por F. Morais Gomes

21
Mai 11

Para ele era o fim, cansado de tricas e jogadas rasteiras. Quarenta anos depois de tocar a rebate os sinos da Vila contra o Conde de Sucena que queria murar Seteais,  jardim  do povo desde 1801, duma vida a esgrimir contra poderes fácticos e tiranetes de aldeia, José Alfredo Costa Azevedo, Velho Leão a quem Abril fizera Presidente da Câmara, batia com a porta.

Em funções desde 1974, depois da alegria da liberdade, ele que por ela lutara contra o “Botas” de Santa Comba, escriba de Sintra enterrado em manuscritos posto o serviço do tribunal, fartara-se de facadas, desiludido com os novos tempos. Escreveu a demissão e saiu a pé pela Volta do Duche- graças a ele outra vez Volta do Duche- direito à sua Vila de sempre, ali nascera e crescera, por cima da Piriquita. Já cansado, nos seus sessenta e nove anos, recordava  Mestre Alonso, Norte Júnior, Leal da Câmara, lá estavam todos já, com eles se iniciara nos óleos e pincéis, refrescante pausa no zeloso trabalho de escrivão judicial. Zé da Vila para o Jornal de Sintra, irmão da loja maçónica Luz do Sol, do doutor Gregório de Almeida, recordava agora os tempos da campanha de Norton de Matos, (o velho tinha-os no sítio), e os anos na Sociedade União Sintrense, lá fizera de tudo, de varredor a director, onde estava Zé Alfredo as coisas andavam.

Para ele chegava. Assinada a demissão, ia para casa, a pé - a Câmara dera-lhe carro e motorista, mas dispensara, era pássaro sem gaiola. Em Fevereiro de 1976 a guerrilha partidária ia acesa. Duas coisas lhe confortavam o espírito: inaugurara a estátua a D.Fernando, no Ramalhão- o Lino Paulo barafustara,que era coisa  monárquica, mas teimoso que nem mula levara a dele avante- com emoção inumara as cinzas de Ferreira de Castro, velho amigo, na serra onde quisera repousar.

Passando a curva, à vista do busto de Gregório de Almeida, parou, comovido. José Alfredo fora iniciado nos anos trinta, na Loja Cândido dos Reis, no Rito Escocês Antigo e Aceite, com o nome simbólico de "António Oliveira" e matriculado no regime geral de membros daquela Potência, subsequentemente Companheiro e Mestre, e seguidamente iniciado no 9º grau de Mestre Eleito dos Nove, na Loja Tomé de Barros Queiroz, de Lisboa, do mesmo rito, no 14º grau de Mestre Perfeito Sublime e no 30º de Cavaleiro Kadosh. Com Gregório de Almeida como venerável frequentara a Luz do Sol, loja já desaparecida a meio da Alfredo Costa. O velho médico dos pobres já lá estava na terra da verdade havia cinquenta anos, era ele um rapagão cheio de ilusões e sonhos, tal como como seu pai Pedro um republicano de Sintra.

Chegado à Vila, cruzou-se com Francisco Costa vindo do Valenças, a Biblioteca dava muito que fazer. Saudando o amigo, Zé Alfredo deu-lhe a notícia: fartara-se da Comissão Administrativa, o Cortês Pinto que completasse o mandato,  para ele tudo lacraus sempre às turras. O pai do Arquivo Histórico entristeceu-se, mas compreendeu, homens de letras, a política era por  ideais, não pela distribuição de cargos. Zé Alfredo suspirou:

-Isto assim é como na I República, vai acabar mal, Chico. As sessões de Câmara estão a ficar um inferno, é só greves, para mim chega, eles que se entendam. E a coboiada? No outro dia foi o assalto às Finanças, levaram três mil contos, os miúdos do judo ocuparam o Sintra-Cinema, julgam que isto é a Revolução de Outubro…

-E tu não estás para ser o Kerensky de Sintra, não é meu caro? Compreendo-te bem…- sorria o Francisco Costa.

-Além que está tudo a aumentar: o bacalhau já vai em trinta escudos o quilo, mas um ministro  ganha trinta e cinco contos. Afinal falávamos dos outros, e nem dois anos passaram, e é o que se vê!

-Então e agora, o que tencionas fazer?- sondou Costa, também ele escritor e poeta.

-Ler, escrever, vou para Gigarós tratar dos meus gatos. Olha, amanhã vou a Almoçageme ver a peça do Pérola da Adraga. “A Pérola das Sogras”. São levados da breca, os cachopos!

Seguindo pelo Terreiro D. Amélia,  amigos vieram saudar, o velho Zé da Vila, amigo de todas as horas, era um presidente da Câmara com a porta do gabinete sempre aberta, mal sabiam nesse momento que de Abril em diante deixaria o lugar. Em Abril de 76 haveria eleições para a nova Assembleia da República, era outra fase, para ele só as velharias agora e os manuscritos da Misericórdia. Rato de biblioteca, só aí se sentia bem.

Recebida a notícia da demissão, a cansaço foi atribuída, todos em encómios nos dias seguintes elogiaram o Velho Leão, de Lino Paulo a Lacerda Tavares. Do seu retiro de Gigarós o escriba de Sintra continuaria a chamar os bois pelos nomes, e até morrer, a sorrir à Luz do Sol.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:41

20
Mai 11

1964 estava a ser tranquilo, mas com algumas peripécias. Em Janeiro os Diamantes Negros haviam-se apresentado na Sociedade União Sintrense e ocorrera o assalto ao Capote, em boa hora o Ventura, o guarda-nocturno, deitara a mão ao Parafuso e ao Portugal Nunes, os azarados meliantes. Apesar das notícias de que nas mercearias rareava o fiel amigo, o Hóckey continuava a brilhar, a tripulação do Springfield da 6ª esquadra do Mediterrâneo jogara futebol com o Sintrense, César Torres vencera o Rallye das Camélias e no Mucifal, os Limpos, David Tomás e Miguel Lavrador uma vez mais animavam as festas de Carnaval . Mas faltava  o evento do ano, a visita dos príncipes do Mónaco em Abril.

Em casa de Graciete, mulher do provedor da Santa Casa ia tudo num virote, havia que arranjar um vestido deslumbrante para a recepção que Jorge de Melo ofereceria a Rainier e Grace na Quinta da Ribafria, já tinham convite.

A D. Genoveva, modista de muitos anos, já vira todos os modelos da Flama, até um Paris Match comprou para ver as toilettes, a D. Graciete tinha de brilhar entre as senhoras, hesitava se usaria chapéu ou não, saltos altos tinha de ser, a Grace era alta e não podia destoar. Aliás, também viera convite para o casamento do ano, em Julho casariam em  S.Pedro  o Duque Amadeo d’Aosta e Claude de França, era altura de renovar guarda-roupa, nunca por nunca repetir um vestido ou chapéu.

Todo o mês de Abril foi passado em provas, a Genoveva cortava e cozia, com folhos não, que é demodé, ombro descoberto também não, é um almoço e pouco próprio, pela costureira espiava o que as outras senhoras usariam, não corresse o risco de alguém ir de igual. O marido ia dando informações sobre convites e horários, para ele era mais simples, o asas de grilo que usava nos casamentos servia, lenço de seda azul no casaco e chapéu, viriam ministros e diplomatas, e, glória das glórias, repórteres do Paris Match, ocasião única de ombrear com o jet-set europeu, a Dadinha Mayer iria roer-se de inveja, não conseguira convite.

A 16 de Abril, o dia aprazado, lá surgiu o Rolls-Royce com os príncipes do Mónaco. O visconde de Asseca fez as honras da casa na Vila, ofereceu camélias a Grace e uma faiança a Rainier e visitaram o Paço, o povo, nas bermas batia palmas à Cinderela que seis anos antes apenas trocara os sets de Hollywood pelas mansões de Monte Carlo, ao vivo era simpática, mais alta que nas revistas até. O almoço seria na Ribafria, o protocolo recomendava que as senhoras fizessem vénia, sem olhar directamente nos olhos. Os Grimaldi eram cerimoniosos, mas Graciete já estivera em Queluz com o almirante Tomás, e não obstante a D. Gertrudes ser de outra idade e educação, sabia o que eram salões, até já provara Moet et Chandon, champanhe do bom, nessa noite fora uma festa na cama com o provedor, lembrava agora.

Na véspera da visita, Graciete entrou em manobras: rolos na cabeça, para de manhã a cabeleireira dar o toque final, frascos de perfume e pó de arroz em barda, um colar de pérolas que o marido oferecera nos dez anos de casados, carteira de pele envernizada, um vison que não vinha à cena desde o Natal de 62, quando foram ver o Artur Garcia no Carlos Manuel, na festa da Santa Casa a favor dos pobrezinhos, como sempre o marido gastara mais de vinte contos num bodo aos pobres, Graciete compareceu, caridosa senhora, mas desde que eles ficassem a distância mínima, coitaditos, alguns nem sapatos tinham, coisas do marido, mas que podia fazer…

A saída de Colares foi pelas onze, o almoço na Ribafria era à uma, Graciete fez questão de fazer estardalhaço para que as vizinhas a vissem, qual vamp glamorosa, só faltava a boquilha, a D. Lurdes e a Manecas despeitadas simulavam apreciar a beleza da D. Graciete, ia pelos quarenta anos mas ainda enxuta, depois disto só a Riviera Francesa, felina ia dizendo às vizinhas que se falava dum convite do príncipe para os visitar no Mónaco no Verão. Guiando o Citroen boca de sapo que recentemente adquirira, o provedor, também administrador da Caixa, saiu direito à quinta, um telefonema da secretária informava que eles chegariam pela uma menos cinco, pontualmente, tinham trinta minutos, pela estrada de Sintra desceriam ao Lourel, guardas republicanos com farda de gala estavam já espalhados no percurso.

À porta da Quinta uma passadeira vermelha ladeada com jarrões de hortenses adornava a entrada, os jardins haviam sido arranjados, uma trintena de convidados aguardava já, o capitão Américo Santos, o dr. Forjaz, presidente do Sintrense, o governador civil de Lisboa, Mário Madeira a vereação, toda a beautiful people de Sintra e não só comparecia na ânsia de se fotografar com os príncipes, de soslaio as senhoras comentavam os trajes, a lambisgóia da mulher do juiz Pinheiro, metade da idade dele, era a mais provocante. “Parece uma zorra, a flausina!”- comentou Graciete com o marido, endireitando o vison sobre o ombro.

Os sapatos novos apertavam, mas havia que sofrer, era um bocado só. Avisados pela sirene dos batedores, todos se perfilaram quando o carro dos príncipes chegou à Ribafria. Cumprimentos, apresentações, os risos de circunstância sucederam-se. O visconde de Asseca, presidente da Câmara, fazia as honras com Jorge de Melo, chegada a vez do provedor e de Graciete pediu-lhes que avançassem para os saudar, Graciete, excitada e nervosa, precipitou-se para a frente, mas enfiado o salto do sapato num buraco desiquilibrou-se e o pequeno lago com peixes ao lado logo recebeu a visita da vistosa senhora e do vestido de vinte contos, para perplexidade dos presentes e riso de vingança das demais senhoras. Rainier, cavalheiro, tentou levantá-la, em pânico e descorçoada, Graciete dava nas vistas mas não pelas razões que imaginara. Aproximando-se um fotógrafo, divertido pela cena caricata, longamente se demorou disparando flashes sobre a molhada e agora murcha esposa do provedor da Santa Casa de Sintra.  Sairia enfim no Paris Match, mas não pelas razões que antevira….

publicado por Fernando Morais Gomes às 06:31

19
Mai 11

Faltou a luz, eram seis da manhã. Luís Filipe chegara da Concha, no velho dancing da praia toda a noite abanara o capacete com a Ângela, o Valério deixara entrar sem pagar. Toldado pelas cubas libres, embalado pelos Duran Duran, o carro do pai não pegara e voltaram a pé, quatro quilómetros até Janas. Toda a noite chovera, normal em Novembro, no dia seguinte o pai fazia anos, passaria pelas brasas até ao meio-dia pelo menos, a tia Glória viria de Lisboa para jantar. À saída da Concha a chuva estava mesmo pegada, na Praia das Maçãs nem vivalma, só eles, malucos, a curtir a noite, habitual há mais de seis anos.

Com a boca a saber a papel de música, que  as misturas não perdoam e deixada Ângela em casa, atirou-se para cima da cama, na vidraça a chuva flagelava, sabia bem o remanso do edredon e ouvir chover lá fora, as coisas com a Ângela prometiam, na noite seguinte tomariam café no Bibió.

Até ao meio-dia pareceu um lapso de segundos, a mania de abrir as cortinas a desvendar o dia interrompia o sono dos justos após mais uma noite de farra, a Miquelina anunciava o almoço, a senhora queria que o menino almoçasse com o senhor engenheiro, era o seu aniversário.

Enfiada uma T-Shirt dos Ramones, desceu para a sala, lá fora, o Crispim, o velho caseiro chegava assolapado. Fora uma desgraça dizia, Luís Filipe alheio, roubava uma maçã, mais uma derrota do Sintrense, por certo, o velho era ferrenho, fora defesa nos tempos de jovem:

-Ui senhor engenheiro, nem queira saber! O rio subiu mais de seis metros! Em Colares, até os tonéis do ramisco andam a boiar cá fora, o Cantinho e o bananeiro, está tudo debaixo de água!

O pai de Luís pasmava:

-Coisa estranha, Crispim, aqui choveu muito, mas nada do outro mundo. Destes por alguma coisa, Mafalda?- sondou junto da esposa, que aquecia o leite na cozinha, enquanto a Miquelina fora ao pão.

-Não, nada de especial. Só se o teu filho deu por algo, andou na vadiagem!- virando-se para Luís, ainda rameloso da noitada, este estava a leste, chovera mas nada demais, eram uns exagerados.

Chegada a Miquelina, sem pão, que não conseguira lá chegar, a velhota benzia-se, ainda com o saco na mão:

-Benza-o Deus, que coisa nunca vista! O meu primo Júlio, que mora ao pé do rio, lá em Galamares, ficou sem nada! Até o frigorífico apareceu em Colares, ao pé do Grémio! Isto quando Deus quer!..

Reparando bem, a luz que voltara pelas nove, fraquejava e não tardou a sumir pelo resto do dia, o jantar de anos do engenheiro estava estragado, a tia telefonava a dizer que de Sintra para baixo não se passava. Maroto, o Crispim ainda confidenciou aos patrões:

-Parece que a Micas, a minha prima, quando veio a chuvada estava enrolada com o Noel, o marido veio a correr a saber se ela estava bem e apanhou os dois em casa dele, com a cheia ele não pôde sair, nem quero pensar a sova que a magana vai levar! -afirmava, solidário com a justiça de macho, a mulher do engenheiro, incrédula calava, nunca dera saída a conversas deste tipo com a criadagem.

Luís decidiu ir ver os tais estragos, uns pinguitos pela certa. De bicicleta,desceu o pinhal de Janas, saído o Mucifal, uma massa de água castanha e com detritos invadira a várzea, entre as maçãs e damascos pululavam desgovernados fogões, mesas, roupa e lixo, junto ao rio a água subira seis metros, até em Colares os carros dos bombeiros ficaram alagados. Passando o Cantinho com água pela cintura, foi ver o mar na Praia Grande, mas a velha ponte ruíra, só por Almoçageme se chegava, falava-se que uma ponte militar ia chegar em breve. Em casa de Ângela, nada sucedera, no Penedo, zona alta, só árvores caídas e a falta de luz denunciavam a passagem da revoada, um rádio a pilhas dava nota de grandes estragos na linha de Sintra, no Jamor e na Ribeira das Jardas a água galgara as linhas de água, a construção em leito de cheia era agora castigada pela Natureza, cruel e sem apelo.

Com o passar do dia, a coisa adensava: todos os galináceos da Ermelinda haviam morrido afogados, a Jacinta ficara sem nada, até a cama foi rio abaixo, levada na enxurrada, a paróquia acolhia alguns, dando-lhes leite quente e cobertores, o engenheiro e a mulher, cancelados os anos foram ajudar os vizinhos, sem luz a festa estava estragada.

Noite cerrada, passada a borrasca, mortos e feridos testemunhavam a fúria dos elementos. Chorosa, recolheram a Jacinta e os seus dois pequenos, pijamas de Luís Filipe, apesar de grandes, refreariam o frio e o terror espelhado nas caras, o dilúvio passara rápido e sem perguntas. Sem luz, ricos e pobres carpiam mágoas de quem nada pode, fogo ou água, Sintra deles tem visita de tempos a tempos. Antes que o dia 19 virasse no calendário, Luís Filipe, já a ressaca da véspera ia longe, depois dum dia tenebroso, puxou do isqueiro, e juntando todos na cozinha à luz de velas, propôs que cantassem os parabéns, com chuva ou sem ela, eram os anos do pai:

-Parabéns, velho! - saudou, dando um beijo na face do pai, para ele mais um aniversário, para muitos um dia que por certo não desejariam recordar. Aos poucos, o rio de Colares acalmava e recolhia das margens, após a fúria passageira, era tempo de reconstruir.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:27

18
Mai 11

             Presidente Craveiro Lopes em Sintra, 1957

 

O telegrama não deixava dúvidas, o doutor Salazar convidava o presidente da Câmara de Sintra, César Moreira Baptista para Secretário Nacional da Informação. Tinha data de 1 de Fevereiro de 1958, a posse seria a 26. No seu gabinete, ufano, o homem que há cinco anos “ a bem da Nação” conduzia os destinos do concelho era chamado a um alto cargo, porfiara a sua postura labiosa e reverente, acondicionando a brilhantina no cabelo, era chegada a hora de Baptista. Chamando a secretária, para reunir os colaboradores, deparou no claustro da Câmara com o Carlos Brousse, funcionário com anos de serviço, sem resistir desabafou:

-Ó Brousse, ainda bem que o vejo! Já sabe da novidade? O doutor Salazar chamou-me para o governo!

Habituado às rotações dos presidentes, este para mais de Cascais, Carlos Brousse sem grande júbilo e moderada satisfação, cumprimentou o novo secretário, a Nação ficava enriquecida com tão eloquente contributo, rematou, cumprimentando com uma vénia o ainda presidente. Moreira Baptista, aguardando pelos outros, chamou-o para o gabinete:

-Ah, mas vou sentir saudades disto, Brousse. Já avisei o Medina do Jornal de Sintra e o Américo Santos, vêm aí agora!

-E logo agora que anunciou o teleférico para Sintra…- recordava o Brousse

-Ah, sim, mas dentro de seis meses será uma realidade! E o hospital se tudo correr bem, para o ano! A política de fomento do senhor presidente do Conselho trouxe Portugal ao encontro glorioso com a sua História!- emulava o escolhido, chafarizes só recentemente inaugurara sete.

No ano anterior, Sintra tivera momentos de bulício na sua tradicional pacatez, Maria Almira, a filha do Medina e poetisa em ascensão editara o livro “Madrugada”, a orquestra de Domingos Vilaça abrilhantara A Tarde das Estrelas na Sociedade União Sintrense, o presidente Craveiro Lopes com pompa inaugurara a electrificação da linha de Sintra, abrira a Casa Museu Leal da Câmara. A operadora do PBX, também recentemente inaugurado, anunciava uma chamada, era o Visconde de Asseca, o homem da União Nacional, Moreira Baptista acorreu obediente, o regime e a Pátria sempre em primeiro lugar, o visconde estava a caminho de Sintra.

Duas horas depois reuniam todos na sala das sessões, a hora era de júbilo, apesar de tristeza pela partida, interiormente Asseca cogitava se não seria ele o novo presidente nomeado pelo Governo. Após os abraços, e chegado o Medina do Jornal de Sintra, D.António Corrêa de Sá, visconde de Asseca usou da palavra:

-Meus senhores, é com a voz embargada pela emoção mas peito inchado e explodindo de alegria que saúdo a nomeação para as altas funções de que vai ser investido o Sr. Dr. César Moreira Baptista! Recordo a sua extraordinária obra, a inauguração do campo do 1º de Dezembro, a compra do Casino, a abertura de Seteais ou as extraordinárias piscinas da Praia das Maçãs. Creia-me, Excelência, consigo o progresso chegou a Sintra, ombreando hoje com as terras mais prósperas de Portugal e até do mundo, onde Portugal é farol de fé e exemplo de bem fazer!

O homenageado corava, a bem dizer limitara-se a inaugurar, já vinha tudo de trás, muitas obras eram de particulares, as palmas e os “muito bem” dos presentes acicatavam-lhe interiormente a vaidade. O Medina, tirando notas, aplaudia, em mais de vinte anos outros presidentes haviam passado, várias vezes noticiara obras que nunca saíram do papel, matreiro, à parte comentava com o Brousse:

-Então e a seguir? Já se sabe quem será o substituto?

-Ainda não. Pode ser o visconde, ou o Joaquim Fontes, o médico…

-Seja lá quem for, que seja melhor que este penteadinho. Agora vai lidar com a Censura…- Medina aludia a um dos pelouros do novo secretário da Informação, o exame prévio, já com eles tivera problemas e a Almirinha era suspeita de companhias indesejáveis. Em surdina lançou a novidade:

-Soube que o Carlos da Paula quis alterar o uso do Sintra Garagem? O tipo ali não deixou. Tomou-o de ponta…

Entre o grupo, Eduardo Gaio falava agora, Medina e Brousse acompanhavam nas palmas sem ouvir o que dizia, o director do Jornal de Sintra acabava de reunir com um grupo de  jardineiros  que pediam divulgação para a  Festa da Dália nos “Aliados”, em S. Pedro, a orquestra Os Marmorites, de Pêro Pinheiro actuaria inclusive, o homem de Tavarede nunca dizia não às colectividades locais.

Parada no tempo e em dias a sépia, Sintra crescia lenta nesses tempos, sonolenta princesa às portas da cidade grande. Zona balnear em expansão, só algumas terras tinham água canalizada e luz, o festival de Sintra e o baile das Camélias animavam a “saison”, onde a burguesia local exibia chapéus e filhas casadoiras, era o tempo inocente dos jogos florais e das construções na areia. Em S. Pedro campeava a guerra entre caracóis e papo-secos, contra e a favor da fusão entre Aliados e 1º de Dezembro, com pompa e notícia no jornal o Carlos Manuel inaugurara quatro anos antes o Cinemascope, grande atracção, com direito a camionetas especiais e excursão. A Serra, serena, assistia, imutável.

Marcado o jantar de despedida, no qual a melhor sociedade local com encómios se despediria do amado presidente, Brousse e Medina saíram para a Vila, a comentar o caso na Camélia. Joaquim Fontes, soube-se depois, seria o sucessor, Asseca ficaria para mais tarde.

Dezasseis anos depois, a 25 de Abril de 1974, César Moreira Baptista era ministro do Interior do regime deposto e um dos dois ministros que acompanharam Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, e o seguiram para o exílio no Funchal. Em Sintra, ninguém mais lembrou o estimado presidente de 53 a 58, os presidentes iam passando, o Brousse, esse, foi ficando até aos anos noventa. Morreu há três semanas.

            César Moreira Baptista(o terceiro, segurando a ponte)

publicado por Fernando Morais Gomes às 01:10

17
Mai 11

Aquele 20 de Janeiro de 1554 parecia auspicioso. Póstumo do príncipe D. João, único herdeiro de João III, a descendência ficava assegurada por auspiciosa dádiva de Deus, Sebastião se chamaria, por nascer no dia de tal santo, desejado herdeiro do velho rei a quem todos precediam em precoce encontro com a morte. Três anos depois, o Piedoso morria e na débil criança se focava a  esperança de continuar o Reino. Serafim entre velhos, crescendo com a avó beata entre inquisidores cardeais, à noite nebulosos jesuítas lhe apareciam em pesadelos, mortificando-o por lhe ser negado o carnal desejo, mortal pecado em reino casto e de castrados. Sem pai antes de nascer, mãe distante, nele viam os grandes monge e militar brioso, destinado à Ultima Cruzada, glória das armas , temerário aos perigos. Caçador audaz, émulo de Nun’Álvares, Inverno em Sintra e Verão em Almeirim, em dias de temporal folgava de embarcar nas galés e absorto ao longe contemplar o mar embravecido, do lado de lá estaria um dia o seu destino. O amor, efeminado sentimento vedado a guerreiros  mumificados idosos lhe tiravam, jovem e garboso o afastariam de Belzebu. No leito, Sebastião padecia na carne. Fraco sémen, agoirara o médico enviado de Espanha pelo tio Filipe, aziago acidente de caça causara o mal, atroz dor nos momentos de prazer, segredara o padre Câmara do alto da batina negra, o audaz guerreiro e  predador de ursos em Sintra temia pelejar a batalha maior que o Reino exigia: procriar, gerando descendência aos Avis e segurança aos povos. Pior que mouro infiel ou javali acossado eram essas figuras maléficas, esses chifrudos disfarçados de fêmeas de alvos peitos que pela fé  deveria evitar,apartando-se de  impuros leitos onde, frágil, seu sexo faria por certo zombar tais corpos ávidos da luxúria que, qual novo Condestável, era seu mister matar. Todas as que lhe ofereciam, sinuosas cria já ter visto em telas de Brueghel e Dürer, os monstros satânicos surgindo de escuros esconsos eram gulosas fêmeas predadoras, no campo de batalha e longe delas se redimiria, a descendência podia esperar. Como as cortes insistissem para que escolhesse noiva entre  princesas europeias, simulou resignar-se, escolhida foi Margarida de Valois, a bela Margot. Espanha opunha-se, tratou de oferecer a arquiduquesa Isabel, mas o tio,Filipe II casou-a com o rei de França, Carlos IX. Sebastião, politicamente desagradado mas intimamente satisfeito, tomou a deixa como pretexto para  recusa em novas negociações para um casamento, ao enviado Nicot despachou com azedume, por uma vez, aliviado, adiava expor as agruras do corpo no delator leito de núpcias. Estavam seguros os jesuítas, e seguro o louro pupilo, possuído à noite por fantasmas. Mandando abrir os túmulos dos antepassados, extasiava-se diante dos guerreiros, mostrava desdém pelos pacíficos, índole destemperada e bravia febril servia o jogo jesuíta. Abstémio na alcova, corajoso porém no Campo de Marte: vindo um legado papal convidá-lo para cruzada contra os turcos, abraçou com entusiasmo a ideia, informou Veneza que marcharia em auxílio, escreveu ao Xá  dos persas para que atacasse pelo Oriente, que os cristãos o atacariam pelo Ocidente. A Carlos IX mandou dizer que aceitaria  Margot se ele entrasse na cruzada. Não só se resignava ao casamento, como recusava o dote, e se comprometia a pagar a Carlos para guerrear os huguenotes do seu reino, a Valois contudo era já noiva de Henrique de Navarra. Ansioso por glória resolveu passar à Índia, dissuadiram-no da ideia; quis partir para África, também disso o dissuadiram; pensou  aprestar frota para socorrer Carlos IX na guerra aos huguenotes, a matança de São Bartolomeu dispensou tal auxílio; quis ir ao Oriente, tempestades no Tejo lhe dispersaram a frota. Sebastião de Portugal, coroada criança,  sonâmbulo errava em febril loucura. Em Agosto de 1574 secretamente passou a África, sem prevenir pessoa alguma, terror quando se soube do desaparecimento sem se saber para onde. Tardia carta régia participava a expedição, nomeando regente o cardeal D. Henrique. Os mais autorizados suplicaram-lhe que voltasse. Voltou, mas em estado de tentar nova empresa. A sua hora chegava, a perdição do Reino inexorável aproximava-se na ampulheta do Tempo, perigosamente um herdeiro ansiado faltava no berço vazio do Paço da Ribeira. Sebastião, que tudo deixava entregue a seus ministros, só  em expedição africana pensava. Esse o seu encontro com a História, seu decidido empenho. Munido da espada de Afonso Henriques e de uma coroa de ouro que colocaria quando novo imperador de Marrocos, partiu  num 25 de Junho de 1578 com 800 velas e  18.000 homens rumo ao febril sol africano. Seguia Quixote e seus hipnotizados Sanchos, sem Dulcineia para amar,  em silêncio chamado pelo Adamastor do deserto, cadáver antecipado dum reino em breve cadaveroso. O choro tranquilizador dum herdeiro afastava-se imprudentemente dos salões do Paço. Jovem sem juventude, infante  infanticida do Reino,breve nas areias de Marrocos o rosto alvo,ceifado na certa por personagem de Brueghel, inerte sorria olhando o céu na tarde desse infausto Agosto. Á mesma hora em Paris, Margarida de Valois, infeliz esposa de Henrique de Navarra e sem saber do sucedido, acariciava um retrato a óleo de Sebastião. Imberbe, puro, talvez com ele pudesse ter sido feliz. Também para ela o amor fora adiado, enterrado nos salões do Louvre num atribulado casamento de Estado. No solo de Larache ou nos salões de Paris, vidas se perdiam, e povos também. Começavam enfim as  manhãs de nevoeiro…


publicado por Fernando Morais Gomes às 03:18

15
Mai 11

Detective privado, fazia alguns dias que Fernando vigiava a casa de Sílvia no Linhó, dia e noite. Apesar de cansado, passaria essa tarde no Diogo a tomar uns copos e relaxar. O Salla abria às cinco e fechava à meia-noite, espaço acolhedor, ambiente familiar, os frequentadores quase todos habituais. Fernando vigiava Sílvia por conta do marido, o dr. Ramos, que suspeitava que ela o enganava, tencionava usar o adultério como motivo para o divórcio sem que ela lhe ficasse com os bens, por sinal vultuosos.

Sílvia efectivamente andava com Artur, um funcionário da Câmara, Fernando  já os fotografara a entrar para o Requinte. Pelo Diogo do Salla ficou sabendo que a Sara era amiga comum. Com facilidade, Fernando induziria Sara a marcar um encontro, para saber mais sobre Sílvia, o suficiente para chegar até ela. Marcaram um jantar os três, Sara apresentá-lo-ia como amigo de infância. No dia acordado, no Tulhas, Fernando ao ser apresentado, fingiu um acesso de memória, dizendo ter a impressão de já a ter visto antes com um seu amigo. E descreveu Artur, lançando a cilada. Discreta, Sílvia rodeou o assunto, identificando o amante como seu irmão, sem abrir o jogo.

Fernando lá foi dizendo que o seu maior prazer era fazer amigos e no fim do jantar propôs novo encontro, na Mourisca. Nessa noite, ficou claro que ela estava tensa, bebendo em ritmo mais rápido que ele. Isso não surpreendeu Fernando. Se ela tinha a noção do adultério e frequente discutia com o marido, o seu cliente, era natural que estivesse sob grande tensão. A coisa pareceu descomprimir quando Sílvia começou a questionar Fernando, o que fazia, se era casado, como conhecera Sara, se era frequentador habitual do Salla de Estar. Fernando, sem abrir o jogo, disse que era distribuidor de bebidas, embora o negócio estivesse entregue a um sócio. E arrematou dizendo que continuava nesse trabalho porque até aquela altura não  descobrira  nenhum que o atraísse. O que gostaria mesmo era de viajar e fazer amigos. Casamento, nem pensar, ironizava.

Ela precisava de um amigo, alguém com quem pudesse falar, a ponto de esquecer o conflito interior em que estava metida. Começou a olhar Fernando visivelmente interessada, que nesse momento experimentou o desagradável sentimento de estar a ser traiçoeiro. Sentia-se envolvido por Sílvia, agora, pela sua aparência e inteligência, o que tornava palpitante o seu coração solitário, esquecendo os motivos que o levavam até ela. O interesse agora não era já só profissional.

Álvaro Ramos contratara Fernando por indicação sigilosa de um amigo advogado, para quem ocasionalmente trabalhara. Não há como quem trabalhe sozinho, e com discrição, salientara. O seu suposto trabalho de distribuidor era um bom álibi, pois não podia circular com à vontade se o seu trabalho fosse percebido pelos seus alvos.

Sílvia também começou a demonstrar interesse por Fernando. Ela mesma tomou a iniciativa de lhe telefonar. Estava só e queria falar. Ele perguntou por que não se encontravam pessoalmente, ela concordou, mas pediu que fossem para lugar discreto, Fernando concordou, sem pedir explicação. Sorriu intimamente quando ela mencionou o Salla, mas ali era o seu poiso habitual, conhecia opções mais afastadas. Encontraram-se na praia, e o clima de romance logo se estabeleceu, ao início fisicamente contido e titubeante, sem perguntas, como se cada um soubesse os passos a dar. Amaram-se enfim no Hotel Miramonte, revelando o que lhes ia nos corações. Quando se despediram, Sílvia finalmente se abriu e contou que tinha um amante, um homem de personalidade forte, um homem que sempre fazia o que queria, e que era casada. Mas não revelou nomes, nem Fernando perguntou, disfarçando saber tratar-se de Artur e de Álvaro. Precisava manter a relação com Sílvia, quanto mais não fosse, por motivos profissionais. Aceitou a pretensa novidade, enquanto ela se mostrava carinhosa e amiga. Movido por um ímpeto, ganhou coragem e dias mais tarde, durante novo encontro no hotel, perguntou-lhe pelo relacionamento com o marido e o amante. Ela sorriu levemente, inicialmente não respondeu, ele não insistiu. A pergunta fora feita, era esperar que encontrasse o momento para responder.

Esse momento não demorou. Terminara com o amante na véspera, não sentia mais atracção por Artur, tornara-se violento. Mas tinha medo de Álvaro, era  ciumento e vingativo. Fernando permaneceu em silêncio, ela tinha tocado na questão central, tinha medo, ao mencioná-lo evidenciava a necessidade de compartilhar uma terrível angústia. No fundo, só queria ser amada, duas vezes falhara já, com os homens errados. De repente, ainda na cama do quarto, Fernando confessou-lhe que era um detective particular, sem mencionar o caso em que estava a trabalhar. Sílvia arregalou os olhos. Fernando, num assomo de franqueza, confessou que a investigava por conta do marido.

-Então isto é uma cilada! -reagiu ela, saltando da cama, ainda nua.

-Foi, no início, agora não é mais- atalhou ele, segurando-a por um braço- Deixou de ser na noite em que nos conhecemos. É claro que eu continuo comprometido com o caso, um compromisso que quero resolver, mas não quero perder-te. E hoje, o que mais quero é tirar-te desta enrascada e do teu marido.

Instintivamente, Sílvia decidiu confiar em Fernando, não suportava mais a angústia solitária, afeiçoara-se-lhe, o cheiro do seu corpo despertava-lhe as feromonas. Fernando continuou:

-Escuta, vou contar ao teu marido que não há amante nenhum, tu alegas que ele, desconfiando de ti, destruiu o vosso casamento. E assim pedes tu o divórcio com partilha dos bens em partes iguais! Ele não tem nenhumas provas, eu não lhas darei, confia em mim!

Fernando arranjaria as coisas, ela ficaria de fora. Como Álvaro era odiado por muitos, nenhuma suspeita cairia sobre ela, Artur sumira e ele era o amante mais improvável possível. Informado o cliente, que ficou furioso, referiu esperar que o compromisso contratual fosse cumprido, e deu o caso por encerrado, absolvendo a amante de ser amante de outros, ironia do destino...

Três meses depois, o divórcio, amigável mas contrariado, lá saiu, sem culpas  de parte e financeiramente generoso para com Sílvia. Mantendo a rotina, Fernando voltou ao Salla de Estar para as habituais imperiais de fim de tarde, novos casos apareceram, investigava agora a mulher dum construtor que se dizia enganado. Sílvia, recente esposa e zelosa colaboradora nas investigações chegaria pelas sete para um jantar à luz de velas em S. Pedro. Top Secret.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:27

Repetia-se diariamente, dois sacos de milho, outro de pão humedecido, os pombos da Correnteza, aéreo exército de Sintra chegavam dos beirados e janelas, dos plátanos e das antenas, para o matinal bodo que o velho Ezequiel para eles preparava, seus alados amigos, rasgando os céus do Rio do Porto e deixando no horizonte o azul libertador do oceano e a fértil várzea.

Serpenteantes patrulhas dos ares do burgo, arrulhando ora exprimiam contentamento pelo sol e pela cor que lentamente a Primavera devolvia, como silenciosos calavam a visão de mais uma injustiça, mais um pedaço da Vila dos Pombos fenecendo, por incúria dos homens, a quem faltaria visão e milho para tais pombais.

Ezequiel conhecia os seus meninos, para cima de cem, à sua aproximação vindo das Murtas de todos os lados acorriam a saudá-lo, do telhado da Câmara e dos plátanos renascendo, após os sanguinários cortes do Inverno, o empedrado do jardim de repente repleto de bicos e asas, columbinas companhias vindas dos céus da pachorrenta urbe, onde alheios, acelerados carros e mais acelerados humanos corriam desencontrados para rotineiros empregos e escolas, hospitais e pastelarias. Ezequiel, viúvo e solitário passava alheado, o seu mundo eram os seus pequenos companheiros, ora arrulhando contentes, ora rasando rasteiros sobre os telhados vermelhos.

De plumagem cinzenta, mais clara nas asas que no peito e cabeça, cauda riscada de negro e pescoço esverdeado, Óscar era um pombo diferente, a Primavera trazia-o atrás duma fêmea assídua do telhado do Hotel Central. Macho orgulhoso, fazia-lhe reverência e ambos se acariciavam na cabeça com frequentes arrulhos, alimentando-se mutuamente. O ninho estava já feito numa plataforma de ramos, antes que Junho chegasse novos filhotes piariam contentes e promissores. Perigosos funcionários da Câmara procuravam dar-lhes cobro, como se de ratos com asas se tratassem, mas ainda assim resistiam, unidos.

Naquela manhã, Óscar, sempre o primeiro a comer da mão de Ezequiel, vinha estranho, o velho que o vira nascer e ao pai, e ao pai do pai, ficou curioso, o amigo de penas acabrunhado desabafou, denunciando falta de apetite:

-Que se passa, velho amigo? Onde está essa pujança, aquele rei de Sintra conduzindo o mais belo bailado que estas serras já viram?- indagou o velho Ezequiel.

Óscar trazia um olhar perdido, mortiço, conhecia aquelas cúpulas e troncos, todas as estátuas e pelourinhos, mas sentia-se angustiado:

-Ezequiel, há quantos lustros renovamos este  encontro diário nas sombras da Correnteza?- perguntou, abúlico.

-Muitos, companheiro, muitos. Do tempo em que o Zé Alfredo ali sentado na estátua fazia aguarelas da Vila e a velha Rita com a cesta à cabeça vendia queijadas na Volta do Duche. Já lá estão, todos!- o velho recordava velhas figuras, cúmplices de passeios e charlas, só os pombos lhe restavam, os outros por certo  voando noutros céus mais etéreos.

-A Vila está a morrer, Ezequiel, todos os dias o sinto. Levaram a cúpula do Paris, o Netto foi ocupado por ratos. Até cães vadios tomaram a Casa da Avó. Está tudo entregue aos bichos!...- o pombo, vigilante de outras Sintras estava melancólico, em silêncio olhava o palácio, majestoso mas deixando transparecer mazelas e  alguma incúria.

-A Vila mudou, Óscar, já lá não nascem humanos e os que restam partem, rendidos aos mercadores de queijadas e aos automóveis invasores. A Vila dos Pombos corre perigo, meu amigo!

Qual velha senhora que com pó de arroz disfarça a crueldade das rugas e a fragilidade da carne, a Vila envelhecia iludindo as visitas com obras de fachada e supostas renovações para que as hordas de calção e óculos escuros se contentassem durante as poucas horas que a invasão durava. O pombo, agora no ombro de Ezequiel, como que revelando um segredo que só eles partilhavam, continuou:

-A Estefânea morreu, Ezequiel. Dá dó o ginásio do Sintrense, os grafittis dos vândalos, os prédios em mau estado. Um destes dias pousei na estátua do Cambournac, e o velho médico chorava, coitado, antes sereno no meio das árvores, agora inerte polícia de um infernal trânsito!

Uma fêmea arrulhando chegou entretanto ao braço de Ezequiel, era a companheira de Óscar, no telhado do Hotel Central dois cúmplices ovos brancos renovavam promessas de primaveras no mundo dos pombos. Óscar, revigorado, acariciou-a com o bico, Ezequiel, pau de cabeleira sorria, a sua pomba partira à muito. Esvoaçando os dois, logo seguidos do fiel bando que ao passar escurecia os céus de Sintra, partiram a patrulhar Seteais e a beber da Fonte da Pipa, no dia seguinte regressariam, como muitos antes deles, no eterno renovar da partilha de pão e milho que só na Correnteza existia. Ezequiel, deixando-se ficar, sentou-se num banco mirando a serra, qual pombo velho partiria também ele um dia, os dias eram cinzentos mas uma réstia de azul invadia-lhe a alma, outros Óscares e outros Ezequiéis renovariam o voo de liberdade na Velha Senhora.

publicado por Fernando Morais Gomes às 04:40

14
Mai 11

Caros Amigos e leitores deste espaço. Hoje parece que é o meu aniversário, como tal apenas um pequeno vídeo da minha canção favorita. Não só porque ao longo da minha vida tenho tentado fazer as coisas my way, como porque é a música que me calha sempre em inenarráveis competições de karaoke(grande sucesso em Havana...). Também porque curiosamente o seu autor, Frank Sinatra morreu num dia 14 de Maio. Façam o favor de ser felizes e até amanhã!

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:41

13
Mai 11

 

 


Finais de 1307, um barco proveniente de Calais chegava ao porto de Lisboa. Entre os passageiros, um cavaleiro templário, envelhecido e com ar  sorumbático, barba ruça esbranquiçada, Bertrand de Clairvaux, era seu nome. Na bagagem, um baú de carvalho de que nunca se afastava. Lopo Guterres e Ramiro de Menezes, irmãos templários de Sintra,  aguardavam-no, avisados por um viajante da chegada de um enviado do provincial da Normandia com uma missão do maior melindre.

-Bem vindo Bertrand de Clairvaux- saudaram, ambos na casa dos quarenta, alguns anos em Gaza, na Cruzada. Um cavalo estava aparelhado para o levar até Sintra, uma mula levaria o baú, ficaria alojado junto ao Chão de Oliva em frente ao antigo paço árabe, em propriedade que El-Rei  Afonso aforara a Gualdim Pais.

-Obrigado, irmãos. Já escutaram por certo o que sucedeu a nosso mestre Jacques de Molay? Os tempos estão agitados, o rei de França está rodeado dos nossos inimigos, conjuram para nos perder...

-Sim, nobre Bertrand, romeiros de França trouxeram-nos  as más novas. O Papa Clemente não pode concordar com essa prisão infame!-respondeu Ramiro, as novas da prisão do Grão Mestre eram difusas, haviam-se inventado até adorações satânicas, naquela sexta feira treze de Outubro Lúcifer abatera-se sobre os Cavaleiros do Templo, todas as calunias serviam, confissões haviam sido forjadas  O rei de França, Filipe ajudado por Esquieu de Floyran, mandara prender sem motivo todos os templários de França e o seu Grão-Mestre, Jacques De Molay. Godofredo de Chorney, provincial da Normandia, avisado previamente da sua eminente prisão, chamara Bertrand, cavaleiro da sua confiança, e encarregara-o de uma missão em Portugal.

Algumas horas depois, chegaram ao bailio de Sintra. Bertrand chegou em silêncio, sempre atento à mula que transportava o pequeno baú. Frugais, não tinham grandes luxos, pelo que o alojaram  numa cela simples com uma pequena janela esconsa virada para o castelo mouro.

Na tarde do dia seguinte, depois da missa, reuniu-se com os doze cavaleiros da vila, o silêncio e o ar solene do forasteiro despertara curiosidade nos templários:

-Amados irmãos do reino de Portugal, venho até vós encarregue duma missão difícil e sigilosa, pelo que tudo o que virem nesta sala ou ouvirem da minha boca não pode jamais transpor estas portadas!

Os cavaleiros, intrigados, juntaram-se em torno de Bertrand, anoitecia no burgo, as tochas alumiavam uma cripta escura e secreta vários metros abaixo do solo. Intrigante, o francês continuou:

O nosso provincial da Normandia, Godofredo de Chorney interpretou a profecia da cátara Esclarimunda como sendo este o local onde  deve ser guardado o conteúdo do baú  que trouxe comigo.

-Dizei tudo que precisares, nobre Bertrand e nosso sangue se necessário for será derramado! -afirmou Lopo Guterres, bravo de  Antioquia, o mais ancião daquele grupo.

-Foi precisamente o sangue derramado que me trouxe até vós- adiantou, intrigante. Dirigindo-se ao baú, de lá retirou um volume  envolto em burel que religiosamente colocou na mesa. Abrindo-o, de lá saiu um cálice, enferrujado pelos anos, que Bertrand exibiu  na direcção dos demais:

-Eis o motivo da minha presença em terras portucalenses!

Os cavaleiros ficaram admirados, que importância poderia ter um cálice escurecido para tanto mistério e aquela viagem  de França até Sintra. Bertrand fez uma pausa, olhou-os um a um, e elevou o cálice ao nível dos olhos:

-Cavaleiros do Templo, perante vós está o sagrado cálice onde José de Arimateia recolheu o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo na hora em que este partiu ao encontro do Pai!

Os cavaleiros sentiram um calafrio, misto de espanto e surpresa, e logo ajoelharam impelidos por um instinto irracional, fazendo o sinal da cruz.Perante eles, ali estava o Santo Graal. Não era lenda de bardos provençais ou alquimistas, a iníqua perseguição que o rei francês promovia à Ordem obrigava a colocar a salvo de mãos heréticas a relíquia há séculos escondida.

-O santo cálice repousava há doze centúrias em Montsegur, onde Esclarimunda, a cátara, o guardou quando José de Arimateia lho entregou, antes de seguir para a Bretanha. -continuou. Só os grão-mestres sabem da sua existência, passando entre eles o segredo na hora da sucessão. Agora ficará em segurança nesta terra, dando cumprimento à profecia de Esclarimunda: “quando o sangue real for turbado, a força da vida repouse lá onde o Ocidente acaba e pinhos verdes invadem o azul”. Aqui, nesta terra de Sintra! -e bateu com a mão no peito, olhar perdido no infinito, a missão quase a a chegar ao termo.

Um a um os cavaleiros contemplaram a relíquia, como se Deus vivo descesse à cripta e ali estivesse com eles, benzeram-se e beijaram-no com particular emoção. Mais tarde  jejuaram e toda a noite velaram  na cripta, rezando e venerando o cálice.

No dia seguinte e antes do pôr do sol, em procissão desceram para uma galeria subterrânea na direcção do paço árabe transportando o cálice numa bandeja de prata. Entraram numa sala suportada por colunas delgadas, e  debaixo duma laje oca aberta nesse dia no maior segredo, depositaram o  cálice que recolhera o último sangue de Jesus .

Bertrand, segurando um archote, virou-se para os cavaleiros e enfatizou:

-Um Templário é  um cavaleiro destemido e seguro de todos os lados,  protegida a alma pela armadura da fé assim como o corpo pela armadura do aço. Non nobis Domine, non nobis, sed nomine Tuo ad gloriam!(#). Coberta a laje, saíram em procissão voltando à superfície, guardando o segredo sobre a sagrada relíquia.

Sete anos depois, Jacques de Molay foi supliciado depois de  terríveis torturas e provações e Clemente V extinguiu a Ordem do Templo e expropriou-lhe os bens. Por cá, D. Diniz complacente, criou para eles a Ordem de Cristo e como tal continuaram, em Sintra e noutros lugares, com a sua cruz obnubilada se abriu o mundo em velas portuguesas mais de cem anos depois.

Na noite dos séculos, o Santo Graal continua a repousar naquele chão, uns metros abaixo do Café Paris….

(#)Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória

 

SOBRE OS TEMPLÁRIOS EM SINTRA, MEU ARTIGO EM

http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/noticias/474-vestigios-templarios-em-sintra

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:45

12
Mai 11

No cais do Restelo, Bartolomé Marchione suscitava bulício e dava ordens no seu cantante sotaque florentino, língua de poder e de dinheiro. Fixara-se em Lisboa muito jovem, atraído pelos sucessos marítimos dum reino lontano, e logo  participara no financiamento da frota enviada pelo Príncipe D. João às costas da Guiné e à guerra contra Castela.  Importante negreiro, judeu converso, ajudava a forte ligação com Isaac Abravanel, grande banqueiro de Lisboa, que financiara  Colombo.

Passadas três fartas décadas, prosperara, Lisboa sorrira ao florentino, sagaz e cauteloso, mas empreendedor e de mão firme. No tempo do Senhor D. Afonso V negociara em marfim, lançara-se depois na malagueta, D. João II dera-lhe a Casa dos Escravos. Todos os cativos que saiam da Guiné, passavam-lhe pelas mãos, seus igualmente os negócios do açúcar e vinhos da Madeira que exportava para os Medicis e para Bruges. Quando D.Manuel proibiu os estrangeiros de se dedicaram ao comércio do açúcar da Madeira, os únicos excluídos foram dois florentinos: Marchione e o seu sócio Sernigi.

Sernigi. Jerónimo viera com ele, juntos haviam acumulado fortuna entre o partir e o chegar de navios, no escambo e comércio, com alguma usura pelo meio, o tráfico de favores facilitador.Dias antes a Rainha D. Leonor recorrera aos seus serviços para  enviar açúcar e  especiarias para o Mosteiro della Mureta, em Florença, Jerónimo Sernigi de tudo tratara, o favor não ficaria por retribuir. Haviam sido eles, aliás, quem em tempos financiara já a viagem de Pêro da Covilhã e Afonso Paiva em busca do Preste João.

Num sagaz jogo duplo, ele e Sernigi espiavam igualmente para os florentinos, passando-lhes informações sobre as descobertas dos portugueses e aquele Mar-Oceano que não cessava de aumentar os domínios dos Avis. Recordava bem ter sido ele a informar do regresso de Cabral dessas estranhas terras de Vera Cruz. Em Espanha Juanoto di Barardi, filho do seu sócio Lorenzo e Cesar Barci faziam o trato dos escravos, e reforçavam a rede de contactos.

Uma nau recortava o horizonte agora dos lados da nova torre. Em Belém, açafatas e aguadeiros corriam agitados, era o barco de Antuérpia, a carregar. Chegadas e partidas eram sinal de maravedis, ouro, especiarias, poder, o poder dos Marchione na Lisbona fervilhante, capturada dos seus sacos de moedas e armazéns repletos.Depois da chegada de Vasco da Gama da Índia envolvera-se também no comércio asiático, depois com o Brasil. Na expedição de Pedro Álvares Cabral seguira uma nau sua, a Anunciada, em sociedade com Sernegi. Como em todas, aliás: na armada de 1501, comandada por João da Nova, às suas custas seguiram duas das quatro naus, na de 1502, às ordens de  Vasco da Gama, uma, em 1503 outra com Afonso de Albuquerque, três em 1505 na de Francisco de Almeida.

Há longos anos em Portugal, amava o reino e seus sucessos, e assim se alvorava, perante o rei e o povo. Quando desafortunadamente um dos seus navios foi apresado pelo corsário Giustiniani, próximo de Marselha, afirmou a sua condição de súbdito do rei de Portugal, e foi nessa condição que o navio lhe foi devolvido por Génova.

Com o peso da idade, recolhia-se mais nas casas da Caparica, com Catarina Mendes, o ano de 1524 chegava ao fim e os negócios estavam resolvidos por essa semana. Passando pelo Mal Cozinhado, a tomar um prato de sopa, cruzou-se com duas mulheres que aceleradas corriam para o piso de cima, uma estaria a ter hora apertada, dizia o estalajadeiro:

-Porfie o rebento diferente do que sua mãe porfiou, Senhor, pois pobre de fazendas como nasceu maleitas e arrelias lhe hão-de sobrar!- arengava o taberneiro, servindo o florentino senhor de fartos cabedais. Bartolomé concordava:

-Tem este Reino índias tais e tão desvairadas gentes que por elas se perderão muitos dos seus, ricos e pobres, Brás Ramires!

Passados uns momentos, uma velha parteira com o nascido ainda em sangue passava a banhá-lo, e dar-lhe peito, que a mãe ficaria no recobro, Marchione, curioso, perguntou quem era a embaraçada:

-É uma perdida da vida, Senhor, mulher de muitos homens, ave de muitas naus, no porão duma diz ter homem de Galiza desfrutado dela.

-E como se chama o infeliz que ora vem ao mundo a engrossar os porões das naus, se a peste ou moléstia o não levar antes?

-Camões. Houve por nome Luís de Camões.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:37

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