele momento que a vida de Sílvia ganhou um sentido, recuperara de volta o direito a uma existência, como se a sua vida houvesse regressado ao ponto de partida e tudo tivesse recomeçado e uma misteriosa borracha apagasse todas as mágoas e dores que tanto a haviam feito sofrer.

Senhor Doutor Juiz – ousou Sílvia, mal acreditando no que escutava – eu estou livre, estou realmente livre?

O juiz balançou a cabeça afirmativamente:

– Está sim, dona Sílvia. Está livre para ir embora e seguir o seu próprio caminho. Está livre para ter o seu filho decentemente como qualquer mãe e mulher deste país. E bem longe dos muros e das celas de uma prisão...

– Doutor João – continuou a mulher, com os olhos cada vez mais brilhantes – antes de partir, quero fazer-lhe uma promessa: se esta criança que carrego comigo for homem e com vida vier a nascer, há-de ser baptizada com o seu nome. João Batista se chamará. Ficará sendo essa a minha homenagem ao senhor e a este dia.

A isso, o juiz respondeu:

Mas sabe a senhora como morreu o outro João Batista, aquele da Bíblia?

– Não, não sei.

– Cortaram-lhe  a cabeça

– Não há problema, doutor João. Não tem importância. O menino chamar-se-á João Batista, exactamente como o senhor.

Um ano depois, Sílvia deveria voltar ao tribunal, perante o juiz. Nessa ocasião, no entanto, apresentou-se de maneira bem distinta daquela em que se haviam encontrado naquela sala de audiências. O rosto era corado, um sorriso saudável. É verdade que engordara um pouco e por isso já não parecia tão franzina e miúda quanto aparentara na outra ocasião. Era entre os braços que se encontrava a maior diferença.  Trazia um rosado rapaz, exactamente como havia prenunciado a companheira de cela, baptizado com o nome de João Baptista, como prometera. A simples presença daquele nome como que antecipava para ela a real possibilidade de que a vida do menino pudesse ser sinal de esperança no futuro. Aquele nome com certeza traria o dom de fazer com que tudo de mais belo e maravilhoso que existisse no mundo já principiasse a calcorrear os caminhos desde o seu nascimento e o nome de baptismo. Começava agora de facto uma nova existência para Sílvia e tudo haveria de ser tão maravilhoso quanto aquele significativo nome que dera ao seu bebé.

Quanto ao Dr. João Baptista, não lhe cortaram a cabeça, como ao profeta, mas naquele dia, fazendo a jurisprudência dos justos e o acórdão do perdão, muitos colegas por certo acharam ter perdido a cabeça.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:34

Sintra é um microcosmos onde o natural muito se interpenetra com o humanizado, decorrente de morfologicamente, a serra ser o que hoje é muito graças à intervenção humana e florestação exótica a partir de D.Fernando II, isto para o bem, mas também por ser o jardim às portas da Grande Urbe que já lhe ameaça as fronteiras naturais e a invade com as  avassaladoras hordas de turistas e excursionistas, que pouco ou nada deixam dormitar as pedras seculares ou as armérias e camélias com que um dia a quiseram presentear.
E temos assim uma Sintra do desleixo, da ruína desmazelada promovida a vestígio sagrado, onde se mexe estraga se não mexe morre;a Sintra do excursionismo de fim de semana, do turista do circuito Vila-Piriquita-Regaleira-Comboio;a Sintra do plano de urbanização mais antigo de Portugal e ao mesmo tempo da incapacidade de planear o que quer que seja para levar ao terreno;a Sintra onde muitos mandam, poucos executam e nenhum respeita; a Sintra onde o que cheire a ouvir as pessoas cheira a heresia, onde se olha o património como o faqueiro precioso que se compra no dia do casamento, mas que quase nunca vai à mesa ao longo dos anos, com medo de estragar; a Sintra dos proprietários urbanos que, donos de vasto património o deixam ruir esperando mais valias urbanísticas, mas que apesar disso, são agraciados com comendas pela sua benemerência e filantropia(vamos a ver agora com os aumentos do IMI...); a Sintra do comércio ora débil ora elitista, da restauração ora precária ora do bolso cheio, da hotelaria do hostel barato ou da byroniana suite, mas onde o meio termo dificilmente tem lugar.
Tudo isto é  muito antigo, nada novo, velhos problemas e também velhas críticas à incapacidade de resolver, o que é muito nosso aliás.
Hoje, uma pequena viagem no comboio-fantasma pela Sintra que fenece, culpa de todos e que por isso talvez a não mereçam.Alguns exemplos:
1-O edifício da Pensão Bristol,embargado em 2006,e eternizado na paisagem do Centro Histórico.Este edifício é um case study de como uma obra aprovada pelas autoridades  por respeitar um plano de 50 anos é 3 meses  depois parada pelas mesmas autoridades  com o argumento preciso de desrespeitar  esse mesmo documento, o tal plano de Groer de 1949 .O tribunal leva o seu tempo a resolver, a paisagem vai-se habituando ao entrapado desta nova múmia, um dia qualquer coisa servirá pois será melhor que o que está.A coisa só podia correr mal pois com um licença emitida a 6 de Junho de 2006...(666, número fatídico)
2-Edifício na Vila Velha, também ele é sentinela de incúria e inércia.
3-Casas na Volta do Duche. Obras prometidas,com instalações  e cartazes pós-modernos  as embrulharam, qual Christo,mas lá continuam as casas em ruínas. Alguém saberá que há leis que impõe obras de 8 em 8 anos? E que tal se os IMI’S  fossem  penalizadores para os adeptos do dolce fare niente?.. 
4-Hotel Neto.
Mais uma chaga, esta já antiga. Antigo poiso de Ferreira de Castro no seu veraneio por Sintra, é o contraponto do inenarrável Hotel Tivoli, homenagem de Sintra a essa nobre espécie chamada patos bravos…
 
 
 5-Edifício na R.Alfredo Costa
Ao menos o do lado foi recuperado.Pode ser que o contágio seja benéfico..
6-Edifício na Av.Heliodoro Salgado.
Bela imagem para quem avista Sintra vindo de Chão de Meninos.É uma casa senhorial? Um palacete assombrado? Não, é Sintra, bucólica, ladeada de alguidares de chineses e plásticos tupperware, mas, atenção, património da Humanidade…
 
7-Garagem na Estefânea, Sintra
Aqui está um espaço que recuperado poderia dar um local multiusos para contratualizar  com os agentes culturais locais. Uma nova centralidade. Assim, continuamos a ver os comboios passar…
8-Hospital da Misericórdia
Recuperado, fechado,não é já tempo demais?
 9-Quinta do Relógio
D.Carlos passou aqui a lua de mel,a ver vamos que outras festas aqui poderão ocorrer.A Câmara parece que ia comprar.
10-Obras na Junta de Freguesia de S.Maria e S.Miguel.
Mais um mamarracho. A velha junta entaipada, a nova,(o “caixote”) parada por  se escolherem uns empreiteiros sem capacidade, um dia algo acontecerá.
11-Vivenda particular na Quinta de Vale dos Anjos, Seteais.O ex-TVI Paes do Amaral dum anexo ao abandono prepara-se para se instalar na jóia da Coroa.Quem pode, pode…
12-Casal de S.Domingos,R.Alfredo Costa
Já foi espaço expositivo, mas a cultura segue dentro de momentos.Mais um espaço que podia estar ao serviço da comunidade mediante protocolo com agentes culturais ou artistas.
13-Edifício em frente ao Café “Saudade”, junto à Câmara.Disto não queremos ter saudades.
 
14-Logradouros das antigas garagens do Larmanjat, o primeiro comboio monocarril de Sintra.
Quem,saído do comboio desce para a Vila, depara logo com estes exemplos de desmazelo.E por vezes não há uma segunda oportunidade para deixar uma primeira boa impressão…
15-R.dos Arcos, debaixo do Café Paris, na Vila, também a precisar de obras e limpeza.
 
Já agora, o que aconteceu à cúpula em ruínas desse edifício, que desapareceu misteriosamente?
AGORA
A par disto, outros exemplos: a forma como o mobiliário urbano é arrumado de forma “discreta” ou enquadrado na paisagem, surgindo casos em que muitas vezes é ele em si quase a peça mais dominante do espaço envolvente, como  muitos dos  recipientes de lixo,dominantes na paisagem ou erradamente colocados, o atestam.
Outros aspectos a ter em atenção, tendo em conta a existência de um Elucidário Arquitectónico aprovado, são os letreiros, a adequar à imagem de conjunto e não dissonantes, como o da imagem abaixo; e a necessidade de aos poucos ir retirando as “espinhas de carapau” das antenas antigas.
 
E já não falamos de outros exemplos, mais na zona de S.Pedro de Penaferrim: a Gandarinha, esventrada, a Quinta D.Diniz, que ao lado da realeza, dos Marialvas e outros fidalgos, parece o solar do Cavaleiro sem Cabeça. Alguém com cabeça para viabilizar isto? Já lá se realizaram actividades culturais muito interessantes nos anos 90.Quando o interesse público for mais forte que o direito de herdeiros,o Estado de Direito vencerá o imoral direito a estar neste estado…E a Quinta de Santa Teresa? Nem hotel, nem solar, nem habitação. Assim é que está bem, talvez  à espera que os Dois irmãos do túmulo à porta ali dancem à noite uma valsa walpurgiana entre fluidos inspirados em De Groer.E muito mais.Apontar não é escarnecer, é lembrar para que não saia das preocupações.Só assim seremos dignos de Sintra Património da Humanidade, maravilha natural onde estas coisas não podem nem devem ser naturais.
 
Deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!
 
Florbela Espanca   
publicado por Fernando Morais Gomes às 09:31

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