por F. Morais Gomes

21
Jul 11

Manuel Martins, irmão da Misericórdia de Évora aparecia sem designação de ofício no livro das eleições dos irmãos, André Escária, mesário antigo, afirmava que sendo boa alma padecia de cabeça fraca, muitas vezes o haviam visto dos lados das Portas de Avis falando aos pombos e agoirando calamidades para a cidade. Mas bom coração,  acólito em S. Francisco, trabalhara na construção da Capela dos Ossos.

Nesse mês de Agosto, estafetas de Lisboa informavam André de Morais Sarmento, corregedor da cidade, da decisão do governo de El-Rei Filipe III de elevar o imposto real de água, bem como o valor das sisas. O tesouro régio carecia de 500 000 cruzados, visando minimizar as dificuldades agravadas pela quebra de remessas das Índias Ocidentais, em todas as cidades do reino se deveriam acatar os aumentos, o selo da vice-rainha não deixava margem a hesitações.

-É uma usura! Tivesse o reino um rei  português e tais desaforos se não verificariam!- vociferava o procurador da cidade, informado das medidas pelo corregedor. Espanha mais não faz que alijar a canga sobre os povos!

-Há que tomar posição, isto é um desaforo!- concordava o escrivão, Aires de Gusmão- imitar o que aconteceu há poucos anos, na cidade do Porto, com o imposto do linho fiado! –a lembrança do gorado motim das maçarocas em 1628 animava os espíritos, ia para 57 anos que os Filipes governavam Portugal,desejado,nunca D.Sebastião regressara, apesar dos oragos. Um corpo, supostamente seu, havia sido sepultado nos Jerónimos mas o povo não se deixara convencer, não podia ser ele.

-Creio bem que o povo receba com desagrado estes aumentos, senhor corregedor!- vociferava Armando da Nóbrega, o procurador.

Efectivamente, afixados os editais, grandes clamores se ouviram na Praça do Giraldo e no Rossio de São Brás, na missa da Sé, aludindo ao assunto em favor do governo, o arcebispo irritara o povo, vários fiéis abandonaram o ofício, indignados com a posição do prelado. Armando da Nóbrega e Aires de Gusmão convocaram comerciantes e representantes do povo para uma reunião na casa de Armando, havia que tomar medidas. Entretido com os seus pombos no Rossio, Manuel Martins, alheio, não se pronunciava, asceta, desinteressado de bens terrenos, apenas o silêncio eremita lhe importava, mendicante e boa alma. Para a cidade, era o Manuelinho, a quem ninguém negava uma sede, se bem que não raras vezes falasse por enigmas, a que só os antigos davam alguma importância, descortinando alusões proféticas.

Decorrente das reuniões, decidiu-se por aclamação não pagar os novos impostos, e fazer mesmo patrulhas, evitando que oficiais régios o fizessem. O corregedor, coarctado, não se pronunciava, em minoria, Armando e Aires encabeçavam a insurreição. Livros de assentos das contribuições reais foram queimados e acometidas algumas casas dentro da cidade. Isolados, e sem reforços militares, os adeptos de Castela, entre eles muitos portugueses passados para o partido castelhano, mal se dispuseram a enfrentar a multidão enfurecida, Évora, briosa, erguia-se por Portugal. Da casa de Armando da Nóbrega, durante duas semanas, pela noite saíram proclamações ao povo,  afixadas nas ruas, para salvaguardar as identidades, eram insolitamente assinadas por um tal Manuelinho. Notícias rapidamente espalhadas traziam a nova de se espalhar a revolta a Sousel, Ourique, Vila Viçosa e Abrantes, uma janela se abria, os povos ousavam respirar.

André Escária, lendo um dos editais dos indignados, pasmou da assinatura. Manuelinho…. Quem seria Manuelinho, o chefe sem rosto que assinava as proclamações? Seria o mesmo em quem estava a pensar?

Curioso, buscou-o, estava no Rossio de S.Brás, Manuel Martins, tranquilamente repousando debaixo duma oliveira, os pombos não longe aguardavam nova refeição, a que durante anos  Manuel nunca faltara. André chegou-se e sondou o lunático irmão da Misericórdia, aparentemente o ar tranquilo e distante nada envolvia na refrega em curso na cidade:

-Manuel, por aqui com teus pombos?

Manuel empapava pedaços de pão em água, pronta a malga chamaria os amigos, retiraria depois para uma sesta, perto da Cartuxa.:

-Os pombos são como as pessoas, André Escária. Andam em bandos, onde um vai vão os outros. Mas também sabem quando não querem vir, ou quando lhes fazem mal. Aí arrulham. Nunca ouviste os pombos arrulhando zangados?

André deixou Manuel, alheio, não sabia de nada, não seria ele por certo o Manuelinho sob cujo nome se haviam resguardado os revoltosos.

Durante mais uns dias, Évora e demais cidades fizeram ouvir a voz do desagrado, a casa de Morais Sarmento acabou incendiada, junto com outras. O movimento insurreccional não conseguiu destituir o Governo em Lisboa, sucumbindo ao reforço de tropas castelhanas que vieram em seu auxílio para reprimir a revolução. Nobres locais, afectos ao governo, ainda procuraram responder, criando a Junta de Santo Antão, na Igreja de Santo Antão se reuniram alguns dos chefes, captando de forma soez a simpatia do povo, queriam pacificar a cidade.  A população, desconfiada, pouco aderiu,  porém, a força das armas acabaria vencendo, três anos ainda se haveria de esperar para colocar um Bragança no trono.

No Rossio de São Brás, Manuel, suposto Manuelinho continuou alimentando os seus amigos, frases intraduzíveis denunciavam uma alma entre o profético e o demente. Nas vilas e aldeias do Alentejo, e de Portugal aos poucos, em surdina o povo ia arrulhando, o voo da glória surgiria numa madrugada de Dezembro, logo no dia primeiro, varrendo os biltres do pombal e de novo esvoaçando em liberdade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:44

20
Jul 11

Sangue. Vísceras. Justiça. Sim, foi justiça o que aqui aconteceu, estou puro agora, eliminado o pecado e Satã que neles morava. Eles não entendem, nunca o entenderam,  fui eu a a mão de Deus nessa noite libertadora, muitos restam ainda, reféns de fraca carne e luxúria acesa.

Libertaram-me ontem. Catorze anos. Serial killer, perigoso, psicopata, chamam-me os jornais. Idiotas. Libertador, braço avançado da virtude, isso sim, o sangue dos impuros foi justamente lavado nas ondas do mar”.

Escrevinhando um diário, Vítor Jorge voltava ao local do crime, no dia imediato ao da sua libertação de Coimbra. Apanhara 20 anos, mas saía ao fim de 14. Nunca tivera uma precária, os juízes receavam.

Tudo ficara claro para si naquela noite de 1 de Março. O sinal fora dado, sentia-o. Seria nessa noite, depois da festa, uma orgia em grupo soltando as carnes e chamando o sexo faria dele o justiceiro de Sodoma. Álcool, lascívia, fornicação, essa noite o Osso da Baleia seria altar de limpeza, ofereceria não um, mas vários cordeiros em sacrifício, cinco, todos. Como o infernizavam, os risos soltos pela bebida em excesso e o fútil desejo de prazer na penumbra das dunas. Ébrios, nem saberiam porque que morriam. Antes assim.

O diário, cúmplice, soubera das intenções antecipadamente, após o aperitivo, a verdadeira ceia: a mulher e a filha, pecadoras, todas, como Eva, expulsas do paraíso, indignas de viver, servas do chifrudo inebriadas por sexo, vaginas sequiosas sob a lua cheia de Março.

Leonor, a amante, fizera anos, convidara dois casais amigos, a cena compunha-se: beberam, conversaram, por volta da meia-noite, a praia, corpos nus no Osso da Baleia. No areal, um amigo de Leonor terá desafiado, uma bacante sessão de sexo ao luar. Vítor Jorge aproveitou a euforia, chegado o momento, da Citröen branca sacou caçadeira e faca. E a sua festa, orgia de cérebro capturado começou, a amante primeiro, os quatro amigos depois, qual despojos de talho os corpos despedaçados, esquartejados, dupla morte para que dúvidas não restassem. Areia avermelhada de sangue pintalgava o mar azul de morte, o Anjo do Mal soltava a foice enlouquecido.

Dois corpos logo levados na maré, os demais jazentes, não houvera tempo para reagir.

Seguindo o sórdido guião por tecido, Vítor virou então a fúria para a própria família. Invasor na própria casa, acordou a mulher e pediu-lhe que o acompanhasse, tinha atropelado uma pessoa, precisava de ajuda. Carminda de nada suspeitou. Num pinhal perto, cravou-lhe a faca nas costas, cinco vezes. Sem tempo a perder, voltou a casa, o mesmo à filha mais velha, sangue do seu sangue. Exausto, regressou uma vez mais e trouxe a mais nova. Sandra suspeitou e fugiu por entre os pinheiros, aí Vítor hesitou. Sete. Sete vidas. Queria mais ainda. Muitas mais. Ardia em febre. Corujas assustadas sobrevoavam o pinhal, era noite de Walpurgis nas matas da Marinha Grande.

Depois dos sobressaltos, a paz. Era uma estranha paz o que sentia quatro dias depois, quando a polícia o apanhou. Nada interessava mais, fizera justiça, a dele, indecifrável e divina, também ele Deus, dando e tirando vidas. No tribunal dos homens pediu que o prendessem, poderia repetir. Consternado, o juiz deu-o como saudável, vinte anos, rezou o acórdão.

Saía agora, ao fim de catorze apenas, sete vidas, dois anos por cada uma, avara sorte, a de vítima na Marinha Grande. Os jornais calaram, Vítor saíra do mundo, o sofrimento fechara-se atrás das portadas de famílias atónitas. O chifrudo existia e morara entre eles, palmilhando os pinhais e a praia, exangue, possesso. Saía. Era feriado cá fora, 5 de Outubro, o milénio mudara entretanto, Sandra, a filha que escapara esperava-o, silenciosa, assim ficaram durante uma hora, de Coimbra até Pombal. Para que vida voltava, morto que os vivos não esperavam já e que a morte poupara para vivendo devagar morrer?

Voltava agora ao local, sozinho. Volta-se sempre. Ao longe, um cão corria levando um cepo na boca. Deserta, a praia ainda cheirava a morte, era a perturbante praia de Vítor Jorge. Após uns minutos, partiu sem olhar para trás. Envelhecera, ali ficara também, ainda que viva, a sua vida, no dia em que também ele morrera. Havia que partir. França, um recomeço. Tempo de sofrer agora, em remorso, para os que não lhe perdoavam estar vivo, alma penada fosse até ao fim dos seus dias.

Treze anos passaram, vinte e sete já desde aquela sangrenta noite. Em Nice, vida reencarnada, “petit portugais” sem passado, talvez um dia destes desça à praia,  se divirta noutra festa, nova orgia, numa lua cheia de Março,  talvez. A Terra, por purificar, ainda clama por Vítor Jorge.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:47

19
Jul 11

As notícias sobre as reservas de ouro ultimamente reaparecidas nos jornais recordavam a Ulisses Caldeira histórias que seu avô Geraldo lhe contara, do período da guerra. Guarda-fiscal em Elvas durante os anos quarenta, muitas vezes ali vira chegarem camiões vindos da Europa beligerante, a proibição de circulação em território luso de veículos estrangeiros obrigava a um transbordo no Caia. Aí conhecera em Agosto de 1943 Auguste Jacquet, um suíço que regularmente fazia a Península Ibérica, conduzindo camiões com carregamentos para o Governo português. Elementos da PIDE, a polícia política, aguardavam religiosamente a mercadoria a cada dois meses, Auguste dirigia-se geralmente ao tenente Lobato, e entregava-lhe umas guias, das quais a Guarda Fiscal era afastada, de soslaio invariavelmente nelas vira aposta a palavra Campfranc.

Certa vez, Auguste chegou um dia antes do previsto, o veículo de contacto da PIDE vindo de Lisboa estava atrasado. Geraldo, com algum tempo mais a sós com o suíço, tentou sondar o conteúdo do camião, que nunca inspeccionara, Auguste, lacónico, pouco adiantava, mas metia militares e alemães. Numa saída do camionista à casa de banho, espreitou o conteúdo, eram caixas de madeira com expressões em francês, umas dez, quase enchendo o camião.

Terminada a guerra, não mais as estranhas entregas se voltaram a realizar, e Geraldo esqueceu o camião de Auguste, até que um dia, dois anos depois, o reviu, agora ao serviço duma empresa de transportes francesa, Geraldo era já sargento, um sorriso de familiaridade acompanhou o reencontro dos dois, ia o Outono de 1947. Auguste vivia em Marselha, a empresa para que trabalhara antes fechara, os donos, alemães,  haviam fugido depois da libertação da França. Ocasião aproveitada para satisfazer curiosidades antigas, nunca o estranho carregamento de Auguste, recebido com sigilo por agentes da polícia internacional lhe fora desvendado. O suíço, mais solto, convidou Geraldo para almoçar, depois duma soneca, e dispôs-se a falar:

-Os carregamentos que você nunca viu, eram geralmente remessas de ouro, em lingotes, enviadas a partir de contas alemãs no Banque National de Suisse, para pagamento de fornecimentos portugueses ao Reich: volfrâmio, conservas, têxteis, muito ouro trouxe para o seu país em quatro anos. Só que, vou-lhe contar um segredo, entre as remessas oficiais, havia coisas menos claras, está a ver….

-Não, não estou. Coisas menos claras? E a PIDE colaborava? Como pode ser isso?- Geraldo bem sabia que ali havia marosca.

Auguste decidiu-se a abrir o jogo, a guerra terminara, já não era nada com ele:

-Muitas das vezes que saí de Berna com o carregamento, recebi instruções sigilosas para fazer a rota  via Biarritz. Aí deveria fazer um reforço de carga, antes do posto fronteiriço de Campfranc. Aliás, não era só eu, outros colegas meus o faziam também, com destino a Fuentes de Oñoro e Valencia de Alcântara, outros ficavam em Espanha…

-Mas o que iam carregar aí de especial? Armamento?

-Não…- Auguste fazia suspense….-Ao principio também eu desconhecia, mas depois descobri. Ouro! Lingotes de ouro! Só que este não era para pagamentos a bancos, era uma carga especial…

-Como assim?

-Mon ami, durante dois anos, a par de pagamentos internacionais da Alemanha ao vosso governo, via Suíça, aqui entraram para cima de 80 toneladas de ouro clandestino! A Alemanha controlou a Alfandega internacional de Canfranc durante a Guerra Mundial com um grupo de oficiais da SS e um membros da Gestapo, viviam no hotel da estação e numa cidade próxima, no lado francês. A Espanha não estava em guerra, mas Franco queria retribuir a ajuda que Hitler lhe dera na Guerra Civil, o que se traduziu em facilidades na circulação em toda a Península de ouro de várias proveniências...

Geraldo ouvia, mas que tinha isso a ver com o nosso país, a resposta veio célere:

-Portugal também esteve envolvido, e para cá vieram 74 toneladas de ouro,prata, armas relógios, etc, mas atenção: riquezas que altas patentes alemãs haviam confiscado a judeus em campos de detenção no Leste, e com que pensavam garantir o seu futuro depois da guerra.Os nazis permaneciam do lado da França ocupada,em Canfranc, aguardando os envios, viviam na estação, até realizavam lá concertos de piano para ocupar o tempo, estavam ali só para fazer o “despacho” para meter o ouro e outras coisas saqueadas aos judeus  a salvo. Até dentes de ouro, e relógios...Depois, não sei o que sucedeu, mas no fim da guerra muitos deles fugiram para a Argentina e Brasil. Quanto ao ouro… alguém está hoje a fazer uma vida regalada com ele, por certo. É assim a guerra, meu amigo, o azar de uns é a sorte de outros!

Geraldo nada disse, a sua posição de guarda-fiscal impedia-o por precaução de criticar a colaboração da temida PIDE em manobras no mínimo irregulares. Despediu-se de Auguste e voltou para o seu posto. Seria a última vez que se veriam, meses mais tarde aposentou-se da vida de estrada e foi viver  de vez para Saint Moritz.

Nessa mesma noite, em Elvas, onde morava há já sete anos, Geraldo, depois do serviço, após o jantar foi até uns galinheiros que tinha recuperado num terreno para os lado da Achada, já fora da vila, ali entreteria os seus dias com umas batatas e uns pintos quando a reforma da Guarda chegasse. Munido de um candeeiro a petróleo entrou no galinheiro, as poedeiras agitadas saltaram fora, dois ovos para uma açorda, brancos, estavam já a jeito. Atrás dum tijolo, e enterrado num buraco, um saco de sarapilheira guardava aquilo com que num futuro compraria muitos ovos, se preciso fosse: um lingote em ouro, amarelo e reluzente. Tanta viagem do Auguste havia-lhe aguçado a curiosidade, num dia em que o apanhara desatento, boquiaberto descobrira o conteúdo dos misteriosos camiões. E ladrão que rouba a ladrão….

Os anos passaram, já com mais de setenta, Ulisses, o neto de Geraldo, ouvia agora de novo falar do ouro que  Salazar deixara, para precaver o futuro dos portugueses. Sorriu, ouvindo a SIC Notícias, não fora só Salazar quem fora previdente. E nem de propósito, estava na altura de visitar as propriedades herdadas do avô em Elvas, a ver se continuava a haver ovos  no galinheiro…

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:52

18
Jul 11

Os frascos lá estavam, vazios, aos pés da cama do quarto do Hotel de Nice em Montmartre, o suicida, morto, olhava os frascos, olhos vidrados, uma calma exterior que o vulcão interior nunca alcançara. José Araújo acompanhara o último dia, em Lisboa o amigo Pessoa receberia a última carta, para ele já póstuma. No hotel, enquanto gendarmes e o médico confirmavam o óbito, recolhia alguns papéis, um lençol branco da medicina legal cobria o corpo inerte do jovem amigo de vinte cinco anos.

Morte anunciada, pensou Araújo, nunca a imagem de Tomás Cabreira Júnior pondo termo à vida na escada do liceu Camões, sete anos antes se  desvanecera a Mário. Saudoso Tomás, com ele escrevera “Amizade” peça de teatro a duas mãos, na flor da idade sumiam os dois agora, mortos de mão morta e não de morte morrida.

Mário nessa última noite estivera sempre em silêncio, escrevendo, frenético, despedindo-se de si, lembrando rostos, sobretudo os que lhe fugiram na estrada da vida. A mãe, que lhe partiu aos dois anos, o pai ausente em África, financiador do “Orpheu” e no fim sem dinheiro para o terceiro número, o Santa-Rita Pintor, agora em Lisboa, encharcado em aguardente, Helena, a rameira francesa que o amara a troco de cobiçados francos. Só José ficara, testemunha obrigatória do rito da despedida, e a estricnina libertadora, milagrosa e lenta dentro daqueles cinco frascos.

Paris. Primeiro o deslumbramento, depois do desagrado com Coimbra, o Café de la Paix e Baudelaire, as garçonettes, a Sorbonne, os devaneios em Pigalle, um tal Pablo Picasso pintando de tronco nu numa varanda do Boulevard des Capucines. E depois a rotina, a usura da novidade, solitário pelas ruas esperando a mesada que o pai Carlos Augusto a custo mandava de África. Ainda voltara a Portugal, dois anos antes, com o Pessoa e um castiço, o Almada Negreiros, lançara o Orpheu, Lisboa era pequena e serôdia, saíram apenas dois números, à conta do Carlos Augusto. E Paris de novo, as cartas para Pessoa, dois irremediáveis perdidos à distancia confessando a perdição, cruzados em seus labirintos. Poeta do impossível, incapaz de amar ou ser amado, exercitando poética masturbação e escrita-flagelo, em busca da impossível salvação.

José Araújo contemplara-o ainda vivo, sentado ao fundo da cama, descamisado, o éter num psyché de madeira, apenas a ele, único confidente em Paris, confessara cansaço. Cansaço por abraçar e não ser amado, cansaço por ver um arco-íris ao fim dos olhos e apenas chuva ao aproximar, cansaço por Não Ser, pilar duma ponte de tédio vinte cinco anos entediado. Morreria cedo, dizia, a tempo de não ter biografia. Nos últimos tempos, secretamente escrevera a Pessoa para Lisboa, o corpo mortificava-se pela alma, Pessoa nada ripostava, alma gémea só podia partilhar um sentimento igual, e no entanto não podia escrevê-lo, ateando impulsos suicidários no amigo. Não serviria de nada, o plano estava gizado. Órfão de amor, pária de si mesmo, só poderia escrever as linhas finais dum livro ainda no segundo capítulo.

Encerrado o quarto pela polícia francesa e removido o cadáver, José Araújo voltou a Lisboa. No Martinho, uma semana mais tarde, encontrou-se com Pessoa. Acabrunhado, tomava um café e uma “Águia Real”, a poção que o mantinha vivo para os heterónimos sem nome arrastando-se pela cidade, cambaleantes como ele. Araújo levou-lhe uns textos, inéditos, Mário deixara ordens de só a ele entregar, confidente e siamês. Sem ler, guardou-os no bolso do sobretudo, e incompreensível, como se falasse sozinho ripostou-lhe:

-Quem di diligunt adulescens moritur!. Ante o silêncio expectante de Araújo, traduziu: “Morre jovem o que os Deuses amam. Plauto.!

Turbilhão emocional, morrendo para finalmente viver, Mário de Sá Carneiro, decadentista redentor, futurista negando-se um futuro, esvaíra-se em frascos de estricnina, narcisista demais para só morrer quando quisesse, niilista de emoções, tristes e logo trágicas. Escrevera pouco, e a cada livro, acrescentara páginas decisivas ao diário da sua morte. Pessoa sentia-o, mas nada dizia, exilado em Lisboa, feiticeiro do Caos.

Era Junho de 1916. Noite cerrada, no esconso da sua casa no Largo de S.Carlos, leu as cartas de Mário, e logo buscou uns papéis na secretária de madeira. Entre as cautelas da casa de penhores e uma carta astrológica, encontrou o poema-testamento que Mário lhe enviara tempos antes:

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Abúlico, emborcou um absinto de um trago e apagou a luz. A de Mário acendera-se.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:25

17
Jul 11

O velho almirante ficou pálido e algo transtornado. Confirmavam-se os piores rumores: o avião pilotado por Sacadura Cabral despenhara-se. O Fokker 4146 de Amesterdão para Lisboa, um dos cinco adquiridos por subscrição pública e que seriam utilizados no projecto da viagem à Índia, caíra no mar do Norte, o corpo desaparecera nas águas revoltas e gélidas.

Gago Coutinho ficou em silêncio, o amigo vivera a vida em desafio, um dia poderia acontecer. Sacadura fora um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, director dos serviços de Aeronáutica Naval, comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa. Lembrava bem o dia em que se haviam conhecido, em África, e como ele se entusiasmara pelo seu sextante de bolha artificial. Juntos inventaram um corretor de rumos. para compensar o desvio causado pelo vento, era um espírito inovador. Em Moçambique Sacadura fora um dos oficiais escolhidos para fazer a carta hidrográfica do rio Espírito Santo e de trechos dos rios Tembe, Umbeluzi e Matola, em 1906 trabalhara como topógrafo na rectificação da fronteira entre o Transvaal e Lourenço Marques, em concorrência com os agrimensores ingleses. Foi nesse ano que se conheceram e assim continuaram até 1910, em missões geodésicas e geográficas. Já bons amigos, haviam participado na missão do Barotze, a fim de se delimitarem as fronteiras leste de Angola, trabalho árduo, feito ao longo de mais de 800 quilómetros de savana e floresta onde quase nunca os portugueses se aventuraram. Separaram-se depois: Sacadura foi para França e deu entrada na Escola Militar de Chartre, em Janeiro de 1916 fez o seu primeiro voo como piloto e em Março as provas de brevet com aprovação. Ainda em França seguiu para a Escola de Aviação Marítima de Saint-Raphael, onde se especializou em hidroaviões e esteve na Escola de Buc, pilotando aviões Blériot e Caudron G.3.

Voltaram a encontrar-se em 1921, quando com Ortins de Bettencourt realizaram a viagem Lisboa-Madeira, para experiência dos métodos e instrumentos por si criados para navegação aérea. Tendo obtido os melhores resultados, esse aparelho foi apresentado ao Congresso Internacional de Navegação Aérea, em Paris, em Novembro de 1921, onde teve boa aceitação e a memória descritiva do "Corrector" foi aceite e publicada nos Anais do Clube Militar Naval.

A tarde caía. Amigos do almirante na leitaria da R. Morais Soares, onde recebeu a notícia de chofre, consolavam-no em silêncio e respeito, morrera um herói nacional, um descobridor do século XX rasgando os ares e sobrevoando mares alterosos antes também por portugueses palmilhados, gaivotas livres e desafiadoras dos ares e dos ventos, desfraldando a bandeira das quinas sob aquele Atlântico português.

Fora Sacadura quem tivera a ideia, atravessar o oceano. Como nascera radiosa a manhã de 30 de Março de 1922, apenas dois anos antes, quais crianças subindo ao "Lusitânia" em Belém. A primeira escala foi nas Canárias, de onde partiram para São Vicente, em Cabo Verde e daí para os Penedos de São Pedro, com problemas de combustível. Ao amarar, uma vaga arrancou um flutuador do "Lusitânia", o que provocou o afundamento do avião, foram recolhidos pelo navio "República". O "Lusitânia" acabara de realizar uma etapa de mais de onze horas sobre o oceano, sem navios de apoio, mantendo uma rota matematicamente rigorosa. Apesar da contrariedade, provava-se a precisão do sextante modificado. A viagem estava a meio e já se fazia História. O governo enviou um Fairey 16, cujo motor veio a avariar entre os Penedos de São Paulo e Fernando de Noronha. Foi pedido um novo Fairey, que foi enviado no "Carvalho Araújo". Três dias depois partiram para o troço final, chegando à baía de Guanabara e terminando a viagem no Rio de Janeiro a 17 de Junho, depois várias escalas. Haviam sido apenas sessenta e duas horas de voo, mas quase setenta e nove dias de viagem, com as paragens e as trocas de avião. Os dois, o mar, as noites estreladas, o ruído dos motores, o falar português à partida e também triunfante à chegada.

Sacadura era osso duro de roer. Teimoso, fumador inveterado, nunca esquecera os meses passados em África, onde a amizade se sedimentara. Gago Coutinho recordava com emoção redobrada os trabalhos de astronomia nas noites enluaradas de África, e os negros pequenitos que vendo-os e aos seus estranhos aparelhos comentavam, ingénuos, que os brancos nunca se perdiam, à noite perguntavam a Deus onde estavam. Meses a fio perguntavam sim, e Deus respondia, era um amigo velhote lá dos céus que por vezes visitavam numa barulhenta caranguejola voadora, assustando os flamingos e as aves dolentemente migrando para Sul.

Aclamados como heróis em todas as cidades brasileiras, haviam concluído com êxito não apenas a primeira travessia do Atlântico Sul, mas pela primeira vez na História da Aviação, tinha-se viajado sobre o Oceano Atlântico apenas com o auxílio de navegação astronómica. Dois maluquinhos e uma barcaça voadora.

Em Lisboa, o nevoeiro estava cerrado, premonitório, de luto por Sacadura, como o país, consternado. Como nesse cruel mar do Norte, no nevoeiro de onde sairia um dia o rei D. Sebastião, desaparecera Sacadura Cabral, o herói da Madeira e do Brasil, frágil e impotente no imenso mar, nada mais senão destroços da aeronave, ruínas impessoais duma vida plena de vida, da coragem que uns chamaram loucura, da tenacidade que descrentes chamaram teimosia, do perfeccionismo que invejosos chamaram doença. Depois de Luís de Noronha, que se despenhara com o seu Voisin no Tejo, e  Óscar Monteiro Torres, abatido por um Fokker alemão em Soissons durante a Guerra, era a terceira grande vítima da nossa aviação militar.

Gago Coutinho, o velho lobo-do-mar, enfiou o gorro de lã e seguiu solitário Almirante Reis abaixo. Olhou para o céu de Lisboa, cinzento e ameaçador, e quase distinguiu sorridente atrás das nuvens o rosto másculo e o bigode inconfundível do companheiro com quem patrulhara as estrelas fumando o inseparável cigarro. Não se perderia, como nos tempos dos sertões de África, Deus à noite lhe haveria de dizer onde estava.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:51

16
Jul 11

-“Joana”…- Foram as ultimas palavras de Delfim Mourão, em torno do leito de morte familiares do velho advogado de Sintra entreolhavam-se. No momento em que partia do seio dos vivos fixara o tecto do quarto, já partindo, e balbuciara esse nome, nenhuma parente ou amiga conhecida tinha tal nome próprio. Quem seria Joana?

Delfim Mourão, oitenta anos, fora proprietário agrícola nos anos setenta, com a emergência da urbanização já no outono da vida conjugara o seu próspero escritório com negócios no imobiliário. Lido e viajado, nunca fora um pato bravo, dinamizara mesmo uma fundação de estudos históricos, que anualmente atribuía um prémio com o seu nome. Um antigo presidente fizera-o comendador no 10 de Junho. Deixava Matilde, devotada esposa de cinquenta anos e três filhos, nenhum seguira Direito ou os negócios. Flávio era jornalista, David agente de seguros, António vivia na Holanda onde abrira um atelier de design.

Os últimos dias aceleraram um cancro do cólon devastador. Delfim sabia, conformado fizera testamento e enquanto as forças deixaram fizera um roteiro sentimental pelo seu passado: a vinha de chão de areia em Fontanelas onde seu avô Manita cultivara o guloso ramisco; a Sociedade União Sintrense, onde muitos escudos deixara ajudando a velha colectividade; com os filhos e netos haviam feito um almoço, que todos adivinharam ser o último, no João Padeiro, em Nafarros. Filantropo, causídico, vagamente tido como mulherengo na mocidade, Sintra perdia um valor e uma referência.

Joana… Flávio, o mais velho estranhou-lhe as últimas palavras. Depois do enterro, largamente chorado e participado pelas autoridades, feitos os discursos pesarosos pela perda irreparável, Flávio recolheu-se na casa de Nafarros, capturando com o olhar cada pormenor e cada objecto, como se todo o seu passado ali estivesse e como ao velho Delfim deixasse de vir a recordar, posta que fosse a venda da casa. A mãe não queria lá continuar, as memórias esmagavam, cinquenta anos pendiam daqueles retratos e trepadeiras, o baptizado de António, a formatura de David, que depois deixaria Económicas de lado, a morte da avó Ermelinda.

Numa gaveta da velha secretária de bilros, onde pontificava um busto da República oferta de Salgado Zenha, velho vizinho e amigo, jaziam cartas amarelecidas trocadas com José Alfredo, o velho escriba de Sintra, um poema de Francisco Costa, uma caricatura sua feita pela Maria Almira, com uma carinhosa dedicatória no verso. A casa cheirava a cera, forte, daquela cera que transporta para passados de canjas de galinha com um ovo dentro, gemadas de açúcar, cânfora e naftalina nos móveis para castigadoras expulsar as traças. Cheiros datados, como os musgos da parede, certificação de vetustez e passado, os renovados ninhos de andorinhas no beirado, anualmente arribando nos idos de Março, sinal de vida neste caso e de renovação.

Delfim Alves Mourão tivera uma vida austera. Liberal na política mas conservador nos costumes, poucas vezes se lhe vira uma lágrima, uma palavra desalentada, era uma força da natureza. E um asceta também. Não bebia, anualmente ia para as termas, já depois dos quarenta, frequentemente escutava Brahms numa velha grafonola ficando largos minutos mirando a serra, sobretudo nos dias cinzentos, com a neblina a enevoar os cumes e recolhendo os palácios numa dimensão irreal onde eles efectivamente pertenciam. Vendo o filho absorto na leitura de papeis do pai, Matilde Mourão, ainda combalida pela perda, juntou-se-lhe no escritório, instintivamente mãe e filho acariciaram-se, uma foto na parede de toda a família testemunhava para a eternidade três gerações de Mourões, com os patriarcas ao centro, foto do velho Granja, devidamente assinada como era bom tom. Flávio manteve-se uns instantes em silêncio para logo tentar saber mais sobre o mistério que o atormentava:

- Mãe, que Joana era aquela que o pai mencionou antes de fechar os olhos?

-Não sei, Flávio, não sei. O teu pai conhecia muita gente, e naquela altura a bem dizer estava já delirando. Alguém do passado, uma cliente…- Matilde já se preparara para a perda, há meses que o Dr. Botelho a desenganara, os tratamentos no IPO haviam parado, não adiantariam. Flávio manteve-se nostálgico alguns segundos, e voltou à carga:

-Diga-me. Acha que o pai foi feliz?

Matilde fez um sorriso esfíngico e saiu para o quarto, deixando uma frase enigmática:

-“Nada de precioso é transmissível. Uma vida feliz é um segredo perdido”

Flávio fechou a gaveta, olhou uma última vez para o retrato de família na parede do escritório e saiu a tomar ar, breve teria de voltar para o jornal e o quotidiano de mundos efémeros e voláteis. Numa prateleira da estante recheada de clássicos e manuais de Direito, uma foto a sépia fazia de separador ao centro dum velho livro. Sorridente prisioneira num passado distante, ciosamente guardada entre letras de um romancista francês, a foto risonha e despreocupada de Joana Travassos, a primeira paixão de Delfim ali dormia na obscuridade, cheirando a mofo, arqueológico testemunho de uma das várias vidas de Delfim Alves Mourão, ilustre causídico de Sintra.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:16

14
Jul 11

Negócios de mármores levavam Baltasar Antunes naquele friorento 14 de Dezembro ao Porto, de Montelavar seguiria para o Rossio onde pela noite desse sábado apanharia o comboio, toda a noite em viagem, trinta e dois anos enxutos e a necessidade de não descurar os negócios herdados do pai metiam-no a caminho. Os clientes eram de Matosinhos, com um pouco de sorte almoçaria em Leça umas tripas no boteco do seu amigo Leónidas, anos antes companheiro no Exército.
Em Lisboa havia que esperar umas horas, uma ginginha no Rossio aqueceria os pés antes do embarque, previsto para as sete. Na bilheteira o funcionário, enervado, despachava os clientes, chegara uma reserva urgente de vinte lugares para o comboio da noite, o presidente da República, o major Sidónio Pais e comitiva viajariam nele.

Baltasar ficou desagradado, ir no mesmo comboio do presidente só atrasaria a viagem, além do mais não apreciava muito o actual. Sidónio Pais tomara o poder um ano antes, a 5 de Dezembro de 1917 e juntara em si os lugares de presidente da república e do Ministério, como dizia o Dr. Rabaça, lá em Montelavar, o homem governava em ditadura, proibira jornais, chegara da Alemanha onde fora embaixador cheio de ideias esquisitas.

Despachada a bagagem ficou a deambular no exterior da estação, a vista sobre o castelo de S.Jorge em fim de tarde era sublime. A um canto, um grupo de três cochichava, não pareciam passageiros, pois não traziam bagagem, um deles tinha um bigode extravagante e boina negra. De resto, um grupo de professores de Famalicão, que viera a um Congresso Católico, camponeses com cestas retornando às aldeias, a primeira classe estava já reservada para a comitiva presidencial. Um dos que cochichavam aproximou-se de Baltasar, pedindo lume para um cigarro, este acendeu-o, o estranho, em silêncio, retirou-se e voltou para junto dos outros, eram cinco e meia, o comboio sairia às sete.

Pelas seis começou a chegar a comitiva de Sidónio, vinda de Belém: adidos militares, oficiais com dragonas, alguns cavalheiros de ar sisudo, adiantados, detinham-se despachando a bagagem que carruagens a cavalo traziam para embarcar, iria a conversações com a Junta Militar do Norte. Baltasar comeu num café do Rossio, regressado à estação um cavalheiro de meia idade meteu conversa com ele, segundo apurou seria seu companheiro de carruagem:

-Este Sidónio tem feito um bom trabalho, sim senhor. Olhe, na zona de Alcântara, onde moro, não há pobre nenhum a que uma malga de carne  não falte. Ele com o Afonso Costa é que não quer nada, mas o povo está farto do “Mata-Frades”…- interrompendo, o estranho, que apurou chamar-se Baldaia , instou Baltasar- o amigo não é republicano fanático, creio?

Baltasar acalmou-o:

-Não, não, nem ligo a política, mas olhe, acho que ele tem-se aproximado muito à Igreja. E nem se pronunciou sobre aqueles eventos na Cova da Iria o ano passado. Se fosse o Afonso Costa, já estavam todos no desterro! Se conseguiu tirar o país da Grande Guerra já fez muito!.

Passados uns minutos uma algazarra soou do lado dos Restauradores, o jovem e carismático presidente chegava em carro aberto e uma multidão espontânea dava vivas ao Pai dos Pobres, a que ele respondia acenando, brioso na sua farda militar. Sidónio gostava das multidões e do povo, por ocasião da epidemia de tifo desdobrara-se em visitas a hospícios. O ambiente político, porém, era pesado: a derrota do Corpo Expedicionário em La Lys, em 1915, onde morreram ínumeros oficiais e milhares de praças, o perigo do retomo à monarquia, a revolta republicana mal sucedida de 13 de Outubro em Coimbra e Évora, a União Operária Nacional que gritava nas ruas contra Sidónio, faziam adivinhar que algo inesperado podia acontecer, o Dr. Rabaça num jantar lá em Montelavar já o antevira, com o seu cachimbo sempre acesso.

A Guerra acabara entretanto, com a assinatura do armistício em 11 de Novembro, mas Sidónio fora a uma cerimónia na semana anterior de condecoração dos sobreviventes do "Augusto Castilho" e aí se abafara um atentado contra si, como de costume, as facas andavam desembainhadas, eram dias tortuosos os de Lisboa nesses dias, nada como o sossego de Sintra e os bailes da Sociedade em Montelavar.

Baltasar a um canto viu chegar o magro e aquilíneo presidente, passando por si e Baldaia cumprimentou-os com um aceno e uma espécie de continência, consigo seguia um grupo de pessoas, bem como um filho e o irmão. Uma banda da Guarda Nacional
Republicana chegada minutos antes, tocou o hino nacional, solene e garbosa. Sidónio vaidoso e bem disposto comentou com o seu chefe da casa civil o contentamento pelas manifestações de simpatia, Reinaldo Ferreira, o conhecido repórter X que seguia a seu lado, tomava apontamentos. Um guarda entretanto mandava os passageiros ainda na gare tomarem lugar, mal o Chefe de Estado entrasse, arrancariam de imediato.

Entravam Baltasar e Baldaia na sua carruagem quando um eco de tiros soou na estação, alguns pombos até ali aninhados nas traves esvoaçaram agitados. Num relance pela janela, uma multidão rodeava o presidente que jazia numa poça de sangue, fora alvejado, bem como outros acompanhantes. Saindo a correr a ver o sucedido, foi barrado por um agente da guarda, ao longe, correndo, vislumbrou nitidamente o vulto que lhe pedira lume uma hora antes, corria na direcção do Rossio.

Jacente e esvaído em sangue, Sidónio Pais murmurou umas palavras que Baltasar ainda captou: "Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria...". Perdeu os sentidos, e no meio de confusão foi conduzido ao hospital de S. José. Mais três corpos jaziam na estação do Rossio. Retirado o agonizante presidente, o chefe da estação correu a cancelar o comboio para o Porto, a confusão no local era total. Já tarde, Baltasar não podia voltar a Montelavar, alojou-se num hotel do Rossio.

No dia seguinte, a morte do presidente era profusamente relatada pela imprensa, dois dos atiradores haviam perdido a vida também, o homicida era um tal José Júlio da Costa, que havia sido preso e estava detido na escola de Guerra, pela foto, o homem que lhe pedira lume na véspera. Pelo sim pelo não, decidiu cancelar a viagem e voltar para casa. De novo na estação do Rossio, mais calma, um mendigo pedia uma esmola. Lembrando a sopa do Sidónio, Baltasar deu dois tostões, decididamente andar de comboio estava a ser um verdadeiro transtorno por esses dias.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:56

11
Jul 11

Telefonar ao Rui, porque não? Fazia meses que não se viam, o novo emprego em Almada afastara-o, nem Facebook nem um SMS, a voragem dos dias ia deixando a velha amizade pelo caminho. Será que ainda há amizades, não sobrará apenas a necessidade de ter pessoas em volta, rodeando imagens e não pessoas de carne e osso? Filipe descrera já da verdadeira amizade, os silêncios de Rui, seu velho companheiro eram o desgosto mais recente, afinal as coisas apenas pareciam durar enquanto durasse o tempo dumas rodadas ou enquanto não se partisse para melhor, onde os vultos bons dos dias maus só lembram a existência desses dias maus, mesmo quando têm gente boa dentro, firme e leal.

Filipe sempre estimara os amigos, todos, dos dias bons e maus, até porque quando viessem os bons haveriam de celebrar e abraçar-se como sobreviventes dos tempos de chumbo, sempre acreditara nisso. Mas não. Aquilo que para ele era amizade para outros não passava de rotina, do tásse bem de figurantes na espuma dos dias. Rui arranjara namorada, não mais voltara a ligar, apesar das promessas de lealdade e companheirismo sem nódoa, sumira, assim, como se os anos de nada servissem e o velho amigo fosse agora igual ao cliente do café que todos os dias à mesma hora lia o jornal e que já era familiar também.

Absorto e sentado numa rocha na praia, Filipe saboreava o silêncio, esse sim, verdadeiro, só dele, cansado do mundo, de ilusões.  Envelhecia-lhe o corpo, e se sempre procurara manter o espírito jovem e crédulo, tinha de admitir que assim não era já. Começava a ver mal, ele que sempre se metera com os “caixa de óculos”, a não distinguir as letras do jornal. O álcool, antes libertador, era agora castigador e pesado, bebidas brancas nunca mais, que delator o fígado já se queixara, as caixas de Ben-Uron antes apodrecendo no armário da cozinha tinham agora saída frequente, uma por semana, logo chegaria a rebelde próstata, os colegas no emprego iam avisando, a vida a estreitar caminhos e a fechar portas. Pequenas por enquanto, logo farmácias substituiriam os bares na busca de bálsamo para o corpo e anestesia para a alma.

O mar era uma coisa estranha. Poderoso mas estranho, à falta de se poder domar, contempla-se, como que o querendo amaciar. Apático, Filipe olhava ao fundo e qual diaporama via o seu passado em filme, reflectia como nos seus quarenta e sete anos já vivera várias vidas, como as do gato, todas diferentes, sempre nela entrando renovados personagens, histórias, amizades e logo sem dar por isso, encerradas em capítulos estanques, até que outro capítulo se abriria e de novo tudo começava. E ele, ingénuo, incauto, voltando a dar o benefício à Vida e esta a jogar às escondidas, sempre com os mesmos personagens mas estas com caras novas, diferentes roupas, geografias recentes. Idiota, nunca mais aprendia a não cair na ritual armadilha, a acreditar em desacreditar das pessoas, a limpidez da verdade vertida na intermitência da farsa.

Mirou o telemóvel e correu a agenda com o cursor: o Rui, a Susana, o Beto, a Maria Madalena, números dantes sinal de alegria e festa, milhentas vezes tocados para cá e para lá, agora arquivo silencioso e morto, estranho, o Rui que diariamente falava pelos cotovelos até o seu número esquecera já, recordava-o agora, relendo, melhor seria apagar, virar a página.

Era um lamecha. Crescido nas festas de garagem e nas promessas de amanhãs cantando, tardio crente na amizade do tirar a camisa ou do largar tudo para acorrer aos “nossos”, sagrados, via-se agora só. O mais perturbador é que se sentia bem assim, couraçado, protegido de novas traições, ausente mas presente para si, nunca como agora apreciara tanto a solidão, ele que a receara em tempos. Os da sua geração saltitavam do dentista para o centro de saúde, caseiros e sem conversa, vencidos da vida e chatos, neles revia a sua juventude, mas pouco lhe diziam, sombras nimbadas mas etéreas, arquivados no passado onde pertenciam, no álbum, guardadinho, tesouro intransmissível, património de baú. Aos recentes agradava-lhe a juventude, os sonhos, o poder ser paternal e ao mesmo tempo irmão mais velho sem paternalismo, companheiro cota e protector. Tudo era efémero, porém, inquieto olhava em volta e tudo surgia fugaz, sem futuro, todos amargamente sem futuro, vencidos da vida e sem vida, arrastados pelas mesas dos cafés ou como zombies deambulando pelos shoppings ou no libertador calçadão da Praia Grande.

Em silêncio, foi até ao Angra, como sempre beberia a fraternal cerveja e puxaria dum papel a registar palavras que logo jorraria fora, com os guardanapos já rasgados teria hoje por certo um livro já escrito, até chegara a pensar num título, Diário dum Guardanapo sem Futuro, psicanálise do fim da tarde, com mar em fundo. O empregado da esplanada era da velha guarda, “amigo”, se amigos são todos os que ficaram rindo na foto, prova morta dum passado a sépia. Não há amigos. Há momentos. Amigos talvez fossem os que por acaso estavam quando o flash disparou. Capturados. No passado. Presos.

Sentia que algo se perdera e também ele por aí se perdera, outros também, e curioso é que ninguém se ousava encontrar, seguindo obedientes o argumento dum filme já escrito de onde só se regressa em flashback. Filmes demodé, de final feliz, de vidas desejadas não vidas vividas. Cinemas Paraíso.

Olhou para o telemóvel, terminou a cerveja, e sem hesitar apagou o nome do Rui da agenda. Mais um. A vida é uma agenda em permanente actualização.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:28

10
Jul 11

El-Rei D.João III passeava a cavalo nas escarpas da Roca, promontório do Inferno que sempre o atemorizara, os relâmpagos sobre o mar aconselhavam que recolhesse ao mosteiro da Penha Longa, onde se detinha com a rainha naquele Maio de 1539. Quisera o destino que dias antes morresse de bexigas o infante D.Filipe, seu herdeiro, e de Espanha o embaixador Francisco Lobo reportasse a morte em sofrimento de sua irmã, a imperatriz D.Isabel. Rei em luto permanente, era dado à solidão, e se bem que privilegiasse seus domínios de Tomar e Almeirim sempre que se recolhia no termo da Penha Longa percorria a cavalo a costa ventosa e atlântica, ultima fronteira do Reino em solo europeu. Pêro de Alcáçova Carneiro, seu conselheiro, que o acompanhava junto com Rodrigo de Castro, aconselhava o regresso, viria chuva e anoitecia.

D.João apeou-se e deixou que o vento lhe açoitasse a face e os cabelos, o desafio à zanga do Altíssimo despejando sua fúria sobre o mar era próprio do rei dos mortais. Místico, Pêro benzia-se e esconjurava as tempestades, temente a Deus, reconhecia o som familiar e perturbador da Roca  e lembrava o  segredo daquele local que seu pai lhe confessara ainda em tempos do defunto rei D.Manuel:

-É bom que nos vamos, Majestade, a borrasca está perto, manda o Senhor que observemos respeito a Seus sinais de desagrado! Destas costas devemos manter distância…

El-Rei nada disse, o seu espírito não estava para argumentos, assustado, o valido despejava medos e temores de outras tempestades:

-Há quase vinte anos, a cidade de Milão foi batida por  relâmpagos assim, de modo que todos pensaram ser esse o último de seus dias. Caindo um raio sobre uma torre da fortaleza onde se guardavam munições para a artilharia, foi de tal força a destruição que até alicerces foram arrancados, fazendo saltar pedras que logo despedaçaram pernas e braços. O estrago foi de tal ordem que de duzentos homens sobreviveram apenas doze, sendo horrível o espectáculo de pedras lançadas a mais de quinhentos pés, vinte bois não as teriam conseguido levantar. Devemos temer e recolhermo-nos em dias como este!

Carneiro exagerava, com pressa em partir, divertido com o temor do secretário o rei deteve-se um pouco  mais à chuva,lá em baixo numa nesga de areia peixes voadores saltitavam assustados. Carneiro cerrou o fácies, qual arauto do fim do mundo e continuou a arenga:

-Também no ducado de Brabante no sétimo de Agosto de 1527, um trovão abalou Malines de tal modo que a todos ocorreu ter a cidade sido engolida pelas entranhas da terra, deixando um insuportável cheiro a enxofre!

O monarca sossegou o atarantado fidalgo, mas este coloria de horror o desejo de escapulir para a Penha Longa, D.João achava que ele não lhe dizia o que o preocupava:

-Quando existia o templo de Hánon, na Líbia, e Satanás se fazia adorar na forma de um bode, este juntou ali uma infinidade de tesouros dos peregrinos. Ora quando o rei Cambises da Pérsia enviou o seu exército para pilhar o templo, o chifrudo encheu o céu de turbilhões, trovoadas e trovões matando cinquenta mil homens, sufocados e queimados. Há sempre que pôr a salvo quando ele ronda as escarpas da Roca, Majestade!

Rodrigo de Castro, até ali afastado junto ao cavalo, reforçou os temores de Pêro de Alcáçova Carneiro:

-Melhor seria que fossemos, sim. Não há muito, notícias de um clarão entrando na catedral de Siena quando o Santo Padre rezava missa, deixaram todos em pânico, fugindo da Santa Missa. A Deus o que é de Deus, Senhor!- rematava o fidalgo, benzendo-se.

D.João anuiu, e debaixo da tempestade retomaram a estrada da Penha Longa, o mar estava roxo e as ondas ameaçadoras. Já afastados uns minutos, lá em baixo, no mar revolto, entre peixes voadores com corpos de morcego, uma besta despertada do sono assomava à entrada da gruta, de cabeça com escamas achatada e asas descomunais. De poderes diabólicos, tinha como prodígio dominar os demais peixes e instruí-los no afundamento de navios que intrusos lhe invadissem os domínios. Poucos o haviam avistado, o poder do fel que expelia sobre incautos pescadores condenava-os à cegueira e infertilidade. Nem âncora, ou arma, corda ou máquina jamais pudera contra o monstro da Roca, senhor de naufrágios e dramas. Com apenas dois dedos e escamas cobrindo as pernas, ali tecia o destino dos mares, já Plínio descrevera ao tempo do imperador Tibério a existência na Ibéria daquele monstro, que em noites de tempestade fazia soar seu canto lancinante soprando uma branca e enorme concha e provocando catástrofes nos reinos da Cristandade.

D. João III e os validos chegavam entretanto à Penha Longa, encharcados e sob o eco de trovões lancinantes recolhiam-se ao mosteiro.

Senhor do Mar Oceano, das Índias e da Navegação, grande rei do Ocidente, nada podia porém contra o eterno e desafiador monstro marinho, implacável ocupante das grutas da Roca, Senhor das Tempestades e dos Mares Profundos.

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:23

08
Jul 11

Depois de quatro horas de voo desde Hong Kong, o periclitante avião da Air India aterrava no Indira Gandhi International Airport, Bruno Gavião, veterinário em férias suplicava pelo ar condicionado do hotel. Depois da experiência civilizada e em grande do Aeroporto de Hong Kong, o moderno Kai Tak, numa ilha artificial construída perto de Chek Lap Kok, a aventura de pouco mais de quatro horas até Nova Deli mostrara-se decepcionante: sikhs maltrapilhos tirando os sapatos e dobrando as pernas sobre os assentos, o horroroso filme de Bollywood com cantores pimba piores que o Toy, caril de frango logo às seis da manhã, já era de mais. Para cúmulo, a casa de banho de bordo avariara atolada em trampa, nem meia hora havia passado desde que o avião descolara.

Depois das verdes selvas do Camboja e Vietname, a aridez castanha do Rajasthan a partir do avião foi-se desenhando lá em baixo, os casebres periclitantes e a ausência de estradas ou algo que se parecesse antevia uma realidade bem diversa da pujante China onde estivera três semanas, em progresso e modernizada. Tocado o solo, logo um bando de velhas com saris azuis e rosa se precipitou para a porta, Bruno, já veterano de aeroportos deixou-se estar, não tinha pressa, um guia da agência deveria esperá-lo com um carro para o acompanhar nos dias que ia estar na cidade.

Olhando pela janela o cenário era pior do que o esperado: para um país quase continente, o aeroporto da capital da Índia era à primeira impressão um barracão de madeira, lembrou-lhe a Rodoviária Nacional em Castro Verde, no tempo em que fazia visitas às suiniculturas do Alentejo. Nada de “mangas”, pista esburacada, os passageiros tinham de ir pelo seu pé para a zona da alfândega, o calor era forte e seco. Dentro do barraco, a que chamavam aeroporto, impotentes ventoinhas de plástico faziam  por atenuar o calor abrasador, ar condicionado era algo que ainda não chegara àquelas bandas. Dezenas de indianos de bigode e cabelo escuro oleoso deambulavam carregados de embrulhos enrolados em cordas, muitos com barrigas proeminentes, exterior sinal do excesso de tandoori e chamuças, Bruno começava a ficar com náuseas e só esperava que o hotel de cinco estrelas que escolhera fossem cinco estrelas mesmo e não cinco estrelas da Índia. Aquela viagem fora um fetiche romântico e exótico, só para as vacinas passara duas horas no Egas Moniz um mês antes.

Atarantado entre setas que tanto mandavam virar à esquerda como à direita, lá chegou à zona de recolha de bagagem, um indiano desdentado e de sorriso grotesco descarregava malas de vinte pessoas, quase todas trouxas de roupa e material informático adquirido em Hong Kong, pelo aspecto encomenda de alguém, pois o indiano não parecia distinguir um computador dum micro ondas. As suas duas malas levaram vinte minutos a aparecer, uma cinzenta grande, com a roupa, e outra azul onde trazia os souvenirs adquiridos na China: um conjunto de guerreiros terracota adquiridos em Xian, um dragão trabalhado em jade, miniaturas de pagodes e alguma roupa contrafeita adquirida em Xangai, boas imitações de uma mala Louis Vuitton e chás vários, para oferecer aos colegas da Zona Agrária. A mala azul ao passar na passadeira foi marcada com um giz branco por um polícia mal cheiroso, que marcava aleatoriamente algumas malas, aí de cinco em cinco, para controlo na zona da alfândega. Pegou nas duas malas e no passaporte e meteu-se na fila, era o único português, e europeu, segundo lhe pareceu.

Chegada a vez, mostrou o passaporte, o visto estava em dia, para 6 meses, já se preparava para seguir quando um polícia com bigode escuro e barba mal aparada o mandou abrir a mala azul. Lá seguiam os guerreiros terracota e o dragão de jade, alguma roupa da manhã que não lhe apetecera arrumar na mala grande e alguns livros. O polícia, com ar de Poirot asiático pegou num dos guerreiros, mirou-o cirurgicamente, e sondou Bruno, com voz grave, num inglês com sotaque arrastado:

-What’s this?- perguntou, com ar de quem detectara a jóia da coroa ou o ceptro do marajá de Jaipur. Bruno, descontraído mas saturado do calor e do cheiro a caril apressou-se a explicar, em inglês:

-Souvenirs. Venho da China, de férias, são coisas para os amigos, vou ficar uma semana. O trivial, sabe: Deli, Jaipur, Taj Mahal, o Triângulo Dourado….

O polícia colocou um ar grave e meneou a cabeça, estava só e o passageiro seguinte a mais de três metros:

-Hummm… não sei… não será roubado? É preciso licença para entrar com isto na Índia!- pareceu desencantar na altura, Bruno nunca tal escutara, eram meras estatuetas das que se vendiam às centenas nas feiras  de Xian e Beijing.

-Pode crer, são souvenirs. Onde está escrito que é proibido?

O polícia chegou-se a ele e baixando a voz abordou-o com voz complacente:

-Bom… digo-lhe o que vou fazer. Você dá-me 50 dólares, e eu, para provar a  minha boa vontade para com  o sahib, deixo-o ir. Se não…

Bruno pasmava. O próprio polícia “fazia-se” a uma propina. Olhou em volta, nenhum europeu, estava entre a espada e a parede. Tentou refilar, mas, acabado de chegar e sem conhecer as praxes locais, sacou de 50 dólares, enfiou-os no passaporte e entregou ao polícia, que, sorridente, discretamente surripiou a nota, meteu-a no bolso e carimbou o passaporte, não sem desejar um sonoro “welcome to India!” que Bruno, danado já não ouviu.

Era demais! Bem o haviam avisado, países do terceiro mundo, mas logo a polícia e ainda no aeroporto! Lá fora deveria estar um guia com um Tata para o levar ao Taj Palace, acelerou o passo, suando em bica a caminho da saída da área internacional. Poucos passos faltavam para transpor a porta, suja de dedadas e rangendo por falta de óleo, outro polícia, quase sósia do primeiro, chamou-o, pedindo os papéis e que abrisse a mala azul, a marca do giz ainda recente alertara para a mala, era supostamente suspeita, fosse lá porque razão fosse. Ruborescido, abriu e lá repetiu que não, não ia fazer negócio com as peças e que os malditos guerreiros eram para oferecer aos amigos, “souvenirs, bloody souvenirs, only, understand?”.

Com uma calma de jumento e enrolando o bigode, o polícia colocou um ar clemente e lá repetiu o “formulário” de boas vindas à Índia:

-Bom, digo-lhe o que vou fazer….- espumando, Bruno lá sacava de mais 50 dólares, logo correria para a porta antes que o dinheiro acabasse e outro zeloso funcionário lhe quisesse aliviar a carteira com mais um fraterno welcome.


publicado por Fernando Morais Gomes às 22:26

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