por F. Morais Gomes

09
Jun 11

João Pedro desesperava por um emprego, já fora a dez entrevistas, aos currículos enviados perdera a conta, quarenta e seis anos e um curso dos liceus, pouco podia aspirar, desde que fechara a agência de viagens onde estivera dez anos. Naquele sábado decidira fazer uma pausa na procissão das entrevistas, o Alberto fazia anos e convidava para uma sardinhada, apesar da crise era preciso desopilar, que diabo, os dias estavam bons e a churrasqueira do Alberto em Janas sem uso há algum tempo.

Iriam o Eduardo, o António Jorge, e as mulheres, ao todo sete, com a mulher do Alberto, por ele iria sozinho, a Fernanda não estava sociável, e ultimamente virara vegetariana, o colesterol a trezentos impunha restrições. No dia seguinte seriam as eleições, estava farto de comida de dieta, um franguinho no churrasco ou uma entremeada regada com o Reguengos que o Alberto tinha a estragar na garrafeira ajudariam a minorar as agruras da vida.

No sábado de manhã ainda deu um passeio de bicicleta, a salada russa do jantar da véspera deixara-lhe um ratito, atestou no café do Carlos com uma sandes de presunto e uma cola, mais pelas onze chegar-se-ia para a casa do Alberto, a ajudar a acender o lume e fazer as brasas, o cheiro a pinhal e a visão da serra limpariam a vista da selva de prédios de S. Marcos por umas horas.

À chegada, já o Alberto punha sal nas sardinhas, uma aparelhagem espalhava alguns temas da velha guarda, Springsteen e Rod Stewart, o ambiente prometia. Era um momento de relaxe, não via o dia de deitar para trás das costas a famigerada crise e voltar ao trabalho noutra agência, os tempos iam maus, até as grandes casas fechavam, bem vira o que acontecera com a Marsans.

-Ó João, vens mesmo a tempo! Saca aí desse saco e tira aí as azeitonas, trouxe-as lá do meu sogro, do Alvito. O resto do pessoal deve estar a chegar! –Alberto, de fato de treino e avental, ia abanando o lume fazendo brasas, um tinto já encaminhado abria as hostilidades da manhã, como aquecimento.

-O dia promete! E olha venho com uma fome dos diabos, a Fernanda agora deu-lhe para as dietas e eu é que pago as favas! Raios partam as mulheres! Já me disse que torresmos, paio ou carnes vermelhas, agora não entrava nada lá disso lá em casa!- duas azeitonas abriam já caminho a fazer lastro para o primeiro tinto, ainda o que valia eram estes bocadinhos, a Fernanda que ficasse com as suas verduras e tofus.

Meia hora depois já todos estavam juntos, as mulheres do Eduardo e do António Jorge, velhos compinchas do futebol de salão, levaram quiches e arroz doce, o cheiro a sardinhas e febras emprestava o clima de santos populares tão tipicamente da época, a crise que fizesse intervalo, para evadir nem a televisão ligaram, só os miúdos do Alberto no quarto viam o canal Disney devorando quartos de pizza que depressa aqueceram no micro-ondas da cozinha.

Já duas horas e seis garrafas de tinto alentejano haviam passado, o João Pedro refastelou-se numa cadeira de lona ao canto da churrasqueira acabando um digestivo whisky. O tempo embrulhou-se um pouco, verão envergonhado arrefecera um pouco até, umas picadas no estômago acusaram um mau estar repentino, estava pálido e com náuseas, o Eduardo reparou, e chegou-se ao pé a perguntar:

-Tudo bem, JP?

-Umas picadas… não é nada…

-Queres uma água das pedras? -perguntou a Sílvia, a mulher do Alberto. Ainda agora estavas bem a comer, o que foi que te deu?

João Pedro recapitulou o seu dia. De manhã comera a sandes de presunto e a cola, mais as azeitonas, a entremeada com salada….

-A salada! A salada tinha o quê misturado? –interrompeu, com um súbito agravar dos suores frios. Sílvia franziu o sobrolho, de desconfiança:

-Então, o costume, alface, tomate, pepino, cebola, um pouco de beterraba…

-É isso! Mas como foi possível não nos termos lembrado! Foi do pepino concerteza! Não têm visto essa história da bactéria nos pepinos, já morreram uns poucos na Alemanha!...

-Ó JP, mas isso parece que é só lá. E os pepinos iam de Espanha, não tem nada a ver connosco…- apaziguava o Alberto -além do mais todos comemos, e só tu é que te estás a queixar!

-Eu sei lá se é só dos pepinos espanhóis! Foi do pepino, tenho a certeza! Chama o INEM,depressa, estou-me a sentir muito mal!- João Pedro suava em bica, só o cheiro das sardinhas ainda no ar lhe dava vómitos agora.

O INEM demorou vinte minutos, os amigos à cautela correram a deitar a guardar a salada para análise, ainda pouco crédulos nada levava a crer fosse daí, a Marisa, que lera os jornais falava mesmo ser necessário um certo período para a incubação. O médico do INEM, tirando o pulso ao JP nada dizia de início,, circunspecto, JP entrava já em pânico, desempregado e  agora vítima dos pepinos, que mal fizera ele a Deus, tudo lhe acontecia. De repente, como que acendendo-se-lhe  uma luz vermelha, o médico pediu ao JP que soprasse num tubo que trazia na mala, queria experimentar um teste. JP soprou, olhando o visor do aparelho, o clínico sorriu, e gracejou com JP:

-Senhor João Matos, sabe que esses pepinos que o senhor diz que comeu devem ser mesmo muito maus para a saúde. Por este aparelho aqui têm 2.1 de alcoolemia… Acha que avisemos os alemães?...- cínico, o médico receitava Gurosan e repouso, sem pressa ainda aceitou uma febra no pão que os outros na galhofa logo ofereceram.

Já noite, em casa, onde Eduardo o deixou, com um cobertor pelas costas, Fernanda comia a sua salada, vendo JP naqueles preparos, ficou inquieta. Danado, foi para o quarto, não queria comer nem ver ninguém. Eduardo, trocista, ainda comentou com a mulher do amigo:

-Amanhã a ver se ele come umas saladas, Fernanda. O médico disse que era bom para o fígado….ah, e com muito pepino, é rico em ferro!- ainda rematou, despedindo-se à porta.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:42

08
Jun 11

 


 

 

Majestade

 

Passaram já muitos anos que vos fostes deste mundo, mas não feneceu ainda nestes montes de Sintra a repercussão do vosso nome, pelo bem que fizestes a estas terras e suas desvairadas gentes.

Não faltasse a criação da Academia das Belas Artes de Lisboa, a salvação da ruína do mosteiro da Batalha e do Templo de Diana, o restauro dos Jerónimos ou a descoberta da custódia de Belém, feitos pelos quais o Reino muito vos deve ( e que levou o insigne poeta Castilho a baptizar-vos como Rei Artista, igualmente em louvor da vossa magistral voz de barítono), faltava o toque de Midas que se traduziu na celebração da Arte com a construção dos vossos aposentos e jardins na Penha, santuário de amor a esta Pátria que um dia fizestes vossa e amastes como seu filho agradecido, por amor a ela tendo renunciado aos tronos de Espanha e Grécia que vos foram oferecidos.

Sabemos, Majestade, que  com a vossa amada condessa Elise descansais etéreos nos jardins da Pena, ouvindo as cigarras matinais e tratando as buganvílias e camélias que bordejam o pequeno Chalet agora restaurado para vos receber e apaziguar o descanso da alma. Estivemos na reabertura e bem vos vimos e à condessa, sorridentes atrás duma àrvore, e como emocionados ficastes quando novas flores foram plantadas, voavam silfos em vosso torno e a condessa Elise, embevecida, acariciava-vos a mão. Muitos dos que cá estamos também celebrámos, não pela festa dos políticos presentes para o daguérreotipo ou o croquete, mas porque guardado o Éden, aconchegadas ficam nossas almas e consciências na hora que passa.

Como sabeis é com pesar e angústia que verificamos que os Pares deste Reino se digladiam em lutas estéreis em torno dos negócios da Fazenda, pouco acarinhando o precioso legado por vós erguido, minado ainda por novas espécies invasoras, não a filoxera ou o oidium, mas sim os automóveis, essas máquinas horrorosas. Alguns entre os vossos súbditos serão merecedores do título de guardiães do legado, (e há-os, felizmente) outros, analfabetos do Saber apenas se batem por sinecuras e benesses que a fama de  administrar o mesmo lhes proporciona.

Aproveitava para vos pedir que intercedêsseis junto das autoridades, que não vos deixarão de ouvir, no sentido de acautelar o futuro desse legado, e hoje, em particular, da Quinta do Relógio, nas encostas da estrada da Pena, vossa vizinha, cujo futuro as populações vem preocupando, a fim de que se lhe dê um destino digno e ao serviço da grei e do reino. E claro, que o novo ministro da Fazenda não seja avaro em apoios, se bem que a Prússia e as potências da Entente se esforcem por o pressionar.

Esperando que vos encontreis de saúde, bem como a Sra Condessa d'Edla, vossa prestimosa esposa, subscrevo-me com reverência e consideração.

F.,um vosso criado

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:22

07
Jun 11

Adelino Faleiro, professor de História em Sintra, reformara-se havia dois anos. Entretido com os livros e os longos passeios pela praia, a conselho médico, diariamente fazia duas vezes o calçadão da Praia Grande, para trás e para diante, terminando rotineiramente com uma bica no Angra onde o Faísca e o Marinho faziam o ponto de situação do campeonato,ele, sportinguista ferrenho, sempre à defesa na conversa. Estudioso do mar e interessado em naufrágios, recordava que o próprio café onde tomava a bica matinal devia o nome a um cargueiro  ali naufragado anos antes, aberto na altura pelo Fortunato e os filhos, concessionários da praia, tosco na época, hoje muito frequentado, junto com o Galé.

Naquela manhã de Março o nevoeiro caía denso sobre a praia, um vento de nortada soprava a espuma das ondas, frio e cortante. Alheio ao frio, Adelino saiu para o seu passeio pelas oito da manhã, como de costume terminaria com uma bica e a leitura do jornal no Angra. Época baixa, dia de semana, pouca gente circulava, um vizinho do Rodízio passeava os cães, um ou outro surfista madrugador lançava-se às ondas. O cheiro do iodo carregava baterias e abria o apetite para uma sandes de queijo mais tarde. O neto acompanhava-o nesse dia, a promessa de um mp3 tirara o  pequeno Tiago da cama a acompanhá-lo, depois do passeio seguiriam para o shopping às compras.

No horizonte encoberto por denso nevoeiro Tiago, até ali absorto com os seus  headphones,  a dada altura pareceu descortinar um navio. Era muito cedo, o tempo péssimo, tudo bem até ali, o navio porém tinha velas e aparentava ser um barco antigo, como os dos filmes de piratas. Adelino, já fraco de vista e pondo os óculos nada viu porém, podia ser o navio-escola Sagres ou o Creoula, os únicos barcos históricos ainda ao serviço. Tiago desconfiava que não, uma das velas grandes parecia rota e o barco oscilava, como se estivesse à deriva. Acordado para as suas histórias de naufrágios, Adelino, detendo-se no areal, lembrou-se duma história, aquela talvez  Tiago ainda não conhecesse:

-Tiago, alguma vez ouviste falar do “Holandês Voador”?

-“Holandês Voador”? Não, avô, nunca. É algum tipo de avião?

-Não, não…- qual velho lobo-do-mar passou a narrar mais uma das infindáveis histórias de barcos, muitas Tiago já escutara e igualmente interessado sempre absorvia entusiasmado, tinha mesmo no quarto uma bandeira negra de piratas comprada no Toy’s R’Us.

-O “Holandês Voador” foi um navio que há vários séculos navegou na zona do Cabo da Boa Esperança, hoje a África do Sul, sabes? O capitão do navio, Van Der Decken, viajava nessa zona e tinha como destino final Amesterdão, na Holanda. Durante uma tempestade, o capitão recusou-se a desviar o barco, apesar dos pedidos da tripulação. Monstruosas ondas fustigaram o navio enquanto ele cantava canções obscenas, bebia e fumava cachimbo. Desesperados, muitos dos tripulantes amotinaram-se. O capitão, alcoolizado, matou o chefe dos revoltosos e atirou o corpo ao mar. No céu, as nuvens abriram-se nessa altura e uma voz veio de cima: “És um homem muito teimoso”,disse zangada a voz, ao que o capitão respondeu: “Eu nunca pedi uma viagem tranquila, eu nunca pedi nada, então, sai daqui antes que eu atire em ti também”. Van Der Decken apontou ao céu mas a pistola explodiu-lhe na mão, e a voz lançou-lhe uma praga: “ Por este teu acto,ficas condenado a navegar pelos oceanos pela eternidade com uma tripulação fantasma de mortos e nunca mais terás descanso. Bílis será a tua bebida e um ferro quente marcará a tua carne”.

A história fascinara Tiago, era um pouco parecido com a narrativa dos Piratas das Caraíbas, com o Johnny Depp, ao fundo ainda enevoado o barco disforme continuava a oscilar, Tiago jurava mesmo ter ouvido tiros de pistola na direcção do céu. O avô, sorrindo, descansava-o, era uma lenda como muitas outras, os mistérios do mar imenso e mentes febris sempre haviam inventado histórias mirabolantes, minutos mais tarde já o barco desaparecera na direcção norte, ao longe apenas mar e as Berlengas. Já a caminho do Angra, Adelino concluiu o relato ao neto:

-Há muitos relatos de avistamentos do “Holandês Voador”, muitas vezes por marinheiros experientes, outras por olhares toldados pelo álcool. A minha convicção é a de que o capitão vai errar para sempre, com as suas blasfémias e a sua mão queimada…

Na esplanada do Angra, eram agora dez horas, o nevoeiro dissipara-se, mais surfistas se juntavam agora no areal desafiando as ondas frias, no horizonte, apenas o azul de um dia que apesar de ameaçar cinzento iria afinal ser solarengo e promissor. Adelino e o neto sentaram-se no exterior, olhando o mar, passados minutos lá aparecia o Faísca, velho na casa, do início do Angra, a atender o pedido, algo irritado por sinal. Adelino que já o conhecia de há muito,sondou os motivos da má disposição:

-Então, Faísca, dormiste mal esta noite, ou houve passarinho novo na costa?- trinta anos de praia permitiam-lhe algumas familiaridades…

-Nem me diga nada, dr. Adelino. Tenho lá dentro um estrangeiro, um holandês que está ali desde que abrimos e só pede absintos, já partiu dois copos, tal é ela!. De vez em quando olha para a praia e começa a gritar na língua dele, estou a ver que ainda temos de chamar a guarda!

Ainda com a história do avô nos ouvidos, Tiago correu para a porta do Angra a observar o alcoolizado holandês. Era alto, pele enrugada, cabelo louro em desalinho. Com a mão esquerda segurava um copo já vazio, a da direita parecia estranha, a um segundo olhar reparou  estar cicatrizada e só ter dois dedos. No horizonte, o sol despontava mais azul agora, com o esfumar do nevoeiro o navio dissipara-se também. Vistas as coisas, melhor seria irem ao shopping a comprar o mp3.


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:08

06
Jun 11

O lume crepitava na mansão em Colares. António Chaves Mazziotti, deputado da Nação  e abastado proprietário, reunia em torno da lareira e de um cognac os correligionários para se discutir o momento eleitoral. As eleições de 1884 estavam anunciadas, o Partido Progressista de Luciano de Castro estava empenhado em arredar o governo de Fontes Pereira de Melo. À luz de velas cúmplices, José Inácio Costa, abastado capitalista local, o regedor de Colares e o comendador Meireles, de Janas, discutiam o momento político:

-Pois é, cavalheiros, o Fontes  desta vez não tem hipóteses. Tem obra, mas já viram a lista deles? -Mazziotti, de novo candidato a deputado, levantava as mãos, andando pelo salão junto à lareira, os demais sentados nas poltronas da vasta biblioteca -Ainda se promovessem o Hintze…!

-Tem razão, mas há que não facilitar. Olhe que o escrivão do tribunal, o homem da Ulgueira está-se a fazer difícil, diz que  por lá não estão satisfeitos, os outros já lhe prometeram uma repartição em Lisboa, não garante os votos na nossa  lista! E o governo afinal, é deles, tem peso… -adiantou Julio Pires, o regedor e cabo eleitoral com provas dadas em  Colares, proprietário em Fontanelas.Bom vinho, poucas letras ,mas sagaz e influente. Vinho e votos, com ele era mistura certa!

-Há-de vergar!- frisou o comendador Meireles. Os outros dizem que lhe dão o lugar, mas  vão arrepiar caminho depois do escrutínio, vai ver.

-Pois, mas o partido tem perdido votos, ele arregimenta muita gente, até  alguma escumalha republicana, há que não facilitar! -reforçou o regedor.

-Mande-o cá vir falar comigo amanhã! -ordenou o comendador candidato, resoluto.

Aristocrata, ainda aparentado com o Marquês de Pombal, Mazziotti concorria à reeleição em Sintra, onde ganhara já em 1879.Maior contribuinte do concelho, sócio e benemérito da maioria das colectividades, iria em breve inaugurar a estrada para a Praia das Maçãs.Era presidente da Sociedade Edificadora, o que só por si lhe garantia a cadeira em S.Bento, mas tinha que ser ele a olhar por tudo, nunca se sabia quando algum ingrato  viraria a casaca ou  iria bandear-se para o campo dos regeneradores.

-Sr.Comendador, o cerne está na lavoura! -intrometeu-se José Inácio Costa, mais recatado e menos versado em política, figura avisada. Começara por baixo, como latoeiro, abraçando inúmeros negócios, das pescas à chapelaria, fortuna feita a vender conservas para as tropas brasileiras durante a guerra com o Paraguai. Não se interessava por política, mas a sensatez e os negócios  levavam-no a também não ficar afastado, falando com todos os partidos. -Os projectos para o vinho de Colares que tem levado à Comissão de Agricultura lá na Câmara são apreciados por cá, eu sei, que falo com os lavradores! E o círio para a inauguração da estrada nova vai mostrar aos chefes de família quem verdadeiramente é pela região e pelo progresso!

-Haja quem reconheça! -agradeceu o cacique, entre a falsa modéstia e a vaidade.

Há vários anos ligado aos problemas da lavoura, grande proprietário, Mazziotti entrara na política aos 16 anos,  no Partido Histórico, sendo depois um proeminente do Partido Progressista. Gabava-se de  pagar a mais avultada quota ao partido, mil réis mensais. Em  1878, apresentara-se pelo  círculo de Sintra, mas fora derrotado por Francisco Joaquim da Costa e Silva, que também já vencera seu pai. Em 1879 voltaram a defrontar-se, mas desta vez a vitória coube a Mazziotti.Não possuía dotes oratórios, mas que interessava, a reeleição para si era natural, tinha dotes mais convincentes...

-E sabe, comendador, os candidatos deles são muito maus, vão muito mal servidos. Nenhum é do concelho, meteram a candidato o Júlio César Pereira de Melo,  enfermeiro chefe em S.José, que não percebe nada de política e até hoje só abriu a boca na Câmara para falar do projecto da aguardente de cereais. E o Pinto de Magalhães não tem perfil, arrastou-se sempre pelo Ministério da Fazenda à conta dos compadres! -ia relatando o Júlio Pires, regedor de Colares e caninamente afecto a Mazziotti.

-Há que correr as tabernas, as sacristias, as repartições! -insistia Mazziotti. Já fizemos a estrada para a Vila Nova da Praia das Maçãs, tratámos a filoxera nas vinhas quem melhor para servir o Reino melhor senão nós, e um governo do José Luciano!- arengava, chupando o charuto,convencendo-se igualmente  a si próprio.

-É preciso alguém que tenha impacto junto do Governo, isso é muito importante!-matutava Inácio Costa.

-Olhe,vou propor o Sampaio de Castro para administrador do concelho. Ele não anda para aí a escrever para uns pasquins contra nós? Esse cala-se logo! E ao juiz Taborda vai-lhe saber bem uma temporada a águas em S.Pedro do Sul! -preconizava o comendador, condottieri de Colares e paternal protector das suas gentes, sobretudo das que votavam nele, já matutando nos fieis e ingratos que a política sempre arrasta.

Um último trago no cognac, nova reunião da lista para oito dias depois, com todos os apoiantes e contribuintes, o regedor e o secretário do partido em Sintra que tratassem de tudo, das verbas para a eleição e para os indecisos se encarregaria ele.

O serão ia longo, quando se despediram. Passeando pelos jardins da mansão,em  noite luarenta e fria, Mazziotti, contemplando a nova estrada para a Praia das Maçãs, que lhe levara e a mais mecenas seis contos e oitocentos num só ano, matutava no quanto o país e o progresso lhe deviam, ganhando merecidos réis nos seus negócios, claro, era justo, mas protegendo superiormente os néscios camponeses que sem ele dificilmente escoariam o  ramisco e as maçãs reinetas…

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:31

04
Jun 11

Serafim foi o primeiro a chegar, funcionário da junta, trazia os boletins, a mesa eram os do costume que a sanha pelos setenta euros e dia livre no dia seguinte deram direito a disputa, a Cesaltina do talho já estivera na mesa muitas vezes, era a vez agora  do Castro, barbeiro e escrutinador. Como sempre a escola primária servia de secção de voto, só o Bloco e o PSD mandavam observadores, o Tiago, estudante de Arquitectura, e o Tavares, da loja de ferragens, mais dez minutos e abririam as portas.

A freguesia era estável, os mais idosos votavam pela manhã, alguns com o livro de missa ainda na mão, o Falcato, do partido do governo votou logo às oito e dez, oportuno, ficou-se  depois pelas redondezas a cumprimentar os vizinhos, e pelo sim pelo não, a sugerir que pensassem bem no voto, os outros não eram de fiar, sabedor, o dr. Crespo, do partido adversário postou-se vinte metros antes do Falcato, na primeira linha de apertos de mão, um e outro respeitando porém  a distância dos quinhentos metros.

Pelas nove e meia só uma vintena votara, a D. Irene esquecera-se do cartão, a mesa reconhecia a octogenária, decana  da aldeia, o homem do Bloco torcia o nariz, voto na direita, por certo, melhor seria ter ficado em casa. Também o Tomé da funerária votou cedo, trocista comentou que nem nesse dia deixava de ir às urnas, adepto da direita, ia avisando para se escolher bem o voto e evitar um grande enterro. Na mesa, os afectos ao governo sorriam, nervosos mas ao mesmo tempo descontraídos. As manas Silva, Clotilde e Zézinha uma  do PSD outra do PS, conversavam à porta, sem pressa de votar, à  que ganhasse a outra pagaria o lanche no café do Brás. Com scones e chá aromático, insistia a Clotilde, segura da vitória do seu líder.

Pelas dez horas, chegou o Avelino Varela, sapateiro, setenta anos, a mulher morrera um ano antes, entretinha o tempo afogando-se no álcool,  ainda ressacado da véspera, ao entrar na secção de voto, tropeçou numa vala estatelando-se desgovernado, ficando com as calças  ensopadas de lama, o Falcato e o dr. Crespo, adversários eleitorais, logo se uniram num bloco central de ajuda ao  trôpego vizinho, a vinte metros da escola.

Avelino, que pensara votar  cedo para se despachar e logo de seguida cair na cama a curá-la,  deu-lhe um amoque súbito, levantando-se de um salto, começou a invectivar a junta, e os políticos pela falta de obras como deve de ser, a provocar acidentes, logo comício improvisado nasceu ali, cinco eleitores a caminho faziam uma roda junto a ele  antes de se decidirem a entrar:

-Isto é uma vergonha! Andamos a pagar para estes tipos comerem todos do mesmo tacho, obras é o que se vê. O povo é que é culpado disto tudo, a carneirada anda toda a dormir, é o que é!- o fato enlameado e o ar zangado faziam do Avelino um inesperado chefe descamisado, a Ermelinda e o Crispim, também com obras à porta há mais de seis meses concordaram, juntando-se ao protesto:

- O Avelino tem toda a razão! Ainda ontem apanhei o presidente da junta mas ele nada, que já mandou um ofício, que já mandou um ofício…. mas à porta dele já mandou pintar uma zebra, essa é que é essa!. O povo tem de fazer valer os seus direitos senão fazem de nós gato sapato!

O grupo era já de nove, os delegados dos partidos, antes meio passivos, pediam agora paciência, votando neles teriam a hipótese de fazer valer o voto na lista certa,  Tiago, tentava conquistar um eleitor de ultima hora, no momento no interior já ninguém fazia fila, todos à volta dos lesados pela incompetência dos dirigentes que só se enchiam e não faziam  obras. Avelino, inchado e ganhando força com a pequena multidão em volta, já desperto da ressaca, alvitrou logo um boicote às eleições, subindo para  cima dum banco no pátio da escola, dirigiu-se às massas, nove já era uma multidão, para a escala da freguesia, e qual revolucionário descamisado apelou à tomada da Bastilha de carteiras e quadros a giz, pondo-se à cabeça do grupo, a que alertado pelo barulho se juntou o pessoal que bebia um Favaios no café do Brás. Entusiasmado com o protesto, dirigiu-se à mesa da secção, urgia fazer justiça:

-Ó Castro, toca a arrumar a tralha e a encerrar a mesa dos votos. Aqui o povo não vota mais enquanto a junta não acabar as obras, isto já passou das marcas!- e com a ajuda de dois dos entretanto chegados, arremessou a urna ao chão e fez voar os votos quais confetti, as manas solteironas aplaudiam, perdiam a aposta do lanche mas tinham o seu momento Maria da Fonte, a Clotilde, que detestava a Cesaltina postou-se frente a ela, qual chefe da milícia, o poder era delas agora, chefes da fronda da aldeia. Zézinha, ruborizada, arengava com o Castro barbeiro para não levantar cabelo, subindo a uma cadeira, dirigiu-se aos insurrectos e ao pessoal do partido do Favaios:

-Os políticos não passam a vida a falar em voto útil?. O voto só é útil para quem o recebe, assim sendo daqui não vai nenhum , que o povo já não vai em cantigas!Queremos a rua arranjada e é para ontem!

O Falcato e o dr. Crespo, representantes dos partidos do centrão, entreolhavam-se, urgia uma aliança para repor a ordem, que votassem , que eles depois usariam do seu prestígio para uma rápida conclusão das obras, Avelino estava de pedra e cal:

-Não se vota, nem  vota mais ninguém! - e pegando dum isqueiro escrutinou em cinzas os primeiros votos nulos do país, a GNR de Sintra vinha a caminho, mas era já tarde, o Castro invocara tumulto e fechara a secção de voto, visto bem, se se repetisse na semana seguinte até seriam outros setenta euros, deixou correr.

Duas horas depois, armado com o ponteiro da escola, qual metralhadora em riste, e ladeado pelas manas Silva, do comité de luta improvisado, Avelino dava entrevistas à televisão, que o povo dali era de antes quebrar que torcer, sem arranjo das ruas o povo não votava. Ah, e queria a limpeza a seco do seu fato. Sinuosos, o Falcato e o dr. Crespo exprimiam compreensão,  prometiam pagar o fato, na semana seguinte votando neles logo se resolveria a questão da vala.

Findo o dia, o resto do país fizera a sua escolha, apenas quatro mesas haviam boicotado, a do Castro perto de Sintra era uma delas. O Avelino, vítima do desmazelo da junta, já trôpego com o vigésimo bagaço, celebrava no café do Brás  a conquista a pulso da sua primeira maioria absoluta.

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:51

03
Jun 11

A carrinha ficara no estacionamento, os dois jovens abasteciam-se no Pingo Doce da Portela, à porta, ruidosos alunos do liceu devoravam pedaços de pizza e refrigerantes. Pelo carro das compras, era quase tudo alimentícios: hambúrgueres, arroz, dois kits de cervejas médias, pão e muitos yogurtes, frescos nada, que a crise dos pepinos desaconselhava. No quiosque em frente um deles comprou um jornal, a velha carrinha pão de forma laranja estava em desalinho, jornais velhos pelo chão, um bidon de gasolina, toalhas de praia,  alguns CD’s de Enrique Iglésias e Shakira no porta luvas. Na Portela ninguém os havia visto antes, mas desde há três dias pelo menos tomavam um galão e um croissant no café do Baptista, sempre à mesma hora e antes das compras no supermercado.

A D. Gracinda, do r/c do prédio em frente ao jardim, reparara que os dois indivíduos estavam no segundo esquerdo. Desde que o Ramiro morrera, três meses antes, a casa ficara fechada, a única filha vivia em Espanha e só fugazmente cá vinha, a última vez para o funeral. Amigos espanhóis, pensou, a carrinha era velha e aparentavam ser estrangeiros, com um sotaque arrevesado, espanhol não parecia bem, a cada entrada e saída, por trás da cortina cuscava os vizinhos, já comentara com a Ercília do primeiro esquerdo, quando esta saíra a passear o cão.

Os novos ocupantes pouco se viam, só nas vindas do supermercado fronteiro, ignorava o que fariam, a casa não tinha televisão, só uns tarecos velhos que a filha do Ramiro deixara. Ao fim de cinco dias sumiram de vez, a carrinha pão de forma não voltou a ser vista, para a vizinhança o caso estava esquecido, as conversas eram agora sobre as eleições e a ciática da D.Gracinda

Uma semana depois, almoçando umas pataniscas com arroz, o Jornal da Tarde abria com a notícia de que a polícia espanhola suspeitava que mais elementos da ETA estariam em Portugal, aqui preparando novas operações, temiam-se atentados em zonas balneares à semelhança de anos anteriores. Casas abandonadas nos arredores de Lisboa estariam a ser alvo de observação pela polícia portuguesa, bem como estrangeiros fora dos circuitos turísticos. Qual clique repentino, D. Gracinda lembrou-se dos rapazes do segundo esquerdo, partiram como chegaram, e tinham um sotaque esquisito, correu a comentar com a Ercília. Era isso, só poderiam ser eles, um telefonema para a esquadra despoletou uma visita ao local, nada apontava para a escolha de sítio tão visível, mas à cautela havia que apurar. Alertada por um vizinho jornalista, uma equipa da TVI postou-se no local, transmitindo em directo, logo atraindo equipas da TVE e dos outros canais. D. Gracinda e Ercília desdobravam-se em entrevistas, à TVI perguntaram mesmo quando iriam ao Goucha, para ter tempo de arranjar o cabelo.

Montado o perímetro, chegaram as minas e armadilhas, os habituais reformados do jardim postados no passeio fronteiro comentavam, curiosos, arranjada ordem judicial, a porta foi franqueada, aparentemente nada de estranho, se bem que jornais espanhóis recentes pelo chão indiciassem a presença de gente, bem como um saco do Corte Inglés. Atraídos pelo circo mediático, vizinhos desdobravam-se em comentários, o Vítor vira-os no café do Baptista, tinham aspecto de etarras sim senhor, um até tinha uma T-Shirt com as palavras Sex Bomb estampadas.

Passaram uns dias, recolhidas impressões digitais e com a ajuda da Europol, lá se descobriu que os dois eram espanhóis de Getafe e  colegas da filha do Ramiro, a viver em Espanha. Tendo ela oferecido a casa para que não pagassem alojamento durante um passeio de cinco dias, já de volta a casa estranharam a visita da Guardia Civil. Estudantes de História, tinham ido conhecer Sintra, como fizesse bem tempo fizeram até  praia na Adraga.

As notícias das televisões reportando tais resultados não sossegaram Gracinda. Ali havia tramóia, era verdade mas não podiam admitir, para não espantar outros que cá estivessem, tendo ido no fim-de-semana seguinte à Vila passear, todos os espanhóis lhe pareciam estranhos, o marido da D.Alzira explicara que queriam a independência da terra deles e não gostavam do rei, grandes tratantes, o rei de Espanha tão boa pessoa, até crescera no Estoril. Escutadas notícias sobre os pepinos infectados, só poderia ser coisa dessa ETA, à cautela não comprou mais nenhum, poderiam estar contaminados pelos tratantes.

Com os dias, a coisa saiu das notícias, agora era o novo governo, e as transferências do Benfica, a casa do Ramiro lá continuou fechada, para ela perigoso esconderijo de bandidos, que os hambúrgueres e o arroz era tudo a fingir, andava para aí uma bandidagem que só visto, até o nosso cantinho já não escapava. Chegado o Julho, D. Gracinda foi de férias para a terra e o assunto morreu, a Portela de Sintra saía do mapa mediático, entregue ao movimento do Pingo Doce e aos pacientes a caminho das análises, até a escola fechara para reabrir em Setembro.

No final do mês, com a Portela deserta e os serviços públicos a meio gás, três indivíduos num Megane branco alojaram-se dois prédios ao lado do da D.Gracinda, pouco faladores, transportando caixotes e sacos pretos com adesivos colados. Despovoado o bairro, a vizinhança não deu por eles. Na segunda noite, com um pano azul em fundo e as palavras  Euskadi Ta Askatasuna estampadas a branco, ladeados por uma bandeira que tinha desenhada uma serpente enrolada num machado, devidamente encapuzados, os novos forasteiros gravavam um vídeo que um deles mais tarde deixaria numa prateleira na loja da Zara no Cascaishopping. Depois do atentado de Verão, a mensagem não deixaria dúvidas sobre a sobrevivência da ETA, razão tivera a Gracinda, agora na terra, a Portela era  afinal  um insuspeito santuário terrorista.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:48

02
Jun 11

As escarpas de Sintra lembravam-lhe a Irlanda natal, marechal de Sua Majestade em terras lusas, William Carr Beresford, comandante em chefe na ausência do rei no Brasil, era o senhor de Portugal, onde levava onze agitados anos. Toulon, Índia, Egipto, Buenos Aires, pelo Império Britânico se havia desdobrado em missões, fora desde que em 1807 ocupara a Madeira e aí aprendera português que se viu apontado como o homem de mão da Coroa nesse caótico país abandonado pelo seu governo. De estatura alta, corpulento,  rosto irregular e sinistro, o olho esquerdo vazado por um tiro, Marechal do Exército desde 1809  nomeado pelo Conselho de Regência, Beresford aproveitara a reorganização das forças militares criada por D.Miguel Pereira Forjaz para a adaptar aos métodos do exército britânico. Era um organizador, criara depósitos de recrutamento em Peniche, Mafra e Salvaterra, distribuíra novas armas e equipamentos, levara um exército de inspiração prussiana a manobrar à inglesa. Metódico, introduziu ordens do dia para informar o exército e apurar a disciplina: tanto se lhe conheciam mandatos de prisão e de execução sumária sem julgamento em tribunal militar como louvores e promoções por mérito.

Nesse dia 19 de Outubro de 1817 o spleen atávico  das ilhas apossara-se-lhe do espírito, perturbado com os eventos da véspera saíra a cavalo para espairecer, a nortada do Cabo da Roca transportava-o para os Cliffs of Moher da sua Irlanda, com a urze e arribas nostálgicas a recordarem o burren xistoso e solitário das paisagens de Galway. A Smighton ordenara que ficasse na Junqueira, conspirava-se depois do enforcamento, receavam-se actos subversivos. Se meses atrás era o saudado libertador das hordas de Bonaparte às ordens do amigo inglês, agora, após o julgamento e execução do tenente-general Gomes Freire de Andrade, sentia que o povo já não estava com ele, acabada a guerra nada justificava a sua continuação. O rei não se decidia a voltar, nas ruas de Lisboa o povo a medo sussurrava por a um ocupante suceder agora outro.

Gomes Freire, bravo militar, herói da Crimeia no exército de Potemkin  trinta anos antes e resistente de Schwensk quando os canhões suecos atacaram a marinha russa, regressara a Portugal depois da queda de Napoleão. Grão-Mestre da Maçonaria, fora acusado de  conspirar contra D. João VI. Detido, fora na véspera enforcado por traição à pátria junto com outros onze implicados, o julgamento fora polémico e tortuoso.

Caminhava Beresford junto ao farol da Roca quando o trote de um cavalo denunciou a chegada apressada de Smighton. O ajudante de campo assistira ao enforcamento, vinha a contar os detalhes, Beresford, desviando o olhar das ondas furiosas, queria saber novidades:

-Well?... Como correu?

-Já está,  Sir, usou-se baraço e pregão, como ordenava a sentença. Mas foi algo estranho, no momento em que a corda caiu em S. Julião da Barra fez-se uma escuridão súbita junto ao Bugio, e as gaivotas gritaram lancinantes. Não deixou de ser perturbador, parecia um sinal.

O marechal, angustiado, pensava se não fora um erro crasso, o general era popular, com esse acto haviam pela certa criado um mártir. E logo à mão dos ingleses, velhos aliados. Mas Gomes Freire conspirara, acusando o rei de pretender sujeitar o povo à tirania dos espanhóis, acusara o rei de ser um déspota chamando ao açougue do precário Império, assim se referira por escrito ao recrutamento de tropas para os combates no sul do Brasil, pela posse de Montevideu e para combater a insurreição no Pernambuco. A Beresford chamara ridículo aventureiro e desabonado comandante em chefe do Exército, tudo corria para o perder,Smighton continuou:

-Na assistência estava o primo, Miguel Pereira Forjaz. Andrade olhou-o mas nada disse. Os outros onze acusados foram supliciados no Campo de Santana. Rezaram e aguentaram firmes. É um desperdício, marechal, estes portugueses não têm remédio, o país está em ruínas e eles digladiam-se uns com os outros.

-Problema deles, Smighton- rosnou o Marechal, abrigando-se do vento de Outubro que agora açoitava mais forte ainda, ameaçando chover.- problema deles!

Beresford soubera da conspiração pelo Visconde de Santarém,  documentos mostravam que estava em marcha um movimento, ainda incipiente, cuja primeira fase seria a criação de núcleos em todo o país. A decisão fora a de apresentar a documentação à Regência, que se assegurou do apoio do General Paula Leite, encarregado do governo das Armas da Corte e logo emitiu ordens de prisão contra Gomes Freire e outros oficiais e civis. Gomes Freire de Andrade, ingénuo, ao notar a movimentação de tropas, o ruído das armas e das patas dos cavalos, pensara tratar-se da revolução em marcha, fardou-se, colocou as condecorações e esperou, até que a sua porta foi arrombada, a casa invadida e  dada ordem de prisão.

Beresford, que por desígnios da diplomacia tinha de pactuar com a Regência, já entrara em atrito com ela, suspeitava-se que a Casa  Cadaval conspirava  com Gomes Freire para derrubar D.João VI. Escurecendo , com Smighton voltava agora a Lisboa, a noite  luarenta e fresca de Outubro acompanharia a viagem do inglês, pró-consul de Londres entre truculentos lusitanos. Sentindo-se em Sintra como em casa, percebeu que nesse dia uma página se virara na história do país, não seria a nortada do Atlântico o único vento a caminho.

Três meses após as execuções, instalava-se no Porto o Sinédrio, por iniciativa de Manuel Fernandes Thomaz e Ferreira Borges, o movimento liberal adquiriu maior consistência e coerência.Com o tempo, e em face da degradação nas ruas, Beresford foi ao Rio de Janeiro reclamar mais poderes, D. João VI concedeu-lhos. Regressou a Portugal, mas já não pôde desembarcar, no dia da chegada ocorreu o pronunciamento, era 24 de Agosto de 1820, a nova Junta Provisional de Lisboa, que substituíra a Junta dos Governadores, não lhe permitiu que desembarcasse.

Nessa noite de Agosto, disse adeus a Portugal. Era noite para ele, um imenso e esperançoso luar despontava para um pequeno povo ao sul da Europa.Por quanto tempo?


                            William Beresford

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:08

01
Jun 11

Ano Domini 1215. O reino havia sido abençoado  há cinco anos com o nascimento dum herdeiro, o jovem Sancho, que Afonso II entregou para criar ao seu alferes Martim Fernandes e a Estevainha Soares da Silva, da casa dos Sousas. Tendo Martim morrido em 1213, ficou o jovem Sancho a cargo de sua mulher, Estevainha. Agora, com cinco anos apenas, caía doente com febres, Estevainha extremosa temia que não aguentasse o  rigoroso Inverno.

Guillaume de Limousin chegara a Portugal meses antes, o Concílio Lateranense convocado por Inocêncio III perseguia-o e aos seus, ascetas na devoção, mas em si puros perante Deus, cátaros. Como outros albigenses  em terra dos francos, rejeitara os os sacramentos católicos, tendo recebido o baptismo de espírito, consolamentum, levara uma vida de castidade, a descrença na hierarquia da igreja católica, que os tinha por heréticos, obrigava Guillaume a fugir da Cruzada que Roma contra os seus  lançara, o sul da Europa pareceu-lhe seguro, em fuga do Languedoc a ferro e fogo. Como os seus, Guillaume jejuava nas festas cristãs, não prestara juramento nem matava qualquer espécie animal, em renúncia pura assumira a sua fé, herética para olhos fanatizados. Dois anos antes tornara-se perfeito em Narbonne, apesar dos esforços do conde de Toulouse, teve de fugir.

Instalado em terras de Sousa, a ele recorreu Estevainha  buscando ajuda para as maleitas do infante. Guillaume era físico, a guerra dos albigenses era coisa que desconhecia, sua filha Teresa lembrara-se dele, afamado,  e El-Rei Afonso mandou buscá-lo. Pelos quarenta anos, casado com Blanche, lembrarem-se dele agradou-o, correndo a curar o pequeno Sancho que ardia em febre no castelo de Lamego, as tias, em guerra pelas mordomias a que por herança se achavam com direito aguardavam, cientes que a morte do pequeno herdeiro lhes daria força na luta com Afonso II.

Guillaume, sábio e experiente soube debelar as febres com panos quentes, mel e infusões,  em poucos dias devolveu o futuro rei às traquinices, para descanso de Estevainha e gratidão do angustiado pai. Fervoroso crente, nas mãos do pequeno infante depositou uma cruz de madeira, lembrando-lhe de quando um dia fosse rei sempre aprouvesse separar o bem do mal, temente a Deus. Retirando para terras de Sousa, aí envelheceu em paz, amargurado porém,saudoso das terras occitânicas que um dia iníquas leis o obrigaram a abandonar.

Os anos passaram, com o Reino assolado pelas tricas religiosas e cobiça de heranças. Na Primavera de 1223,Sancho II finalmente cinge a coroa de Portugal. Afonso II morrera excomungado por Honório III, marcado pelo destino, começava com o pé esquerdo, filho de um casamento que nunca o Papa aceitara, catorze anos incompletos. Mestre Vicente, o chanceler, aconselhava, uma alcateia de terratenentes vigiava tentando manipular o imberbe rei, doente e débil, a quem em tão tenra idade davam o encargo de tão pesado calvário.

Certo dia, a cavalo, parou junto à casa de Guillaume, nas terras de Sousa. O velho físico vendo-o, franzino e perdido, correu a beijar-lhe a mão, recente rei do seu novo reino. Sancho apreciava-o bastante, um dia denodado lhe salvara a vida, esse Guilherme que viera para o Reino nunca entendera porquê, tão cristão como os demais. A fome grassava, a peste também, o reinado de Sancho anunciava-se aziago, Guillaume encorajou-o:

-Senhor, tal como ao meu povo, o Santo Padre de vós também deixou a razão do coração fugir, vivemos tempos em que mesmo Deus parece ter abandonado o seu povo. Há que ter fé, ser justo com os fracos e justiceiro com os fortes!

-Bom Guilherme, tuas palavras me animam pois um coração dilacerado apaziguam. Sabes que  guardo ainda comigo a cruz que há dez anos me deste em Lamego?- sacando o rei da cruz dum bornal , Guillaume emocionou-se ao vê-la:

-Guardai-a perto do coração, Cristo, só ele pode afastar o chifrudo que muitas vezes manieta os povos e os torna títeres de sua vontade, endurecendo o coração de quem tem o mando!

Despediram-se, não mais se tornando a ver. Onze anos depois, em Agosto de 1234, depois dum reinado de agruras, Sancho II é excomungado, depois de juízes pontifícios haverem lançado um Interdito ao Reino em Ciudad Rodrigo, consequência da bula Si quam horribile. Mestre Vicente ainda foi a Roma, conseguindo na Cúria minorar os efeitos nefastos. A 24 de Julho, porém, a Bula Grandi non immerito depõe oficialmente Sancho II do governo do reino, e seu irmão Afonso, conde de Bolonha, torna-se regente e visitador. Depois de anos de lutas fratricidas, deposto e excomungado, Sancho II acaba os dias exilado em Toledo.

Sentindo chegar a morte, nos inícios de 1248, lembrou-se do crucifixo que aos cinco anos  lhe oferecera Guillaume, o físico cátaro que um dia lhe arrefecera as febres. Perdera-o, e ao dar pela perda, percebeu também porque Cristo o abandonara e abandonado morreu, tocavam as vésperas  em Toledo na tarde de 30 de Janeiro.

Guillaume e Sancho. Dois destinos se haviam cruzado um dia, uma cruz selara a amizade, guardiães da dita cruz os haveriam de  perder naqueles dias perigosos dominados por uma longa noite de intolerância.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:59

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