por F. Morais Gomes

07
Jul 11

 

"Escute - disse o director olhando-o com ar grave e apreensivo. - Esse país de que falo é um país na ponta da Europa sem tino nem gente com bom senso, todos se digladiam e, pior, já delapidaram os recursos. É pena, tem um sol e uma luz maravilhosos já lá passei férias uma vez, a melhor cozinha da Europa – Raymond McDaniel, CEO da Moody’s avivava o cachimbo, reapreciando o relatório que tinha na sua frente com a classificação de urgente, a manhã em Washington raiara tímida dos lados do Potomac, a emissão da Bloomberg não se calava com a história do corte do rating português.

-Qual é a urgência, sir?- sondava Michael Turner, regressara duma missão de monitorização na Grécia, nova tarefa lhe pedia já o chefe, sempre stressado.

-A questão é: um terço dos bancos espanhóis têm lá activos, a exposição ao risco é grande, o Steve disse-me que tudo podia acontecer, apesar do dinheiro recente e da mudança de governo. E depois os políticos lá não percebem nada de economia, o novo ministro fala tão baixo que nem os portugueses ouvem o que diz, see what i mean….

Michael sacou do portátil e fez um download dos relatórios de visitas anteriores, o budget do país era trash, qualquer vendedor de pizzas de Times Square faria um plano de negócios melhor. E depois, tudo com base em previsões e estimativas não suportadas, nos últimos dez anos nunca cumpriram nada do que diziam.

-“Aumento das exportações em 7%”….Estes tipos são uns cómicos. A vender para onde?- sorriu McDaniel, devorando um cheeseburger com cogumelos, o Tony , funcionário de ascendência açoreana ajudava a traduzir o documento em português - Mistura de Chicago boy e Keynes! O Paul Krugman bem lhes tem malhado no New York Times!- confidenciava com  Tony. No dia seguinte voltou a reunir com Turner:

-Li os documentos disponíveis, e creio bem que só uma severa cura de emagrecimento na Administração deles pode ajudar a reduzir o défice. Mas um stimulus plan é necessário, actuar sobre o emprego e dinamizar o investimento público. Reduzir taxas do imposto sobre as empresas e a despesa corrente- Turner ia debitando, a Grécia reagira de forma difusa, mas trabalhar com os gregos era complicado, trapaceiros, as estatísticas não eram fiáveis. Ah e teria de haver acordo consensualizado para um plano a 3 anos, recomendava a bold no memorando que agora entregava. McDaniel franzia o sobrolho:

-Isso é que é pior! Sabe como é, Michael, latinos, lá a política é feita na base do soundbite, é preciso muita pachorra. Temos de lhes dizer o que fazer deixando sempre a ideia que foram eles que decidiram sozinhos. Any way, eles é que sabem. Vai ser necessário um segundo bailout, como com os gregos…

O telefone interrompia a conversa, o governo em Lisboa barafustava e ameaçava não cumprir com as recomendações que  haviam formulado uma semana antes, depois dum meeting com o novo Treasure Secretary em Lisboa.

-Michael, estes tipos estão a deixar-me exasperados. E ainda por cima pensam que são smart guys. O défice real é 7,7%, diziam ser apenas 5,9% mas disfarçaram alguns itens. Como os gregos, estão a ver. É o que dá deixá-los entrar no clube sem terem condições.-Raymond aproveitava para dar umas tacadas de minigolfe na alcatifa do gabinete, era bom para o stress.

-Os alemães têm muita culpa nisso, criaram o euro mas esqueceram-se dos mecanismos de regulação. Foi até à primeira crise! - perorava Turner professoral, da  escola de Yale- e nós também não podemos falar muito….o  Madoff…

-Well, well, that’s diferent, we always knew….- McDaniel desvalorizava.

-Sabíamos?- Michael pasmava, mas melhor seria tornar ao dossiê Portugal. Raymond, sentando-se na secretária, de mangas arregaçadas, gizava um plano:

-Vai fazer-se o seguinte, já combinámos com o ministro alemão, o Schauble, ele chama os políticos de Lisboa a uma reunião, assinam um documento em como se vinculam a tudo o que propusermos, e nós respondemos dizendo que vamos respeitar a soberania deles, como sempre fazemos aliás, e, no Outono talvez subamos um nível, em sinal de boa vontade

-Of course…- sorria Turner, quatro anos na função já lhe dera traquejo destas coisas, na Irlanda até fora giro, comemoraram tudo com Guiness no Temple Bar, McDaniel continuou:

-Eles lá entretêm a opinião pública falando do interesse nacional, and stuff like that.Mas, first stage: despedir funcionários públicos, congelar os vencimentos e privatizar as empresas do governo enquanto estivermos neste nível, há aí uns fundos de pensões de Dallas que querem comprar, cheap. Depois segue a segunda tranche. Ah, é os nossos rapazes têm de acompanhar o plano com minúcia, Michael você vai para lá, olhe marque reuniões com um tal Catroga, é um velho bem disposto,é amigo do prime minister. Leve-o a jantar e vá-lhe dando instruções, como se fossem ideias dele. Com um bocado de sorte ele ainda lhe tira uma foto com o telemóvel, é um brincalhão!- o chairman sorria. Tocava o telefone entretanto:

-Sim?....Yes…Yes…Oh No!- Raymond franzia o sobrolho, o jantar com o George Soros teria de ser adiado, maldito lugar, caíam  ali todos os aflitos, se soubesse teria aceite a presidência da Wall Mart, bastante mais tranquila.

-Algo de grave, sir?-  Turner tentava perceber, algo grave se passava.

-A Espanha! O BBVA entrou em bankrupcy,por causa de exposição aos activos portugueses. Não tínhamos previsto!. Malditos europeus!

Posta a reunião regressaram agitados aos gabinetes, telemóvel sempre a tocar. Ameaçava chover em Washington e a rotineira adrenalina invadia os arejados mas frenéticos gabinetes da Moody’s Investors Service.

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:52

06
Jul 11

“Sorria, você está na Bahia!”. O slogan era ajustado, depois de uma viagem de sete horas, Salvador aí estava, tombava uma tempestade tropical dos lados de Itapuã. Apesar de ir para férias na praia, Jorge Videira deteve-se uns dias na cidade, antes de se isolar em Porto Seguro no resort do Wanderley,  brasileiro e seu sócio no atelier de  arquitectura em Cascais.

A Salvador chegava com a ideia de baianas roliças fumando charutos e mães de santo exorcizando turistas em terreiros de candomblé. E o axé. Não ficou desiludido. Interrompendo o projecto de um colégio em Lisboa, aproveitou para merecidas férias, o português açucarado do Brasil e as inevitáveis caipirinhas intervalariam dias de stress, o projecto atrasava, o cliente de Lisboa não se decidia a adjudicar.

Logo na primeira noite, um taxista vendo que estava só levou-o a “cair no pedaço”, no Casquinha do Siri, o melhor bataclã da cidade, quatro mulheres para cada homem, dizia, a tempestade tropical que fazia danos nos morros da cidade não o demoveu, caindo nos braços de três Jandiras e duas Letícias. Premonitório, o slogan previra, “sorria, você está na Bahia”. Aquilo sim, eram férias, forró do bom, caipirinha barata, moqueca de camarão apaladada. O calor pegajoso e os batuques dos bares nas imediações do Pelourinho já no fim da noite  libertavam os poros, quase dia uma Jandira levou-o para o hotel, convenientemente aliviado de duzentos euros. Que interessava, só se vive uma vez, se Deus fez o mundo, o português fez a mulata, e era bem certo.

No  dia seguinte a Jandira que o levara ao hotel telefonou, pela tarde. Se estava tudo bem, se tinha saudades. Havia show  à noite no Solar do Unhão, oferecia-se para acompanhar, a melhor picanha da cidade, seguido de capoeira. Sozinho e solteiro, Jorge aceitou, ela apanhá-lo-ia perto do Elevador Lacerda, vinda no barco de Itaparica. Depois do jantar, iriam dançar noutro botequim na cidade. Caminhando pela rua, colorida e tórrida entre o frenesim dos “camelôs”, um batuque cadenciado e de toada indígena foi tomando conta dos ares, vindo de um terreiro de candomblé ali perto, explicava Jandira.

-Quer ir, Jorge? É legal, tem mãe de santo que tira o mau olhado, viu?

Jorge ficou interessado, afinal ir à Baía e não ir ao candomblé era como ir a Roma e não ver o Papa, o aproximar do batuque e a cadência dolente exerciam um efeito hipnótico e arrebatador, fazendo subir a adrenalina. Seu Orestes, velho carcomido e espécie de porteiro explicava o ritual:

-Aqui nossas mães ou pais de santo falam com os orixás criados por Olodun. É só escolher o orixá e mãe Jociara fala com ele pra’ocê, viu?

Umas miniaturas em pano e estopa, artesanato local, identificavam os orixás, sobretudo os mais populares:  Oxóssi, orixá da caça e da fartura, Xangô, orixá do fogo e trovão, protector da justiça, Obaluaiyê, orixá das doenças epidérmicas e pragas, orixá da curas, Iemanjá, orixá feminino dos mares e limpeza, mãe de muitos orixás ou  Yewá, orixá feminino do Rio Yewa, considerada a deusa da beleza, da adivinhação e da fertilidade. Orestes explicou:

-Na África, de onde nossos antepassados escravos vieram trazidos pelos portugueses, cada orixá estava ligado a uma cidade ou a uma nação inteira. Aqui se pratica o candomblé Ketu,  Iaôs entram em transe com um Orixá. A mãe de santo chama o orixá, e o batuque do tambor vai chamando, quando ela fica em transe, o orixá “incorporou “ nela, aí ela fala com ele e pergunta tudo o que você quer saber, viu moço?.

Jorge era incrédulo, mas decidiu-se a experimentar. Largados os reais, deixando Jandira com um chope, mãe Jociara, uma gorda e alva mãe de santo mandou-o deitar no terreiro, poeirento, os demais faziam um círculo em volta, o batuque em crescendo chamava pelos orixás. Jorge sorria, naqueles propósitos, sempre tiraria fotos para mostrar ao Wanderley.

Uma vez deitado, qual presa a mãe de santo começou a trautear um palavreado incompreensível, tambores iam cadenciando a chamada, aos poucos a velha parecia em transe, e com a mão ia percorrendo o corpo de Jorge, sobretudo a testa e o pescoço, como se por indicação oculta do orixá localizasse os pontos fracos a purificar, levou vinte minutos a "incorporação", a assistência parecia possessa, a cada minuto esperando um milagre e a chegada de novo orixá, consoante a escolha do cliente. Jorge, como qualquer bom turista, já comprara as fitas da Senhora do Bonfim, para usar até que rompessem e depois deitar na sétima oda do mar, esta experiência faltava ainda, até que valia os quarenta euros. No fim, mãe Jociara, transpirada e de olhar aliviado chegou junto dele, ufana e deu o trabalho como realizado:

-Moço, está livre agora. E olhe que deu trabalho, estava cheio de mau olhado, viu?

Jorge sorriu, com o calor tropical queria era algo fresco. Já se afastava a ir ter com Jandira, a velha chamou-o de volta e olhando-o com ar maternal deixou recomendações:

-Pegue esta semente. Esta é uma semente de pinhão, meta em sua carteira e nunca largue, enquanto tiver este amuleto sua sorte vai sempre sorrir e ninguém deitará mau olhado pra’ocê!.

Jorge guardou o pinhão na carteira e seguiu, as fotos de Jandira estavam boas, nessa noite depois do terreiro regressaram ao Casquinha do Siri e a mais uma noite de forró e desbunda. No dia seguinte, seguiria para Porto Seguro. Salvador não desapontara, multicultural, plena de misticismo e  boa gente, dolente e caipira, como um paulista no hotel classificara os baianos.  

Em Porto Seguro encontrou um grupo de Sintra e descontraído fez praia no Arraial da Ajuda, à noite o frenezim da Passarela do Álcool e nova Jandira em terras de Pedro Álvares Cabral garantiram mais dias (e noites) de relaxado prazer na chácara do Wanderley. Até uma família de caranguejos uma noite caminhara da praia direito à varanda do seu bungalow. Era o paraíso, o marisco ali até vinha pelo pé ter com os turistas, que mais poderia desejar.

Findas duas semanas de epidérmica luxúria voltou a Lisboa, saciado e de baterias carregadas. Dois dias depois seria a reunião com os clientes do projecto do colégio, Wanderley trabalhara durante as férias, estava um mimo, seria na Quinta da Marinha. Apesar do bom trabalho, os clientes roeram a corda, invocando a crise, e, como azar nunca vem só, nessa tarde teve um acidente de carro, um “toque” na recta do autódromo, culpa sua, distraído a pensar na Jandira e no calor do Brasil.

Ao chegar a polícia para a participação, sacada a carteira, faltavam trezentos euros, e, pior que tudo, o pinhão oferecido pela mãe de santo em Salvador havia desaparecido, caíra por certo, inadvertidamente. Apesar do trabalho de mãe Jociara,não seria ainda aquele orixá que lhe traria a sorte prometida.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:55

03
Jul 11

Na sala da fisioterapia os dois pacientes seguiam resignados os procedimentos que tirânica, a enfermeira Consuelo ditava: alongamentos, passadeira (20 minutos) e bicicleta. Resignados, lá se sujeitavam, Hugo e Fidel, já amigos do trivial pursuit e de sessões de paintball na Sierra Maestra, disparando bolas de tinta azul a yankees de borracha, encontravam-se agora para irritantes tratamentos, hasta la cura, siempre!

Fidel, que se habituara já às visitas de Hugo,( sempre que ia a Havana levava umas bananas e DVD’s do Speedy Gonzalez, os favoritos de Fidel) , por ironia do destino e gáudio dos contra revolucionários fora agora traído por um pélvis mais fraco, por sinal detectado a tempo por camaradas cubanos e dissolvido no paredón do hospital à sombra tutelar dum quadro de Simon Bolivar, que para assistir à operação, como Virgem da Macarena, fora mandado vir. Na convalescença, a hora da fisioterapia era sempre comovente, sem guerrilheiros barbudos ou imperialistas à espreita, mas a enfermeira Consuelo, pior que Estaline, esperando o fim do exercício para impiedosa espetar-lhes a seringa na revolucionária nalga. Hugo, pedalando ia falando com o velho líder, a ausência de exercício físico e o abuso da tequilla não ajudavam muito à recuperação:

-Mira, Fidel, temos de nos recuperar rápido, o povo sem nós fica desorientado e órfão. Se domingo não apareço no meu programa de televisão, o“Alô Presidente” a Venezuela vai sentir-se desamparada. Este mês foi só azares, coño, apanho este abcesso ridículo, falho o bicentenário da independência e para rematar perdi o meu aliado na Europa, o Sócrates. Tem de se arranjar algo rápido, inventar que a CIA me queria matar, ou levar para Guantanamo!

Fidel, cara mirrada e frágil, com vários meses de tratamento em cima,fazia que ouvia, andando na passadeira e com uns headphones colocados, escutava pela 587ª vez o Hasta Siempre, de Carlos Puebla, uma vez com a emoção levantara um braço e deslocara mesmo um braço, a osteoporose, reaccionária, fazia o seu trabalho ao serviço dos gringos do Norte. De vós trémula, aconselhou o recém-chegado:

-Sempre que te diagnosticarem uma doença há que desmentir como contra-informação do inimigo. Vê o meu caso: quantas vezes anunciaram a minha morte? Sabes quantos presidentes americanos já passaram dizendo que me iam liquidar? Onze! São onze caixas de puros que fumei, uma por cada um que saía, falhando. E podem esperar sentados: quando o Raul morrer-sim, que ele é mais novo mas tem uma próstata de mierda!- hei-de voltar, Cuba sem mim não sobrevive, sou o único revolucionário que resta!

-Bueno, compañero, não te esqueças de mim também, que dou emprego aos teus oftamologistas desempregados. Sabes quantos venezuelanos que viam bem pus a usar óculos só para vos ajudar? Miles!. No futuro o povo só recordará Fidel Castro e Hugo Chavéz como libertadores e pais da revolução! Victória o muerte!

Fidel tossia intensamente agora, Consuelo, profissional e atenta, mandou-o abrir a boca para mais uma colher de xarope, meio engasgado El Comandante, depois da colher de chá amarga, sentou-se a descansar, Hugo, sem ordem de intervalo, continuava na passadeira com o seu fato de treino amarelo e azul:

-Compañeros, o camarada fisioterapauta aconselha que incentivemos os exercícios de fitness! O compañero Chavez tem de tirar dez quilos, dieta rigorosa!- Consuelo olhava o relógio, para Chavéz, vinte minutos ainda, antes do duche.

-Fitness?- rosnou Chavéz, continuando a andar- isso é coisa de gringo! E virando-se para o velho Castro, piscou-lhe o olho, com ar maroto:

-Tinham de estar mais chicas na enfermaria, não? Podíamos mandar vir do Malecón ou do Tropicana, para nos fazerem o penso…

Fidel, cansado e de olhar mortiço, aí sorriu, sessenta anos de revolução não tinham sido em vão, ao lado do povo….

De rompante, entrou na sala Raul, agora comandante da Revolução, vinha a visitar o irmão e o hóspede. Hugo acenou-lhe ruidosamente de longe, ao mesmo tempo rindo para si ao lembrar-se da conversa da próstata que Fidel lhe confessara:

-Então compañero presidente, mais um e já jogamos à sueca…- gritou Chavéz, quase falhando a passadeira, levava já três quilómetros e suava como um cervo.

-Podemos chamar o Ortega ou o Evo Morales. Aliás, acho que o Ortega até quer vir, revolucionário com gabarito e que se preze, está em Havana e no hospital por estes dias. E olha, podem fazer discursos  a partir daqui, todos os dias, e exaltar os serviços de saúde cubanos!- Raul, bem disposto, gozava o prato, esperara anos mas o poder chegara-lhe de bandeja.

Alguns minutos depois,Consuelo, olhando o relógio, mandou Chavéz terminar, era a hora da injecção, o presidencial traseiro já começava a ficar dorido de tanta condecoração cubana. Baixando as calças atrás do biombo, enquanto a enfermeira preparava a seringa, o presidente continuou a conversa com Raul e Fidel, que num canto do ginásio do hospital tomavam agora um sumo de maracujá, tinha planos para o futuro:

-Sabem companheiros, esta do tumor foi muito boa. Abafei o casamento do Mónaco e a libertação do Strauss Kahn. Esse é precioso e companheiro da pândega! Quando esteve em Caracas a visitar-me, fizemos uma festa de antologia no palácio! E quando sair daqui. vou organizar uma parada triunfal para me receber no aeroporto, convido o Morales, a Dilma, o Correa, olhem e até o Sócrates, que eu para mim, amigo é sempre amigo. Espero que não tenha ficado chateado porque não lhe comprei o barco de Viana que me queriam impingir, mas eu, quando vou às compras é assim,  regatear, sempre! O meu pai era cigano, sabem…

A sala abafava com o dialecto-tortilha do presidente da Venezuela, continuando o monólogo presidencial, alguns segundos passados, a vós trémula de Fidel, sentado à janela da enfermaria interrompeu o hóspede de Cuba:

-Chavéz?

-Si, compañero, habla, que pasa, coño?

-Por que non te callas?


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:04

02
Jul 11

Em Nice para um congresso médico, Aguinaldo Teixeira não resistiu a espreitar o evento da semana, o casamento do até então solteirão príncipe Alberto com a nadadora sul africana Charlene Wittstock, vinte anos mais nova. No sábado não haveria sessão da manhã, o congresso de obstetrícia, que uma farmacêutica de Sintra pagara, só domingo retomaria os trabalhos, havia que desfrutar.

Governado há sete séculos pelos Grimaldi, Aguinaldo sempre ouvira falar daquele principado pelos mais diversos motivos: o circuito de formula 1, o casino, Grace Kelly,  e as filhas desta sempre nas capas das revistas cor-de-rosa, daquelas que costumava ter na sala de espera do consultório em Lisboa para as suas clientes na menopausa.

As ruas estavam profusamente decoradas com fotos do casal e toda a Monte Carlo exalava um odor a luxúria que lhe emprestavam as roupas  jóias e perfumes Armani, Lagerfeld ou Saint-Laurent, aguardavam-se cabeças coroadas e reis  de opereta nas suas fardas carregadas de dragonas e medalhas,  beautiful people e os paparazzi do costume. Aguinaldo, depois de uma volta pela marina, deteve-se num restaurante da marginal. Numa mesa, um velho de cabelo branco impecável no seu casaco azul com uma coroa debruada e lenço vermelho de seda pendendo do bolso de cima saboreava uma flûte de Moet et Chandon, que havia já acompanhado com canapés de lagosta Termidor e ostras limonadas. Olhava no sentido oposto do mar, e como que hipnotizado fixava os olhos no vetusto palácio dos Grimaldi. Aguinaldo sentou-se na mesa ao lado e pediu a carta. Curioso, fixou o olhar no cliente do lado, um bem aparado bigode emprestava-lhe um ar aristocrático, pediu uma vichyssoise e uma taça de Bordeaux, beaujolais. Não bebia por hábito, mas que diabo, estava no Mónaco, e se não era uma cabeça coroada era príncipe de úteros alheios, como costumava dizer aos amigos, trabalhava no sítio onde outros se divertiam.

Um estranho de farda branca chegou entretanto, deixando um envelope, que o homem de imediato rasgou, abrindo um enigmático sorriso depois de lido o conteúdo. Aguinaldo, animado, pediu outra garrafa e foi-se deixando estar, a noite caira já e todo o rochedo reluzia com o casamento do príncipe. A dada altura, o homem da mesa ao lado dirigiu-se a Aguinaldo e pediu lume, o obstetra solícito puxou do isqueiro e acendeu-lho:

-Merci, monsieur. Italien?- sondou o homem do casaco azul.

-N..non, non. Portugal…. Cristiano Ronaldo…- o cliché usual sempre ajudava a facilitar as conversas.

-Ah oui…Veio para a festa?

-Não, não, sou médico e estou num congresso em Nice, aqui ao lado...

-Ah medecin. Aqui muitos precisam de um, sabe. Há muitos loucos.

Aguinaldo sentiu que o magricela precisava de falar e convidou-o a sentar. Depois de uma baforada na cigarrilha, apresentou-se:

-Eugene Charles de Polignac, conde de Menton e Ventimiglia!- desbobinou pausadamente- diga-me, conhece a história deste principado?

-Pouco, pouco, é a primeira vez que aqui estou,  vejo o Grande Prémio na televisão, só isso!

-Hummm…Sabe que em 1918 se colocou a questão da sucessão de um anterior príncipe, Alberto I, que tinha apenas um filho, Louis, o último Grimaldi e solteiro. Uma fatalidade com o seu único herdeiro e o principado seria devolvido à França, um tratado a isso obrigava.Alertado, Louis  apressou-se  a reconhecer uma filha ilegítima, Charlotte Louise-Juliette, nascida em 1898 e fruto de um romance com Marie Juliette Louvet, uma cantora de cabaré.

-Sim…ignorava, alteza…hã… senhor conde- Aguinaldo estava por fora destas coisas de reis e rainhas, por cortesia mandou vir mais uma garrafa de vinho, para o conde outra flûte, o Visa do consultório pagaria, estava no estrangeiro e no Mónaco, afinal. O companheiro de mesa continuou:

-A princesa Charlotte Louise-Juliette casou-se com o conde Pierre de Polignac em 1920, que aceitou trocar o apelido para Grimaldi, seguindo a linhagem familiar, e a princesa passou a ostentar os títulos de "Princesa Charlotte, Duquesa de Valentinois, Marquesa de Baux e Condessa de Polignac", Sua Alteza a Princesa Charlotte!- a conversa saia-lhe como um livro de História, o francês italianizado do parceiro de mesa facilitava a compreensão, bebendo outro gole continuou a narração:

- Do casamento nasceram dois filhos, Antoinette que nasceu em 1921 e Rainier, que veio a substituir o avô no governo do Mónaco, após a morte do pai e a abdicação de Charlotte em favor do filho, que à época tinha 25 anos. Mas, por não ter origem nobre, a história da princesa Charlotte é ocultada da maioria dos livros de história do Mónaco. E…- aqui o conde ficou subitamente em silêncio, agarrou os peitos com um esgar na cara e pareceu ter um ataque cardíaco, caindo desamparado para cima do obstetra. Dois empregados acorreram a ajudar, após alguns minutos, cambaleante retomou os sentidos, visivelmente atordoado e envergonhado:

-Desculpe, caro senhor, mes excuses, deve ser do calor….

-Quer que lhe tire a pressão? Se quiser eu…

-Não, não se preocupe. É do calor. Vou retirar-me, é melhor, o meu motorista virá buscar-me ao foyer do casino. Uma vez mais as minhas desculpas…

O aristocrata saiu, pelo seu pé, respirando fundo e um pouco combalido. Aguinaldo já tinha uma história para contar em Lisboa, conde e tudo, Mónaco agora para ele era tu cá tu lá. Terminado o vinho chamou o empregado e pediu a conta. Cento e oitenta euros. Enfim, não estava na Costa da Caparica, chegado a Lisboa as clientes pagariam em consultas.

-Muito bem! Aceita cartão Visa?

-Bien sur monsieur!- atalhou o empregado, impecável na farda negra e de máquina para aceitar o pagamento já na mão.

Aguinaldo puxou da carteira, mas aparentemente não estava no bolso de trás, onde a trazia, e estranhamente em mais lado nenhum. Buscou mais uma ou duas vezes e olhou para o chão à volta, preocupado.  De súbito, uma luz fez-se no seu espírito: o conde! Ao cair para cima de si tinha-a surripiado por certo, com mãos de veludo, nem conde deveria ser.

A essa hora, noutra esplanada de Monte Carlo, pejado de turistas para o casamento de Albert, um já etilizado australiano pagava um copo a um simpático arquiduque francês, herdeiro da Casa de Sabóia, que conhecera minutos antes no casino, fatalmente este desfaleceria sobre si algum tempo depois,  o calor mediterrânico da Côte d’Azur é mau para a tensão, sobretudo para quem tiver sangue azul.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:08

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