urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocanteCafé com Adoçantepor F. Morais GomesLiveJournal / SAPO BlogsFernando Morais Gomes2016-11-01T06:09:12Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:946022012-07-09T21:42:15A Terra dos Lázaros2012-07-09T20:43:24Z2012-07-09T20:46:35Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme sobre a Gafaria de S.Pedro, a mal conhecida leprosaria no Arrabalde de Sintra.Lázaros escorraçados e errantes ali encontraram refúgio até ao século XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o argumento seria fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes <em>grunge,</em> Murnau e Tod Browning, lendo nas sombras e angustias dessas fitas grandes semelhanças com o mundo actual.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Da pesquisa feita para o filme, chamou-lhe a atenção uma tal Mabília, leprosa que ali morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de magia que usava para seduzir os homens e depois os roubar. Morrera deformada e no maior sofrimento, jurando vingança.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Falando com os mais velhos de S.Pedro, André verificou que apesar do tempo decorrido, a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo quem jurasse ter visto missas negras nos Capuchos orquestradas por Mabília, enquanto velas rodeavam animais oferecidos em sacrifício.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Por essa altura alguns casos ocorreram reveladores de anormalidade numa terra geralmente bucólica e pacata, surgindo notícias em tablóides relatando o desaparecimento de diversas pessoas sem deixar pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda a quem haviam visto pela ultima vez na Mourisca, pouco antes da meia-noite. Vozes delirantes, dos que habitualmente viam filmes de terror, associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido, se bem que sempre emprestando um ar trocista aos comentários.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e desafiado pela adrenalina do perigo, decidiu investigar por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo, nada descobrira. Os desaparecidos não voltaram a ser vistos e a GNR pensava em arrumar o assunto, para ela a dispensar grandes cuidados. Até nem eram da terra, comentavam, se calhar até tinham fugido zangados com os familiares. Importante, eram os gangues da linha de Sintra, e fechar bares por causa do ruído aos sábados à noite.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando e agitado no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior, assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo Inácio que o acompanhasse com alguns guardas a S. Pedro, tinha a certeza de ter descoberto algo aterrador, tendo o grupo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta perto da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar surpreso dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com o largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se ali tivessem cavado recentemente. Perturbadores, restos de um braço putrefacto começaram a ficar visíveis. Nessa altura, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos havia que saciar.O corpo era de um dos desaparecidos, fora André, possuído por Mabília, quem o havia morto, tal como os outros, embora nada recordasse.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Arrancou a camisa e desatou a gritar, descobrindo-se marioneta sem alma e capturada por um dono invasivo do qual não se conseguia apartar, dos seus olhos chispavam os de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer descobrir sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído, e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando André como títere impotente do seu plano predador.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">André recupera hoje numa casa de repouso em Mértola, quebrantado, com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda hoje pode ser avistada em S.Pedro em noites de lua cheia, sentada no Túmulo dos Dois Irmãos e esperando as infelizes presas nas noites de lua cheia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=g8uOuFLfi0tlzeaJaBnC" rel="noopener"><img style="border: 0px none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3e115727/13363956_4OIqz.jpeg" alt="" width="408" height="500" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:943292012-06-21T13:32:32O salão ressuscitado2012-06-21T12:33:49Z2012-06-21T12:39:12Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=kh5tVh1t5dzhTrryeyBv" rel="noopener"><img style="border: 0px;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfb040bdd/12989301_zhtf8.jpeg" alt="" width="476" height="325" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">O arrastar dos pés amparados pela muleta ampliava o som no velho salão agora restaurado. À beira de completar noventa e sete anos, D. Georgina fizera questão de invadir o passado, visitando o teatro da sua infância que o povo de Galamares em boa hora restaurara, e que daí a três dias voltaria a ver gente, vida, cor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Pequena de oito anos, num longínquo de Verão de 1923 ali escutara o som mágico dum piano que um senhor grave com óculos de massa dedilhava qual sortilégio, e que, enrolada na saia da mãe, observava entre a estupefacção e a alegria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Recordava agora esse momento e o senhor do piano, o seu olhar absorto, dedos férreos, tez altiva. Na pequena sala, as mesmas pinturas campestres inglesas e o tecto de flores em papel estampado, ecoavam os acordes cristalinos dum piano solitário, voz obediente a seu mestre e criador.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Viana da Mota, assim se chamava o senhor de óculos, ensaiava para um concerto em Galamares, no cineteatro que em boa hora o Visconde de Monserrate mandara erigir, pequena ilha numa floresta de palácios altivos e férteis pomares, concerto de angariação de verbas para a electrificação da estrada até Colares. Pedira a comissão de melhoramentos, e com prazer anuíra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Já à beira dos sessenta e cinco, sempre tivera Sintra no coração. Desfiando aquele piano com o transe próprio dum profundo apaixonado, ensaiava a sós o concerto que essa noite tocaria a favor dessa luz tão necessária ao progresso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Brincando com as notas, familiares e cúmplices, recordava os anos já longínquos em que vindo duma roça nos trópicos aportara a essa Colares húmida e silenciosa, palco de pescarias no rio da sua infância. Os primeiros concertos no Salão da Trindade, jovem e aplaudida promessa da música. E acima de tudo, a felicidade daquele dia em que a doce condessa Elise lhe anunciou a vontade de pagar os estudos com Scharwenka, em Berlim.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Nunca esqueceria a emoção desse encontro no chalé de cortiça na Pena, e mais tarde da récita, onde jovem executante, perante D. Fernando, a condessa d’Edla e convidados, tocara pela primeira vez “<em>Au bord du lac de Pena</em>”, que compôs em sua homenagem. Gratidão de artista paga-se com arte, pensou.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Pela tarde, e sob o olhar surpreso da pequena Georgina, chegou entretanto o gerador da Sintra- Atlântico, para iluminar a sala para o concerto, que as famílias abastadas amavelmente pagariam. Viana da Mota ensaiou então andamentos mais exaltados, levado pelo eco da sala ainda vazia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Escolheu as “<em>Cenas da Montanha</em>” para abertura, o von Bullow sempre lhe dissera que era um dos seus temas mais conseguidos, partes da “<em>Evocação dos Lusíadas</em>”a seguir. No fim, se a luz não falhasse, “<em>A Pátria</em>”, a sua imagem de marca, que o visconde sublimemente apreciava e a plateia quase sempre reclamava.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Era 15 de Setembro de 1923, o Outono afastava já os veraneantes para a capital, havia risco de não encher, disseram. Viana da Mota adorava o desafio, porém. Que viessem dois mas bons em vez de trinta a bocejar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">A sala encheu, afinal, senhores de fato impecável, senhoras com os melhores chapéus, Georgina com os pais, empregados da casa Monserrate, os homens da Sintra-Atlântico, a cultura juntando-se ao progresso. Cumprimentos, vénias, Guilherme Oram, o feitor, verificando os pormenores, as tosses da praxe, a função.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Saudando com uma simples vénia, José Viana da Mota saboreou o silêncio expectante que sempre antecede os recitais, e depois dum momento sepulcral, qual guerreiro alucinado de espada em riste esperando a fera desafiadora, espalhou o néctar inebriante de melodias redentoras sobre aquele cineteatro ufano e orgulhoso, São Carlos de aldeia, mas nem por isso menos vibrante e atento. Toda a família do visconde assistia, Eduardo Gaio e esposa, também pianista amadora, os Farias, da casa do visconde, bombeiros, autoridades. Algum povo, desconfiado e distante não deixava de espreitar ou ouvir no exterior.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Nessa noite mágica e luminosa, os tordos na serra fizeram silêncio, os sapos abafaram o coaxar, o som hipnotizado e hipnotizador do piano mágico atravessou o vale e Monserrate, agitando as acácias, amenizando as almas .Galamares, por umas horas, ganhava o seu pedaço de paraíso,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Lá longe, em Lisboa, já para lá dos oitenta, a velha condessa d’Edla tomava chá, e sorria, como se o som daquele concerto dum tímido rapaz que um dia mandara para Berlim lhe chegasse perfumado pela brisa da noite. E Georgina, perfumada pela música daquele feiticeiro senhor dos teclados, transportou por toda a vida o som mágico do salão, mesmo quando a incúria o apagou e sombras sobre o seu destino caíram cruéis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Viana da Motta entrou para a lenda, Georgina criou filhos e netos, e bisnetos, hoje já homens. O salão de Galamares esse, desperta da agonia, e quem sabe, outros pianistas ali renovem o chilrear da serra fluindo dolente na beleza dum teclado.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:937302012-04-22T18:29:27Um súbito desejo de pipocas2012-04-22T17:30:29Z2012-04-22T21:03:03Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=9vZQjeR5wuBYnCcN5s0t" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0309f7c0/11482263_CwlGc.jpeg" alt="" width="300" height="300" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Eram quatro horas e um desejo súbito de pipocas apressou Tiago para a cozinha, um pacote de vinte cêntimos no micro-ondas e estava arranjado o bulímico complemento para trabalhar na reportagem sobre a Islândia. Sílvia estava estranha, saíra a pretexto dum visita à avó no lar onde há dois anos a haviam depositado, remorso talvez, a crise a fazer descer à terra e devolvendo a zombies consumidores pelas vielas de néon dos <em>hipers </em>alguma humanidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Era bom um pouco de silêncio. Pensou pôr música, mas deixou-se ficar com o som de fundo dos carros na rua, tentando respirar a casa onde pouco tempo passava, intervalo entre a fila do trânsito, o emprego stressante e os <em>soundbytes</em> da crise, essa palavra invasora como osga pegajosa. Um velho vinil dos Pink Floyd no armário da sala reportou-o para anos antes, quando conhecera Sílvia no 2001, magra, felina, com um olhar distante. Era o seu álbum favorito. Já não <em>pick up</em> tinha, para o poder tocar, tinha-se porém dado ao trabalho de digitalizar fotos antigas, todas num ficheiro salvas do passado e dos ácaros.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Muita coisa mudara desde então. Até de pipocas passara a gostar, esse adereço capitalista parceiro da caramelizada mistela americana que em tempos significara o imperialismo <em>yankee</em>. Escritor na juventude, fã de Elluard e Herberto, dedilhava agora os artigos para o jornal num Ipad de nova geração, pecadilho a que não resistira, pago em três prestações. Escrevia e de quando em quando fixava o relatório que o dr.Pestana lhe entregara como quem anuncia a mobilização para o Ultramar: calhara-lhe a ele, aquele ponto negro no TAC. Não, infelizmente não era defeito do aparelho, asseverara insolente o dr.Pestana.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sílvia, nada deveria saber, por enquanto. Já vasculhara a Wikipédia e a Britanica e todos os sites e fóruns na net, não havia dúvidas. Cancro do cólon, uma desenganada via sacra de tratamentos em perspectiva. O cheiro das pipocas era apelativo, e devorou-as num ápice, rematando com um improvável Jameson, virtuoso analgésico para as irritantes arrazoadas do Pestana, esse charlatão, lampião ainda para mais, uma segunda opinião esclareceria a incompetência. <br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um ruído abafado anunciou um SMS. Era Sílvia, perguntando o que queria jantar, passaria pelo Modelo depois da visita à avó. Ia a escrever algo, mas de súbito mudou de ideias, e digitou uma resposta: “<em>Vai ter ao bar do Fred. Vamos jantar fora”.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um ok seguido dum <em>smiley</em> sinalizou que a ideia agradara. Largou o teclado e serviu-se de mais um Jameson, na rua o velho Joaquim seguia curvado a caminho da tasca do Jacinto, para o ritual tinto das cinco. Meteu-se no chuveiro e deixando cair a água quente o filme dos últimos dias foi-lhe passando húmido e vaporoso: a cara do Pestana, a tarde desse dia guiando sem destino como quem levara um murro no estômago, o romance histórico que levava a meio, raivoso agora por os personagens estarem felizes, havia que matar um para espalhar a depressão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Disfarçando e salpicado com o <em>after shave</em> favorito de Sílvia, dirigiu-se ao bar do Fred, numa tela gigante passava um jogo do campeonato inglês, o Simão e o Quim Zé, amigos habituais puxavam pelo Manchester, devorando minis mais rápido que Fergurson pastilhas. Um cumprimento ritual saudou o encontro, Sílvia não chegara ainda.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Tiago! Chega aqui e bebe um copo com a gente! Ninguém te põe a vista em cima, pá. Não me digas que te deu a ternura dos cinquenta!-</em>o Quim Zé andara com ele na tropa, nos anos 80, quando ele fora trabalhar num jornal local, abrira uma oficina onde regularmente Tiago ia mudar o óleo, pachorrento, despachava o prato de tremoços depois da quarta mini. Tiago ensaiou um sorriso, e juntou-se aos amigos. Pediu uma mini e sentou-se, pouco falador, o ruído da sala era de quando em quando entrecortado com um ou outro grito puxando pelo Manchester, três dias apenas haviam passado desde a horrorosa consulta com o Pestana.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Sabes quem morreu? O Aníbal, das Finanças. Um AVC, durante um almoço com os colegas. Nem cinquenta tinha! Temos de por a barba de molho, que eles andem aí….- </em>comentou o Simão, já com sentença de diabetes lida. Tiago espantou-se, murmurando um quase silencioso “<em>pois…</em>”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sílvia chegou entretanto. Apesar de como Tiago rondar os cinquenta, a beleza da juventude parecia não largá-la, o ar maduro tornara-a mais sensual. Num flash, Tiago imaginou-a de preto, depois de ter partido, ali, disponível para aqueles devoradores de tremoços, ser-lhe-ia fiel depois de enviuvar? Um beijo rápido e um alô aos amigos e pediu um café, sentando-se junto a eles. Tiago puxou conversa:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-E a tua avó?...</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Está muito velhinha, coitada. Perguntou pelo irmão, o tio Alfredo, que já morreu há dez anos. Quando se chega a estas idades….</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Tiago fez silêncio, queria sair dali para a ter só para si, num canto dum restaurante. Italiano, se possível. Queria contar-lhe tudo, o ambiente caloroso dum <em>chianti</em> e uns <em>canneloni</em> tornaria a coisa menos fria e cruel.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Olha, quando vinha para cá encontrei o doutor Pestana no shopping. Mal me viu veio a correr ter comigo, disse que tinha estado toda a tarde a tentar ligar-te, mas não conseguiu. Pede para lhe ligares com urgência. </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Tiago enregelou. Mais más notícias, e todas do médico. Maldito Pestana, nem no <em>shopping</em>. Sílvia notou-lhe um desconforto com a notícia, e olhou-o nos olhos:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Algum problema….?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Não, nada, foi ele que me pediu uma coisa lá do jornal, depois ligo-lhe…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Fazendo menção de ir à casa de banho, Tiago ligou ao médico. O semblante estava lívido e as mãos trémulas, Sílvia ficou a perguntar pelos filhos de Simão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Dez minutos depois, Tiago voltou, dirigindo-se ao Fred, a voz estava mais solta e aparentemente bem disposto. Na tela, o Manchester despachava o adversário com três bolas sem resposta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Fred! Uma rodada para todos, pago eu!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Estás a festejar o Manchester agora, Tiago? Fazia-te mais do Real Madrid!-</em> o Quim Zé estranhou tanta fartura, Tiago não era muito dado a largueza de bolsos. Com um sorriso, Tiago roubou um beijo a Sílvia e rematou, enigmático:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Não, sou mais de outro campeonato. Mas o meu clube ia acabar a partida a perder, e afinal parece que vai haver prolongamento….-</em>do outro lado, o Pestana desfizera-se em desculpas, os exames haviam sido trocados e ele estava são como um pêro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Amor, e se depois do jantar fossemos ao cinema? Apetecia-me um balde daquelas pipocas….</em></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:933642012-02-23T18:26:46Venham mais cinco2012-02-23T18:28:00Z2012-02-23T18:45:34Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=f1HW4LKvwEGwRfOqHZBA" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B860748f3/10387487_Sf0hT.jpeg" alt="" width="480" height="276" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nos vinte e cinco anos da morte de Zeca Afonso, mais gordos e burgueses, encontraram-se na <em>Trindade</em> para um mítico bife e recordar esses dias frenéticos de conspiração nos corredores da Aula Magna, quando o Zeca anunciava futuros e era consequente a luta. O tempo separara-os, hoje advogados de sucesso e políticos do centrão, um, cantor romântico até, deitara as leis às malvas para enfrentar outros júris.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nos fins de setenta, Direito era território maoísta, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio da faculdade, chorados heróis de escaramuças passadas. A maioria era conservadora, liberal, como após Abril era correcto dizer e durante a greve académica havia-se pregado a revolução na rádio universitária e em zelosos piquetes. Alexandre, o da voz mais grave, entre <em>jingles</em> anunciava a gloriosa luta dos estudantes e à moda do <em>Pão com Manteiga</em>, em voga na época, lançava setas aos instalados professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas de Soares Martinez. Sem graça, metera-se uma vez com o professor Sousa Franco, crismando-o de inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas jamais sair pelo outro, assim gozando com a sua deficiência na orelha. Glorinha, agora procuradora em Aveiro, era a mais acirrada, quebrando a vitrina das pautas com um pé de cabra, duas vezes fora detida por vandalismo, mas imediatos comunicados desmascaravam a discricionariedade fascista, estudantes unidos jamais seriam vencidos. Pedro Heitor, hoje deputado, depois da passagem por uma Câmara, primeiro como assessor e depois vereador, via o jantar como a oportunidade de mostrar que até fora irreverente em tempos, romântico aos vinte, calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, investigava a fuga ao fisco dum político, por sinal do partido de Heitor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Haviam sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, oportunos e revolucionários “copos” no <em>Bolero</em> e no <em>Jamaica</em>, para tudo acabar no <em>Cacau da Ribeira</em>, após a tomada da Aula Magna. Portugal mudara muito, e até há pouco tempo só o Charneca, o eterno contínuo, continuava vendendo cópias de exames no átrio da faculdade, prova viva de que aquele passado existira, afinal. Glorinha mantinha a beleza de outrora, todo o 5º ano a disputava nessa altura, Passionária do Campo Grande, uma voz de arrepiar, muitas vezes se tinham reunido cantando os <em>hits</em> do momento, sonhando amanhãs e congeminando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já inexorável para a gaveta e os avós da <em>troika</em> já cá estavam, mas era quente a luta e com muita garra. A utópica alegria de rasgar caminhos os unira, hoje, apesar de madura, essa recordação sobrevivia ainda, nostálgica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Por esses dias correram Lisboa no Audi do pai do Heitor, chamando à luta, reuniões no Técnico, em Económicas e em Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, o plenário na Aula Magna apesar de alguns provocadores, correu bem. Durante dias, fumos negros nos braços e tiras nas paredes decretaram luto pelo ensino, depois de experiências fracassadas e da revisão curricular. Ao lembrar a cena, Rafael comentou como irónico parecia hoje ser o “exorbitante” preço das propinas, uns meros selos no valor de seiscentos escudos, comparado com os tempos de hoje, mais elitistas, apesar do ruído com a defesa da escola pública.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No jantar da <em>Trindade</em>, abatidas varias canecas, revisitaram-se mergulhados nesse passado fraterno, onde coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos <em>slows</em> se haviam prometido amores eternos e o nirvana do Shangri-La socialista. Após o jantar, como nos velhos tempos, voltaram ao <em>Jamaica</em>, depois de um copo no <em>Hot Club</em>, ali Rafael apanhara a sua primeira cardina, chamando princesa a uma desdentada deusa da noite perto do <em>Fontória</em>. O passado era marcado pelos bares: primeiro o <em>Archote</em>, o <em>Whispers</em>, o <em>Bolero</em>, depois o <em>Jamaica</em>, o <em>Bora-Bora</em>, o <em>Charlie Brown</em>, mais burguêses o <em>Ad Lib</em> ou os <em>Stones</em>, atrevidos a <em>Cova da Onça</em> e o <em>Pipodrom</em> junto ao Coliseu, onde por uma moeda de vinte cinco escudos se via a Olga de Jurídicas por um óculo, fazendo <em>streap-tease</em> para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram várias vezes, à vez esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo da hoje ilustre advogada no Algarve. No final da noite, à porta do <em>Jamaica</em> e abraçados, celebraram esse passado, já de si marcado num filme de vida várias vezes rebobinado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Os anos passaram, e a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, de sangue na guelra para as causas generosas e razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvara-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, no Rossio, um grupo de jovens dormia, passavam já as duas da manhã. Junto ao <em>Nicola</em>, em silêncio, os veteranos da greve académica miraram os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, muitos anos passaram e valera a pena, o som dos Vampiros, metálico e dolente soava no rádio dum táxi. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança.</span></p>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;">
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/ZUEeBhhuUos" width="420" height="315" frameborder="0"></iframe></div>
</div>
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<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:930962012-02-07T10:29:47Os pesadelos de Alfredo Regaleira2012-02-07T10:34:11Z2012-02-07T10:40:08Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Passando hoje 200 anos sobre o nascimento de Charles Dickens, reedito a história "Os pesadelos de Alfredo Regaleira",que se inspirou na sua obra "A Christmas Carol", adaptada a outros Scrooges mais próximos....</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"> <a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=nCcYdu10ZJuBbt99HtRq" rel="noopener"><img style="border: 0px;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf607734e/10164028_eQ5Qo.jpeg" alt="" width="249" height="320" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2017 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, criado após o resgate do FMI de 2011 e formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais <em>powerpoints</em>. Raramente visitava as associações ou recebia os munícipes, o Orçamento pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência e Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para a televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "<em>não há dinheiro, não sou a Santa Casa</em>", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o <em>Querida Júlia,</em> “<em>as pessoas são lamechas”</em>, desabafava entediado, “<em>haveriam de lançar um peditório</em>.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com <em>Sócrates</em>, um <em>labrador</em> ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Boa noite Alfredo! -</em>saudou numa voz metalizada. <em>Sou eu, o Mário!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Estou morto sim, Alfredo</em>. <em>Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -</em>e exibiu um grilhão, pesado, parecia uma cena de <em>thriller</em> americano. -<em>Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Mas…</em>E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensava chamar a Policia, quando o vulto o advertiu que não abrisse a boca.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Mal tivera tempo de reagir e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da <em>Marcha Radetsky</em>. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam <em>dandys</em>com casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Suponho que sejas Sintra do presente…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem fazia <em>carjacking</em> a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o <em>labrador</em> aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois <em>piercings</em>no lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Piriquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos <em>piercings</em>apontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2018”, e descontraído, um cachorro urinava em cima. Estarreceu, com suores frios.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o <em>labrador</em> que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um <em>bouquet</em> para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o <em>labrador</em>, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens…</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:928302012-02-06T09:26:31A Nação dos Pássaros2012-02-06T09:27:05Z2012-02-06T09:30:58Z<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Estava a chegar, mesmo para os que não tinham jardim nem viviam nos campos, despertadas, as Criaturas da Mata anunciavam a presença, sinos do submundo tocavam, arautos da cor e clorofila, despertando perfume nas flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros tocava a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas invadiam libertinas os ares em sagração, poisando em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonavam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, em busca da Iniciação Multicolor.Era o Começo.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Ostara chamava a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre o oceano e fortalezas homens ergueram templos à Floresta Mãe, reunia a Grande Assembleia de elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar o anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepitava no altar, ao lado, a vigorante poção dum druídico caldeirão saciava ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparecia, absorvendo o anel dourado na altura do ano em que dia e noite se faziam iguais. Os dias escuros partiriam agora, a terra albergaria sementes, o mundo renovaria a Luz.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guardava sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa liberta da longa noite de Inverno, entregavam-se ao ritual das fragrâncias, viajando por ramos e folhas, orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebrava, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Terráqueos da montanha colocavam flores no altar e no chão, no caldeirão água pura e flores esperavam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incensos e brancas velas se acendiam em acordo com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia, terráqueos assustados tocavam as plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane, Litha mais tarde celebraria o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada breve de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas ao eólico norte e à escuridão da tundra uivante.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nas aldeias de Cynthia, as terras pediam sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometiam fertilidade, logo partiriam sulcando céus e mares, noites e dias, até o grande astro outra vez os trouxesse. Ostara, como sempre, protegiria Cynthia, antes a fizera rude e pedregosa, e agora apoteose do verde.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Toda a noite o fogo redentor aqueceu os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta e logo em melódico coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada nos frescos lagos, a Primavera reinaria enfim esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e coelhos nervosos saltitando. Os avaros dias do longo Inverno cresceriam generosos, frutos e plantas brotariam suculentos e em abundância, cardumes cruzariam os rios, serpenteantes patos se banhariam nos riachos atrás de irrequietas rãs.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No ano seguinte e em todos a seguir, assim seria até ao fim dos tempos, ou até que Odin na Valhalha juntasse os guerreiros no esperado advento do Ragnarok. Cynthia veria choros, risos, lutos, borrascas, milagres, sagrado e eterno templo da floresta, e sempre no tempo em que o dia seria igual à noite, Ostara voltaria, fugaz e pitonisa, a espalhar a redentora Luz.</span><br /><br /></div>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/bGDEKZbQQdo" width="420" height="315" frameborder="0"></iframe></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:925332012-02-05T11:38:45O Vendedor de Insónias2012-02-05T11:39:10Z2012-02-05T12:55:38Z<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=ulebJTcjHH5fTotNtVRe" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bcc07af5c/10155187_ARUl7.jpeg" alt="" width="335" height="441" /></a></div>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">"Um Glenffidich, com gelo, em fundo, a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. É domingo, e cada vez mais Inverno.Para quê sol nos corpos quando gelam as almas? Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, enfiada nos fatos domingueiros. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio de barco ao Ginjal, no fatinho à marujo, a comer enguias e a visitar a avó, que esperava com o bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse. Também têm passado, os sabores, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, gritando cada canto como antecedendo um enfarte.</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">É, o passado está todo aí, na prateleira, como tu, em porcelana. Nos álbuns, arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, põe o Strauss, Rogério, a valsa do esquiador, seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso, outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios, mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. E apaga a televisão, chega de electrodomésticos, por hoje!</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Não mexe uma palha lá fora, sabes, mas dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa como os fatos que lhes enfiámos à nascença? Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Põe a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich, aumenta o som, diz à vizinha que enlouqueci e que o som é a conselho médico!</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro em melodia de Dvorák, ainda bem que o domingo acabou. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações.Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Na Serra da Lua, curioso. Olha, esconde a garrafa de Glenffidich e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis e num mundo onde já não vendem pontas de diamante, riscou-se de membro. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia,os passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão, seguro e sem lamechas. Rogerio! Maldito boneco de porcelana, não fosse a tia Zita e já te tinha esfrangalhado, degenerado!"</span></em></div>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/ynJsRBRRW3A" width="420" height="315" frameborder="0"></iframe></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:923952012-02-04T12:15:45Assassínio em S.Bento2012-02-04T12:19:47Z2012-02-04T12:22:08Z<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=N7YNMMmKcPTyqzIBVemd" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4f076b69/10152262_0VAyC.jpeg" alt="" width="434" height="304" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A funcionária da limpeza pasmava, no hemiciclo da Assembleia, nem oito da noite eram e um indivíduo, deputado por certo, dormia com a cabeça sobre a bancada, como não haveriam as pessoas de ter má opinião dos deputados. Preparava-se Olívia e a sua esfregona para lavar o local onde muito se lava roupa suja, quando aquele vulto com óculos de massa lhe surgiu no areópago do povo.Hesitando em acordá-lo, aproximou-se, era na bancada do Partido da Liberdade, o computador estava aberto na página do Facebook e uma mensagem dum tal Libertador rezava“<em>Já pagaste pelos teus actos.Lol</em>”Visto mais de perto, o deputado parecia branco como a cal da parede, já ninguém restava no hemiciclo, a sessão sobre os novos impostos terminara pelas sete horas.A medo, tentou acordá-lo, ao que o corpo sem acordo do representante da Nação, a um toque, tombou no chão. Uma mancha de sangue brotando da camisa branca deixava à vista o horroroso cenário: o deputado estava morto!</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sirenes de ambulância e piquetes das televisões acorreram, mal se espalhou o sucedido. Crime na Assembleia, relatavam uns, ajuste de contas, aventavam outros, Hélder Carneiro, deputado por Faro, estava ligado ao sector imobiliário, um condomínio de luxo em Vilamoura antes de ser candidato originara querelas entre sócios, um dos quais ele. E o Libertador? Quem seria a enigmática figura?</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O inspector Tomás, dos Homicídios tomou conta da ocorrência. Autopsiado, a causa da morte foi atribuída a um tiro de pistola com silenciador, em cheio no coração, a ultima pessoa a ver Carneiro vivo fora Vasco Trigoso, do Partido dos Valores, adversário político mas correligionário da caça, ainda dias antes tinham estado em Vinhais, numa batida ao javali. Nada fazia supor tal tragédia: deixava mulher e um filho e na assembleia apenas se levantara uma vez para votar o Orçamento. Sempre que havia plenário jogava Farmville, apenas interrompendo para aplaudir ou rematar com um “<em>muito bem</em>!” as intervenções dos colegas. Um pormenor chamou a atenção ao inspector: sobre a mesa, num papel, estava desenhado um flamingo, a morte tê-lo-ia surpreendido quando faltava terminar a pata.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nada fazia sentido. Na televisão, o Primeiro-Ministro e vários deputados recordavam o insigne cidadão e o muito que havia a esperar de tão loquaz parlamentar. Nenhuma pista parecia esclarecer o móbil: não tinha inimigos declarados, a família era equilibrada, politicamente pardacento, nunca se ouviria falar dele, não fora a infausta morte no seio da representação nacional.No dia do funeral, muito concorrido, o inspector Tomás, discreto, observou os presentes: gente do Algarve, deputados de todos os partidos, e muito povo, sempre pronto a comparecer quando a televisão está por perto. Formado o cortejo fúnebre, uma carrinha branca com três homens dentro incorporou-se, era dum tal Hotel Flamingo, em Vilamoura, um animal semelhante ao do papel encontrado junto ao corpo do deputado estava pintado na porta.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Curioso, Tomás não mais a largou. Depois do funeral, parou no Gambrinus, onde os dois ocupantes jantaram, falando baixo e num tom zangado, viu pelo esbracejar dum deles. Com o telemóvel, tirou umas fotos e mandou averiguar as identidades, todos tinham mais de quarenta anos e um usava um laço preto, como se fosse um maestro. Dali seguiram para um hotel, onde outro homem os aguardava no lobby, detendo-se a conversar um pouco e subindo para os quartos depois. Mal se retiraram, Tomás ligou a Eduardo, seu colaborador na PJ, que chegou em dez minutos e identificando-se pediu os nomes dos três. Eram os donos do hotel, informou acabrunhado o recepcionista. Daquele e de muitos outros, o Flamingo de Vilamoura também. Havia gato ali, mas por enquanto nada tinha de concreto.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Colhidas informações na Assembleia, ficou a saber que o discreto deputado Carneiro integrava a comissão de inquérito ao BPN, como vogal, Felício Borges, correligionário de bancada, lembrava-se de o ter ouvido certa vez ao telefone a falar com um tal Loureiro, e a garantir que ou viria um flamingo ou seria pior para ele. Requisitado o historial de chamadas, efectivamente havia entre os contactos um tal Abel Loureiro, a residir em S.Tomé desde o Natal. Perspicaz, teve uma ideia: adicionou sob nome falso o Libertador no Facebook e escreveu, sob o pseudónimo Albatroz: “<em>Libertador, tenho o Flamingo comigo</em>”. Do outro lado, ao fim de uns minutos, alguém entrou no chat: “<em>Quem és tu, Albatroz</em>?”, a que se seguiu “<em>O dono do milho. O pobre do Milhafre ficou pelo caminho mas o voo do Albatroz há-de prosseguir…</em>”. Continuando a dar conversa, o Libertador perguntou: “<em>E onde é o poleiro do Albatroz?</em>”. Aí, Tomás lançou o isco: “<em>Na casa do Flamingo para uma bebida. Às cinco.</em>”</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Às cinco da tarde, no bar do Hotel Flamingo, Tomás, de fato e gravata, simulando ser um empresário, aguardava com um gin tonic. Minutos depois, um, que reconheceu do hotel e do funeral apareceu. Desconfiado, cumprimentou, e mandou vir uma garrafa de whisky e cajus. Era Macário Teles, industrial hoteleiro. O inspector Tomás inventou uma narrativa: queria investir no Algarve, e o grupo do Flamingo pareceu-lhe de referência. O nome da cadeia fora-lhe sugerido pelo deputado Carneiro, que grande perda fora para o país. A invocação do nome do falecido deixou o Teles desconfiado e a tirar nabos da púcara:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Conhecia o deputado Carneiro, senhor….</em></span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Almeida. Almeida da Câmara. Sim, era amigo da família e tivemos negócios no passado. Grande fatalidade! Quem terá cometido um crime tão hediondo? E no sítio que foi…</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Pois é, ainda custa a crer. Ele foi meu sócio há uns anos, em Armação de Pêra, nuns prédios de apartamentos, depois meteu-se na política e só acompanhei de longe...</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O telefone de Tomás tocou nesse instante, era o Eduardo, da sede, com informações frescas. Sorrindo, Tomás foi dando goles no gin enquanto Teles fumava um charuto. Terminado o telefonema, e mais incisivo, Tomás voltou à conversa com o seu interlocutor, desta feita mais incisivo:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Diga-me, os senhores não fizeram esses apartamentos com dinheiro oriundo do tráfico de droga? E quando a sociedade se desfez não lhe ficou a dever dinheiro?</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O outro ruboresceu, e antes que dissesse algo, Tomás sacou da pistola e identificou-se:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Tomás de Oliveira. PJ!</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sem reacção o outro deixou-se estar, retorquindo com alguma calma aparente:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Não sei do que fala, inspector. Não via o Carneiro há anos, e se quer saber, até dei dinheiro para a campanha dele por Faro, através do partido. Quanto ao resto, são especulações, quero um advogado, se não se importa.</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Tomás chamou a brigada, levando Macário para a PJ. Somados dois e dois, chamadas telefónicas comprovavam um conluio entre Teles e Loureiro, a partir de S.Tomé, para se verem livre de carneiro. Aproveitando-se do novo posto, este chantageara Macário com uma queixa por fuga ao fisco, com documentos que provavam negociatas nos anos oitenta e das quais não recebera a sua parte. Na comissão do BPN, implicaria Loureiro, pois todo o projecto do Flamingo fora financiado pelo banco com dinheiro sujo duma <em>off-shore</em> em Gibraltar. Ao meter-se com quem não devia, pagava com a vida, o autor material fora um pistoleiro contratado, um brasileiro, disfarçado de administrativo, que o alvejou já só ele restava no hemiciclo. Acabou sendo preso no Meco, enquanto tomava uma caipirinha. Era Teles o Libertador.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Presos os responsáveis, Tomás, regressando ao local do crime, a dar conta das conclusões, viu no lugar do defunto o deputado que o substituíra: Porfírio Lopes, antigo negociante de carnes, ali para dar o corpo pelo partido, e se possível, por algum bife do lombo… Info-excluído, porém, não sabia usar o computador, nem tinha amigos no <em>Facebook</em>…</span><br /><br /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:920812012-02-02T20:58:27Com Anúbis rio acima2012-02-02T21:03:09Z2012-02-02T21:23:53Z<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=gS4TtmmlJhkPq6AG9h0z" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7c07bc35/10147246_FCaLu.jpeg" alt="" width="500" height="231" /></a><br /></span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">1-Introitus: Requiem aeternum</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Petrificados plátanos saudavam o cortejo, miserere mei, seguia para a eterna noite, oh glórias vãs, poderes etéreos, interrompidas esperanças. Estão Giotto, Guariento, Vitale, a Sacra Via de suplicantes à porta dos Céus, impotentes corpos servidos em tarde pascal. Chove nas almas, descansam os corpos, morri no dia em que se morre.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">2-Kyrie</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Confesso. Confesso, não vivi. Aqui vou, deitado, eu que já não sou, nós que não seremos, a Matilde chora por mim, preso neste corpo inerte, ah, um cipreste confortante, logo as almas sairão, fraternos patrulharemos angústias. E Deus, existirá? Ficarei à sua direita? Faz frio, arrefece. Voltem, não vão já, não me deixem, egoístas, de volta às vossas mortes diárias. É apertada a urna, falta o ar. Cheira a flores, flores de morte.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">3- Diez irae</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Inicia-se a viagem, Anúbis barqueiro em silêncio maneja o remo, Matilde chora, bem vejo, porque levantarão o som, é o Inferno pela certa. E Jesus? Não está, regressou dos mortos, qual filme de Corman. São belos os quadros aqui, perfumados, olha, Brunelleschi, Fra Angelico, Donatello, Masaccio. Renascimento, lhe chamam, todos mortos, porém. Quando parará a barca?</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">4.Tuba mirum</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Chegamos ao cais, miserere mei, misere mei, disformes embuçados carregam-me o caixão, será bom sinal? Vejo Matilde ao longe, acaricia-me em foto, porque não guiei devagar? É esquisita a morte, cheira a flores e cera. Dois homens riem naquela margem, chegaram agora, novos, discípulos do Cancêr, guerreiro da Morte.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">5.Rex tremendae</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Mandam-me erguer do caixão, que aguarde, à volta retábulos e dentro deles mortos, vivos, mortos-vivos, Van Eyck retoca um morto, e madonnas, muitas, florentinas, papais. Há vida também, caminhos para o Paraíso, olha a Vénus, Botticelli, Bellini, Verrochio. Os corpos estão desnudados, a mim desnudam também, pecador corpo suplicando por um lugar. Sim, são cicatrizes, muitas, cataterismos, acidentes de mota, não foi por eles que cá estou.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Ei-lo, o Redentor, Altivo, Castigador. Existe! Afinal existe! É como nos filmes, velho como o mundo. E agora, ajoelho, choro, que faço? Tirem-me daqui, quero comer, quero os meus amigos, já sei, daqui a pouco vou acordar e rirei a bom rir. Não vejo a Matilde agora, está escuro, toda a luz recai sobre o Velho.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">6.Recordare</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sim, é verdade. Matei rolas, indefesas. Bati no Alcides, coitado. Pequei, pequei, pronto. Pecados mortais? Todos. Bem, todos não, nunca tive inveja do Antunes, coitado, só do Porsche. E a mulher do Brás, foi ela que quis...</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">7. Confutatis</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Abre-se uma porta, estou nu e faz frio. Pronto, pronto, como queiram. Os quadros mais belos passam agora, olha o Bellini, Leonardo. O Leonardo, Deus meu, desculpa, Deus tu, é o paraíso por certo, com Leonardo só pode ser o paraíso, espreito ao fundo, parece Sintra, há castelos, e muitos anjos. Virarei anjo, sem sexo e com asas? Quando a Matilde me vir...</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">8.Lacrimosa</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Passa um filme. Sou eu, é a minha vida. Olha, a avó Chica, tão frágil, o Zézito, coitado, morreu em África. Olha a Matilde, chora. O Velho nada diz, estuda-me, bem vejo. Deixem-me voltar, não sou daqui, as minhas lágrimas nada valem? Onde está a caridade? Afastem de mim este frio, tapem-me, torturem-me, mas deixem-me.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">9.Domine Jesu</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Afinal há mais gente. Jesus, o Nazareno. Como é magro, nos olhos o sofrimento do mundo. Olha-me, acaricia-me a cara, segue pela esquerda, sumiu. O Velho hesita, começo a ficar conformado. Sempre há os quadros, Rafael, mais Leonardos. Sublimes, imortais, perenes, serenos, gloriosos. Mandam que avance. É agora. Toca Mozart, ah Wolfgang, estarás cá também, salvo da abjecta vala onde te deitaram? Só pode. Volto a ver a Matilde, está bela, a dor torna as pessoas belas.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">10.Hostias</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O Velho baixou novo quadro. A avaliação está feita.Tenho medo, mas estou sereno. Oh, não pode, Michelangelo, a Capela Sistina, o camarote da Vida, será para mim?</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">11.Sanctus</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Adão, Noé, Abraão, filhos de Israel, crianças do Darfur, os inocentes, estão cá todos. Vou entrar! Sanctus, Sanctus, acredito agora, desnudado entro, tocam tubas, repicam carrilhões, Matilde, Matilde, é Sexta Feira Santa, não chores, estava escrito. Olá, sou o Alberto, cheguei hoje, estagiário no Paraíso, aleluia! aleluia!</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">12.Benedictus</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A imagem some no ar, entrei! Não eram graves os pecados, choro e rio, oh catártico quadro onde afinal morto revivo. Oh triunfo de azul, azul de Céu, azul dos teus olhos, Matilde, azul do nosso mar, salgado, só nosso. Estás longe, cada vez mais longe, mas posso escutar-te a respiração, clara e próxima.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">13.Agnus Dei</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Apagam as luzes lá atrás, qual passarola voo agora, criação de Michelangelo, em sistino paraíso sulco os Céus, rodeado de anjos, seráficos e louros da cor do ouro, como os serafins do antiquário em S.Pedro.</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">14.Communio: lux eterna</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Adeus, Matilde. Ao morrer, vivo para sempre. Fala de mim ao André, é lindo o nosso filho. E quando tiveres saudades, abre o livro grande da sala. Lá estou, celestial sentinela e redimida alma, criatura de Michelangelo.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Fecham a porta do cemitério. Adeus, Matilde, até já…</span></p>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/iaNRSWm5iYY" width="420" height="315" frameborder="0"></iframe></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:916782012-01-30T19:54:09Habemus Papam2012-01-30T20:00:00Z2012-01-30T22:45:16Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Pedro Alcobia era um filho de Sintra, pároco de Colares em 2013 e bispo em 2017, em 2021 ascendeu a cardeal-patriarca de Lisboa, com página no <em>Facebook</em> e homilias no <em>You Tube</em>, a Igreja ao clique de um rato. Controverso, defendia que Deus é mãe e não pai, convicto de não se dever combater os cataclismos, a vontade divina poder nenhum deveria deter. Crente nas alterações climáticas como sinal do fim dos tempos, intransigente com o celibato e o preservativo, publicou mesmo um livro contra o antigo Papa Ratzinger, que apesar de doutrinador rigoroso, havia cedido ao agnosticismo.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Estava pois à medida do Vaticano. Avesso aos políticos portugueses, as suas homilias na Sé eram gongórico pedaço de retórica, elogiadas no <em>Osservatore Romano</em> e em Lisboa atacadas pelo Partido Radical, que reunia antigos comunistas e bloquistas, fundidos em 2016, sob a liderança de Ana Drago.Foi assim que depois da morte de João XXIV, o ruandês Joseph Kizomba, vitimado pelo HIV, o seu nome começou a circular nos corredores da Cúria como <em>papabile</em>, o cardeal Pescatore, de Milão, apostava mesmo nele em SMS e <em>mails</em> mandados aos membros do Colégio Cardinalício, que lhe respondiam com enigmáticos <em>smileys</em>.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Passadas as exéquias por Kizomba, começaram reuniões conspiratórias, os chineses queriam um Papa asiático mas os americanos apostavam em John Scottdale, cardeal do Texas e director do Banco do Vaticano. Com ele o <em>rating</em> da Santa Sé subira e Deus ajudava, abençoando as acções do <em>Nasdaq</em>, principal receita da Cúria. Mas europeus e latinos preferiam o português, paladino dos princípios e punidor dos desvios.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No dia da abertura do conclave, o cardeal Alcobia levantou-se às sete, orou e leu os <em>mails</em>, antigos paroquianos de Colares enviavam <em>twits</em> para que o seu pastor se sentasse na cadeira de Pedro. De seguida, juntou-se aos eleitores na missa <em>Pro Eligendo Papa</em>, em S. Pedro, para em procissão, se dirigirem à Capela Sistina e dar início à eleição, o Espírito Santo iluminaria os cardeais.Interiormente, Alcobia ambicionava o lugar, místico, queria devolver Deus a um mundo profano, assolado pelo hedonismo e secularizado. Adepto da selecção natural, para si, o deus da paz também o seria da guerra aos inimigos da Igreja, descrentes que conduziam o mundo a partir de Pequim, a potência mundial desde que a União Europeia acabara em 2015. Já na Capela Sistina, olhou Deus criando o mundo no azul celeste do fresco de Miguel Ângelo, e viu-se a si no topo, o anel do Pescador no dedo, a Nova Cruzada em embrião. Todos sentados, o camerlengo proferiu o ritual <em>extra omnes</em>, momento para os estranhos abandonarem a Capela Sistina. Vítor Godinho, o secretário do cardeal, aguardaria no gabinete, Alcobia dera instruções.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Depois dos rituais, votaram os cardeais mais idosos e depois os demais. O primeiro escrutínio deu 45 votos para o cardeal de Xangai, 35 para o de Lisboa, 7 para o de Palermo. O chinês sorriu, simulando surpresa com o resultado, o <em>lobby</em> asiático funcionava. Como não foi concludente, os votos foram queimados, foi negro o primeiro fumo na Capela Sistina. Nas três votações seguintes, o mesmo se repetiu, e o primeiro dia terminou sem que Roma conhecesse um novo Papa. Nesse período, entretanto, misteriosas mensagens surgiram nos aposentos dos eleitores, referindo “ <em>É Pedro o herdeiro de Pedro, Peregrino da Cruzada”.</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Ao quarto dia, em silêncio, repetiam-se os procedimentos sem fumo branco. Já havendo conversado entre si sob pseudónimo no <em>Facebook</em>, os cardeais decidiam finalmente. Lidos e contados os votos, Pedro Mendes Alcobia, antigo pároco de Colares e Cardeal-Patriarca de Lisboa, recolhia os dois terços necessários, o Espírito Santo finalmente iluminara o coração dos eleitores. Alcobia, de olhos cerrados, rezava, perante o <em>facies</em> amarelecido do cardeal chinês. O Cardeal Diácono foi até ele e perguntou-lhe, solene:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Reverendo Cardeal, aceitas a tua eleição canónica como Sumo Pontífice?</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Aceito, em nome do Senhor - </em>respondeu, simulando indecisão e sacrifício<em>.</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Como queres que te chamemos?</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Pedro. Pedro II</em> -anunciou, sem hesitações.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A escolha do nome provocou um arrepio na sala, seguido do silencioso acto de obediência, com os cardeais prostrando-se e osculando-lhe o pé direito. Fumo branco saíu finalmente da chaminé, para gáudio dos fiéis em S. Pedro. Meia hora depois, o filho de um desenhador da Câmara de Sintra e de uma operadora de <em>call center</em> tornava-se o 268º Chefe da Igreja Católica e Vigário de Cristo na Terra. Em S. Pedro, apinhado de gente, <em>urbi et orbi</em>, o cardeal de Varsóvia proclamou o novo Papa:</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam! Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum Petrus, Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem qui sibi nomen imposuit Petrus Secundo.</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Pedro Alcobia olhou a multidão e abençoou-a, solene. Uma trovoada, súbita e molhada, tombou tonitruante nos céus de Roma. Em Colares, onde a população eufórica se juntara frente a um ecrã gigante na Adega Regional, Virgílio Penaguião, <em>blogger</em> de temas esotéricos, interrompendo um <em>post</em> sobre o abate dos plátanos e aumentando o volume da televisão, correu a buscar um livro na estante. Uma antiga profecia atribuída a S.Malaquias, bispo irlandês do século XII, falava de <em>Petrus Romanus,</em> o último dos Papas, que iria "<em>alimentar suas ovelhas em muitas tribulações</em>" e no "<em>dia da perseguição final ".</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Enquanto em Roma debaixo de borrasca diluviana Pedro Alcobia era aclamado pela multidão, os telejornais abriam emissões especiais noticiando o lançamento de mísseis balísticos a partir de Pyongyang, um destruíra já o <em>USS Obama</em>, porta-aviões americano estacionado no Índico. Os dias do fim iam começar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=W3ui2jUmNF3oI10mpZNw" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4a078db1/10135605_rVmV3.jpeg" alt="" width="500" height="400" /></a><br /><br /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:916012012-01-29T12:27:04Volta do Duche2012-01-29T12:28:08Z2012-01-29T12:30:48Z<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=UpY7Gfn67FavQcnPEOrd" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B9007232d/10096759_vMNFt.jpeg" alt="" width="500" height="353" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Formigando vêm e vão, a medo torneando o Grande Fosso onde banhos purificadores hoje fantasmas espreitam, miram estátuas, casas, o verde esmagador, frémito da natureza perto do burgo encantado. Anárquicos tiram fotos, com palácios, com árvores, com eles, registo furtivo do dia em que bafejados contemplaram a eternidade, de carro, de trem, a pé, de mão dada, olhar em torno, plantas sorrindo, garbosas e ternas, loquazes a manjar apetitosos doces. Pigmeus, privaram com os duendes e as secretas sentinelas da Floresta Feitiçeira: a sacerdotisa Llansol e o Grande Maior, o Zeus das árvores encimado pelo céu, logo um asténico Cruges, pena de pato aflita e trepidante, Herculano taciturno, Nunes Claro jardineiro de almas com o regador da palavra, todos guardados pelo mestre Carvalho, fleumático mago da Pena, vigiando da alameda.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sigurd, Camões, Beckford, Byron, Zé Alfredo, M.S.Lourenço, condenados à Vida Eterna, já prestes se acomodam no Paço para o Banquete das Almas, Viana da Mota orquestrando, a medo os vivos invadindo o Templo, bafejados pela mercê dum fugaz usufruto da natureza generosa, onde só os Noviços da Vida têm entrada relâmpago, e com retorno. Cai a noite, um derradeiro ressoar de cascos dum cavalo branco tornejando o Parque quebra o torpor, logo impacientes gárgulas ganharão vida para a milenar patrulha dos cumes pedregosos e das chaminés fumegantes. O homem das castanhas recolhe, o cheiro invade as narinas com o bálsamo revigorante, qual estupefaciente poderoso. Ao longe e já perto, as duas chaminés, da lauta cozinha esfíngicos elmos acenam, num lento despedir, para à noite chegarem novos companheiros, esvoaçantes, temporais, tangíveis.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um último relance, e partir. Distante, uma harpa sequestrada numa casa onde a luz mortiça quebra o negro da noite, despede-se do dia lacrimejando torpor, capturando em silêncio o cavalo inerte, e logo o regresso aos trens, à finitude, à vida sem viver, sobrevivente de sonhos, órfã de destinos, carente de Ser</span><br /><br /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:911532012-01-23T20:38:57Al Zeimer, o emir de Bulik Eime2012-01-23T20:46:07Z2012-01-23T22:02:49Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=4WkJYyGne8dZwYFookNN" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5807598e/9922309_3yoyc.jpeg" alt="" width="500" height="266" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Era uma vez um mouro nascido na terra das amendoeiras, vagamente marafado à nascença, foi pelo pai ainda jovem mandado a estudar na madrassa, contas e álgebra foram a vocação. Alto e esguio, tímido e encavacado, um dia partiu para o grande bazar, onde se dedicou à banca. Legumes, frutos, amêndoas, de tudo vendia o jovem, mouro de trabalho, poupando para o futuro , professor mais tarde na madrassa onde antes estudara.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Estando o Emirado dominado pelos almorávidas, indo passear um camelo novo,anunciou a <em>jihad</em>, ele que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e pregando a guerra santa chegou a emir. <em>Allah u akbar!</em>- gritou quando de cimitarra em punho entrou no Palácio de Al Sanbent, perto da Grande Mesquita, seguido pelas tropas do Crescente Laranja.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Como emir fez obras, mas, mandado pelo Califado, mandou arrancar as amendoeiras e figueiras, fez estradas por todo o lado, mandou encostar os barcos e vender o gado, deu trabalho porém e os <em>muezzin</em> do minarete chamavam por ele como se o próprio Profeta fosse, senhor do Islam e pavor dos infiéis<em> kafir</em> , para ele nada mais que camelos.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Cansado, e tendo-se retirado dez anos, entendeu, ouvida uma moura encantada, voltar à Cidade Santa, para aplicar a <em>sharia</em>, mas os tempos haviam mudado e teve de o fazer com o vizir almorávida Youssuf El Socas, um estudioso de Filosofia e chefe das tribos do norte. Disputando a interpretação do Corão, deixou que se esbanjassem os dinares, obrigando a que enviados pelo Califado, três reis do Oriente chegassem trazendo ouro, incenso e mirra.</span><br /><span style="color: #000080;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large;">Envelhecido e agastado, Al Zeimer arrasta-se hoje, sem dinheiro nos cofres nem tâmaras na tenda, sem primavera árabe, resta-lhe o inverno em Bulik Eime, se a isso os reis magos obrigarem e os dinares chegarem, na Coelha, se ao coelho dos três reis trocar os passos. A História guardará de Al Zeimer a memória de Ali Babá, que abrindo a gruta com palavras mágicas, logo, qual bolo-rei, se deixou levar por quarenta ladrões. <em>Salam’alek</em>, </span><span style="font-family: 'book antiqua',palatino; font-size: x-large;">Al Ze</span><span style="font-size: x-large; font-family: book antiqua,palatino;">imer, emir de Bulik Eime, senhor do Gharb Al Andaluz!</span></span><br /><br /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:910632012-01-21T11:58:25Vimaranes2012-01-21T12:01:00Z2012-01-21T12:12:59Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=YALiuSOMZF2MaV5l77kw" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd6075217/9905450_MdfVt.jpeg" alt="" width="500" height="375" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Terras Portucalenses, ano 928 da era cristã, a morte de Hermenegildo Gonçalves deixava-a senhora de vastas terras, de Portucale a Coimbra, viúva mas firme, a bisneta de Vimara Peres e tia de Ramiro II de Leão, Mumadona Peres, governaria com os terra tenentes, com mão forte como seu pai, o conde Diogo. Obesa e de olhos verdes, muitos anos levou tratando os seus domínios, arroteando as terras e ajudando a diocese.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um dia, caminhando por uma ladeira, um velho cego duma vista, cantava uma melodia roufenha:</span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">"Ai dona fea!/Foste-vos queixar/Que vos nunca louv'en meu trobar/Mais ora quero fazer un cantar/En que vos loarei toda via/E vedes como vos quero loar”</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Reconhecendo-a, pediu um prato de sopa, tinha filhos com fome: </span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Deus vos traga em sossego, condessa Mumadona. Poderíeis auxiliar um desvalido de vossas terras de Portucale, temente a Deus mas desprezado pelos homens?</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A condessa, que escutou o maltrapilho cantando, pediu-lhe que repetisse a canção, espantado, o infeliz, de nome Ordonho cantou para ela, era uma toada alegre e descontraída, viúva entre homens, o coração de Mumadona alegrou-se, e mandou que o homem a procurasse na herdade de Vimaranes, lá o esperaria essa tarde.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Comparecendo e meio desconfiado, uma mesa com viandas e vinho aguardava o atarantado Ordonho. Mumadona sentou-se junto a ele, querendo saber mais sobre aquele homem, parco de letras e palavras certeiras, nunca no coro de Lorvão tal escutara.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Comendo avidamente, o camponês fitou a condessa e hesitou em falar, à vista de mais pão e vinho, lá se decidiu:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Quereis saber onde aprendi tais canções? Com os pássaros na serra, escutando seus chilreios a eles juntando palavras dos enamorados sulcando os bosques de Vimaranes.</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Folgo em ouvir que em meus domínios se aprecia a música e enleva a palavra. Mais curial não era lavrares com arado ou cozer o pão?</em></span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Alimento maior para a alma é esse que o do corpo, senhora. Fazei de Vimaranes terra de canções e de trovas, mestres de cantaria e vitrais, e justificada fica a espada e a cruz, pois se por essas a lei de Deus se espalhará, pelas outras seu nome perpetuaremos!</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Terminando, levantou-se e partiu pelas margens do Ave, Mumadona ficou a cismar e mandou chamar frei Torcato, que na matriz se cantasse e copistas fizessem iluminuras, braço da lei em terras portucalenses, queria em cada camponês um bardo e em cada lenhador um escriba. O frade cismou, mas lá se afinaram os coros e nos anos seguintes folgou em tangeres e trovas o condado de Portucale.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Vinte anos depois, Mumadona dividiu os domínios pelos seis filhos, vindo Gonçalo Mendes a ficar com o condado. Para si guardou Vimaranes, no sopé do Monte Largo, nessa herdade onde uma vez passara Ordonho erigiu mosteiro a S. Mamede, e logo um castelo, uma simples torre com cerca. Quando se sentiu envelhecer, a ele recolheu, recomendando a Gonçalo que fosse justo e ponderado:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Sinto, meu filho, tranquilidade neste lugar, como se a bênção dos céus sobre ele caísse, sereno e devoto. Mouros espreitam, normandos também, teu punho forte lhe garantirá protecção, assim dando jus ao nome de teus antepassados!</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nesse dia, uma égua transportou Mumadona ao mosteiro, retirada das preocupações mundanas aí rezaria e faria votos o resto dos seus dias. Gonçalo pediu a bênção e acompanhou-a à porta, onde duas monjas a receberam. Entrando, olhou a planície e o castelo e não mais tornou a sair.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Mil e cem anos depois, a canção roufenha de Ordonho volta a terras de Vimaranes, por um ano cidade de tangeres e de escribas, de trovas e cantos muitos. É Guimarães, Capital da Cultura.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:908042012-01-08T21:02:11A máquina de viajar no tempo2012-01-08T21:04:22Z2012-01-08T21:14:10Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida, que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho, sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro!</em> -o professor chegava agora a um momento alto da sua carreira, a experiência que até ali só o cinema e a ficção científica haviam tentado. Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física na Universidade de Lisboa. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Ao atravessarmos, vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair o que estiver ao alcance da sua força gravitacional para dentro de si, vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajarmos no tempo! </em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa e aquele mesmo local, o ano 1835.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relincharam à chegada do inesperado volume. Ainda tontos, de olhos esbugalhados confirmavam o sucesso da experiência: mesmo em frente e de construção recente, o Palácio das Necessidades, a guarda real rendia a parada, pensativo, um padre saia do palácio. O professor dirigiu-se a uma taberna, num esconso perto do palácio, e perguntou o que se passava:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal</em>- respondeu um galego, carregando um barril.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Guilherme recapitulou os conhecimentos de História, pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe Augusto de Leuchtenberg, primeiro marido de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas viria a morrer de difteria dois meses depois. Aí, teve uma ideia luminosa:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos, e tentar salvá-lo!</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos de ser discretos, e arranjar roupas da época!</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, chorosa, a rainha antevia já o desenlace ao fim de dois meses de casada, desesperada, qualquer conselho seria bem-vindo. Efectivamente, as amígdalas e faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus no fundo da boca, a produção da toxina e sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que trouxera do futuro, o professor, perante a incredulidade dos físicos presentes, administrou ao doente uma vacina que actuaria sobre o sistema imunológico, bem como doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois, a febre baixou, o príncipe deu sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do real paciente, visitavam a Lisboa da época, tirando notas, apresentando-se aos mais desconfiados como académicos vindos da Prússia, o sucesso da recuperação do marido da rainha afastava quaisquer suspeitas.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Três dias depois voltaram ao presente, a registar a experiência e preparar novas viagens. O professor Adérito, um colega de Sintra ligou entretanto, queria trocar ideias com Guimarães sobre um acelerador de partículas, mal suspeitando do sucedido com o colega, já tentara ligar mas ninguém atendera. Sempre disponível para o Adérito, lá foi, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e campos de trigo se vislumbravam, a estrada de Sintra era um mero tapete em macadame e as hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou daquela selva de betão a que já se habituara. Na serra de Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, ao abandono. Abordando um transeunte que passeava na vila, sondou-o sobre o que sucedera:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve Palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto em Sintra, nunca ninguém fez cá nada!</em> -suspirou, em torno do Paço havia um pequeno terreiro e vinte a trinta casas rústicas, nada estava como poucos dias antes. Num arremedo luminoso, percebeu o que acontecera, e sem ter chegado a falar com o colega voltou para Lisboa, aceleradamente, precisava de falar com Guilherme com urgência:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!</em></span><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Pior! Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto, alterámos o futuro!</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-Como assim?</span></em><br /><em><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-D. Maria II depois de enviuvar casou em segundas núpcias, em 1836, como é sabido. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nem o Palácio da Pena nem tudo o que ele planeou foi construído. Mudámos a História de Portugal!</span></em><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Oh diabo, não nos lembrámos disso…</em>- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa fé sugerira salvar o moribundo príncipe com difteria.</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!</em></span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nessa noite, voltaram a accionaram a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se porém alguns meses desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de em nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães aproximou-se do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, acabado de chegar:</span><br /><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Majestade, vai gostar muito desta sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso e com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até edificar lá uma casa de Verão, a rainha iria adorar….</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=9lAU6m3yKKJH5PlwMWV2" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B930735eb/9862409_GUF5H.jpeg" alt="" width="420" height="500" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:904282011-12-27T11:26:12Bons e Maus Ladrões2011-12-27T11:29:20Z2011-12-27T14:15:46Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">O seráfico ministro Gaspar terminava mais uma sonolenta mas aviltante <em>fatwa</em> contra o bolso dos contribuintes, Francisco, acabando o jantar já indisposto, apressou-se a mudar o canal para algo menos aterrador, passava um filme sobre tubarões brancos no <em>Discovery</em>. De má em má notícia, o professor de Literatura na Leal da Câmara, apressou-se a abafar mais uma com um<em> brandy</em> caseiro que trouxera de Cantanhede, da casa do pai. O toque da campainha anunciou a chegada do Edgar, colega do liceu, docente de História, para um serão já combinado antes do Natal. Oferecido um <em>brandy </em>velho, não negou, sentando-se na poltrona frente à televisão onde tubarões grandes perseguiam peixinhos no Pacífico, os cortes dos subsídios ainda tema de conversa: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Pois é Chico, ouviste o Passos Coelho? “Democratizar a economia“, “devolver a confiança”...Já não há pachorra para estes tipos!. Ainda por cima com aquele ar de aluno da catequese, saiu pior que o Sócrates!</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Os dias que Portugal vive, a mim, fazem lembrar-me o Sermão do Bom Ladrão do Padre António Vieira. Acho mesmo que vou falar disso aos meus alunos agora no regresso das férias do Natal.</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Padre António Vieira não é a minha praia, Chico, qual é esse sermão?</em>-Edgar, interessado, ia saboreando o <em>brandy</em> como quem nele colhe sabedoria e calor para animar a conversa: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Hoje está muito esquecido, os brasileiros chamaram-lhe Paiaçu, o Grande Padre, mas se releres muito do que escreveu, encontrarás muita actualidade nos seus escritos. Premonitórios, </em><em>até</em>!- levantando-se, Francisco sacou um livro da estante enquanto na televisão um tubarão branco fazia mossa numa praia da Florida- <em>Foi o homem que disse: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”.</em> Erguendo o livro como uma preciosidade, apontou-o na direcção de Edgar: <em>Este homem não foi um génio, foi oxigénio!</em>- rematou, como quem revela uma profecia, voltando para a cadeira e um segundo <em>brandy:</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>A história é mais ou menos esta: pediu um ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino, e a lembrança que este teve foi que ambos se vissem juntos no Paraíso. Nem os reis podem ir para o paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir para o inferno sem levar consigo os reis. A restituição do alheio não só deve obrigar os súbditos como aos seus senhores. </em>E leu um pouco:<em> "Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso". Percebeste?Encriptada, aqui está uma grande verdade, e foi um português que viu mais à frente que o seu tempo que a disse, Edgar!</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">O amigo, saboreando a bebida, meneava a cabeça em tom de assentimento, dando continuidade à conversa: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Quer dizer: roubar é tomar o alheio violentamente contra a vontade do dono; os que mandam tomam muitas coisas aos que governam, violentamente, e contra a sua vontade: logo, o roubo é lícito nalguns casos, porque, se se dissesse que quem manda, assim fazendo, age errado, todos eles, ou quase todos se condenariam a si próprios. Aliás, já S.Tomás de Aquino dizia que se os príncipes tiram aos súbditos o que por justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde que os que mandam, estão obrigados à restituição, como os ladrões, e pecam mais gravemente que os ladrões, quanto mais perigoso e mais comum é o dano com que ofendem a justiça de que são supostos defensores.</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Nem mais, meu caro. Vês a actualidade desse texto? O mundo não mudou assim tanto, nestes anos….. Olha, gosto particularmente deste trecho: “os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos. Neste Sermão do Bom Ladrão, o Vieira conta um diálogo ocorrido entre um pirata e Alexandre Magno, rei da Macedónia que foi educado por Aristóteles. Navegava Alexandre pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como trouxessem à sua presença um pirata que andava roubando os pescadores, repreendeu-o Alexandre por andar em tão má vida; porém, ele, respondeu assim:" Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? - Assim é. "O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres”-</em>empolgado, Francisco lia em voz alta o livro com frases sublinhadas, seria uma matéria interessante para dar aos alunos no segundo período.E continuou:<br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Moral da historia, Edgar? O ladrão que rouba para comer não vai para o inferno; os que vão, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera. Os ladrões que mais propriamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, o governo ou a administração das cidades, os quais com manha e força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam os homens. Estes roubam cidades e países; os outros furtam com risco: estes sem temer, nem desplante; os outros se furtam, são presos: estes prendem e perseguem.</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>No fundo, o mundo é um mundo de ladrões. Adão e Eva não foram os primeiros, ao roubar a maçã? E Cristo ao morrer não o foi ao lado de dois ladrões, a quem disse, “hoje mesmo estareis comigo no Paraíso”?-</em> Edgar surpreendia-se consigo mesmo, da cozinha Mena, a mulher do Chico chegava trazendo café e bolo-rei, sobrara muito da consoada. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>O mal é que hoje os ladrões são mais ainda, e estão bastante dissimulados. A maior parte até diz roubar para nosso bem!-</em> rematou o Francisco. Cansado dos tubarões, mudou o canal com o comando, sem novidade, aparecia agora o ministro Relvas a anunciar novos cortes para cumprir o memorando da <em>troika</em>. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Estes canais hoje só dão programas com predadores...-</em> atirou com ironia enfadada a Mena, cortando o resto do bolo-rei.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=mjIkVHzZ2S7FMPBPOrwB" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be7073046/9818037_GZ7Qg.gif" alt="" width="373" height="500" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:902572011-12-26T10:49:55Missa das 10 em S.Martinho2011-12-26T10:52:45Z2011-12-26T12:27:30Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Desde criança Roberto se habituara àquelas rotinas domingueiras: a missa das 10 com a avó Sara, em S.Martinho, a catequese com o padre Mateus, nariz em forma de gavião, sempre pronto a ameaçar com o Inferno o venal pecado de rir nas aulas de Religião e Moral, desfilara até vestido de anjinho numa procissão do Senhor dos Passos, enfiado num cetim branco com asas que a Ermelinda levara uma semana a coser. Com os anos, afastara-se das igrejas, apenas revisitadas para casamentos e missas de corpo presente, era como voltar a um sítio estranho, desconhecedor da liturgia moderna, embora fascinado pelos vitrais e talha dourada, nisso se revia, mais pela mão do homem que pelos totens a que os artefactos se dirigiam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Passados os quarenta e separado de Matilde, voltara a passar o Natal com a mãe em Sintra, devota, D. Idalina não dispensou a missa matinal em S.Martinho no dia seguinte ao Natal, a custo arrastou Roberto e o pequeno Fábio. Rendido ao espírito da data, Roberto lá se deixou levar, mal não faria, o prazer dum momento raro com as três gerações, normalmente separadas, levou-o a ceder, se bem que aguardasse sentado numa cadeira do fundo, contemplando os santos e aquele cheiro a flores frescas, geralmente cheiro a mortos, das coroas que rodeiam os caixões nos rotineiros velórios que de vez em quando tinha de acompanhar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Na sacristia, a velha Almerinda trocava as jarras e ia acendendo as velas, num ritual de anos desde que enviuvara do Américo do talho, Roberto, agora em Lisboa, deixou-se levar pelo silêncio ritual dos preparativos, perto do T1 na Expo onde morava nada disto havia já, o silêncio da igreja tranquilizou-o, logo interrompido pela necessidade de fumar um cigarro. Saiu a ver as vistas,faltavam uns minutos para a missa, a caminho da Periquita viu passar o Gregório, velho colega do liceu, não o via há muito e correu a abraçá-lo, recordando o futebol de salão e os anos nos juniores do Hóckey de Sintra:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Gregório! Então, pá? Há quantos anos!Estás na mesma,velho amigo! Essa barriguinha é que…-</em> Roberto ficou feliz de o rever, já nos quarenta também, há anos que não se encontravam. Soubera que tinha ido para Filosofia, ele seguira Económicas, mas acabara jornalista em Lisboa, o Natal e o fim de semana com o filho para o Natal, traziam-no a Sintra para o miúdo estar com a avó, o pai falecera há poucos meses, sentia-se na obrigação de passar o Natal com a mãe, na velha casa nos Pisões.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Venham de lá esses ossos, grande Roberto!-</em> o Gregório, com uma cara abolachada e óculos de massa, abraçou o amigo, uma barba rala e já esbranquiçada era a principal diferença que lhe notava, de resto encontrava o Roberto da sua infância igual, com aquele ar engatatão que levara à certa as miúdas de meia Sintra nos bons anos oitenta - <em>Vais à missa?</em>- questionou o Gregório, vendo-o perto da entrada de S.Martinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Que remédio, a minha mãe teimou, e sabes, com a idade, é melhor fazer-lhe a vontade. Para mais está com o neto. Eu, igrejas, é como o diabo da cruz. Vim para aqui fumar um cigarro….</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Gregório sorriu, insistindo com o amigo:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Deixaste de acreditar em Deus, Roberto? Tu, que eras o anjinho favorito do padre Mateus?-</em> Gregório provocava o amigo, que dava uma passa no cigarro quase terminado. Roberto teorizou:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Nunca leste o Christopher Hitchens, que morreu há duas semanas? Escreveu um livro "Deus não é grande – como as religiões envenenam tudo". O gajo descrevia-se como um crente nos valores do iluminismo, e achava que o conceito de Deus ou de um ser supremo é uma crença totalitária que destrói a liberdade individual. Só a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como um meio de ensinar ética e definir a civilização humana. Estou como ele!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Gregório fez uma pausa, e pondo o braço no ombro do amigo retorquiu:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Sabes, Roberto, é mais fácil meter Deus debaixo do tapete que eliminá-lo para sempre. Porque, agnósticos, ateus ou meramente revoltados, todos somos capturados pela ideia de Deus desde que nascemos, e quando achamos que o podemos tratar por tu, já ele nos moldou o ser e o comportamento, desde quando ainda não tínhamos disso noção. Assim, negar Deus é sempre uma atitude reactiva, nunca pró-activa. Não se discute Deus, nega-se ou venera-se, e esse tipo de atitude é sempre irracional, daí que o ateísmo nunca possa ser científico mas apenas uma corrente de negação, uma moda, se quiseres.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Pessoalmente, meu velho, a minha postura é: não acredito em Deus!- e o bosão de Higgs acabará por o “matar”, enquanto chave do universo. Contudo, uma coisa te admito: acredito nos que acreditam. O homem é um ser de crenças. É aliás o único animal que distingue a água da água benta, como alguém um dia escreveu. Muitos dos que buscam respostas para as inseguranças, refugiam-se em algo a que chamam fé, e quando os seus desejos por conjugação de factores inesperados ocorrem, chamam a isso milagres. Acontece o mesmo nas ortodoxias comunistas, com outros santos, altares e sacerdotes. Vê lá a Coreia do Norte!O Freud já explicou isso tudo!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Gregório sorriu, indulgente. Com a torre da Vila a dar as dez, olhou o relógio e apressou-se, combinando com Roberto voltarem a ver-se em breve e deixando no ar um comentário final:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Será negativo acreditar e ter fé? Quando a fé contribuir para acentuar valores como os da liberdade, livre arbítrio e solidariedade, nada a apontar. É certo que em nome de muitas fés se matou e destruiu, em nome de fanatismos a que se chamou fé, e intolerâncias a que se chamou conversão. Há muita floresta para lá de certas árvores, meu velho. Dá um beijo à tua mãe e ao teu filho!. Se calhar ainda os vou ver por aí…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Voltando para a porta da igreja, já composta lá dentro, a missa estava prestes a começar, Fábio, em silêncio, sentava-se numa fila da frente com a avó, terminando o cigarro, Roberto deixou-se estar à entrada, em pé, mirando aquele cenário e cheiro que até aos catorze anos lhe haviam sido familiares. Disparando, a música do órgão anunciava o início da missa, todos em pé saudavam a entrada dos celebrantes. Curioso, Roberto espreitou, a ver se o velho padre Mateus ainda estava na mesma, vindos da sacristia, nenhum dos três vultos se parecia com ele. Aproximou-se um pouco e atrás dumas vestes brancas com sobrepeliz verde e mitra, reconheceu o Gregório. O velho amigo do Hockéy com quem palestrara minutos antes, era afinal o pároco de S.Martinho. Aproximando-se um pouco das filas do meio, sorriu para o antigo companheiro, que, abrindo os braços, dando início da missa, lhe piscou o olho, cúmplice, como quando marcavam golos no velho ringue do Parque da Liberdade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>O Senhor esteja convosco!-</em> saudou, alegre e bem disposto o padre Gregório.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Ele está no meio de nós! </em>-respondeu a assembleia em coro, acompanhada por Roberto, sussurrando, uma missa de quando em quando não faria mal por certo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=Cdazq9i1NMODb6BeCzLJ" rel="noopener"><img style="border: 0px;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0007be15/9814387_y7lYG.jpeg" alt="" width="450" height="256" /></a></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:899772011-12-25T11:20:01O gélido vento do Natal2011-12-25T11:21:06Z2011-12-25T11:36:10Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Arnaldo raramente ia à praia, enfiado naquele sótão da Rinchoa onde escrevia poemas que ninguém lia, tesouro da sua gaveta, confessionário dum ser torpedeado de inseguranças e fantasmas. Existia sem viver. Depois da consulta no hospital, na véspera de Natal, e a notícia de um fim próximo, tabaco fazendo das suas, sentiu a necessidade de estar perto da água salgada, sentir o cheiro límpido do iodo. A consoada passou sozinho, no dia de Natal, pela manhã, aterrou na esplanada deserta da Praia Grande sequioso de whiskies duplos. Ninguém nos ensina a morrer, todos os dias da vida, porém, são intervalos que a morte nos concede, sabia-o agora.<br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um cancro no pulmão intrometia-se, indesejável. No início, a surpresa, a hipótese do engano, a segunda opinião. Depois, o desespero, presença insuportável, lágrimas, mágoa, as dores como companheiras mais chegadas. Estava só, naquela morte de viver, os livros que nunca editaria, tudo comprometido por um corpo frágil e tangível, qual anjo caído, pecador, mergulhado em culpas secretas a quem iam faltando asas para voar. Exaurido do mundo, exaurido de si, talvez finalmente descansasse. Em volta, uma casa amarela expelia o fumo duma lareira que por certo crepitara toda a noite, crianças alegres dormiriam agarradas aos brinquedos que apesar da crise os pais não lhes terão com sacrifício negado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Antevia já a campa inerte onde poucas flores lhe iriam levar, uma lápide burocrática e igual a todas as outras, ninguém para lembrar a obra por editar, só um solitário funcionário do registo civil escrevinhando em guardanapos de papel na mesa da leitaria do bairro, obras-primas da sua gaveta secreta, fumando os três religiosos maços de cigarros diários. Agora acendia mentalmente o cigarro, e fumava em imaginação, comprara até um isqueiro de plástico para se enganar. A quimioterapia fazia das suas, os cabelos caíndo agarrados ao pente, a tosse purulenta, os olhos inchados.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Uma vez mais pegou na caneta e num guardanapo de papel e ensaiou um testamento, <em>requiem</em> dos bens que não tinha, para uma família que há muita perdera. Quando tudo acaba, há a tentação absurda de escrever para imortalidade. Redigiu umas linhas, levantou-se, passeando no areal, deixando um trilho de pegadas na areia molhada. Ignorou o médico, e fumou um dos cigarros assassinos, o mal estava feito, afinal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">À noite, a roupa foi encontrada numa rocha, o corpo nunca apareceu. Um empregado da esplanada, limpando as mesas, deu com um pequeno papel amarrotado dentro de um cinzeiro, curioso, foi ler.”Hoje começa o dia de amanhã”. Refastelada de coscorões e cabrito, uma família passeava pela falésia, respirando o vento frio e purificador do Natal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=N7hCGi4A6BGN89ZetJFs" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0e078cd7/9811961_aztIz.jpeg" alt="" width="500" height="379" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:898152011-12-20T09:20:54A alcofa abandonada2011-12-20T09:33:46Z2011-12-20T09:42:04Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Mais um Natal.Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria e solteirões inveterados, à meia-noite trocaram presentes e comeram bolo-rei, agora sem brinde e sem piada, comentava o Gaspar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Baltasar, 51, era o mais velho, e gerente da loja, muitas alianças de casamento vendidas, nunca a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho de ouro.Com Gaspar iniciaram o negócio há oito anos, chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante, até hoje sem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, depois de um casamento falhado, conheceu os outros dois numa viagem à Turquia, durante um <em>tour</em> de camelo em Ismir e acabou partilhando o negócio e a casa no Banzão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Na véspera de Natal haviam tido algum movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo, à noite em paz jantaram e foram à missa do galo em Colares.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Pela manhã de 25 de Dezembro, coube a Melchior despejar o lixo, tarefa rotativa de acordo com as regras lá de casa, papeis dos embrulhos, a caixa do bolo rei e uns restos dos camarões tigre da ceia de Natal, que bacalhau lá em casa não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria, que por ser feriado não fora trabalhar, eles mesmo acomodavam a sala e cozinha e iriam almoçar mais tarde à Ericeira. Apesar do tempo chuvoso, sempre dava para arejar e desentorpecer as pernas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar junto ao contentor, algum cão buscando sobras de peru, pensou. Curioso, aproximou-se. Uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava encostada mesmo ao lado do contentor e parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado se lhe deparou um bebé, ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã fria do dia de Natal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Olhou em redor ainda atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e a medo, de quem nunca pegou num recém-nascido antes, agasalhou-o com o casaco de lã que vestia e levou-o para casa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Baltasar fazia a barba, enquanto Gaspar dolente fazia zapping com o comando, todos os canais na bênção do Papa, comentou entediado, o passo ofegante de Melchior com um volume nos braços assustou-os.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito!</em> - exibiu Melchior um ensanguentado e roxo nascituro, um rapaz ,segundo vira logo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Baltasar e Gaspar miraram-no atarantados, Baltasar ainda com creme da barba na cara. O pequeno dormitava, inocente, porém já órfão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Tem de se avisar a polícia. Mas esperem, vamos dar-lhe banho </em><em>primeiro </em>-sugeriu Gaspar, logo correndo a buscar um alguidar com água quente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>E comida? Há algum biberão?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço. Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades!</em> -logo destinou Baltazar, improvável baby-sitter sem experiência com crianças.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Com o barulho, o bebé acordou, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareciam vinte horas, foram deitando leite morno nos lábios da criaturinha que logo sugava instintiva, e dizendo aquelas patetices que se dizem aos bebés como se fossem bonecos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Regressado Melchior, dividiram as tarefas daquela original manhã do dia de Natal, e uma hora depois já o rebento dormitava na cama de Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, com o trio embevecido adorando aquela cena que pensavam só acontecer nos filmes. Sócrates, o gato siamês, assistia a tudo espantado, e miava sem saber o que se estava a passar, comida não era.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Entretanto chegou a Maria, apesar do feriado passara a saber se era preciso alguma coisa. Maria, vinte e dois anos, separada de fresco do Zé Luís, entretanto despedido da carpintaria do Ikea, ficou abismada com a história e, maternal, logo ficou a tomar conta do pequeno anjo, nascido não em manjedoura, mas num caixote da câmara de Sintra. Ela própria passara recentemente por um traumatizante aborto involuntário, e agora, ali um bebé, poderia ter sido o seu, salvo numa chuvosa mas radiante manhã de vida no presépio do Banzão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Chegada a autoridade, deslocaram-se todos para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço, ternurentos, o colocaram em cima de uma secretária junto à árvore de Natal da esquadra, ao fundo num televisor um coro alemão cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, por certo, formalidades, mas logo Baltasar e os outros quiseram seguir o caso, se os pais não aparecessem estavam interessados em criá-lo. Gaspar, mais crente, associava o acontecimento a mais que uma coincidência, e logo na data que fora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Reluzindo às cores com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem algum drama pessoal conduzira ao abandono atroz, parecia sorrir na alcofa com todos em volta mirando, silenciosos, mas de coração grande.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar da manhã de Natal, a vida renovava-se e o que por certo seria mais um drama da vida madrasta de famélicos de 2011, prenunciava agora novos começos numa vida sempre a recomeçar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Há-de chamar-se Salvador!</em> -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçando o sorriso de esperança, maternidade reencontrada junto com três tios emprestados para o que desse e viesse.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=qropJeKK5AZ21szewISD" rel="noopener"><img style="border: 0px;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3907a1d7/9758646_tAc36.jpeg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:894542011-11-30T20:35:09A Restauração2011-11-30T20:36:48Z2011-11-30T20:42:25Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O momento era solene na Quinta do Espingardeiro. Sua Alteza Real El-Rei D.Duarte II, novo rei de Portugal, recebia os conjurados que o haviam restaurado na Coroa depois dos extraordinários eventos daquela manhã.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Assinalando-se como de costume a romagem do 1º de Dezembro, grupos monárquicos haviam convocado para esse dia e através do <em>Facebook</em> e SMS uma manifestação contra o regime no Terreiro do Paço em protesto contra a degradação das instituições e do prestígio do país. Bloggers do 31 da Armada, João Braga, Paes do Amaral, Paulo Teixeira Pinto, entre outros, estavam entre os promotores e cedo se juntaram no local onde em 1908 o saudoso rei D.Carlos fora assassinado por cobardes carbonários.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Habitualmente discreta e pouco participativa, desta vez muita juventude marcava presença, descontente com o estado das coisas, afinal os melhores anos de glória nacional foram sob a égide de reis e em novecentos anos oitocentos haviam sido em monarquia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Rápido alguns milhares acorreram em apoio.O fadista João Braga, usando da palavra ,incitava contra os corruptos e vendilhões da Pátria, momento em que um grupo mais determinado apelou a que se restaurasse a monarquia no país. Inflamados e fugindo ao controlo dos poucos policias destacados, marcharam até à fragata Corte-Real, ancorada em Alcântara, onde em dia de folga só o oficial de dia e alguns marinheiros permaneciam. Invadindo a mesmo e aprisionado o pobre tenente de serviço, fuzileiros veteranos à paisana apoderaram-se do navio e do paiol, para gáudio da populaça,com nacionalistas e skinheads à mistura, bem como alguns noctívagos pouco antes vindos duma noite nas docas, conduzindo o amotinado vaso de guerra para Belém, onde via rádio e já frente ao palácio presidencial contactaram o Estado Maior da Armada.Mal este imaginava que vinha aí um 31…</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Enquanto grupos civis cortavam os acessos a Belém e S.Bento e as saídas dos cacilheiros e metro, os do Corte- Real ameaçavam com fogo sobre o Palácio e exigiam a rendição do Presidente da República. Este encontrava-se na residência da R. do Possôlo, ironicamente acabando uma fatia de bolo-rei... O Chefe da Casa Militar tentava parlamentar com os revoltosos, enquanto o presidente era evacuado para a Base Aérea nº1, em Sintra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Entretanto,Paes do Amaral, conde Cantanhede ia-se desdobrando em contactos com a comunicação social, captando apoios e tempos de antena, a CNN ,alertada, tinha já um correspondente no terreno. D.Duarte, que se encontrava tranquilamente a beber um café na Natália, em S.Pedro,pelo telemóvel ia sendo informado do curso dos acontecimentos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O ministro Relvas, informado pelo telefone, ameaçava com a força militar. A Armada ainda tentou accionar o novo submarino, o Tridente, mas este tinha o pessoal ainda em formação e nunca fizera tiro real. Os Comandos, surpreendidos, não tinham operacionais ou artilharia, estava tudo no Kosovo e Afeganistão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Pelas quatro horas, os conjurados com o apoio de forças civis invadiram o Palácio de Belém, apeando a foto de Cavaco Silva e içando a bandeira azul e branca. Uma proclamação ao país circulava já nos SMS e no <em>Facebook</em>. Mais bandeiras azuis e brancas se multiplicavam agora nas ruas da Baixa e no mastro do Castelo de S. Jorge.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Às cinco horas, sem tropas ou apoios e sem derramamento de sangue,caía a III República implantada a 25 de Abril de 1974.As redes sociais estavam entupidas e os telemóveis saturados,o Hino da Carta era o vídeo mais visto no <em>You Tube</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Por essa hora, na casa de Sintra, D.Duarte recebia uma delegação de conjurados que em exaltação patriótica o proclamaram legítimo herdeiro do trono gritando real por el-rei de Portugal. Ainda atónito e rodeado de Isabel Herédia e dos filhos, aceitou o pesado fardo que o povo português, nação de gente boa lhe pedia, e em cortejo trunfal partiu para a Ajuda num UMM blindado, escoltado por motards e campinos a cavalo.O bisavô D.Miguel, derrotado em Évoramonte exultaria por certo lá onde estivesse.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Na sala do trono no Palácio da Ajuda logo as forças armadas prestavam lealdade ao novo monarca, enquanto as chancelarias europeias mandavam felicitações, quase todas monarquias por sinal, os primos da Holanda, Juan Carlos,Alberto II,Beatriz, tudo família.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Dirigindo-se da janela ao povo eufórico que aos milhares ali se juntara e envergando o manto branco que pertencera a D.Carlos, o novo rei prometia democracia e pluralismo ,respeito pela tradição e julgamentos isentos para os derrotados, seria um monarca constitucional e moderno. Frente à multidão inflamada,uma banda no final tocou o Hino da Carta. Os Braganças estavam de volta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Depois, as primeiras medidas: a extinção da Guarda Nacional Republicana substituída pela Guarda Real, a convocação de Cortes, a nomeação dum governo, chefiado por Paulo Teixeira Pinto. A aclamação oficial de D.Duarte II ocorreria na Sé um mês depois, perante o clero, a nobreza, e os parceiros sociais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Ainda nessa noite, o deposto presidente Cavaco Silva partiu para o exílio em Lanzarote, ficando com residência fixa numa vivenda onde outro português já morara. Perturbado, ao embarcar falava sozinho e soltava frases sem sentido, como alimentar o monstro e violar e-mails.O ex-primeiro ministro Passos Coelho, ameaçado com prisão se regressasse, ficou pela Guiné, onde visitava a família da esposa, onde lhe foi oferecido um lugar numa empresa de Ângelo Correia. Nas ruas, o povo exultava, grupos de forcados de Salvaterra e ganadeiros de Alter acorriam a celebrar o novo rei, agora reinstalado e não mais embuçado. Uma corrida à antiga portuguesa celebraria com pompa a entronização, a velha nobreza, os marialvas estavam vingados.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Refreadas as emoções desse dia histórico, havia que retomar a administração da coisa pública. Três dias depois, Conselho de Ministros das Finanças da UE em Bruxelas. O novo ministro, agora rebaptizado da Fazenda, o marquês da Amareleja, muito cumprimentado pelos outros colegas ouvia o plano de resgate para a economia portuguesa: liberalizar os despedimentos, tirar mais 3% suplementar aos vencimentos, privatizar toda a segurança social. Desolado, pedia tempo para o novo regime atacar os problemas e dar a volta à trapalhada herdada dos republicanos, ainda estavam em estado de graça. Sorumbáticos, os colegas negaram, monarquia ou república estavam ali para resolver problemas a sério e não para reinar….</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=9wM0SllF3M1KEqiK5hnt" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be20791ca/9499304_VAPY7.jpeg" alt="" width="348" height="390" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:893062011-11-22T11:21:00Manobras de Outono2011-11-22T11:21:45Z2011-11-22T13:29:49Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Manhã cinzenta e ventosa, alheia, a serra eléctrica empunhada por vulto amarelo e vermelho avançava segura para a execução da sentença: o abate. Culpadas de antiguidade, de folhagens invasivas, de suspeitas alergias, demasiadamente verdes e roubando espaço aos carros, esses novos habitantes, formigueiros e anacrónicos buscando espaço na Vila.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">D.Ermelinda, chegando à janela onde o <em>Tareco</em> já se instalara vendo a agitação, ainda no roupão coçado e rolos no cabelo, apressou-se a aplaudir:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Já não era sem tempo! Estas árvores só fazem é moléstia! Ó sr.Arlindo, ainda a semana passado caiu aqui uma ramagem que me partiu um vaso da varanda!</em>- comentou para o Arlindo do talho, que chegando à porta assistia às manobras, um segundo carro ia recolhendo os galhos logo transformados em serradura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Isto queria era tudo abaixo, menina Ermelinda</em>!- sentenciou o talhante para a velha solteirona. <em>E se fossem todas, não se perdia nada, que o que faz aqui falta é estacionamento! -</em>acrescentou, antevendo já mais dois ou três lugares para os clientes, que assim, mais comodamente encostariam a comprar bifes e enchidos das melhores proveniências.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Um plátano e duas tílias, sentinelas de décadas perfumando a Vila, tombaram em meia hora. Desolada, a rua deixava a descoberto rachas e mazelas no velho casario, que a sombra e porte das malogradas árvores escondiam, a cúpula dos paços do concelho via-se agora nitidamente, enquanto os homens de amarelo e vermelho avançavam para a rua seguinte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Sempre atento, chegou entretanto Pedro Nogueira. Jornalista aposentado, dedicava-se agora a um <em>blogue</em> que criara para denunciar situações destas. Sintra ia soçobrando de ano para ano, sob a ameaça do cutelo, só ele e um punhado mais se interessavam por manter as árvores, no mínimo que se explicassem razões, ouvissem os moradores, uma vez mais os burocratas do machado levavam a melhor.Junto do suposto chefe quis apurar motivos:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Desculpe lá, amigo, quem ordenou o abate destas árvores? Trabalham para quem?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Um gordo com ar boçal e bigode farfalhudo, olhando de soslaio e medindo-o de alto abaixo, escarrando para o lado, despachou o Nogueira com ar de quem não tem de dar explicações:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Isto é ordem da Câmara! Está tudo podre, não vê? Olhe, esta aqui mais uma semana e era capaz de cair em cima do telhado ali!-</em> rosnou, apontando o prédio da Ermelinda, onde o gato, o <em>Tareco, </em>se instalara para assistir às operações- <em>Eu aqui só cumpro ordens, mas por mim iam todas, isto só faz é lixo</em>!- rematou, afastando-se a dar ordens a um brasileiro que do alto da grua ia decepando a tília lentamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Pedro ia tirando fotos, chegariam tarde, mas mostrariam a execução antes do trânsito em julgado da sentença. Chegado o Rodrigo, dum grupo ambientalista, tentou ainda demover do abate. Nada a fazer, era uma empreitada, quando mais rápido melhor, a ver se a Câmara pagava antes do Natal. Com a crise, este trabalhito vinha a calhar, havia que despachar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><em>-Então e é para plantar aqui o quê, agora?-</em> sondou Rodrigo, mandando SMS para vários lados.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>Isso já não é connosco. Por mim, nada. É alcatroar e limpar. Não acha que já há árvores a mais? Não lhe chega a serra, cheia de secos e matagal? Também é desses amigos das florzinhas?</em>- desdenhou o capataz, ordenando a progressão para a árvore seguinte. <em>Queixem-se ao Totta, que eu a mim tanto se me dá!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">A meio da manhã um descampado nu e desolador deixava expostas as portadas em ruínas da casa da Ermelinda. O Fidélio do café ainda sondou um dos homens, tentando levar lenha para casa, secaria no telheiro. Analisando o tronco viril e de decénios, nada denunciava as supostas doenças. Pedro ia recolhendo provas da execução sumária, meneando a cabeça, posto que se ia consumando a purga. Fotos dos troncos mostravam que mais uns anos durariam por certo:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">-<em>É o que dão as obras mal feitas, amigo Pedro!- </em>consolou o Rodrigo, a preparar um comunicado de repúdio da sua organização<em>. Enfiam-se manilhas, cabos, ferem-se as raízes, e depois fica fácil justificar os abates. É este o país que temos!-</em> rematou, colando-se ao telemóvel.<em></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">A chuva engrossava. Com o chá ao lume, a Ermelinda voltou para a cozinha, o Tareco ronronando junto às pernas, o Arlindo voltou para o talho a aviar dois frangos para a D.Lurdes da retrosaria, chegando o meio dia, os da serra partiram para o ritual almoço, ritmado pela sirene dos bombeiros soando ao longe. No dia seguinte, cantoneiros da Câmara replantariam com granito o sítio onde durante anos floresceram árvores, agora só guardadas na sépia dos postais, ou na objectiva revoltada do Pedro. Felizmente para a Ermelinda, não teria de se preocupar mais com o anti-alérgico de sete euros, respiraria agora ar puro e a luz, acolhedora invadiria o saguão para felicidade do <em>Tareco</em>, já velho de sete vidas, Em S.Martinho, as doze badaladas pontuavam o dia, malogradas, as árvores não morreriam de pé.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large; color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=bcuHIHThkMbRLj6oVZkz" rel="noopener"><img style="border: 0px;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0207cfa4/9466867_zyZ7K.jpeg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><em><span style="color: #000080; font-family: book antiqua,palatino;">Foto do blogue Rio das Maçãs</span></em></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:890832011-11-12T21:05:06A noiva2011-11-12T21:06:01Z2011-11-12T21:33:14Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sintra, 1941. Nos baixos da casa na R. da Pendôa, Júlia, ansiosa e a medo, aguardava como diariamente a chegada de Alfredo, empregado na loja de tecidos do Wenceslau e seu almejado noivo. A custo, o pai, Adolfo Saraiva, aceitaria o rapaz, bem parecido e avançado na equipa do Sintrense, mas de famílias humildes, sem cabedal para a sua fortuna, feita em África e na exportação de volfrâmio para a Alemanha. A casa em Sintra, herança do avô Ladislau, era o centro de onde Adolfo dirigia os seus negócios, que um dia Júlia, filha única, herdaria, havia pois que acautelar genro ponderado e à altura. Um doutor em Leis, era o que vinha a calhar para a Julinha, moça frágil e prendada, viciada na leitura. Até o Zé Alfredo do tribunal lhe gabara os dotes para as letras, se o pai deixasse, falaria ao Medina do <em>Jornal de Sintra,</em> para lhe editar os poemas, o Saraiva, contudo, não queria a filha exposta a comentário alheio, e sempre se negou. Dezanove anos completos, noções de francês e bordados, era a altura de lhe dar netos e assegurar os negócios, o filho do dr. Claudino, tenente da Academia, esse sim, era um homem de respeito, leal ao doutor Salazar, uma farda na família adornaria a fortuna feita em África numa aliança natural e abençoada por Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Júlia conhecera Alfredo na loja de tecidos, certo dia que lá fora comprar chita para um vestido. Os olhos verdes de Alfredo e o penteado ondulante e vistoso, levaram-na para casa a suspirar pelo jovem. O pretexto para o ver repetiu as visitas à loja, uma mão quente sobre a sua certo dia deixou escapar rubores, logo um furtivo beijo atrás da cortina das provas. Era ele agora quem fechada a loja corria para a vila, para fugidios acenos por trás da cortina da casa de Júlia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sem nada suspeitar,certo dia Adolfo Saraiva convidou os Claudinos para um jantar, o velho advogado e esposa, e o garboso filho, o tenente Rodolfo, instrutor em Mafra e promissor oficial, partiria em breve para um tirocínio em Berlim. Júlia, afável, recebeu-os, Adolfo criando motivos para os filhos de ambos se aproximarem, na despedida, beijando-lhe a mão, Rodolfo, formal, convidou-a para um passeio na Pena. Júlia anuiu, surpresa, mal suspeitando que o tenente lhe queria fazer a corte. Educadamente, tentou repeli-lo, informado o pai, este insistiu que não negasse, era a oportunidade da vida dela, um marido à altura e boas famílias. Ficou destroçada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sabedor dos planos, Alfredo jurou-lhe que ficariam juntos, nem que tivessem de fugir, tinha tios no Brasil. Passados dois meses, obteve passagens num paquete, fugiriam em segredo numa noite de Fevereiro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">No dia aprazado Alfredo juntou uma trouxa e os bilhetes, e discretamente zarpou para Sintra na bicicleta do irmão. Angustiado, na Volta do Duche, mal reparou num cão que se lhe atravessou, caindo desamparado com a cabeça na laje, teve morte imediata, as duas passagens no paquete saltando do bolso, para ele nem de ida seriam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Foi por Amália, a criada, que soube da notícia, um grito suspeito e estranho para a serviçal, antecedeu uma correria para o quarto, em desespero libertando lágrimas por um futuro perdido e incerto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Nos dias seguintes, para espanto da família, fechou-se no quarto, ao tenente Rodolfo passou a evitar, o doutor Simplício receitava caldos de galinha e sol da praia. Júlia definhava, amordaçada pelo segredo de um amor desfeito, condenada a ver-lhe fugir a felicidade, fechada no quarto frio escutando as badaladas em S.Martinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Os anos passaram. Com o tempo dedicou-se a causas filantrópicas, a morte do velho Adolfo deixou-a respirar, ficara só, mas consigo mesmo, as noites de insónia povoadas pela imagem de Alfredo, o noivo improvável que um destino quis impossível. O tenente Rodolfo casou com uma francesa, por alturas da revolução de 74 e já general foi compulsivamente aposentado, morreu nos anos oitenta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Sintra foi-lhe vendo passar os anos, imutável, petrificada como ela, moira encantada no castelo possível da velha casa na R. da Pendôa. Uma sobrinha tomava conta dela no ocaso da vida, reiterada e secretamente uma flor cobria ritualmente a campa de Alfredo em S.Marçal, breve se lhe juntaria, e aí sim, nenhum poder efémero e castrador os poderia separar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Alice, a sobrinha, igualmente solteirona, suspeitava dum passado encarcerado naquela tia que só aos sessenta conheceu. Júlia lia, pintava da sua janela, captando nostálgica as <em>patines</em> de Sintra, os nevoeiros e brumas, Alfredo dentro delas por certo, na bicicleta. Já passados os oitenta, chamou Alice, indicando-lhe uma gaveta no <em>psyché </em>revelou estarem ali as suas últimas vontades, e num armário que só no dia da sua morte seria aberto, a roupa com que seria amortalhada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Uma madrugada fria de Novembro de 2011, deitada na cama da velha casa de Sintra, sentiu uma bicicleta rolando lenta no lajedo exterior, um assobio familiar não lhe deixou dúvidas, sorriu, e partiu enfim com Alfredo, que sorria, os amarelecidos bilhetes para o paquete na mão. Alice encontrou-a serena e em paz, quando pela manhã a viu inerte e em paz, na cama de toda a vida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Fechou-lhe os olhos, azuis claros, tão belos como dantes. Aberta a carta que a tia lhe entregara com as últimas vontades, continha a chave de uma mala, guardada no quarto do fundo, e um A grande em letra trabalhada com uma caneta de tinta permanente. Em baixo, as palavras “<em>Com estas vestes te receberei</em>”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A misteriosa mala continha um belo e alvo vestido de noiva, a jura de um amor não traído, avaramente negada em vida, de branco e de noiva, e com um <em>bouquet </em>de camélias nas mãos, partiria ao encontro de Alfredo, belo e forte, esperando-a há anos na sua bicicleta, o vestido guardado para essa boda que ninguém contrariaria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=zM32tflVbf5vZctRvK9B" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7a072a73/9420063_vPZRn.jpeg" alt="" width="435" height="378" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:885902011-11-08T06:16:46O lápis de Clementine2011-11-08T06:21:20Z2011-11-08T10:24:35Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Terra de contrastes, pensava Clémentine, num regresso ao país que a viu nascer, agora que definitivamente trocara o sol de Lisboa pelas margens geladas do Lago Leman. Captar Sintra e suas sombras, era o objectivo que <em>maître</em> Calame lhe incutira, Manuel Luíz em Lisboa trabalharia em litográfica harmonia os sombreados e <em>grisés</em> de Sintra. Sentada no muro musgoso no fim das tardes perfumadas, olhava o Jerónimo, que aguardava com o <em>Silvestre</em>, o burro velho que a levaria de volta à Vila cumprida que fosse mais uma ilustração das paisagens, e sorrindo à rusticidade inocente do velho burriqueiro ia captando casas e gentes, montadas e carruagens, que de quando em quando quebravam o silêncio da estrada nova da rainha a caminho da missa em Santa Maria. Rebelde, Clémentine desenhava poesia com o lápis, outonais sonetos em Colares, verdejantes éclogas no vale rasgado do Rio do Porto, líricas estrofes no velho Convento da Penha. Nada em Sintra lhe escapava, em pormenor e grandeza. Naquele Verão de 1840 sabia-se que o novo consorte da rainha comprara o arruinado convento e para aí planeava um palácio de verão, coisa esquisita, agoirava o Jerónimo, para ela, beleza maior estava naqueles penedos escalavrados que conduziam ao céu de onde mar e rio eram capturados em esplendor e com particular comoção. Lá se instalou, três dias, o Jerónimo esperando paciente com o <em>Silvestre</em>, da casa do antigo capitão-mor, nos Pisões, faria também o desenho, malograda mansão antecedendo o negrume da serra. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Está bonito, sim senhor!-</em> comentou o boçal burriqueiro, lançando um olho sobre o desenho em construção. <em>A madame tem jeito para a coisa, não haja dúvidas!</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Clémentine sorriu, plantada em frente ao solar, captando uma colareja a caminho da fonte lançando cristalina e fresca água jorrada da encosta: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>A beleza é um presente do Céu, senhor Jerónimo, cabe-nos aceitá-la e estimá-la!</em>- dizendo isto, novo pormenor a atraiu, uma velha cozinheira tagarelava ao portão com um homem que aparelhava um burro. A Jerónimo impressionava o pormenor do denso arvoredo, captado com o detalhe de galhos e ramos, choupos e plátanos, até um néscio reconheceria as plantas, feteiras, casario, e um ar nostálgico apelando ao silêncio em todos os desenhos dela que já vira. Alguns a madame rasgara, um já amachucado logrou mesmo uma vez guardar para mostrar à Eudóxia quando voltasse para a janta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>O belo é o esplendor da ordem das coisas. Foi Deus quem aqui colocou estas matas, para assim distinguir o óptimo do bom. Nada é por acaso, senhor Jerónimo!</em>- perorou a ilustradora, interrompendo o frenesim dos dedos sobre aquele papel sendo inventado. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Eu para mim, madame, já me contento com a apanha das uvas e a sementeira. Há lá coisa mais bela que uma cepa podada ou uma alface a desabrochar?</em>- divagando com as mãos, Jerónimo matutava antes na faina da horta, verde sim, mas com proveito, a ele muito daquele matagal desbastaria, dos plátanos ouvira dizer ao doutor Simplício que só traziam moléstia. Cleméntine não contrariou, mundos diferentes se colocavam afinal, como lhe confidenciara <em>maître</em> Calame, só é realmente belo o que não serve para nada, tudo quanto é útil é feio, arengara-lhe em Geneve o velho pintor. Os dias em Sintra passavam em serena perfeição. Ao conde da Póvoa pediu para a partir do jardim da casa fazer os traços da serra, recortada pelas chaminés do paço e com o castelo mouro baluarte. O Conde, ainda jovem, anuiu, postando-se o tempo que a função levou ao lado da jovem e prendada artista, para discreta mangação de Jerónimo, olhando cúmplice para o <em>Silvestre</em>, já depois de executados os esboços, passou a aparecer-lhe, supostamente por acaso, nos recantos onde nesses dias se deteve a captar as vistas magistrais, nos Castanhais chegando a inventar um passeio para colher míscaros para uma experiência. Jerónimo, que desde que começaram as “aparições “do conde passou a adoptar postura de escudeiro, guardando a jovem como se sua fosse, acompanhava a obra, com algum à vontade comentou certos desenhos já terminados:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>A madame perdoe-me a ousadia, mas porque é que as pessoas têm todas as caras sumidas? Coitadas de Deus, tanto trabalho e nem se sabe quem são. Ali o Matias no cruzeiro já me veio perguntar desconfiado para que eram estes desenhos todos! Fala-se em mau olhado, sabe, o povo é desconfiado…</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Clémentine pousou o lápis, e, condescendendo, comentou com o velho burriqueiro, com um ar misterioso:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Quando se pinta, não se deve pintar tudo. Convém deixar alguma coisa para a imaginação completar…</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">A última gravura foi na Fontaine des Amours, idílica ponte onde entendeu captar duas jovens, suspirando por certo, o cheiro dos medronheiros inebriando os sentidos e acelerando o dedilhar nervoso e belo. Três semanas haviam passado, o verão de Sintra despedia-se, denunciando algum afecto, o Jerónimo sentia já saudades da sua madame e dos seus gatafunhos. Montada no <em>Silvestre</em>, a levou à carruagem que a levaria a Lisboa, outro asno levaria os baús e os desenhos, enrolados com uma fita vermelha. Para sua surpresa- ou talvez não- na penumbra da carruagem e devidamente agasalhado, também o conde da Póvoa seguia nessa viagem, atrás de outros esboços em outras fontes dos amores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=2ZzZUsSHVAnZtVRAdPcB" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bae07c054/9398225_Thk7E.jpeg" alt="" width="286" height="449" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:883462011-11-01T08:57:26A hora do terramoto2011-11-01T08:58:35Z2016-11-01T06:08:34Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=FvNL08OeH5KRMLP8b8NK" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4a076bde/9364676_JZI5E.jpeg" alt="" width="412" height="305" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Amanhecia o dia 1 de Novembro e a Igreja celebrava a festa de Todos os Santos. Sábado sereno, sol claro e céu nimbado, findava o ano de 1755 e reinava tranquilo D. José. Cadenciados, os fiéis afluíam à missa das nove em S. Martinho, celebraria D. Raimundo Miranda Henriques. O juiz dos órfãos, o vigário da vara, o capitão-mor e todas as famílias de Sintra, enchiam a nave em dia grande no calendário litúrgico. Chamativo, na Torre da Vila, o sino repicava. Francisca Aires, a filha, Tomásia, e Maria Lemos, viúva de Teodósio Santos, mesário da Santa Casa, foram as primeiras a chegar, vestidas a condizer com a solenidade, recordando os que já estavam no descanso do Senhor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-Que dia bonito! Nem parece Novembro!</em> -comentou Tomásia para a mãe, dezassete anos incompletos e cabelo cor de azeitona.</span></p>
<p><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-É o Verão de S. Martinho, minha filha!</em> –lembrou a mãe, mantilha preta cobrindo os cabelos, também o marido se finara já.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Raimundo, há vinte anos pároco de Sintra, nomeado pelo cardeal D. José, uma vez mais cumpria o ritual dos sagrados mortos, o negro, farda da dor, por longos meses lembraria os que haviam partido para junto de Deus, só a esperança na redenção ajudava a aliviar a perda. Em todas as casas havia um falecido a lembrar, uma novena para rezar, sepulturas para cuidar, vivos e mortos no temor a Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-O Senhor esteja convosco!</em> –ia cumprimentando, à porta da igreja, fazendo o sinal da cruz, a muitos casara e baptizara os filhos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Todos acomodados, deu-se início à missa, num latim imperceptível. Penitentes ajoelhados prometiam arrependimento, mea culpa, o esconjuro dos pecados. Pouco depois das nove e meia, num trepidar contínuo e incontrolável, a terra começou a tremer. Perorava D. Raimundo a homilia, quando se deu um abalo forte e tombou o tecto, logo sucumbindo vinte e sete fiéis debaixo da nave central. Atingido por uma viga do altar-mor, D. Raimundo tombou com o peito trespassado, sendo o altar consumido pelas velas. Os que puderam, fugiram, gritando, só parte da abside se aguentou. Ao segundo minuto, os edifícios começaram a cair, arruinados, e um cenário apocalíptico e de fumo denso cobriu toda a vila. A igreja da Misericórdia ficou em escombros, a ermida de S. Sebastião em ruínas, na Alpendrada, colarejas em pânico rezavam, lancinante, um cão uivava no pelourinho. Caída na igreja, Francisca Aires sangrava, um lenho pontiagudo quase lhe decepara a cabeça, a seu lado Tomásia jazia morta, com o missal na mão e um santo em cacos junto ao peito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Duraram os abalos seis para sete minutos, interrompidos por breves intervalos. Em todo este tempo um estrondo subterrâneo, qual trovão, soou ao longe. Escureceu-se o sol e exalações sulfúreas empestaram o ar. Por todo o lado se abriram fendas na terra, qual Inferno abocanhando a Terra, para que Belzebu a todos levasse para o mundo das trevas. Na igreja, dois criados de Maria Aires lograram encontrá-la viva, descomposta a levaram para a casa no Arraçário, ou o que dela sobrara: animais mortos, pipas de vinho vertendo, viva entre mortos e morta para a vida. Ao longe, o mar encapelado galgava as arribas, desmoronando-as como grãos de areia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Muitos outros, em casa e nas ruas foram vítimas da gadanha mortal num inesperado armagedeão, gritos e clamores sucederam-se, num carpir lancinante e impotente. Ninguém cuidava senão de se salvar e pedir a salvação da alma. Trinta e seis mortos se contaram na Vila, emboscados nas missas de finados, o fogo propagou-se à R. da Pendôa, cinzas e fumo toldaram o Paço, de onde a guarnição desertou, deixando os cavalos mortos no estábulo. Em menos de uma hora, terra e mar uniam-se contra os indefesos mortais, sem o adivinhar, as missas de finados viravam de corpo presente, no imenso cemitério em que a Vila se tornou. Era o verão de S. Martinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/6mXRAfCE7ck" width="420" height="315" frameborder="0"></iframe></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:881902011-10-31T12:26:18"Pão por Deus!"2011-10-31T12:27:27Z2016-11-01T06:09:12Z<p><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em> </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Emília fora despedida, com o marido entrevado depois duma queda da grua e um filho autista, não se podia dizer que a vida lhe sorrisse. Ainda jovem, depositara esperanças em ser professora, desiludida, terminara numa fábrica, fazendo um trabalho rotineiro e mal pago. A fábrica faliu, deixando salários por pagar e contas a acumular. Moravam em Lourel, aziaga terra entre dois cemitérios, como costumava dizer em momentos de depressão. Ainda se lhe saísse o Euromilhões! Jogava todas as semanas, mas a sorte nunca lhe sorrira.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Naquela sexta-feira, jogou os seis euros do costume no café do Baptista e seguiu para casa. No dia seguinte ao sorteio buscou no jornal a chave premiada, geralmente origem de nova decepção, mas ao procurar pelo registo, não o encontrou. Cartões, facturas para pagar, o passe, nada! Deixá-lo, não iria sair, de qualquer forma. Lembrou-se que tinha apostado em números seguidos, 6-7-8-9-10, e nas estrelas, no 4 e no 5. Conferindo a chave, os números premiados eram 6-7-8-9-10 e as estrelas o 4 e o 5, a televisão anunciava haver apenas dois premiados, um em Portugal, outro na Bélgica, cinco milhões para cada um.Emília quase teve um enfarte! Eram os seus números! Voltou a casa, e esvaziou a mala, a carteira, as gavetas, até o contentor do lixo. A sorte passara à porta e jamais veria o dinheiro que mudaria a sua vida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">No dia seguinte, Dia de Todos os Santos, como manda a tradição,rebanhos de miúdos ruidosos de saco de pano na mão, correram as casas pedindo Pão por Deus, na busca da romã, língua-de-gato ou chocolate que os vizinhos oferecessem, como acontecia de geração em geração. De porta em porta, os mais velhos guiavam os mais pequenos, tocando as campainhas e repetindo a cantilena que abriria as portas naquela espécie de Natal antecipado. <em>Pão por Deus! Pão por Deus!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Filipe, com o Joãozinho pela mão foi também, a mãe deixara, na condição de não irem para longe e estarem em casa ao meio-dia. Com o saco quase cheio, bateram à porta da Emília, mais três casas e terminariam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"> <em>-Pão por Deus! –</em>iam gritando, com os os cães a ladrar à passagem daquela desusada procissão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Ainda em choque com a história do Euromilhões, Emília queria sossego, e muito menos estava com paciência para miúdos:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-O que é que querem daqui? Julgam que isto é a Mitra? Tomara eu ter para mim, quanto mais para vocês estragarem. Os vossos pais que vos aturem! –</em>reclamou, mal-humorada. <em>E se não se vão já daqui embora, largo-vos o cão, vão ver!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">-<em>Pronto, minha senhora, vamos já embora!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">À saída do quintal, Joãozinho deu com os olhos num papel branco caído atrás dum vaso. Na inocência dos seus oito anos, não percebeu o que era, e chamou a Emília, que estava ainda à porta, esperando que fechassem o portão do quintal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-Oh minha senhora. Quer que lhe ponha este papel no lixo?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-Qual papel? Ainda aí estão? </em><em>Com um raio, nunca mais se vão embora! –</em>arengou, impaciente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><em>-Isto! -</em>e correu a entregar-lhe o papel achado junto ao vaso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Milagre de todos os santos! Era a premiada chave do Euromilhões, os cinco milhões da felicidade. De olhos esbugalhados, Emília soltou um grito emocionado:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">-<em>Virgem Santíssima! Ai meu Deus, que me dá um enfarte! Alberto! Alberto!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Joãozinho não entendeu a algazarra, a mulher não só não lhes dera nada, como era maluca, pensou<em>, </em>e afastou-se para ira ter com o irmão, a volta do Pão por Deus estava quase completa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Junto à porta, Emília abraçou o marido, tanto ria como chorava, num chorrilho de emoções incontroladas. Vendo que o pequeno sumia na esquina, correu no seu encalço:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">-<em>Ó filho, vem cá, não te vás embora! </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Deu-lhe dois beijos lambuzados e correu à cozinha, donde três pacotes de bolachas e um Toblerone voaram para o saco, repentinamente pequeno<em>-E para a semana vem cá ter comigo sem falta, ouviste? Já tens Playstation?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000080; font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;">Maria Emília mora agora numa vivenda em Colares, com um jardim tratado pelo senhor Isidro. O marido montou um negócio, foram de férias às Canárias e o pequeno Tiago anda agora numa escola de educação especial. O resto do dinheiro, é para assegurar o futuro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia,palatino; font-size: 18pt;"><span style="color: #000080;">Um pequeno papel branco pode mudar o papel de muitas vidas. Para o ano, e por alguns anos ainda, lá estará o pequeno João com o seu saco de pano, patrulhando as casas daqueles pais natais sem barba branca, enchendo o saco de línguas-de-gato e rebuçados coloridos, proferida que seja a palavra mágica: </span><em><span style="color: #000080;">Pão por Deus! </span> </em></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:cafecomadocante:876892011-10-29T16:43:57Halloween2011-10-29T15:49:39Z2011-10-29T20:28:57Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/cafecomadocante/fotos/?uid=M5q5VVz4zEKH7iIEnHI1" rel="noopener"><img style="border: 0pt none;" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4a075749/9351558_tnZoi.jpeg" alt="" width="402" height="351" /></a><br /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Fim do verão prolongado em Sintra, e tempo dum já esperado inverno, finalmente a natureza retomava rotinas e cheiros de finais de Outubro. Para a velha Gracinda, <em>médium</em> de Galamares e por muitos levada a sério em conselhos e mezinhas, os espíritos dos mortos do ano voltariam nessa altura, predadores dos vivos para neles viver no ano seguinte, dissera-o à Virgínia, durante uma sessão espírita onde por mil euros a pusera a “falar” com o defunto Inácio. Zombando mas ainda assim cautelosos, os homens temiam sempre esses dias de Outubro, refugiando-se na água pé e castanhas, bem mais espirituosos que os propalados espíritos agoirados pela velha, perita em pragas, em tempos providencial parteira da aldeia. Chegava o Dia de Todos os Santos e o dia de fiéis defuntos, os velhos rumariam aos cemitérios, os mais novos, retomando a tradição pediriam pão por Deus no renovado e ruidoso ritual anual.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Na noite de 31 de Outubro, agora também recente e celebrado <em>Halloween</em>, Hugo e Jaime montaram-se na motorizada a caminho duma festa na garagem da Vera, em Cabriz, combinada com os amigos do liceu. Vestidos a preceito, de vampiro, abóboras com velas adornavam-lhes o muro da casa, antevia-se uma noite de copos, fria mas aquecida pelo álcool e algum “bruxedo” mais noite dentro, depois de providenciais dentadinhas no pescoço. Estava frio e sem vivalma, animados, tomaram o caminho do Torrado, nessa noite silencioso e perturbador. Apenas alguns <em>rotweilers</em> ladravam, à passagem, sentado atrás de Hugo, Jaime com uma capa preta acossava ainda mais os cães inquietos, segurando as garrafas do vodka com que a festa enfim animaria. Junto ao moinho em ruínas, a <em>scooter</em> em segunda mão acusou o peso em excesso e qual burro velho “pifou”, ainda metade do caminho não estava percorrido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Bolas, é preciso azar, meu, esta treta não quer andar mais!- </em>rosnou Hugo, os olhos pintados de negro, mais parecia um Zorro de segunda classe, montado numa pileca cansada <em>- acho que por hoje não vai dar mais! -</em> conformou-se, dando um pontapé na roda da velha motorizada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Fogo, meu, ganda cena! Vamos a pé, daqui lá é pouco mais de meia hora! Amanhã a ver se o Leonel vê o que se passa! Bora!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Encetado o caminho a pé, ainda mandaram um SMS a avisar do atraso, nenhum dos amigos estava de carro que os pudesse apanhar. À passagem pela casa ao abandono do velho Vicente, um cão preto, rafeiro, saiu-lhes ao caminho. Manso, escanzelado, ali ficara desde a morte do velho amolador três meses antes, vadiando e ladrando aos rapazes, conhecidos de longa data:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Tejo, anda cá!-</em> gritou o Jaime- <em>vai para dentro, meu, andas às cadelas? Vai, vai!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O cachorro, sem dono agora, ainda os acompanhou uns metros. Em noite sem estrelas e falhado o candeeiro já perto da Várzea, um repentino breu envolveu-os, entre a folhagem densa e as árvores frondosas que antecediam a povoação. Ao longe, uma luz na casa da velha Gracinda, subitamente apagada, a velha recolhia-se por certo, no meio das suas velas e mesas pé de galo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Um pouco mais à frente, uma voz roufenha cantava um velho fado de Marceneiro. Era o Seca Adegas, bêbedo como sempre, a pé para casa. Um vulto indistinto seguia-o a poucos metros, cambaleante mas em silêncio, à primeira não vislumbraram quem fosse, algum companheiro de copos, Seca, borracho como todos os dias, pronto a recomeçar no café do Sérgio na manhã seguinte. Ruborizado, cantava, com voz de cana rachada, à vista dos dois jovens mascarados, ensaiou um ar de surpresa e empunhou a garrafa de tinto como se fosse uma espada em riste:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Quem são vocês os quatro, homens de Deus? Se é para roubar vêm enganados, daqui não levam nada!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Pôe-te lá manso, ó Seca, somos nós não nos reconheces?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">O velho ébrio cerrou os olhos e agarrou os dois pelo ombro, mudando de atitude, o bafo a aguardente quase contagiante:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Oi, rapaziada! Então onde é o Carnaval? Não pagam um copo aqui ao vosso amigo? Estou com uma sede danada, quase não bebi nada hoje…</em>- arrastou a voz, completamente borracho</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Vai-te mas é deitar, meu!-</em> afastando o braço do seu ombro, Jaime procurava libertar-se do bafo e do cheiro a bosta, não deveria tomar banho há semanas- <em>então e esse aí quem é?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Esse quem?-</em> questionou meio zonzo o velho funileiro- <em>não está aqui ninguém, só vocês!...-</em> arengou</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Aquele ali, com um casaco pre…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Antes que terminasse a conversa, um objecto contundente tombou brutalmente sobre a cabeça de Jaime, decepando-a do corpo, deixando o resto do corpo a cair desgovernado, o fato de vampiro jorrando sangue na estrada de macadame. Hugo ficou gélido, Boris Karloff de ocasião disfarçado para o <em>Halloween</em>. Sem que o Seca Adegas reagisse, o vulto chegou-se à frente, para zona iluminada, boquiaberto, Hugo reconheceu o rosto desfigurado do Vicente, lívido, e coberto de terra, segurando um machado de cortar lenha. Atónito, esfregou os olhos, o Vicente morrera três meses antes, como podia estar ali.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Olhando quer o vulto do Vicente quer o alheado Seca Adegas, viu chegar ladrando contente o <em>Tejo</em>, a roçar-se no regressado dono. Sem dizer nada, desatou a fugir, a capa de vampiro ondulando, embrenhando-se no mato e deixando o corpo inerte do amigo na viela sem luz.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Ao passar pela casa da velha Gracinda, esta estava à porta, segurando um candeeiro a petróleo, como se já esperasse por ele. Com um riso aberto e sórdido, apontou-o com a mão enrugada e carcomida e sentenciou:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Acreditas agora no regresso dos mortos? O Vicente veio buscar a sua presa. Para o ano, será o Jaime quem virá buscar a sua!</em> E como quem lança uma praga rematou ameaçadora:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Assim é, na Noite das Bruxas. Hoje e na noite dos tempos!-</em> e voltando para dentro apagou a luz, desaparecendo na escuridão da casa isolada no Torrado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Em Cabriz, os amigos do liceu já eufóricos com a vodka preta e à luz de velas, faziam a festa, divertidos. Vera estranhou a demora dos amigos, e comentou com Pedro, escondido atrás dum disfarce de <em>Scream</em>:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;"><em>-Onde estarão aqueles dois? Já tinham tempo de cá estar, meu!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">-<em>Não te preocupes, já devem estar com uma de caixão à cova…</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: x-large; color: #000080;">Lá fora, a serra vigiava perturbadora e a noite silenciosa escondia mais um crime de 31 de Outubro. Alheio e brincalhão, o <em>Tejo</em> ladrava às cadelas no caminho do Torrado…</span></p>
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